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Começa agora o Explicador das Manhãs 360, esta segunda-feira com a análise ao debate entre os candidatos presidenciais Henrique Gouveia e Melo e Catarina Martins. São nossos convidados Paula Cosme Pinto, apoiante da candidatura de Catarina Martins, e Fernando Negrão, apoiante da candidatura de Henrique Gouveia e Melo. A moderação deste Explicador é da Carla Jorge Carvalho e do Bruno Vieira Amaral.

E ontem foi o primeiro debate de Catarina Martins, candidata presidencial apoiada pelo Bloco de Esquerda, o segundo de Henrique Gouveia e Melo. Fernando Negrão, muito bom dia, bem-vindo a este Explicador. Mesmo os apoiantes de Gouveia e Melo reconheceram que o almirante tinha margem de crescimento depois do primeiro debate com João Cotrim de Figueiredo. Ontem à noite, no segundo debate, viu-o mais seguro?

Não só o vi mais seguro, o que é normal, uma vez que o almirante Gouveia e Melo não é um homem da política, é um homem que vem fora da política e quis dar o seu contributo para o país com a experiência que tem em várias áreas e principalmente na área da defesa e também na área da saúde, que bem precisamos. E, portanto, o Gouveia e Melo ontem esteve mais seguro. Gouveia e Melo ontem tentou falar sobre os poderes presidenciais, mas esta campanha está a fugir à discussão dos poderes presidenciais para escandalizar os portugueses e está, de facto, a discutir o país como se tivéssemos eleições legislativas. E isto às vezes cria alguma perturbação nas pessoas que veem e ouvem.

Fernando Negrão, mas acha que Catarina Martins quis desviar o debate para questões que não as presidenciais?

Nitidamente. Bastava olhar para o sorriso triunfante de Catarina Martins para nós percebermos que ela estava no mundo dela a discutir como se estivesse no Parlamento, os problemas da saúde, os problemas da educação, os problemas da habitação, que são importantes, muito importantes. O presidente da República também tem um papel aqui, mas não é um papel executivo, não é um papel de intervenção naquilo que são as decisões dos partidos políticos no Parlamento. É o que diz a Constituição.

Paula Cosme Pinto, bem-vinda também aqui a este Explicador. Vê em Catarina Martins um desvio de papel, e ela continua a encarnar muito mais a candidata a primeiro-ministro e a estar numa corrida para as legislativas e não no papel de candidata a presidente da República?

Olhe, antes de mais, deixa-me que vos diga que não deixa de ser curioso como o sorriso de uma mulher na política continua a ser algo tão criticável. Eu acho que neste debate o que ficou bastante visível foi a experiência frente à inexperiência. Isto não tem nada a ver com vida partidária, já que isto até parece que ser independente parece ser o grande trunfo de Gouveia e Melo nesta conversa. Tem a ver, sim, com experiência política e com conhecimento efetivo das várias dimensões do país, das pastas que fazem parte da vida da população e para as quais um presidente tem de estar preparado. Um presidente não governa, é certo, estamos todos de acordo em relação a isso, não tem poder executivo, mas tem de conseguir ajudar a conduzir o debate e, acima de tudo, conseguir mostrar uma visão para o país. E nisto Catarina Martins está visivelmente mais preparada. Ficou muito claro que Catarina Martins conhece bem Portugal, conhece a máquina política, conhece as pastas e acima de tudo, que tem uma ideia para o país. Não limita apenas generalidades que podem ser papagueadas por qualquer candidato. Ela aliás, tem propostas muito concretas, seja para o trabalho, a saúde, a habitação, a defesa da democracia, todas elas dimensões essenciais da vida dos cidadãos. Gouveia e Melo, por outro lado, não tem esta capacidade, o que é preocupante para alguém que se candidata ao cargo de presidente da República.

Mas a questão é saber também que margem tem um presidente da República para influenciar a governação, mesmo que tenha essas ideias muito claras acerca do rumo que a governação deve assumir.

Para mim, eu confesso, enquanto eleitora, continua a ser uma verdadeira incógnita qual é a visão política de Gouveia e Melo, e isso é essencial numa corrida às presidenciais.

Ontem, Paula Cosme Pinto, acha que não ficaram claras essas diferenças entre os dois candidatos?

Olhe, é que parece que Gouveia e Melo precisa de fugir às perguntas. Começamos logo até pelo arranque do debate, em que foge à primeira pergunta sobre a reforma da lei do trabalho, tema atual e profundamente essencial para o futuro da população, à qual só respondeu, e a muito custo, à terceira tentativa e com pouca clareza sobre a sua opinião concreta. Não concretiza grande coisa, não se percebe efetivamente qual seria a sua postura perante esta reforma desastrosa que estamos a viver. E em vez de mostrar a sua visão, começa por optar por começar o debate com uma tentativa de diminuir Catarina Martins por ser eurodeputada, uma estratégia que lhe sai o tiro pela culatra. Catarina Martins está em Bruxelas porque foi eleita pelos portugueses, é fruto de escrutínio público. Está em representação do país precisamente porque o povo português confia nela. Eu não vejo em que medida é que isto pode ser algo que merece menosprezo. Era perfeitamente evitável sequer irmos por este tipo de narrativa.

Fernando Negrão, Gouveia e Melo não tem sido, de facto, muito assertivo quando comenta as alterações ao pacote liberal. Porque isto não pode ser entendido como uma forma de não se comprometer?

