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Está no ar o Explicador da Rádio Observador. Esta quinta-feira falamos sobre a falta de diversidade na escolha dos comentadores televisivos para analisarem a campanha eleitoral e por isso convidamos para estar conosco nas manhãs 360, Susana Rogeiro Nina, investigadora na área da comunicação política, e Gustavo Cardoso, coordenador do Media Lab do ISCTE. A moderação deste Explicador é feita pelo Paulo Ferreira.
Muito bom dia, obrigado a ambos pela disponibilidade para estarem conosco esta manhã.
Bom dia.
Bom dia.
O ponto de partida para este Explicador é precisamente o estudo do Media Lab do ISCTE, que nos diz, num título, se quisermos, que as televisões têm maioria de comentadores de direita e em que as mulheres são apenas 24%. Gustavo Cardoso é coordenador precisamente do Media Lab e começava por lhe perguntar que resultados é que destaca deste estudo que está a ser divulgado agora.
O título podia ser totalmente oposto, podia ser maioria de esquerda e minoria de homens, e nós teríamos exatamente o mesmo problema. Mas isto é produto essencialmente de uma questão, é que nós não vemos todos os canais ao mesmo tempo, sejam da rádio, sejam da televisão, não vemos todos os jornais ao mesmo tempo e portanto, muitas vezes a nossa perceção é uma perceção repartida. O que o estudo faz, no fim de contas, é tentar colocar a questão: se conseguíssemos ver tudo, se conseguíssemos ler tudo aquilo que é regular, ou seja, as pessoas que têm uma presença semanal e fixa nos canais, nas rádios, na televisão e nos jornais, que visão seria essa? E aquilo que acontece em Portugal, como estávamos a falar, é que isto não é uma questão deste ano e portanto, é um ponto importante.
Aliás, o estudo não tem agora a sua primeira edição.
Não, já vem desde 2016, teve uma edição de 2016, outra em 2019, 2020, a pandemia, depois, portanto, voltou em 2022 e 2023. É importante dizer que o estudo é sempre relativo ao ano anterior. Nós não estamos a dizer que agora, neste momento, durante a campanha eleitoral, temos mais comentadores deste tipo ou daquele. Agora, a tendência que nós encontrámos ao longo dos anos, tirando o primeiro ano e depois em 2020, que houve uma aproximação entre esquerda e direita, é sempre mais comentadores com posicionamento político à direita versus menos à esquerda. Também é importante dizer que nesta contagem estão também pessoas que podem ou não ser jornalistas, que não têm um reconhecimento público em termos da sua conotação política. Por quê? Porque o estudo como é que é construído? O estudo, imaginando o Paulo ou eu, ou qualquer outra pessoa que está sentada frente à televisão, por exemplo, e que aparece uma mulher ou um homem a fazer comentário político. Nós não conhecemos essa pessoa, como é que nós sabemos quem é que ela é? Pesquisando na internet e portanto, aquilo que nós fazemos é simular exatamente a mesma coisa. O que nós encontramos sobre aquela pessoa? O que ela diz de ela própria? Diz que é liberal de esquerda, então portanto, esse é um posicionamento político à esquerda. Ela pode não dizer nada, mas pode ter trabalhado num gabinete de poder local, de um determinado partido, ou ter estado numa lista como independente, mas num partido. Tudo isso nos ajuda a posicionar e a fazer esta construção. Há também uma coisa importante, Paulo, só para dizer, é que há muito pouca visibilidade, em termos dos órgãos de comunicação social, por exemplo, dos perfis ou dos curricula dos próprios comentadores. Muitas vezes, é mesmo muito difícil conseguir perceber quem é aquela pessoa.
Isso tem, de facto, uma inclinação política mais para um lado ou mais para o outro, de alguma maneira, não é?
No fim de contas, seria dizer o que é aquela pessoa, o que ela fez. E portanto, isso muitas vezes não está sequer em lado nenhum das páginas dos órgãos de comunicação social.
Claro.
Eu acho que isso daria uma maior clareza.
Mais transparência.
Mais transparência a tudo isto.
Claro. Susana Rogeiro Nina, bom dia, bem-vinda também a este Explicador.
Bom dia, obrigada.
