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Era o terceiro nas listas por Viseu. O PS vinha a ganhar tração no Conselho e no distrito nos últimos anos. Os socialistas chegaram a ultrapassar o PSD em 2022. Voltaram para segundo nas legislativas de 2024. Nas eleições do passado domingo, caíram para terceiro nas preferências dos eleitores, ultrapassados pelo Chega. João Paulo Rebelo foi secretário de Estado de António Costa, número três da lista do PS, não conseguiu ser eleito. Nesta legislatura não vai voltar a ocupar um lugar no Parlamento. É entrevistado agora no Explicador da Tarde Política pela Judite França e pela Vanessa Cruz.
Muito bem-vindo, João Paulo Rebelo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Como é que se sentiu ao não ser eleito desta vez?
Muito obrigado, antes de mais pelo próprio convite que me fazem e cumprimentados a vocês e naturalmente todos os que nos ouvem. Pois evidentemente que não foi uma sensação muito agradável, porque quando nos candidatamos é porque estamos com vontade de prestar uma determinada missão e sendo tradicional o Partido Socialista ter, tradicional no sentido em que é preciso recuar a 1991 para termos a não eleição de um terceiro deputado no círculo de Viseu. Na verdade, o círculo que até já foi conhecido como Cavaquistão, mas onde o Partido Socialista já ganhou eleições no distrito, sendo mesmo a força política mais votada em 2005, que aconteceu também em 2022. Normalmente elegíamos sempre quatro, três deputados. É evidente que em 91 elegemos só dois num cenário em que o círculo tinha nove deputados. A partir de 2015, o círculo reduziu um deputado e, portanto, elegemos oito agora. A comparação também não é absolutamente rigorosa, mas a verdade é que não há como esconder, foi com frustração.
Se soubesse o que sabe hoje, teria feito como Sérgio Sousa Pinto, de quem é amigo, e não integrar as listas do PS nestas legislativas?
Não, não tem nada a ver com isso. Nada disso. Confirmo a primeira parte, sou de fato amigo do Sérgio Sousa Pinto, aliás, fiz parte do Secretariado Nacional dele. É uma pessoa com quem me dou muito bem. Tive o grato prazer de o acompanhar esta legislatura na Comissão de Negócios Estrangeiros, que ele era o presidente, e eu era o vice-presidente da bancada com a área dos Negócios Estrangeiros. É mesmo uma pessoa amiga. Compreendo até das razões que tenha tido para tomar essa decisão, mas o meu caso é bem distinto. Antes pelo contrário, quis regressar, porque o ano passado eu não tinha sido eleito no círculo de Viseu, por diversas razões. Desta vez queria regressar ao meu círculo eleitoral. É como se costuma dizer, é a vida. E na vida política nós temos que estar.
Umas vezes ganha-se, outras vezes perde-se.
Umas vezes ganha-se, outras vezes perde-se, exatamente.
E o que falhou pro PS ter uma derrota desta dimensão?
Naturalmente falharam coisas, isso evidentemente que falharam. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso, mas eu gosto, ainda estamos todos um bocadinho a avaliar e a analisar estes resultados, que em bom rigor ainda não são totalmente definitivos. Como sabem, ainda faltam eleger quatro mandatos do círculo fora da Europa e da Europa. O Partido Socialista pode ficar à frente em número de votos, mas em número de mandatos, objetivamente, quase de certeza ficará atrás do Chega. Isso não mudará muito o cenário que temos hoje, mas há uma análise que eu gosto de fazer que também extravasa, se nós quisermos um bocadinho as fronteiras do nosso país. Não vos vou estar também a dar uma grande novidade ou falar de coisas que as pessoas também já não tenham ouvido muito nos últimos tempos mesmo, e isso verifica-se. Há ventos que correm, sobretudo no dito mundo ocidental, em que, infelizmente, mas essa é obviamente a minha perspectiva, digamos, os movimentos de direita, mesmo da extrema-direita. Alguns não gostam da terminologia do populismo, mas isso são forças que se estão a impor, volto a dizer, do meu ponto de vista, infelizmente, um bocadinho em democracias, que eram referências para o mundo ocidental e que eram terras de liberdade, onde hoje acontecem coisas que eu, pelo menos, achava progressista e otimista que sempre foi, que não seria no meu tempo de vida que poderia assistir a elas, mas hoje as coisas também acontecem todas com uma velocidade maior. Repare, hoje nós olhamos para os Estados Unidos da América e há coisas a acontecer que seriam impensáveis. Aqui há uns anos haveria seguramente levantamento, indignações. Eu já é caricato. Temos um presidente dos Estados Unidos que transforma a Casa Branca num stand de automóveis, já ninguém acha uma coisa extraordinária. Vai a um país da Arábia, dão-lhe um avião de trezentos e oitenta milhões de euros, também parece que está tudo certo e que está tudo bem.
Vamos viajar para Portugal outra vez.
Vamos, sim, senhor. O Porvazquez Felipe Valente escrevia uma crônica aqui há uns anos que tinha título sempre "O mundo está perigoso", eu acho que o mundo está um bocadinho perigoso. Viajando para Portugal.
Viajando para Portugal.
