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Semana marcada pela conjugação de candidatos e protocandidatos a Belém no mesmo espaço em apenas dois dias, na convenção Pensar Portugal, da SEDES, em Lisboa. Por lá passaram Luís Marques Mendes, António José Seguro e Mariana Leitão ontem. Hoje, Henrique Gouveia e Melo e António Vitorino. Convidámos para este explicador o socialista Eduardo Marçal Grilo, que além de ministro da Educação, foi mandatário da candidatura de Maria de Belém em 2016.

Boa tarde, Eduardo Marçal Grilo. Começava por lhe perguntar, até porque como dizia a Vanessa, esteve envolvido numa campanha presidencial aqui há uns anos atrás, que não teve muito bons resultados. Agora, à distância, acha que as coisas poderiam ter sido diferentes se, como está a acontecer agora, o alinhamento dos candidatos tivesse ocorrido mais cedo?

Muito boa tarde, Raquel. Em primeiro lugar, queria fazer uma correção: eu não sou socialista. Não pertenço ao Partido Socialista, sou independente.

Independente.

Desde 1981. Portanto, já há muitos anos. Respondendo à sua pergunta, as circunstâncias são muito diferentes daquelas que ocorreram na primeira eleição do professor Marcelo Rebelo de Sousa e em que eu fui mandatário da Maria de Belém. Hoje vivemos um momento muito diferente, o mundo está muito diferente, o país está muito diferente. Os desafios que temos pela frente não têm nada a ver com o que se passava em 2015, quando foram as eleições. E, portanto, o contexto é completamente diferente.

E acha que é esse contexto diferente que justifica, no fundo, este debate tão precoce em torno das presidenciais?

Eu acho que este debate tão precoce, Raquel, tem a ver com o aparecimento do senhor almirante.

Deixa o país nervoso. O país político.

Sim, nervoso e um pouco inquieto, porque eu acho que os políticos estão um bocado inquietos com isto, porque é uma situação muito diferente daquela que existiu anteriormente. Não há nenhum caso destes nas eleições presidenciais em Portugal, porque a seguir ao general Spínola veio o doutor Mário Soares, depois veio o doutor Jorge Sampaio, depois veio o professor Cavaco Silva, depois o professor Marcelo. Tudo isto foi muito natural. As coisas processaram-se de uma forma muito natural, embora na eleição do Jorge Sampaio, na qual eu estive envolvido, o Jorge Sampaio também surpreendeu um bocadinho na altura o partido. Eu estava no governo nessa altura, quando ele apresentou a sua candidatura e ele surpreendeu um bocadinho, porque avançou.

Foi para mercado de rendimento.

Independente, e fez muito bem. Eu fui um dos primeiros a incitá-lo a candidatar-se. Eu, que era um independente, eu disse que o Acho que o Jorge se deve candidatar. E ele candidatou-se. Aliás, mais tarde veio a dizer que eu tinha sido a primeira pessoa a sugerir que ele deveria ser candidato à Presidência da República e em boa hora o fez, porque fez dois excelentes mandatos naquela altura. Hoje em dia, a situação é muito diferente. O almirante aparece como uma espécie de um outsider. É uma pessoa que se impôs na sociedade portuguesa por força de um fenômeno, que foi o da pandemia e do processo de vacinação, em que ele teve um papel muito relevante, tornou-se uma figura nacional, tornou-se uma figura muito reconhecida, e que nós estamos todos muito reconhecidos. E depois começou-se a falar dele para presidente da República.

E do percurso que Gouveia e Melo tem e também daquilo que publicamente já vem falando, e até o artigo que escreveu na semana passada no Expresso, podem conferir-lhe características que um presidente da República deve ter.

Eu acho que o artigo não adianta nem atrasa. O artigo é um artigo feito em papel milimétrico. É um artigo em que ele se coloca no que ele julga que é o sítio certo pra poder ter um eleitorado moderado, alargado, comendo, permita o termo, comendo nos eleitores tradicionais do Partido Socialista, dos tradicionais do Partido Social Democrata, portanto, uma coisa muito centrista, muito ali no centro, rejeitando muito as posições radicais e mais extremadas. Agora o artigo em si, sinceramente, eu li o artigo e percebi que é um conjunto de lugares comuns. Não há ali nenhuma novidade, verdadeiramente, não há ali nada que seja inovador na área da política. É um bocadinho um conjunto de frases feitas umas a seguir a outras.

