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O Explicador da Rádio Observador já se tornou um hábito. Às sextas-feiras, vamos fazendo contas sobre como será a próxima semana no que diz respeito ao preço dos combustíveis. Há sinais de descida. Vamos ver se se confirmam ou não na segunda-feira. E é sobre isso que vamos falar. Eu sou o Ricardo Conceição, comigo está a Judite França, que é a nossa convidada. Judite.
Mafalda Trigo, vice-presidente da ANAREC. Bem-vinda, obrigada pela disponibilidade. Já tem indicação sobre se os preços sobem ou descem na segunda-feira?
Para a próxima segunda-feira, o gasóleo vai ter uma descida de €0,05 por litro e a gasolina de €0,02 por litro.
A Agência Internacional de Energia avisa que a escassez de gasóleo vai continuar este ano, prolongar-se durante a maior parte de 2027, consequência da guerra no Irão, devido à destruição de infraestruturas-chave. Há uma diminuição na produção de combustíveis e isso não se resolve de um dia para o outro. Já há sinal de alguma escassez por cá?
Por aqui no nosso país, para já, é muito prematuro estarmos a falar em escassez e convém os consumidores não ficarem alarmados, porque por agora não há qualquer tipo de indicador que possa levar a uma escassez. No entanto, nós temos que ter noção que as infraestruturas que foram destruídas, no caso da Rússia e da Ucrânia, não só para os combustíveis, mas para outros derivados, como por exemplo, lubrificantes, há uma possibilidade de haver uma diminuição em termos da oferta que vai estar disponível. E essa diminuição na oferta também faz aumentar o preço dos combustíveis, o que para nós é uma má notícia.
Em França, apesar de algumas bombas de gasolina terem fechado e racionado o acesso a combustíveis, mas isto deveu-se a uma procura muito grande por parte dos automobilistas, mais do que escassez de produto, é isso?
Sim. Aqui no nosso país também já tivemos situações em que houve aumentos muito grandes e a corrida aos postos de abastecimento para conseguir abastecer ainda a preço antigo, também levou a ruturas momentâneas em diversos postos de abastecimento de combustível. Isso nada tem a ver com a questão de escassez de produto. Assim que abriu novamente a refinaria, repuseram-se os stocks nos postos de abastecimento e são situações que não é possível abastecer novamente os postos, tendo em conta a rapidez com que os consumidores acabam por abastecer, mas não tem nada a ver com falta de combustível, com escassez.
Perante aquilo que temos em cima da mesa, já não vai ser possível voltar atrás nos preços.
Enfim, nós esperamos que num futuro próximo, possa ser novamente controlada a situação. Eu relembro que no início da guerra da Ucrânia, os preços também subiram muito rapidamente e de uma forma muito abrupta, mas depois com a continuação da própria guerra e da estabilização dos mercados, acabou por o combustível voltar aos níveis anteriores à guerra da Ucrânia. Nós no início deste ano, por exemplo, estávamos com valores perfeitamente já ultrapassados relativamente às subidas que tinham sido sofridas desde o ano 2022, quando iniciou a guerra. Só para dar uma ideia, desde o início de fevereiro, comparando os preços que estavam em vigor no início de fevereiro e atualmente, o gasóleo sofreu um aumento de €0,65 por litro e a gasolina de €0,50 por litro. E com isto tivemos várias vezes, várias semanas, vários aumentos, mas também tivemos outras semanas que houve baixas.
Sim, Mafalda Trigo, há aqui uma questão que é importante e as pessoas vão fazendo sempre estas contas e estas perguntas. Numa semana sobe cinco e na outra só desce dois, enfim. Andamos sempre neste sobe e desce, mas o que é facto e como conversávamos há pouco, a capacidade de produção destes produtos está afetada, ou seja, uma refinaria não se faz de um dia para o outro. Daí também o sentido da nossa pergunta, se estes preços altos, com estas variações de alguns cêntimos para cima ou para baixo, têm tendência para se manter. É possível, acredita que vamos conseguir de novo baixar, por exemplo, dos €2 por litro, em média?
Enfim, eu espero que isto aconteça o mais rapidamente possível. Vamos imaginar que na próxima semana acaba o conflito entre o Irão e os Estados Unidos. Significa que, no mínimo, iremos precisar de três meses para estabilizar custos associados ao preço do Brent, porque o preço do combustível final não tem só influência no preço do Brent, mas tem em linha de conta uma série de outros custos, como por exemplo Os custos com os alugueres de petroleiros, os custos com os seguros, custos esses que subiram muito expressivamente e que ainda não baixaram. Ou seja, neste momento mantemos a parte desses custos adicionais que fazem parte de cerca de 80% da construção do custo final do combustível refinado. E o que está sempre a mexer é o custo do Brent. Portanto, neste momento, o que está a influenciar as subidas e descidas é mesmo o custo do Brent, porque os restantes valores têm-se mantido inalterados e numa alta. Para que consigamos que esses outros parâmetros sejam estabilizados em baixa, temos que ter cerca de três, quatro meses de estabilidade para que se comecem a baixar também esses custos.