O PS também não terá feito tudo bem.
Mas são várias as vozes dentro do PS que estão a pedir uma reflexão profunda, pensar nisso. Agora, esse processo é incompatível com a escolha do secretário-geral o mais rapidamente possível. É bom para o PS esse...
Essa é justamente a primeira reflexão que a Comissão Nacional do Partido Socialista, como sabem, é o órgão máximo entre congressos.
Mas estou lhe a perguntar a si, qual é a sua opinião?
A minha opinião é que naturalmente nós temos que fazer uma reflexão e devemos encontrar um equilíbrio entre o que é a necessidade dessa reflexão, que seguramente não se esgotará no próprio sábado. Levará bastante mais tempo do que isso, evidentemente, mas encontrar o tal equilíbrio, como lhe dizia, entre o partido não ficar órfão de uma liderança legitimada pelo voto directo dos militantes. Como sabe, o Partido Socialista elege o seu secretário-geral por eleições directas. Todos os militantes decidem e votam diretamente na eleição do secretário-geral. E uma coisa é termos um presidente do Partido Socialista, que é uma distinta figura do PS, um homem com enorme experiência, uma referência mesmo para os socialistas, diria para muitos portugueses, seguramente, mas que tem toda a legitimidade. Mas uma coisa é ser o presidente do Partido Socialista, figura que está evidentemente reconhecida nos estatutos, outra coisa é ser um secretário-geral eleito. Esta reflexão vai ser feita no sábado.
Sim.
Eu posso adiantar que ouço algumas opiniões. Há pouco falava de opiniões. Há quem entenda que quer a eleição do secretário-geral, quer o Congresso Nacional, devem ser feitos depois das eleições autárquicas, para não haver qualquer tipo de perturbação a um processo que já está em elevada velocidade. Há quem entenda que se pode eventualmente fazer tudo isso num curto espaço de tempo e antes mesmo das eleições autárquicas.
E é por isso que lhe queria perguntar.
Há uma solução ainda híbrida.
Diga.
Que é eleger já o secretário-geral, deixando o Congresso para depois das eleições autárquicas.
Então Mariana Vieira da Silva não fez bem em travar os ímpetos de José Luís Carneiro?
Não fez bem por quê?
Estou lhe a perguntar. Se está a falar numa eleição já do secretário-geral, é isso que José Luís Carneiro quer.
Não, o que eu estava a dizer é que conheço pelo menos estas três correntes de pensamento.
Qual é que é a sua?
Tudo para antes das autárquicas, eventualmente esta solução. Eu confesso-lhe que simpatizo mais com a ideia de tudo para depois das autárquicas, mas não me choca que possa haver eleição do secretário-geral já. Acho que eleição do secretário-geral e congresso, nesta fase, conhecendo o partido e as dinâmicas que se criam nesta altura, acredito que isso possa não dar o tempo muito suficiente de distância entre o momento, que será importantíssimo. Quando falamos do Partido Socialista e da sua implantação autárquica, estamos a falar do partido que mais municípios, mais freguesias gere no nosso país.
Mas tem uma preferência, João Paulo Rebelo? De algum nome para liderar já o PS?
Não, isso ainda não tenho, mas por norma não fico em cima da ponte, como se costuma dizer. E portanto, milito num partido e tomo partido, ou seja, por norma escolho. Agora, acho que também é sabido, o próprio presidente do Partido Socialista, julgo que já terá feito declarações públicas nesse sentido, aguarda que mais intenções se possam manifestar. Há uma do nosso camarada José Luís Carneiro, que tendo sido candidato nas últimas eleições e tendo obtido um score eleitoral, que eu já ouvi dizer isto, que o obriga praticamente a ir novamente a jogo. Não me choca nada, mas há outros camaradas que também, tanto quanto sei, estão eventualmente a reflectir numa possibilidade de o fazer.
Para uma resposta muitíssimo breve, porque o nosso tempo já acabou, que sentido de voto deve o PS ter perante a moção de rejeição ao programa do Governo, que já foi aliás pré-enunciada pelo PCP?
É pena não termos muito tempo para isso.
Não temos.
Tinha uma posição ano passado já muito particular. Eu acho que evidentemente na questão do programa de Governo não vejo qualquer sentido em o Partido Socialista estar a obstaculizar a constituição do Governo. Na questão do orçamento, sou daqueles que acha que há claramente uma tendência política esmagadora, bem maioritária no nosso país, e portanto não compreendo bem porque é que se há de olhar para o Partido Socialista nesta altura. Acho que isso seria um prejuízo para a nossa democracia se estivéssemos a deslocar o pêndulo do centro, que normalmente, tradicionalmente na nossa democracia está entre o PS e o PSD, podemos correr o risco de o deslocar para o PSD e partidos mais à sua direita. Acho pessoalmente que isso não é bom para a nossa democracia.
Muito obrigada, João Paulo Rebelo, pelas posições que defendeu aqui e boa sorte também para o futuro agora com esta pausa, não sei se será uma pausa na política.
Deus dirá, como costuma o meu povo dizer. Muito obrigado.
Muito obrigada, até à próxima.
Obrigado, boa tarde.