Deixe-me dizer-lhe em primeiro lugar que é no mínimo ridícula a referência à crítica ou ao sorriso de Catarina Martins. Mas enfim, ficamos por aqui. Relativamente à pergunta que me faz, o que eu lhe direi é que Gouveia e Melo é um homem cuidadoso É um homem que usa as palavras devidamente ponderadas e devidamente pensadas e no que diz ao pacote de legislação laboral, ele explicou que não faria nenhuma intervenção de fundo sobre a mesma, uma vez que a negociação entre o governo e os sindicatos ainda não está fechada e qualquer declaração pode perturbar essa negociação.

Mas isso é uma forma também de não se comprometer com qualquer decisão, dizer que bem pode influenciar o rumo das negociações, mas assim ficamos sem saber exatamente qual é que é a posição do Gouveia e Melo em relação àquilo que já se conhece deste pacote da reforma laboral.

Nós ainda nem sequer estamos em campanha eleitoral. Estamos em campanha presidencial. O que quer dizer que embora o tempo não seja muito, também não é pouco para fechar as negociações de uma forma ou de outra, depois então comentar o pacote laboral e as suas soluções para o mercado de trabalho.

Paula Cosme Pinto, Catarina Martins ontem no debate apontou ao eleitorado do PS que não se revê em António José Seguro, fez referências aos mandatos presidenciais de Jorge Sampaio, de Mário Soares.

Eu acho que Catarina Martins está na corrida para chegar a todo o eleitorado. Não está presa numa bolha. E eu acho que a referência a Jorge Sampaio, aliás, é uma enorme referência e simbolicamente isso também diz muito da presidente que Catarina Martins se propõe a ser. E é uma presidente que concretiza o que defende, que não se fica por ideias vagas, que dá sugestões, que apresenta seleções, que aponta o dedo a questões efetivas, mostra ao que vem sem pruridos. E mostra-se como uma candidata com causas concretas e causas nobres. Eu acho que isto é meritório, é alguém que está nesta corrida porque dá esta clareza, esta segurança ao eleitorado de saber em que é que vai votar. Qual é a visão, qual é a ideia para o país que esta candidata à Presidente da República tem. Eu diria que isso é uma enorme segurança na altura de ir às urnas, saber efectivamente em quem está a votar e qual é o pensamento dessa pessoa.

Mas há uma tentativa de ir ao encontro das expectativas desse eleitorado socialista que não se revê no candidato que é apoiado pelo Partido Socialista.

Eu acho que Catarina Martins está a tentar chegar a todo o eleitorado. É como digo, obviamente que esse é um eleitorado também importante, e nós sabemos que há muita gente que vota habitualmente Partido Socialista e que não está contente com a candidatura de Seguro. Portanto, chegar a esse eleitorado faz obviamente todo sentido também. Mas Catarina Martins não desvirtua aquilo que tem sido a sua mensagem e a sua postura numa tentativa de chegar a este eleitorado. Catarina Martins está a ser ela própria, está a ser a política que Portugal e os portugueses tão bem conhecem há tantos anos.

Fernando Negrão, houve uma questão lançada por Catarina Martins relativamente ao almoço que Gouveia e Melo teve com o André Ventura. Gouveia e Melo respondeu numa frase só. Não acha que ele vá ter que explicar melhor o que é que aconteceu nesse almoço e o que é que foi discutido?

Deixe-me em primeiro lugar fazer referência a Catarina Martins e à sua deriva à direita. Já há muito tempo Catarina Martins disse que era uma social-democrata. Imagine-se, proveniente de um partido marxista-leninista, vem dizer publicamente, com aquele seu sorriso, que é uma social-democrata. E a partir daí, o que nós temos vindo a assistir é essa deriva para a direita.

Então assim não há um mar de diferenças, se Catarina Martins for uma social-democrata?

Não, mas não haverá um mar de diferenças porque Catarina Martins não é uma social-democrata. É uma marxista, é uma mulher de esquerda, é uma mulher de extrema esquerda. É uma mulher que quer construir uma sociedade alternativa a esta. E todas essas sociedades alternativas que ela pensa, nós sabemos bem o resultado que têm dado a nível das várias experiências, algumas delas com resultados gravíssimos de milhões de mortos. E, portanto, esta deriva à direita é uma deriva que se reflete também nas referências que ela faz no debate a Jorge Sampaio. Três ou quatro vezes invoca Jorge Sampaio.

E sobre o almoço com André Ventura?

Relativamente ao almoço com André Ventura, o senhor almirante, a senhora Catarina Martins, qualquer outro candidato tem a liberdade de almoçar com quem entender e com quem for aconselhado, dizendo da importância que isso pode ter ou não. Depois do almoço, tirará o candidato as conclusões relativamente à importância ou não do almoço que acabou de ter. E nós vimos no caso do almirante Gouveia e Melo que depois do almoço, ele imediatamente afastou aquelas pessoas da sua próxima-

Como base de apoio. Paula Cosme Pinto, estamos mesmo em cima da hora, mas houve aqui uma acusação de que Catarina Martins está a derivar à direita. Reconhece aqui um esforço da candidata?

Só falta dizer que também está a tentar chegar aos fascistas, como alguns dos candidatos que não se querem assumir nem à esquerda nem à direita, mas depois fazem este caminho e esta tentativa. Aquilo que eu gostava de dizer é que aquilo que Fernando Negrão está a dizer que é uma sociedade alternativa, eu diria que estamos antes a falar de uma sociedade progressista, uma sociedade com olhar na promoção da diversidade, da igualdade, dos direitos sociais garantidos, da dignidade, da democracia e da decência. Não vejo em que medida é que isto é um problema. Isto sim é o país que eu quero e que muitos portugueses querem para o futuro e Catarina Martins é o rosto de tudo isto.

Paula Cosme Pinto, Fernando Negrão, muito obrigado pela vossa participação neste Explicador. Bom dia e uma boa semana.

Uma boa semana também. Bom dia!