Professor Marçal Grilo, mas não acha que esta candidatura, no fundo, surge porque há um vazio de pessoas no cenário político português capazes de se imporem como candidatos naturais? Não acha que é isso que está a acontecer?

É verdade. E há outra coisa: para além disso, há um desgaste muito grande dos dois grandes partidos, o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata. Quer um, quer outro, são dois partidos que estão muito desgastados na opinião pública. Quando se fala em partidos, é sobretudo nestes dois que se referem, são os partidos do governo, são os partidos que têm conduzido o país praticamente desde que a democracia foi restaurada em 75, 76, com a Constituição. Eu não os chamaria propriamente de mofalhados, mas esta imagem que os dois grandes partidos hoje têm, esta imagem menos positiva que eles têm, é muito responsável pelo aparecimento de uma figura com estas características.

E do seu ponto de vista, nem Marques Mendes, nem António José Seguro têm o perfil que os portugueses possam reconhecer para virem a ser presidentes da República?

Ricardo, eu acho que um presidente da República, no contexto internacional em que nós hoje estamos, que é um contexto muito delicado, muito sensível e em que se correm muitos riscos. A Europa está numa situação complexa, esta situação nos Estados Unidos está a baralhar um pouco as mentes aqui na União Europeia e no próprio Reino Unido. Tudo isto está muito a mexer. Ou seja, nós precisamos de um presidente que tenha uma capacidade de representação externa muito boa, muito grande, e que seja uma pessoa que internacionalmente seja conhecida, que seja respeitada, que seja credível. Isso parece-me um ponto importante. Não sei se o almirante tem. Acho que o doutor Marques Mendes e o José António, o António José Seguro, são pessoas muito respeitáveis, muito simpáticas e agradáveis que eu conheço.

Mas não têm essas características.

Parece que não têm.

Carreira internacional tem António Vitorino.

Sim, quer dizer, se ele for candidato. A gente não sabe se ele é candidato, se não é candidato.

Sim, hoje disse que está à beira de tomar uma decisão. Continua sem desfazer o tabu. Mas seria o seu candidato, neste caso, no sentido de exclusão de partes, pelo menos?

Não, eu tive um candidato aqui uns tempos atrás.

Mário Centeno.

Eu tinha pelo Mário Centeno e tenho por Mário Centeno uma enorme consideração e até tenho uma amizade pessoal e um relacionamento próximo, mas ele decidiu não ser candidato e eu respeito muito a sua decisão. E respeito, porque também olho para ele, é sensivelmente da idade dos meus filhos. E eu percebo que é um jovem. Tem 50 e tal anos, portanto, é uma pessoa muito nova, tem uma vida à sua frente, é um técnico de alta qualidade, é um homem com uma experiência política que ganhou nos últimos tempos, que lhe deu um gabarito e uma dimensão nacional e internacional muito grande e, portanto, ele terá tempo para ser aquilo que, não é bem aquilo que quiser, mas poderá aspirar a ser aquilo que ele gostaria de verdadeiramente ser. Não sei se é ser presidente.

Por exemplo?

Se é ser primeiro-ministro. Oscilará entre uma coisa e outra. O António Vitorino é diferente. O António Vitorino é uma pessoa que eu conheço muito bem. Aliás, tive com ele no governo.

Foi seu colega de governo.