Antes de lhe falar também da refinaria de Sines, parece uma pergunta estafada, mas quando os preços sobem, o consumidor sente logo, quando desce, parece que demora mais. Os revendedores repercutem as descidas à mesma velocidade que as subidas?
Em 90% do nosso mercado de combustível em Portugal, quem envia os preços finais de comercialização são as companhias, as marcas que os postos de abastecimento estão a representar. E nesse sentido, nem sequer são os próprios revendedores que decidem qual é o preço de venda. Esse preço de venda é-lhes indicado pela companhia, pela marca, e eles têm que colocar esses preços de venda nos seus postos de abastecimento de combustível. E de uma forma geral, isso tem acontecido, até porque, por exemplo, na semana passada subiu 6,5 cêntimos, no caso do gasóleo. Agora dá para ter uma descida de 0,05 € e tem havido essas baixas e essas altas, tem existido.
Portugal tem hoje só uma refinaria, que é a de Sines. Estamos mais ou menos expostos a uma crise de abastecimento?
Embora Portugal só tenha uma refinaria, tem diversos pontos de abastecimento, tem diversas companhias, por exemplo, no caso de Matosinhos, em que fechou a refinaria da Galp. Embora a refinaria propriamente dita esteja encerrada, temos na mesma um depósito, capacidade de tancagem, e todos os dias vão abastecer diversos caminhões que fazem a distribuição, por exemplo, para os postos de abastecimento. Embora, efetivamente, não seja refinado o produto na refinaria de Matosinhos, é abastecido normalmente via petroleiros, os barcos atracam ao largo de Matosinhos e depois descarregam diretamente para a antiga refinaria da Galp. Para além desta tancagem que há na Galp, tem, por exemplo, também a Cepsa, que também tem uma tancagem em Matosinhos. Temos na zona de Aveiro, por exemplo, uma refinaria que é explorada pela Prio, temos na zona de Aveiras. Não fazendo o trabalho de refinação de produto, são locais onde vão abastecer, porque se isso não existisse, os custos de transporte ficariam muito elevados e esses custos naturalmente teriam que ser refletidos também para os consumidores finais.
Mafalda Trigo, é vice-presidente da ANAREC. Ajude-nos aqui também a perceber um outro lado de tudo isto. Nós todos, enquanto consumidores, somos bombardeados com promoções de descontos por litro, com o cartão do supermercado A, B, C. Há cartões de desconto para tudo e mais alguma coisa. Estes valores não poderiam baixar logo de raiz nos postos, sem termos que andar com estes cartões para trás e para a frente? Aparentemente, há margem para fazer descontos.
Na maneira que cada companhia faz a gestão comercial e de marketing, não é uma coisa que nós, revendedores, tenhamos uma palavra a dizer. Mas, por exemplo, podemos falar dos postos de bandeira branca, que não têm quaisquer descontos associados e têm o preço totalmente refletido ao consumidor final de uma forma direta. No entanto, todas as outras situações, normalmente em postos de companhia, efetivamente, conforme disse e muito bem, há descontos associados de diversas formas. E também é verdade que a grande maioria dos consumidores usufruem dos mesmos. Se eu estou habituada, por exemplo, a abastecer à BP, tenho os descontos que estão associados à marca e usufruo desses sempre. Pode às vezes não acontecer, é uma situação de um consumidor que está deslocado ou que está de férias e que nesse caso não usufrui o que normalmente costuma utilizar de descontos. Mas são situações muito pontuais. O preço de pórtico, no caso das companhias de marca, digamos assim, normalmente tem sempre descontos associados e bastante elevados. Nos casos dos postos de bandeira branca, por norma, o preço já está fixado em pórtico. É um preço direto, mas não quer dizer que até que seja um preço mais baixo, porque se fizermos as contas depois aos outros descontos associados, até pode num posto de companhia ficar com preços mais baixos do que propriamente os postos que fazem refletida a totalidade em pórtico.
Mafalda Trigo, muito obrigado mais uma vez pela sua disponibilidade para estar aqui neste explicador da Rádio Observador, a vice-presidente da ANAREC. Na segunda-feira, o preço do gasóleo deverá cair 0,05 € e o da gasolina, 0,02 €.