Podemos estar aqui a afunilar os pontos de vista no espaço público, de facto, independentemente das escolhas que podem nem ser propositadas, mas o resultado acaba por ser este, que foi descrito pelo Gustavo Cardoso.
Sim, obrigada pelo convite e queria antes de mais dar os parabéns ao Gustavo e ao Media Lab pelo relatório. Naturalmente ainda não consegui ler em profundidade, mas irei fazê-lo. Sobre o que me está a perguntar, sim, poderemos correr o risco de se estar a afunilar. Contudo, eu gostaria de deixar esta ressalva que esta tendência de haver mais comentadores de esquerda ou de direita não é apenas circunscrita ao comentário político. Se formos analisar os relatórios, por exemplo, da ERC, alguns estudos feitos sobre o paralelismo político-partidário em Portugal, verificamos que há uma tendência para um enviesamento das notícias contrário, consoante anti governo, nos órgãos de comunicação social, sobretudo na televisão. Portanto, não é um fenômeno que diga apenas respeito ao comentário político. Também acho que era importante tirar um bocadinho o peso sobre esta questão da esquerda e direita, dos comentadores políticos. Há vários fatores que temos que ter em conta. Temos que analisar, por exemplo, se os comentadores políticos que têm uma conotação política de esquerda ou de direita se apresentam como estando alinhados com o partido ou não estando alinhados, como se fossem os não alinhados. Isso pode ter um efeito de ter uma postura como se fosse uma correia de transmissão do partido e das posições definidas no Parlamento, por exemplo, ou então se for um comentador não alinhado com a posição do partido, poderá ter uma visão muito mais crítica, muito mais de um auto posicionamento face ao partido.
Ou seja, um crítico do partido pode até causar mais danos a esse partido do que um crítico de outra área política.
Exatamente, porque há esta conotação com o partido e apresenta-se como um crítico face ao partido. Também não é muito comum do que sabemos, do que se tem lido e também é visível no espaço mediático português este tipo de situações, mas têm acontecido pontualmente. Que tem vindo a acontecer. Outra questão relativamente a essa questão da esquerda-direita é que isso vai variando. Nós tivemos nos últimos oito anos uma predominância de comentadores mais alinhados à direita, porque durante os últimos oito anos tivemos um governo de esquerda. A tendência é quando muda o arco governativo, muda o posicionamento ideológico dos comentadores.
Portanto, há aqui um contrapeso de alguma maneira.
Exatamente. Eu quase que diria, mas não ideológico.
Claro!
Será uma coisa como se os meios de comunicação social procurassem conferir mais credibilidade e fazer contrapeso ao próprio governo.
Claro. Gustavo Cardoso, olhando para as várias edições, recorde-me há pouco que começou em 2016 a primeira.
Exato. Depois teve um intervalo em 2019, 2020, depois 2022 e esta última que se refere aos dados de 2023.
Claro, mas já temos aqui quase oito anos de distância com a primeira. Nota alguma evolução, num sentido positivo ou negativo, se quisermos, desde a primeira avaliação que fizeram? E que evolução é essa?
