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Portugueses, acabei de decretar o estado de emergência.
Faleceu um doente que tinha a doença Covid-19.
Esta pandemia ainda não atingiu o seu pico.
Começaram a trabalhar na linha SNS 24 mais 112 enfermeiros. Vamos ver como vai ser o desfecho.
E vamos vencer.
Nunca tantos investigadores trabalharam para um mesmo fim: descobrir uma forma eficaz de combater este coronavírus. Não temos vacina, nem remédio santo, mas há progressos animadores e alguns têm mão portuguesa. Hoje vamos olhar para alguns desses avanços com a jornalista do Observador, Marta Leite Ferreira, que tem analisado e escrito sobre várias investigações científicas que nos podem mostrar esse caminho para finalmente derrotar este vírus. Mas ainda vai ser preciso testar. E a fechar: como alugar uma cabra para aparecer na reunião de trabalho por videoconferência. Eu depois explico. Esta é uma luta pela nossa própria sobrevivência. "La priorité absolue pour notre nation sera notre santé."
"La victoria depende de cada uno de nosotros."
Test.
"If you are sick or not feeling well, stay home." O número de casos em Portugal continua a aumentar todos os dias, entre 200 a 300 casos diários, de resto, como previu a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Por um lado, vamos vendo e ouvindo os responsáveis políticos a apelar aos portugueses para que saiam de casa, por outro, continuamos a ler mensagens de "fica em casa". O secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, diz que a chave está no equilíbrio.
É a passagem desta mensagem entre o "fica em casa" e o "retome a sua atividade". É muito importante esta mensagem de confiança, mas é muito importante que as pessoas percebam que continua a haver um critério de salvaguarda e um critério de contenção. E é deste ponto de equilíbrio e desta mensagem entre o "fique em casa" e o "retome a sua atividade" que vai resultar, com certeza, no final, um balanço favorável.
Fica ao critério de cada um de nós aquilo que será uma ação equilibrada dos cidadãos em tempos de pandemia. E o número de casos a nível global atingiu os cinco milhões de pessoas infetadas, um milhão e 900 mil já recuperaram, mais de 325 mil pessoas morreram. Um dado que surge depois de se ter registado o maior aumento de número de casos em apenas um dia a nível global. Foram 106 mil novos casos registados. Ao jornal britânico The Guardian, a diretora do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças, Andrea Ammon, diz que a Europa vai enfrentar uma segunda vaga. A questão agora é: quando e qual a intensidade? Mas que vem uma segunda vaga, disso esta especialista não tem qualquer dúvida. Já a seguir vamos conversar com a jornalista Marta Leite Ferreira sobre os avanços da ciência neste duro e longo caminho de combate a esta pandemia.
Estou?
Sim, Marta?
Olá, Ricardo.
Bem-vinda, Marta Leite Ferreira.
Obrigada.
Marta, o que é uma nanovacina e por que devemos estar entusiasmados com esta vacina minúscula?
Olha, foi exatamente essa a pergunta que eu fiz a uma das investigadoras que está a desenvolver a vacina, a portuguesa Helena Florindo. Então, uma nanovacina é uma partícula sólida, nanométrica, estamos a falar de uma escala que é um milhão de vezes mais pequena que o milímetro, e que transporta agentes que estimulam a resposta imunitária contra um invasor. A vantagem em relação às vacinas convencionais é que consegue tanto induzir a produção de anticorpos, que são moléculas, como recrutar células do sistema imunitário. A maioria das vacinas convencionais só conseguem fazer uma destas coisas.
E fiz-te esta pergunta porque, e como disseste, falaste com uma investigadora portuguesa que está a trabalhar nesta área. Que projeto é este, Marta?
Ela já tinha um projeto de investigação para usar nanovacinas contra o melanoma e já o tinha experimentado em ratinhos e agora quer adaptar essa plataforma para a Covid-19. Então, neste caso, o que ela faria era introduzir esta nanovacina, e isso pode ser feito tanto como uma injeção normal, como através via nasal, como se estivesse a pôr soro físico. Depois, a partir daí, esta nanovacina é engolida pelas células, as células que têm a proteína à superfície que o novo coronavírus identifica e usa para infetar, ou então migram automaticamente até aos nódulos linfáticos, e isso faz com que se inicie a resposta imunológica quase imediatamente. Isto funcionou em laboratório com ratinhos, no caso do melanoma, o cancro deixou de crescer tanto. Ainda não sabem como é que funciona com a Covid-19, mas ela está a preparar um ensaio clínico.