Foi meu colega de governo. É um homem extremamente inteligente, com uma argúcia enorme, com um prestígio externo imenso. Fez um lugar como comissário europeu de grande qualidade. É um homem que quando intervém, coloca o debate num patamar muito acima da média em Portugal. O debate em Portugal, aliás, eu peço desculpa de o dizer, mas o debate de política em Portugal é muito baixo, é muito fraquinho, é muito pouco entusiasmante. Eu vejo muito pouca televisão. Na semana passada, decidi, para minha formação, ver aquela moção de censura, aquele debate da moção de censura que foi na quinta-feira, não me recordo. E fiquei desolado. Sinceramente, fiquei desolado em ver o nível a que se debate neste momento no Parlamento, uma questão tão importante como é uma moção de censura ao governo, com a intenção de deitar o governo abaixo. Certamente, seria essa a intenção. E obviamente que fiquei muito desiludido com a qualidade do debate. Mas independentemente disso, e falando do António Vitorino, eu não sei o que ele disse hoje, não faço ideia nenhuma o que ele disse

Só que está ainda a ponderar. Está à beira de tomar uma decisão e que tem um calendário que ele próprio define.

Eu acho que ele tem todo o direito para fazer isso. Por que apressar as candidaturas agora? Qual é a razão?

Mas tendo em conta que tudo se precipitou e até esta semana está a ser a prova disso, cinco candidatos ou protocandidatos passaram pela Faculdade de Direito de Lisboa esta semana, no mesmo evento. Não pode estar eventualmente Vitorino a perder o timing, tendo em conta toda esta antecipação?

Não pode perder o timing, porque as eleições são só daqui por um ano. Há imenso tempo para fazer. O que vai acontecer até lá? Porque até a eleição presidencial muita coisa vai ocorrer pelo mundo. Eu não estou preocupado com o que se passa aqui, estou preocupado é com o que se passa no mundo. Estou preocupado com o que é que vai passar nesta negociação da Ucrânia. Estou muito preocupado com o que se passa no Medio Oriente. Estou muito preocupado com o que se passa no Sudeste Asiático e concretamente em relação à China com Taiwan. Estou muitíssimo preocupado com o que se passa dentro dos Estados Unidos e com a forma como os Estados Unidos estão a alterar, de forma parece radical, o seu posicionamento em relação à Europa, em relação à Rússia, em relação à República Popular da China. Vai acontecer imensa coisa.

Mas por isso mesmo, talvez seja essa a razão pela qual as eleições presidenciais estão a ter uma atenção maior do que o que seria esperado, porque é o chefe de Estado e como dizia há pouco, é alguém que vai ter que saber dominar muito bem esses assuntos. No caso de António Vitorino querer avançar, a questão é: ele está afastado da política há tanto tempo. Não acha que enquanto o almirante Gouveia e Melo pode gerir um pouco o seu calendário, porque todas as pessoas o conhecem, aqui o tema é se for para ser António Vitorino, talvez fizesse sentido avançar mais cedo.

Não sou capaz de fazer esse racional. Eu acho que o António Vitorino é suficientemente conhecido.

Acha que ele é conhecido ainda dos portugueses?

É conhecido dos portugueses e rapidamente se faz conhecer. Quem não se recorda dele, rapidamente o vai reconhecer, se ele decidir, obviamente, não faço ideia nenhuma, se ele vai ou não vai decidir avançar para a candidatura. Mas eu acho que ele não perderá nada por já ter anunciado a sua candidatura. Não parece que seja esse o grande problema. Esta coisa de ser comentador e as pessoas agora aparecem todas como comentadoras. Há comentadores, comentadoras e mais comentadoras, comentadores. Aliás, eu suponho que o António José Seguro, eu nunca vi, mas o António José Seguro tem um programa, tem um comentário algum num dos canais. Eu não sei qual é, porque eu vejo muito pouco. Ele também precisou de ir para a televisão para se mostrar, as pessoas já não se lembravam muito bem dele, porque ele está praticamente há 10 anos, desde 2013 ou 2014, já não me recordo, que ele tinha estado retirado, sem nenhuma intervenção. E, portanto, agora na televisão vai mostrar e vai com certeza fazer muitos comentários sobre muitas coisas nacionais e internacionais, umas que ele dominará, outras que não dominará e que alguém lhe dirá o que é que ele deve dizer. Enfim, essas coisas clássicas que acontecem com os comentadores, porque devemos ser dos países que neste momento tem mais comentadores por metro quadrado.

