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Hoje, no Explicador das manhãs 360, nosso convidado, o investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, que é também autor de vários livros sobre a direita e a extrema-direita em Portugal, Ricardo Marchi. Bom dia, muito obrigada por se juntar a nós.
Bom dia, obrigado eu pelo convite.
Ricardo Marchi, os acontecimentos desta semana, como as ameaças a deputadas e ativistas, e também a parada junto à sede da SOS Racismo, mostram uma realidade diferente da extrema-direita em Portugal?
Na verdade, aquilo que aconteceu com a manifestação à frente da SOS Racismo confirma um pouco a situação da extrema-direita em Portugal. Não me parece que haja um crescimento do ativismo da extrema-direita, pelo menos do ativismo de rua dos grupos da área nacionalista tradicional. É bastante comum que esses grupos façam algumas manifestações por ano, quatro, cinco, seis, não mais. E também pelas modalidades de mobilização, parece-me que essa manifestação enquadra-se no modus operandi desses grupos. Eu vi na comunicação social em Portugal que a atuação desse grupo foi comparada ao Ku Klux Klan. Queria especificar que esse gênero de atuação tem mais a ver com a forma de mobilização dos movimentos identitários europeus. O movimento identitário é uma rede de organizações que começou a mobilizar-se desde o princípio do século XXI. É muito comum essas organizações fazerem essas manifestações com cara tapada, com máscaras e com tochas. As máscaras às vezes são brancas, às vezes reproduzem as cores nacionais, mas é a clássica mobilização de grupos como o Bloco Identitário em França ou Casa Pound na Itália. Portanto, isso que aconteceu à frente da sede da SOS Racismo entra dentro da mobilização clássica desses grupos nacionalistas tradicionais.
Ricardo Marchi, para nós, em Portugal, a novidade está, de fato, na chegada desse tipo de manifestações com esse tipo de coreografia a Portugal. De fato, olhando para o passado, será inédito este tipo de manifestação. No caso concreto em Portugal, o que estamos a assistir? Há um descaramento, uma ousadia, digamos, por parte destes movimentos que não havia até aqui, que lhes permite, de fato, que acham que está no momento de ir pra rua com esse tipo de ameaças e de manifestações?
Vamos ver. Para responder à sua pergunta, eu não diria que é uma novidade em Portugal. Nos últimos anos, os grupos que existem, que são ativos na área nacionalista, reproduzem muito a militância dos grupos congêneres europeus. Nós já vimos, por exemplo, nas manifestações de protesto contra o movimento de imigrantes em Portugal, grupos, por exemplo, da Associação Portugueses Primeiro, abriram uma tarja de protesto durante a manifestação dos imigrantes. Isto é a replicação daquilo que o Bloco Identitário em França fazia para protestar contra a construção de mesquitas. Portanto, são reproduções que acontecem nos últimos anos bastante frequentemente em Portugal, retiradas da maneira de mobilização estrangeira. Não me parece que haja uma maior liberdade de ação por parte desses grupos, aqui eu não estou a ver um crescimento desse gênero de militância nos últimos anos. Estou a ver um continuum, na última década, pelo menos, de ações deste grupo. Diga-se de passagem, que neste momento, nós estamos a viver um momento de crise da área nacionalista tradicional portuguesa. Os grupos que estão presentes há uma década no terreno, nomeadamente o Escudo Identitário, a Associação Portugueses Primeiro, a Nova Ordem Social, o Partido Nacional Renovedor, estão num momento de crise. Muitos deles fecharam portas, como a Nova Ordem Social, por exemplo. O Escudo Identitário tem uma baixa de militância após ter tido uma primeira fase de crescimento. A Associação Portugueses Primeiro também está bastante imóvel nos últimos anos. Isso é muito determinado também pelo aparecimento à direita do espectro político do partido Chega, que veio reconfigurar toda a área da direita à direita do CDS. Portanto, estamos num momento-- sim, diga.
Perguntava-lhe se essas organizações têm também nascido do fato de outros partidos estarem a perder força, como por exemplo, o PNR. Se têm aqui aproveitado esse espaço para crescer.