Sim, ainda é preciso fazer mais testes, aliás, testes é a palavra de ordem por estes dias. E tu e a Sónia Simões escreveram sobre este tema e vale a pena ler este texto. Agora, vamos falar aqui sobre uma outra possibilidade, sobre a qual também escreveste, e muito tens escrito nestes dias sobre estas investigações. Vamos olhar para a possibilidade da utilização de células estaminais. Aqui também há uma mão portuguesa. O que a Criosteminal está a tentar fazer?
Eles estão a tentar produzir um medicamento com o tipo de células estaminais especiais, são as mesenquimais, que acalmam a inflamação que a infecção pelo novo coronavírus provoca nos pulmões. Isto é importante porque nos casos mais críticos da Covid-19, aqueles que podem mesmo ser fatais, nesses casos há um excesso de inflamação, porque o sistema imunológico entra em estresse. Então essas células mesenquimais estaminais podem regular essa resposta imunitária, pelo menos em teoria, ainda não se experimentou.
É uma reação quase desregulada do corpo que põe tudo contra o vírus, mesmo assim é incapaz de o combater. Estamos aqui a falar de células estaminais, são aquelas que são recolhidas no cordão umbilical, são também conhecidas como indiferenciadas. Estas células conseguem adaptar-se consoante as circunstâncias para aquilo que são precisas, é isso?
Depende do tipo de células estaminais que estamos a falar, mas são sempre células que nos acompanham desde que somos embriões e que têm três características principais, que é conseguirem multiplicar-se indefinidamente, podem especializar-se num tipo de células, ou conseguem autorrenovar-se. E no caso das células mesenquimais, que são as interessantes para o combate à Covid-19, elas estão de fato nas paredes do cordão umbilical, mas também podem ser encontradas no tecido adiposo, que é a gordura que temos debaixo da nossa pele, e na medula óssea. Mas curiosamente, neste caso, não é tanto a célula que nos interessa, são os químicos que ela produz.
Então, explica lá isso melhor.
É que quando as células mesenquimais são injetadas, elas chegam aos pulmões e libertam uma série de moléculas. E há uma que é especialmente interessante, são as citocinas anti-inflamatórias, e podemos pensar nelas como a kryptonite das outras citocinas, as que provocam a inflamação típica da Covid-19. É como se fosse um antídoto. Portanto, estas citocinas boas libertam, regulam a resposta imunitária e passado umas horas, em alguns casos, alguns dias, são eliminados do organismo.
Ou seja, só para ver se eu entendi bem, essas células quase que acalmam o sistema imunitário e permitem um combate mais eficaz àquela inflamação, é isso?
Sim, é isso mesmo. Elas quase que abrem espaço para o sistema imunitário conseguir voltar a um equilíbrio e conseguir uma resposta um pouco mais normal quando se está perante uma invasão deste tipo.
Marta, eu tenho aqui também uma dúvida sempre relativa a esta questão das células estaminais. Elas são, muitas vezes, penso que é assim que se faz, injetadas na corrente sanguínea. Como é que elas sabem que daquela vez têm de atuar nos pulmões e na outra vão ter de atuar no fígado ou no pâncreas?
Algumas células têm uma lição biológica, uma aprendizagem natural que as permite saber que têm de viajar até determinado sítio. É o caso das células estaminais que viajam no cordão umbilical, sim, mas na corrente sanguínea. Essas sabem que têm de ir até à medula óssea quando são injetadas.
Isso é fantástico, realmente.
Sim. Estas, neste caso, não têm esta lição biológica, então o que elas fazem é ir à boleia da corrente sanguínea, da grande circulação, e portanto passam inevitavelmente pelos pulmões. Neste caso, o fato de elas não saberem para onde ir é até uma vantagem para o combate à Covid-19.
E quando passam pelos pulmões, ficam lá bastante?
Ficam, porque estas células estaminais são maiores do que as células que normalmente circulam na corrente sanguínea. Como são maiores, quando passam pelos pulmões, ficam presas nas células dos pulmões. Isso é bom porque, neste caso, é bom porque assim elas libertam logo ali as tais substâncias que nós queremos que elas libertem.
As tais substâncias mais calmantes.
Exatamente. Para outras doenças é preciso injetar diretamente essas células no órgão, portanto, é muito mais difícil.