Sendo que António Vitorino não é comentador, ou pelo menos ainda não é. Tendo em conta que há pouco até disse que quem não reconhecer António Vitorino facilmente reconhecerá, até pela capacidade que tem de colocar esse debate num patamar mais elevado, acima da média em Portugal. Num cenário de segunda volta nas presidenciais, António Vitorino teria capacidade para vencer Gouveia e Melo, Eduardo Marçal Grilo?

Acho que sim. Acho que teria mesmo todas as condições, pelo seu posicionamento e sobretudo pela qualidade das suas intervenções, porque o António Vitorino tem uma experiência política, uma cultura política e uma cultura em termos genéricos e uma experiência internacional, que é aquilo que mais conta neste momento. Eu percebo que o almirante seja muito conhecido porque teve um papel decisivo e determinante, enfim, para nós todos. Mas, no fundo, a sua internacionalização, à parte o facto de ter sido chefe de Estado-Maior da Armada e ter comandado unidades da Marinha, internacionalmente, não sei qual é a experiência dele. Certamente tem uma boa relação com a Pfizer e com a AstraZeneca, que eram as empresas das vacinas. Não sei se é uma pessoa muito conhecida a nível de Bruxelas, a nível dos centros de decisão e dos centros de reflexão que existem pela Europa fora. Não sei se Se tem, se não tem, não faço ideia nenhuma. Não sei. É com certeza uma pessoa que respeitava. Eu nunca falei com o almirante, estou à vontade com o senhor almirante, estou à vontade pra dizer isso. É com certeza um homem comum. Eu não estou a pôr isso em causa, é com certeza um homem comum. Uma pessoa que tem a vida que ele teve, com certeza, que viajou, conhece. Agora, se tem verdadeiramente aquele casco de conhecimentos, de experiência e de relacionamento que tem o António Vitorino, penso que não.

Professor Marçal Grilo, estamos mesmo a chegar ao fim do nosso tempo, mas queria lhe fazer ainda uma outra pergunta: e se no fim da sua reflexão, António Vitorino decidir que não é candidato, o Partido Socialista e a área socialista ficam órfãos? Ou vê mais alguém na área socialista que possa ser um candidato à altura?

Não vejo assim ninguém. Não vejo assim ninguém que queira avançar e que tenha este perfil que eu acho que um candidato deve ter. Não me parece que o doutor António José Seguro tenha esse perfil, não me parece que internacionalmente tenha o gabarito.

E Augusto Santos Silva teria?

Não, Augusto Santos Silva é diferente, é uma pessoa com um perfil muito diferente. Eu julgo que do que tenho lido, o professor Augusto Santos Silva nunca avançaria contra o António Vitorino. Agora, também lhe digo o seguinte: eu não excluo que o doutor Marques Mendes possa ter uma muito boa votação.

E pode ser o voto refúgio para muitos socialistas que não se revêm na candidatura de António José Seguro.

Poderá ser, porque o doutor Marques Mendes é uma pessoa muito conhecida, é uma pessoa inteligente, com uma grande experiência política, com uma capacidade de diálogo muito grande, é um homem muito simpático, é uma pessoa com um trato muito fácil e, portanto, uma segunda volta poderá ser entre eles. Ou então, na última vez que estive aqui com vocês na Rádio Observador, disse uma coisa que repito e com a qual terminei e com a qual termino esta: um desentendimento nas áreas do centro, propriamente do centro, estou falando dos dois grandes partidos, do PS e do PSD. Eu aliás escrevi um artigo há relativamente poucos dias no "Público", que se chamava "Lay an egg and eat the palm" em que defendia que o PS e o PSD deviam rapidamente pôr-se de acordo para resolver e para encontrar solução para alguns dos problemas que o país tem, e que são problemas sérios e de fundo. Mas na perspectiva de não se encontrar aqui alguém que concite uma parte significativa do eleitorado, eu não excluo que não possamos ter uma segunda volta entre o almirante e o doutor Ventura. E será uma situação muito delicada.

Cá estaremos também nos próximos meses, Eduardo Marçal Grilo, e até poderemos vir a contar também com a sua análise, tendo em conta os desenvolvimentos que aí virão. Estamos ainda cerca de um ano das presidenciais. Muito obrigada por esta entrevista e até à próxima.