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Explicador do Observador, temos agora a oportunidade de falar com Rita Matias, a candidata do Chega a Sintra.

Bem-vinda, Rita Matias. O resultado de ontem à noite ficou muito aquém daquilo que esperava.

Antes de mais, muito boa tarde. Obrigada pela oportunidade de estar aqui convosco nesta tarde. Dizer que não fica tão aquém do que se esperava, conforme têm pintado em todas as televisões e todos os comentariados ao longo do dia de hoje. Se o Chega queria mais? Claro que sim. Somos um partido que ambicionamos vencer sempre o máximo possível e somos um partido que vem numa lógica crescente de eleições legislativas atrás de eleições legislativas. Lembrar que há cinco anos tínhamos um deputado na Assembleia da República, mas o termo de comparação tem que ser o termo de comparação autárquico, porque era a isto que nos candidatávamos.

Mas houve ao longo da campanha, também é normal que assim aconteça nas campanhas eleitorais, o Chega e nomeadamente André Ventura, foi elevando um pouco a fasquia para o resultado nestas autárquicas. Três câmaras a nível nacional quer dizer que algo não correu bem aqui. É sempre um pouco perigoso fazer essas comparações, mas estamos a falar de 12% de votos a nível nacional, o que fica muito aquém daquilo que foi conseguido nas legislativas.

Quando elevamos a fasquia do ponto de vista do discurso político, é uma estratégia, naturalmente, de ânimo, de entusiasmo, de mobilização do eleitorado, reconhecendo que em toda a Europa, todos os partidos de direita radical ou popular, como quiserem chamar, e acho que estas são as categorias mais simpáticas que poderão dar ao Chega e também mais factuais de acordo com a ciência política, são partidos que crescem do topo para as bases e não o seu contrário. Seria estranho o Chega, de repente, ser um outlier completo e ter um resultado completamente diferente. E por isso que nós temos que incentivar um eleitorado que é tendencialmente abstencionista e de eleição legislativa em eleição legislativa, nós percebemos que os eleitores que o Chega atrai, são eleitores que estão descontentes com o sistema político, desinteressados e que no momento em que se decide o futuro do país, voltam às urnas.

Mas não acha que aqui as figuras contam? Porque realmente o Chega teve um ótimo resultado nas legislativas e aqui parece que não faltou um pedacinho assim, faltou bastante em muitas autarquias.

Não sei se faltou bastante. Na verdade é que nós partimos de 19 vereadores e de 400 eleitos para de repente quase 2000 eleitos, sendo que concorríamos em desvantagem na grande parte dos municípios. Por quê? Porque todos os outros partidos já tinham expressão autárquica, já tinham câmaras municipais, já tinham vereações. As nossas eram pouquíssimas, como acabei de referir, e isso quer do ponto de vista da estrutura, quer do ponto de vista da organização local, permite que os partidos se desenvolvam com bases que o Chega ainda não tinha. Eu não sei se se recordam, mas na candidatura anterior, o Chega concorreu a cerca de 200 câmaras. A primeira vitória do Chega foi conseguir ter um partido mobilizado para 308 estruturas. Se as 308 candidaturas do Chega eram perfeitas? Não eram, mas a estratégia do Chega era ter o nome Chega em todos os boletins de voto, e essa tem sido a nossa estratégia de eleição em eleição, e sinceramente, os frutos estão à vista, de tal forma que o que aconteceu ontem é que o país está pintado de ingovernabilidade. Se com isto eu quero dizer que o Chega quer trazer ingovernabilidade ao país? Não, claro que não. Mas a partir de agora terá que existir uma decisão cada vez mais clara, porque ou governa o bloco central, as grandes câmaras do país e não só, ou tem que ceder ao Chega em bandeiras fundamentais para poder ter maiorias e ter orçamentos aprovados e ter executivos viabilizados. Isto sinceramente, é uma transformação.

E a Rita Matias vai fazer isso mesmo em Sintra, vai assumir o lugar de vereadora?

Sim, tenho metade. Anunciei antes mesmo de saber os resultados para que os eleitores soubessem ao que me candidatava. Ao contrário de muitos noutros partidos, não me candidataria numa candidatura fantasma em que só ficaria caso fosse presidente. Vou assumir o papel de vereação. Assumi também que será uma vereação de oposição. Não tenho qualquer interesse em ocupar um pelouro e dar a mão ao Partido Social-Democrata pelo cargo em si.

Mesmo que seja convidada para isso por Marco Almeida? Aí implicaria sair do Parlamento, se tivesse funções executivas.

Tenho dúvidas que esse convite surgisse. Ainda não surgiu.

E se o telefone ainda não tocou.