A mais positiva aconteceria se nós comparássemos 2016 com 2022, nós teríamos mais mulheres em 2022 no comentário político do que tínhamos em 2016. Mas desse ano de 2022 para o último ano, perdemos novamente. Eu concordo com os comentários também anteriores, mas eu acho que há aqui uma questão que nos deve preocupar, que é o seguinte: nós não buscamos o comentário para nos informarmos mais. Nós buscamos, nós enquanto público, esta pelo menos é a minha hipótese, nós buscamos o comentário essencialmente para confirmarmos visões que temos das coisas. Para sabermos aquilo que acontece, temos as notícias. E aqui o facto de nós termos também aumentado o número de comentadores no espaço televisivo, e aumentamos quase 50% ao longo destes anos, quer dizer também que nós fomos retirando espaço à dimensão factual da informação. O que é uma escolha editorial, obviamente, e tem também a ver com questões de gestão financeira e de emissão, etc. Mas o resultado final tem sido um aumento da opinião versus o espaço que estava concedido às notícias. Isso é uma tendência que eu acho que nos deve preocupar ou pelo menos questionar sobre se temos realmente a noção que estamos a fazer isso. E se achamos que ao fazer isso estamos a traduzir uma melhoria daquilo que é o espaço ocupado pela comunicação social. Depois, existem também outras questões, é que nós não conseguimos sair de uma espécie de armadilha que é: são muitas opiniões de pessoas formadas nas mesmas universidades, com profissões muito parecidas. O top cinco, praticamente, que tem a Universidade de Lisboa, a Universidade de Coimbra, Nova, a Universidade do Porto e o ISCTE, ocupam quase 80% das origens de formação. Ora, isto produz uma visão da realidade que é sempre que tem a ver com a cultura também, os espaços de formação, etc. E depois das profissões, porque só metade são jornalistas, advogados e juristas. Ou seja, o cidadão não encontra uma representação de si próprio naquelas pessoas. Pode encontrar nas ideias, mas não encontra naquilo que aquelas pessoas dizem sobre o cotidiano e sobre a vida do país. E para além disso, depois temos uma coisa que é: eu tenho 55 anos de idade e essa é a média da maior parte dos diferentes canais, em termos de comentadores, o que também carrega um peso, o que faz com que estejamos a ouvir pessoas que têm uma história de vida e pertencem a uma geração que não corresponde ao todo da sociedade portuguesa. Portanto, nós temos aqui uma série de questões que também só são possíveis de ser vistas quando nós olhamos em conjunto e não estamos preocupados se estamos a olhar para a CNN, ou para a RTP3, ou para a SIC Notícias, ou para a TVI, etc. A minha questão é perguntar a mim próprio, que é uma resposta para a qual eu não tenho pergunta, é se a responsabilidade editorial acaba por ter presente essas dimensões. E não nos podemos esquecer de uma outra coisa, que estes estudos são só sobre os comentadores que têm uma presença fixa.
Certo, não são aqueles que vão aparecendo de forma aleatória.
Como nós hoje caímos aqui para falar. Portanto, esses é ainda uma área desconhecida em termos do estudo e de compilação dessa informação, porque aí, como muitas vezes é a disponibilidade e não outro fator que traz as pessoas até à antena, a distorção ainda pode ser maior ou não, o ponto de interpretação.
E também mais difícil de estudar, imagino, porque não é um universo homogêneo ao longo do tempo.
Não.
Claro. Susana Rogeiro Nina, corremos o risco, de facto, de estar aqui perante uma bolha, pegando nestas palavras do Gustavo Cardoso, porque haverá uma falta de representatividade de quem comenta em espaço público com parcelas importantes da população. As mulheres, à partida, se quisermos, se calhar camadas mais jovens que não estão ali representadas. Será que isto faz tudo parte da tal bolha que envolve também a classe política, como é evidente, e que se desliga de alguma forma daquilo que podem ser os interesses médios do cidadão?
Sim, eu acredito que faz parte de uma bolha que liga o poder político com os media. Há bocadinho o Gustavo referia que as pessoas procuram o comentário não para se informarem, mas para reforçarem o que acreditam ou as acepções que têm sobre os desenvolvimentos políticos. Eu acho que é importante dizer que tanto um jornalista que faz comentário político, como um comentador político, têm ambos o mesmo objetivo, que é informar, que é definir a agenda. A questão é como faz de uma forma factual O jornalista e o comentador político faz através da sua opinião. Quando essas duas posições se fundem ou se confundem e não está bem claro onde começa o papel de um e acaba o papel do outro, isso cria algum ruído junto da opinião pública, sem perceber bem se o que está a ouvir é uma opinião, se é um facto. O crescente número de comentadores políticos nos meios de comunicação é um fenómeno bastante associado, por um lado, à redução de custos dos órgãos de comunicação social e, por outro, também há uma pressão por parte do período político. Sabemos que o aumento da