Ok, agora sim já consegui perceber melhor. No teu texto, tu explicas que este medicamento pode custar 3 mil, 4 mil euros a dose?
Sim, esse é o cálculo da CrioEstaminal, que tem em conta a atualização que eles tiveram de fazer no laboratório em Cantanhede e também ao próprio processo de fabricação. Mas o medicamento ainda não foi para ensaios clínicos, já foi pedido o registo à Infarmed, mas ainda não foi aceite. Por isso, enquanto não houver este estudo clínico, nem esta aceitação da Infarmed, a CrioEstaminal quer disponibilizá-lo gratuitamente aos médicos do SNS que estejam a acompanhar casos de doentes em estado mais grave. Talvez depois o ponham à venda, mas por enquanto não é esse o plano.
Lá estamos nós de novo a falar da grande necessidade de testes. Ainda tenho aqui mais uma dúvida, Marta. Quando eu nasci, mais ou menos no século XVIII, não havia recolha de células estaminais. Eu posso usar as minhas? Só posso usar as minhas ou posso usar de outra pessoa?
Não, essa é a parte boa, é que qualquer pessoa pode doar e receber células estaminais de qualquer pessoa. Não é como uma doação de sangue, portanto, não há esta especificidade. Há pais que não querendo ou não podendo guardar as células estaminais dos filhos, doam-nas a bancos como a CrioEstaminal ou a Bebé Vida, que são algumas das que existem em Portugal. Este medicamento português é precisamente feito com células doadas. Portanto, se precisares dele e o teu médico quiser experimentá-lo em ti, espero que não, podes até receber as células estaminais de uma criança de cinco anos, se for preciso.
Ainda queria ver aqui mais dois a três pontos contigo, Marta. Vou citar-te, Marta Leite Ferreira. Escreveste tu no Observador: "Não se assuste já. A mutação não parece estar a torná-lo mais perigoso para a saúde humana, apenas mais infeccioso, o que até pode ser uma vantagem. A má notícia é que pode atrapalhar a busca por uma vacina." Estás aqui a falar da mutação do vírus Podes fazer-nos o favor de explicar o que queres dizer com isto, Marta Leite Ferreira?
Sim. A questão aqui, Ricardo, é que o vírus sofre mutações. É simplesmente uma coisa que eles fazem sempre, como qualquer coisa na natureza. O nível de preocupação com essas mutações deve depender, não necessariamente da quantidade de vezes que elas mudam, mas sim nos locais do genoma em que ocorrem. O que estes cientistas estão a perceber é que há uma mutação em particular, num sítio específico, que o pode tornar mais infeccioso. Isto tem a ver com haver uma melhor capacidade de se transmitir e provocar a Covid-19. Mas o que eles notaram também, isto são estudos preliminares ainda, é que as pessoas que foram infectadas por um vírus com esta mutação, que aliás, a maior parte das pessoas infectadas em Portugal a têm, não ficaram mais doentes do que as outras. Isto é um bom sinal, porque o vírus não quer saber se nós ficamos mais ou menos doentes. E na verdade, até é bom para ele que não nos cause uma doença tão grave que cheguemos a morrer, porque o único objetivo do vírus é multiplicar-se, replicar-se. Portanto, se houver gente muito doente que morre, ele não terá tanta gente a quem infectar.
Ele perde essa capacidade, não é?
Sim, é como se perdesse reféns.
Exatamente.
Que pudesse usar. Sim. Aqui o único problema é que se esta mutação acontece num sítio específico para onde as vacinas estão a ser desenvolvidas, porque muitas vacinas estão a ser desenvolvidas com base em pedaços do genoma do vírus, não no genoma inteiro, se esses pedaços mudarem, a vacina torna-se inútil, porque o vírus não saberá identificar esse novo pedaço. Este é o problema.
Isso é preocupante. Há centenas de investigações, para não dizer milhares, a decorrer nesta altura. Há milhares de pessoas a estudar e a tentar descobrir uma forma de conseguirmos entrar neste vírus e dar cabo dele. E uma dessas formas pode ser, por exemplo, tão simples quanto isto: acabar com aqueles espigões do vírus, que já todos nós vimos nas imagens, que aliás, está na imagem deste podcast. E tu, Marta Leite Ferreira, num dos primeiros episódios desta série, explicavas que o vírus entrava como se fosse uma chave na fechadura, usava estes espigões, estas proteínas para entrar. Ora, houve uns cientistas na Bélgica que descobriram que os anticorpos dos lamas, desses animais que dão umas cuspidelas quando se zangam, são suficientemente pequenos e ágeis para destruir esses espigões. E os nossos anticorpos humanos são grandes demais e não conseguem destruí-los. Isto pode ser uma forma simples de ajudar a combater esta doença?
