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Entre vencedores e vencidos, a grande noite eleitoral autárquica confirmou algumas suspeitas, mas claro, também trouxe várias surpresas. Importa falar com alguns dos protagonistas destas eleições e ouvir as leituras que fazem dos resultados, Tito France.

E começamos a hora das 17h com o Luís Filipe Menezes, eleito presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Voltou a tirar os socialistas do poder depois de ter liderado a terceira maior autarquia do país entre 1997 e 2013. Durante esta hora ainda vamos conversar com Rita Matias, do Chega, e Pedro Costa, ex-autarca do PS em Lisboa. Mas agora damos as boas-vindas ao vencedor da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes. Bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Ficou satisfeito com os resultados ou ficou a faltar a maioria absoluta?

Primeiro, muito obrigado pelo convite. E já agora, deixe-me dizer-lhe que mais uma vez privilegio a Rádio Observador para ser o primeiro órgão de comunicação social a quem falo depois de qualquer evento mais relevante em que venho participar.

Muito obrigado pela confiança.

É porque os senhores merecem mesmo isso. Eu gosto de quem tem qualidade.

Agora podemos acabar aqui a entrevista.

Não, podem gravar e repetir.

Exato.

Não, à pergunta que me fizeram, não estou amplamente satisfeito, porque há outras variáveis que têm que ser apreciadas. Em primeiro lugar, tratava-se manifestamente de um combate muito difícil contra uma maioria que estava no poder há 12 anos e que, no fundo, a candidatura que se me opunha, na prática, mimetizava essa mesma maioria, porque era composta por quatro autarcas na variação dos primeiros lugares que ocuparam funções nos últimos 12 anos. Não sendo esse o meu gosto de estar sempre a repristinar defeitos do passado, a verdade é que esta maioria autárquica era talvez daquelas que durante toda a minha vida política eu vi mais agarrada ao poder, utilizando instrumentos do poder para o manter de uma forma implacável, fazendo milhões de euros de adjudicações nas últimas semanas, renovando contratos de funcionários e clientelas de uma forma prospetiva, pessoas nomeadas para outubro, novembro, dezembro, até algumas do próximo ano. Portanto, era uma batalha muito complexa.

Como é que acha que conseguiu? Qual acha que foi o-

Tive uma equipa muito boa, uma equipa de candidatos a presidente de junta fantástica. Eu ia lhe dizer, precisamente quando falava da maioria, que era preciso ter em linha de conta que há outras variáveis que são importantes. Nós em 24 freguesias, ganhámos em 16 freguesias. Ganhámos a Assembleia Municipal, isso significa termos uma maioria larguíssima na Assembleia Municipal, o que, por exemplo, como sabe, e quem tem seguido a política portuguesa dos últimos anos nas autarquias, por exemplo, o doutor Moedas, no mandato anterior, não tinha maioria na Câmara e tinha grandes dificuldades, uma minoria muito marcada na Assembleia Municipal.

E agora na Câmara, Luís Filipe Menezes vai ter o mesmo número de vereadores do Partido Socialista, são cinco. O Chega conseguiu um mandato. Há aqui uma hipótese de entendimento com o Chega para tentar desbloquear?

Como eu estava a dizer, o fato de haver uma ampla maioria na Assembleia Municipal altera um pouco os dados do jogo, a pressão que existe sobre a Câmara, porque a Assembleia Municipal, como sendo o último poder soberano, não há propriamente a impossibilidade de quase fazer aprovar tudo aquilo que se quiser na Assembleia Municipal, até pela própria iniciativa da maioria na Assembleia Municipal. No entanto, nós temos uma postura aberta. Já no passado me aconteceu sair de circunstâncias semelhantes e, portanto, nós iremos dialogar com os autarcas do Partido Socialista, com o autarca que foi eleito do Chega, que aliás, parece-me uma pessoa muito cordata e com um discurso muito construtivo.

Tem preferência então pelo Chega em relação ao Partido Socialista?

Não percebi, desculpe.

Pergunto-lhe se tem preferência pelo Chega.

Eu não tenho preferência por ninguém, mas eu tenho como metodologia dialogar com os dois partidos previamente. E, por outro lado, também tenho que ver outras questões que têm a ver com o facto de nós sermos maioria em 16 juntas de freguesia enormes, algumas delas maiores que conselhos de Portugal e, por outro lado, termos também naquelas que não vencemos, retirado a maioria absoluta ao próprio Partido Socialista, que precisa também de nós para governar essas juntas de freguesia. Portanto, é uma situação para quem tem a minha experiência política, não posso queixar nem arranjar desculpas de que vou fracassar por causa disso.

Luís Filipe Menezes, vou recorrer à sua experiência política para perceber também se faz alguma leitura nacional dos resultados de ontem, que acaba por ser uma boa vitória para o PSD, e apesar de tudo, o PS apesar de perder Não perde muito nestas eleições. Concorda com esta análise ou tem outra forma de ver os resultados?

Eu penso que é inequivocamente uma enorme vitória do PSD e penso também que o Partido Socialista não sai trucidado deste combate.

Isso pode ser útil para a governação do país, para os tempos que aí vêm?

Eu sou um defensor do diálogo construtivo com o Partido Socialista em matérias de Estado, mas não esquecendo que também o Chega é hoje o segundo partido com mais peso no Parlamento. Portanto, tem que haver aqui uma abertura grande por parte do governo e do primeiro-ministro. Contudo, os resultados eleitorais autárquicos foram para o PSD os melhores dos últimos 20 anos. E para mim é mais relevante até é que hoje quando falamos de capitais de distrito estamos a falar um bocadinho, aliás ontem a Ana comentou a relevar muito a questão das capitais de distrito. Quando estamos a falar das capitais de distrito estamos a mitificar a realidade. As capitais de distrito deixaram de ser aquilo que eram. Hoje há cidades e municípios muito mais importantes que algumas capitais de distrito.

Como é o caso de Gaia, por exemplo.

Já não falo disso. Gaia e Sintra, por exemplo, que são dois gigantes que têm áreas e número de habitantes muito superiores à cidade do Porto. Portanto, Gaia é quatro vezes a cidade do Porto em área e tem mais cento e tal mil habitantes e Sintra é exatamente a mesma coisa. Aliás, uma das reivindicações que nós iremos fazer é que uma lei das finanças locais completamente falhada possa ser ainda pontualmente revista durante a discussão do atual Orçamento de Estado, porque não é justo que Gaia tenha, por exemplo, por transmissão do orçamento anualmente, uma verba de cerca de 150 milhões de euros inferiores à cidade do Porto. Quando a cidade do Porto é uma cidade consolidada, é uma cidade pequena, é uma cidade que tem um décimo das áreas de circulação urbana, de mobilidade urbana que tem Vila Nova de Gaia, que tem menos da metade das escolas que tem Vila Nova de Gaia. Portanto, esta correção em relação a Gaia e a Sintra, que são os únicos municípios com mais de 300 mil habitantes, que toda esta realidade se alterou nos últimos 20 anos e portanto estar a mimetizar este quadro global que vem do tempo do doutor Salazar não faz nenhum sentido.

Muito obrigado, Luís Filipe Menezes, por ter estado aqui na Tarde Política do Observador, nesta primeira conversa depois de ter sido eleito e regressar à Câmara de Vila Nova de Gaia. Depois da síntese das 17h30, vamos poder conversar ainda nesta hora das 17h aqui na Rádio Observador com Pedro Costa, do Partido Socialista, e depois com Rita Matias, candidata pelo Chega a Sintra. É já a seguir à síntese.