profissionalização dos políticos e da política tem levado a que haja uma cada vez maior procura por parte desses atores para estarem presentes nos meios de comunicação social. Isto serve, por um lado, para reforçar o seu papel também junto do partido e para ajudar a que seja reintroduzida a sua presença mediática. Relativamente à questão que me dizia do pluralismo e da diversidade, preocupa-nos sobretudo a questão dos jovens e a questão da representatividade das mulheres. Relativamente às mulheres, o padrão que tem sido apresentado neste estudo não é muito diferente do panorama que nós assistimos na sociedade portuguesa, onde as desigualdades entre homens e mulheres ainda existem ao nível do desemprego e da remuneração. E podemos apontar sobretudo três fatores. Por exemplo, a sobrerepresentação em cargos sociais de poder, por exemplo, no qual se insere a política, a mulher está sobrerepresentada. Por exemplo, na Assembleia da República, os dados da Pordata diziam que em 2005 eram apenas 21% de mulheres, em 2015, 33% e em 2022, apenas 37%. Atualmente, verificamos também que não existe uma única mulher no prime time, no comentário político, no canal jornalista. Houve há uns anos, atualmente não existe. Além disso, por exemplo, estudos sobre os militantes dos partidos políticos também apontam para que apenas 25% sejam mulheres. O que eu quero dizer com isso? Que o posicionamento das mulheres em cargos sociais de poder, nomeadamente cargos associados à política, que faz uma correia de transmissão com o comentário político, são muito diminutos. Outro fator para explicar isso pode ser, por exemplo, a questão do discurso mediático. Nos anos 70, foi feita uma investigação que apontava que os mídia tendem a efetuar quase que uma aniquilação simbólica do papel da mulher quando a representam no espaço mediático e nas notícias, retratando de uma forma muito mais negativa do que os homens. Isso pode ser um fator de constrangimento da presença feminina. Além de que os estudos de gênero também dizem que o fato de haver mulheres poucas, mas muito qualificadas, quase que serve de um álibi para que não se introduzam mais mulheres. Isso cria a ideia de que aquele espaço de comentário político fica reduzido a um grupo alargado de homens e a um conjunto muito pequeno de mulheres com características que não representam a sociedade portuguesa no seu todo, altamente qualificadas, fazem parte da elite econômica, política, social.
Com acesso aos mídia, de alguma maneira, claro.
E com acesso privilegiadíssimo aos mídia. Os jovens, temos assistido ligeiramente, sobretudo no período de campanha, agora, pré-campanha, a uma instituição cada vez maior por parte dos jovens no comentário político, muitos deles que vêm de uma presença assídua nas redes sociais e depois fizeram a sua transição para os mídia mais tradicionais, de cabo e jornalistas. No entanto, as suas visões ainda ficam muito alinhadas à elite política dominante e às decisões editoriais dos órgãos de comunicação social, que muitas das vezes continuam a não representar o que os jovens pensam.
Muito bem. E mesmo para terminar, Gustavo Cardoso, assim telegraficamente, parece que estamos aqui perante uma pescadinha de rabo na boca, de facto. Como é que se quebra isto? Mais cuidado por parte dos editores, dos responsáveis editoriais?
Eu acho que é acima de tudo questionar o que se está a colocar em cima da mesa para oferecer ao público. Ou seja, é também a questão dos mídia conseguirem questionar quais são os seus públicos efetivamente, a quem é que querem chegar. Porque se estiverem muito para puxar para um lado ou para o outro a diversidade de formação, de idades, ideológica, etc, podem estar a alienar certa parte dos seus públicos. Há uma coisa que nós não falámos aqui, mas que se o Paulo me permite só
Trinta segundos, faz favor.
Nós fazemos uma comparação sempre entre os partidos na Assembleia e os partidos também em termos de um hemiciclo constituído por todos os meios de comunicação social. E nós temos claramente desvios em termos da representatividade. Nós tivemos durante muito tempo muito poucos deputados e depois desapareceram do CDS e continuamos a ter durante este período, quase oito comentadores nas televisões do CDS. Também tínhamos mais gente do Bloco de Esquerda do que aquilo que era a representatividade. Portanto, é sempre muito complicado gerir isto. Não temos ninguém do Chega, etc. E portanto, há que efetivamente haver um questionário editorial e pensar quem é o público, qual é que é a votação, como é que nós criamos aqui um determinado equilíbrio. Este estudo é apenas uma tentativa de dar mais uma base de informação para a decisão em termos editoriais, mas será sempre, em última análise, a escolha de cada um dos canais, e é bom que assim seja.
Claro, mas dar-nos essa base factual, já agora, é importante conhecer a realidade a partir da qual se tomam decisões. Muito obrigado, Gustavo Cardoso, Susana Rogério Nina, pela disponibilidade e pela presença neste Explicador. Bom dia, obrigado.
Bom dia.