Não. Também creio que não tocará pelos debates e pelo distanciamento que tivemos em algumas matérias que me pareciam importantes, mas anunciei que ficaria com uma vereação com papel de oposição, de escrutínio, de acompanhamento, de viabilização pontualmente, porque acredito que até um relógio estragado possa acertar nas horas duas vezes ao dia. Mas acima de tudo também com um compromisso, para que os portugueses percebam que o Chega não anda à procura de tachos. Nós não vamos acumular um cargo de vereadores para termos mais €80 por senha de presença e assim termos mais um complementozinho ao salário. Qualquer verba que eu venha a receber para a vereação.

O que é que vai fazer essa verba?

Vou destiná-la a uma associação pró-vida, porque era uma das bandeiras que levava comigo. Queria criar um apoio a mães grávidas que são abandonadas pelos seus companheiros e que se sentem desapoiadas. Vou destinar exatamente o mesmo destino que faço aos 5% que foram descongelados No salário de deputado e, portanto, vou reforçar esse apoio, porque reconheço que é uma causa justa e que tem dado frutos.

Falava há pouco das questões da ingovernabilidade. O Chega vai ser decisivo em muitas câmaras. Exatamente de que forma?

Em grandes câmaras, recordo-me de Sesimbra, onde ficámos a 200 votos de sermos nós os vencedores, no Montijo, onde, se não me engano, foram 300, e muitas outras. Estamos a falar de Sintra e neste momento o cenário de Sintra é quatro, quatro, três. Quatro vereadores para PS e para Partido Social-Democrata e três para o Chega. Aqui pode ser até um tubo de ensaio para o que se passa no país. Marco Almeida, neste momento, e muitos outros autarcas que terão o mesmo desafio exatamente, tem que perceber se quer governar com o Partido Socialista e, neste caso, manter toda a linha programática que levou os conselhos ao estado de estagnação em que estava, ou se quer ceder a bandeiras do Chega. E essas bandeiras são muito claras e transversais ao país, de norte a sul, às fronteiras externas, na questão do tema da imigração, o combate aos atestados de residência por si só, com um escrutínio apertado. Portanto, um conjunto de bandeiras que podem ser decisivas para o discurso do Chega e que podem dar frutos também a nível nacional.

Rita Matias, o Chega é cada vez mais um partido no sistema. Isso merece uma reflexão no partido sobre as potenciais consequências disso?

O Chega, sendo um partido antissistema, sabe que se insere dentro das regras do regime democrático.

Mas isso preocupa o Chega ou a senhora, Rita Matias, em particular?

Eu creio que preocupa o Chega como um todo, mas não posso falar em nome de todos. Mas como dirigente, como alguém que também tem responsabilidades, agora também numa autarquia muito grande e importante no país, preocupa-me sempre, porque as pessoas são corrompíveis. Todas. Claro que nós no Chega esperamos não o ser. Acho que temos tido uma atuação excepcional de cada vez que é identificado qualquer tipo de prevaricação, seja de que for, afastar imediatamente essa pessoa, mas não estamos imunes ao erro e ao engano. E isto preocupa sempre. O Chega tem que continuar a adotar mecanismos, que tem vários. Recordo que as listas do Chega, quando são entregues e formalizadas em Conselho Nacional, entregamos os nossos registos criminais, entregamos um conjunto de provas para demonstrar que não temos dívidas.

Não é só disso que se faz o sistema. Quando o Chega é chamado a tomar decisões, a aprovar orçamentos, por exemplo, de certeza que vai, acabou de explicar aqui nesta conversa, em Sintra, vai tomar decisões que lhe pareçam ser adequadas, depois no governo da câmara e do município. Essa entrada do Chega no sistema é alvo de uma reflexão? Porque o Chega tem sido, até agora, uma voz muito de protesto dos cidadãos. Isso é, de alguma forma, motivo de reflexão?

É motivo de reflexão, mas repare, mesmo reproduzindo a lógica da Assembleia da República, apesar de todo o protesto, há muitas soluções que começam a acontecer pela mão do Chega. Recordo o tema do IRS, a atual lei da nacionalidade, o tema do IRC, um conjunto de matérias que vão avançando também porque o Chega fala e tem uma voz de protesto, mas depois também tem uma ação de concretização. E esta vai ser a nossa postura. Como eu dizia, de facto, o país está aparentemente ingovernável, porque nenhuma força, à partida, tirando algumas exceções honrosas, claro, há resultados significativos no país, mas grande parte está ingovernável, sem maiorias evidentes, tendo em conta eventuais linhas vermelhas que foram estabelecidas, etc.

Rita Matias, tenho a certeza que vamos continuar esta conversa num futuro próximo, porque é uma conversa interessante, mas agora já não temos tempo para mais. Agradeço-lhe muito por ter estado aqui na tarde em direto da Rádio Observador. Rita Matias, deputada do Chega, candidata à Câmara Municipal de Sintra.