Não. Essas organizações não nascem da crise do PNR. Essa organização, em particular, a Resistência Nacional, eu creio que surja do fim da Nova Ordem Social, ou seja, o Mário Machado, alguns meses atrás, oficialmente fechou as portas da organização, disse que já não valia a pena continuar com a Nova Ordem Social e dentro da militância reduzida à Nova Ordem Social, houve uma parte de militantes que não aceitou esse fechar de portas e, portanto, reorganizou-se numa nova organização, possivelmente essa Resistência Nacional vem desse descontentamento dentro da organização do Mário Machado. Portanto, é quase uma cisão de uma cisão, mas não tem a ver com a crise do PNR. Toda a área do nacionalismo radical está em crise nos últimos anos.
Ricardo Machin, no entanto, o que assistimos em Portugal é que este discurso, estes ideais identitários, estão a entrar cada vez com mais facilidade naquilo que é o mainstream político e no espaço público e mediático, como é este momento que estamos aqui a ter. Que brecha se abriu, o que aconteceu para que esta mensagem tenha tido este impacto?
Sim, esta é uma dinâmica bastante comum para quem estuda movimentos sociais. Nos últimos anos, em Portugal, apareceu o movimento negro, movimento dos afrodescendentes, que reivindica, por meio de um movimento social, direitos para as minorias afrodescendentes e para minorias étnicas em geral, e reivindica e tenta levar à frente temas que até agora eram marginalizados na agenda política dos grandes partidos mainstream. Quando se dá um movimento social desta dimensão, é bastante comum que surjam contra-movimentos sociais, porque, no fundo, o diálogo, o debate entre movimentos sociais e contra-movimentos sociais é uma disputa para a conquista da construção de significados na sociedade. O que quero dizer com isso? Quero dizer que o movimento negro, movimento dos afrodescendentes, está a reivindicar temas que não eram tratados, ou seja, a ideia de que Portugal seja um país também em que é possível encontrar o racismo estrutural, o racismo institucional, uma reivindicação de uma revisitação da história portuguesa, pelo menos assim como é escrita nos manuais portugueses, portanto, um olhar crítico da identidade nacional construída pelas instituições. E, naturalmente, isso gera um contra-movimento. Ou seja, há gente que quer reivindicar um outro gênero de significados na sociedade, neste caso, de defender aquilo que é a identidade tradicional, defender a ideia de que Portugal não é um país estruturalmente racista ou institucionalmente racista. Portanto, nas dinâmicas dos movimentos sociais, isso é natural. A janela de oportunidade para o discurso também, por exemplo, do partido Chega, neste caso, abriu-se em resposta a esse movimento social. São dinâmicas naturais na mobilização social.
Ricardo Machin, mas quando há um movimento que ameaça concretamente três deputados, está a querer provocar o medo ou está a querer ter impacto na sociedade?
Não, atenção. Aqui estamos a falar de duas dinâmicas totalmente diferentes. Eu estava a falar de um debate natural, da dinâmica natural entre movimentos sociais e contra-movimentos sociais. Agora, esse episódio específico dos e-mails enviados, de ameaças enviadas às deputadas, aqui estamos a falar de um crime. Portanto, dentro da mobilização social há sempre pequenas franjas que utilizam métodos ilegais. A violência, a ameaça, até pode chegar à violência física ou terrorismo, por exemplo, mas esses são casos de justiça, são casos criminais que os países ocidentais têm capacidade de tratar e tratam. No caso da extrema-direita portuguesa, por exemplo, nós vemos que a Polícia Judiciária, o Ministério Público, já atuou ao longo das décadas contra essas organizações, conseguindo até desarticulá-las. O movimento skinhead, por exemplo, foi objeto constante de repressão por parte das instituições, repressão policial e repressão judicial. Neste momento, aliás, há em curso um processo judicial contra a Portugues Anders Skin, que abriu em 2016, um procedimento que abriu em 2016 por casos de violência factiva. Portanto, as instituições, desse ponto de vista, estão a funcionar. Mas estamos a falar de duas dimensões diferentes. Uma coisa é a mobilização social, uma coisa são atos criminais dentro, eventualmente, na margem da mobilização.