Pode, até porque neste caso das mutações, o que se tem percebido é que esse espigão tem realmente sofrido algumas mutações e uma delas ocorre precisamente no lugar que o vírus usa para se ligar às tais outras proteínas na superfície das nossas células para entrar dentro delas. Portanto, se houvesse uma forma de desenvolvermos anticorpos específicos para uma região como esta, então sim, poderia ser uma forma de acabarmos com estes espigões ou pelo menos sabermos como os combater.
Obrigado, Marta Leite Ferreira, jornalista do Observador, por estes dias que tens estado verdadeiramente mergulhada em trabalhos científicos, em trabalhos de investigação sobre a forma eficaz de tentar combater este coronavírus. Obrigado, Marta.
Obrigada.
E já a seguir vamos ao fact-check.
E aquilo que se pensa que vai acontecer, que é previsível que aconteça, é que este vírus, quando se tornar endémico, tenha uma taxa de mortalidade, aí já sabemos ao longo do ano, numa população, qual vai ser a sua taxa, de 0,1%, muito parecida com os coronavírus endêmicos. Só que agora, como há tanta infecção em grupos de risco, vê-se tanta doença grave que é assustador. E portanto, há aqui um fator amplificador deste fenómeno.
Esta afirmação feita pelo virologista Pedro Simas, no Expresso da Meia-Noite, a 8 de maio, na Sic Notícias, serviu para alimentar mais umas aldrabices. No dia seguinte, sábado, uma publicação no Facebook dizia: "Trancámo-nos em casa, arruinámos a nossa economia, destruímos tantas vidas e o futuro de tantos de nós por causa de uma porcaria de um vírus que tem uma taxa de mortalidade de 0,1%". É o que está escrito neste post. Anexado ao texto, vinha aquele excerto do programa que ouvimos há instantes. Ou seja, esta afirmação foi completamente truncada. Isto é pura desinformação, mas ainda assim foi vista por mais de 80 mil utilizadores do Facebook e muito partilhada. O que o virologista Pedro Simas está a explicar é que num futuro, e não sabemos ainda quando será esse futuro, este vírus fará parte do nosso dia a dia normal, será endémico. E aí o nosso grau de imunidade de grupo será elevado, porque o número de pessoas que já terá tido a doença será também elevado. Só aí a taxa de mortalidade poderá ser então mais baixa. Os tais 0,1 previstos por este especialista Pedro Simas. Nesta altura, estamos a viver uma pandemia, ou seja, não há imunidade da população e como temos visto, com os efeitos severos que este vírus tem nalgumas pessoas. Se todos fôssemos infectados sem controle, o sistema de saúde não teria capacidade de resposta. O conteúdo deste post é falso. Sim, a realidade destes dias de pandemia não para de nos surpreender. Sabia que pode alugar uma cabra ou um lama, ou um outro animal criado em quinta para aparecer na próxima reunião de trabalho ou numa festa, naquelas reuniões feitas por Zoom, por videoconferência? É uma tendência que está a fazer o seu caminho. Essencialmente, é uma partida para animar reuniões e também é um desafio. Será que quando estão muitas pessoas naqueles ecrãs divididos, alguém consegue notar que também está lá uma cabra ou uma alpaca naquela reunião? Nós tentámos fazer uma reserva, a Elizabeth, para hoje. Dez minutos custam cerca de £6, quase €7, mas só havia vaga para as 22h30. A Elizabeth é descrita como tendo a capacidade de ter uma boa etiqueta em vídeo, tem um pelo brilhante, boa postura e um elevado sentido de dever. É assim que está descrita no site que aluga cabras para reuniões por Zoom. O fact-check é do José Paiva Capucho, a sonorização é do Bernardo Almeida. Eu sou o Ricardo Conceição. Portugueses, acabei de decretar o estado de emergência.
Faleceu um doente que tinha a doença Covid-19.
Esta pandemia ainda não atingiu o seu pico.
Começaram a trabalhar na linha SNS 24 mais 112 enfermeiros.
Vamos ver como vai ser o desfecho. E vamos vencer.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.