Certo, e deixando muito clara, de facto, essa fronteira. Mas pode-se daí tirar que o facto de aparecerem estas atitudes, que são criminais, significa que essa contestação aos tais movimentos sociais, que o Ricardo Machin falou há pouco, é cada vez mais extremada, isto é, a sociedade está cada vez mais extremada nesse polo?
De certeza, com o surgimento do movimento social e do contra-movimento social, há uma polarização do discurso político sobre esses temas. Agora, nesse episódio específico dos e-mails de ameaças, eu não tenho dados para dizer que houve um incremento da ilegalidade ligada aos extremismos políticos. Ou seja, as ameaças a deputados, a militantes de movimentos antifascistas ou antirracistas, são uma constante na vida política portuguesa dos últimos anos. Eu creio que se vocês vão entrevistar dirigentes do SOS Racismo ou dirigentes dos movimentos antifascistas, dirão que têm um longo historial de ameaças recebidas, assim como se vocês vão entrevistar pessoas dos grupos nacionalistas tradicionais de extrema-direita, lhe dirão que há um historial de denúncias, de fichar os militantes nacionalistas, de denunciá-los nas redes sociais e de fichá-los de ameaças. Ou seja, estamos a assistir, sim, a uma polarização do discurso político, da confrontação política, por um lado. Por outro lado, em termos de ilegalidades ligadas a essa polarização, não tenho dados para dizer que há um incremento disso.
Mas é possível ter uma expressão de quantas organizações dessas existem em Portugal? É possível fazer esse trabalho?
Neste momento, que eu saiba, temos ativo o Escudo Identitário. O movimento Skinhead está congelado, mas ainda existe. Existe a Resistência Nacional, a Nova Ordem Social já parou. Estamos falando de cinco ou seis grupos.
E esta Nova Ordem de Avis?
Esta Nova Ordem de Avis eu francamente nunca tinha ouvido. Está muito ligada a esse e-mail de ameaças. Não sabendo qual é a origem desse e-mail, ou partimos do pressuposto que o e-mail, de fato, foi enviado pela Resistência Nacional, mas não faria muito sentido, porque eles fazem uma manifestação que reivindicam e, ao mesmo tempo, ameaçam, ou seja, fazem uma ação criminal, reivindicando também com o mesmo nome. Mas eu francamente nunca tinha ouvido essa Nova Ordem de Avis. A Resistência Nacional, sim, já tinha ouvido. É uma organização que nasceu há um mês, é muito recente, nasceu no princípio de julho. Portanto, é uma organização muito recente, mas a Nova Ordem de Avis nunca tinha ouvido.
Mas a sensação que havia no país era que Portugal era imune a estes movimentos mais radicais e à forma mais aberta de se expressarem. Isso está a mudar, acompanha uma tendência de outros países europeus?
Não, eu francamente não diria que Portugal era imune. Esses pequenos grupos, esses pequenos movimentos nacionalistas existem desde sempre. Ao longo da democracia portuguesa, sempre existiram esses grupos que nunca foram para além de cinco ou seis organizações que atuavam no mesmo momento. Organizações que tinham uma vida muito curta, muito minada por diatribes internas, portanto, por cisões e recomposições dos grupos, mas não é uma novidade aquilo que nós estamos a viver em Portugal. Neste momento, a única novidade que nós estamos a viver em Portugal é o aparecimento desse partido populista de direita, que é o Chega. Isso sim, é uma novidade no panorama da direita radical portuguesa. Mas em termos de pequenas organizações de militantes, não há nenhuma novidade. Sempre existiram e sempre foram caracterizadas por uma dinâmica muito menor em comparação a outros países europeus, a França e a Itália, por exemplo. Portanto, eu não vejo nenhuma novidade desse ponto de vista.
O investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, Ricardo Marquini, o explicador de hoje. Muito obrigada pelos seus esclarecimentos e por ter estado conosco nas manhãs 360.
Obrigado eu.
Um bom dia. Muito obrigada. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto