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Está no ar o Explicador da Rádio Observador. Esta terça-feira sobre o novo podcast Plus, "O Misterioso Engenheiro Jardim". Para isso, nesta manhã são nossos convidados o ator Lourenço Ortigão, que narrou toda a série, Heber Marques e Joel Silva, dos HMB, autores da banda sonora original, e João Santos Duarte, o nosso editor de podcasts. Bom dia aos quatro. Muito obrigada por estarem conosco.
Bom dia.
Hoje temos casa cheia. O novo podcast Plus conta a história de Jorge Jardim, o empresário e agente secreto que tentou criar um país e foi pai de um clã de mulheres aventureiras, as irmãs Jardim. João, tudo bons ingredientes para mais um podcast Plus. Mas por que este título, "Quem é o Misterioso Engenheiro Jardim?"? Parecia assim um simples homem de negócios e, afinal.
Sim. Bom dia.
Bom dia.
Não existiriam falta de adjetivos para qualificar o Jorge Jardim. É um personagem, ainda hoje, e adjetivos de vários quadrantes, porque é muito polarizante.
Bons e maus.
Bons e maus, sim. É um personagem muito polarizador, que ainda hoje gera opiniões muito divergentes e muito conflituantes. O Jorge Jardim, para uma referência mais atual, como disseste, é o pai de Inês Jardim, de Carmo Jardim, Mitô Jardim, que foram sempre muito alvo nos últimos anos das revistas do social. Há um dos entrevistados no podcast que diz uma frase muito interessante, que é: "De resto, toda a vida do Jorge Jardim é um romance." E de fato há coisas na vida do Jardim que parecem quase ficção. Tudo aquilo parece saído de um filme. Quando eu estava a partir para a fase dos guiões, estava a pensar um pouco nisso e na construção da narrativa do personagem. Cheguei à conclusão que ele é, no fundo, uma espécie de mistura. E aliás, falei disso com o Heber, com o Joel e com os HMB, quando estávamos na parte de pensar a música. É uma espécie de mistura entre um Indiana Jones, um James Bond e um Lawrence da Arábia. Tem tudo um bocadinho desses personagens. Ele era um aventureiro e, aliás, como o Indiana Jones, ele nunca se separava de um chapéu, que era um chapéu indiano, um topim indiano, à Gandhi ou à Nero. Em cada missão que ele ia, levava sempre um chapéu, esse chapéu específico. As filhas dizem que ele era um fã incondicional do James Bond. Ele nunca tinha tempo para ir ao cinema, mas arranjava sempre tempo para ir ver um filme do Bond quando saía, e tentava imitá-lo nos gadgets e em tudo mais. E depois o Lawrence da Arábia, porque a dada altura, o Jardim é um homem que vai sentir-se entre dois mundos e que, de certa forma, acaba por adotar a perspectiva de um mundo que o adotou. Portanto, ele é alguém que se formou em agronomia, é alguém que muito cedo ganha destaque nos meandros governamentais do Estado Novo, nos anos 40. A certa altura, tem um conflito. Chega a subsecretário de Estado do Comércio e Indústria muito novo, foi o mais jovem governante na altura. Tem um conflito com o ministro da Economia, vai para Moçambique no início dos anos 50. E aí é que aparece este Jardim. O Jardim que acaba por ser uma espécie de agente secreto do governo, informal, que parte em todo tipo de missões para todo o mundo. E é Moçambique, de fato, que depois, mais para frente, o vai mudar, o vai transformar.
Lourenço Ortigão, bom dia.
Bom dia.
Bem-vindo também. Este é um desafio completamente diferente daquele que você está habituado, como ator.
Completamente.
Eu não estava à espera, sinceramente, de um desafio tão grande. Se calhar, fui um pouquinho inconsciente, e bem, quando comecei. Eu lembro que o primeiro dia que fiz aqui, nós estivemos alguns dias aqui para fazer a narração da história, e o primeiro dia foi, não vou dizer para o lixo, mas foi mesmo para eu apanhar o tom. Eu lembro que no final do primeiro dia dizia muito frustrado para o João: " ainda estamos aqui a meio." E ele disse: "Mas tudo o que fizeste, vais repetir."
Acontece sempre.
Isto é tudo só uma primeira passagem.
Mas depois aqueces os motores. Sim, e foi incrível, porque de fato é um desafio enorme. É um desafio enorme trabalhar só com a voz e contar uma história, ainda por cima, a história que é, que é tão interessante.
Já conhecia a história, Lourenço?
Não, eu tenho aqui alguma curiosidade. Quando fui convidado para fazer este podcast aqui com o Observador, soube sobre a história que era, mas não aprofundamos. E de repente percebi que a história tinha muito mais a ver comigo do que eu pensava. A minha mãe é natural de Moçambique.
Daí uma ligação já aqui especial, não é?
Exatamente. E então a nossa família, de alguma forma, também se cruzou com a família Jardim. As minhas pais, a minha mãe, neste caso, e as minhas avós conheciam o Jorge Jardim, as filhas, inclusive. Estiveram lá em casa, lá e cá. Eu à medida que vinha para cá e depois voltava para casa, conversava com a minha família e ia sabendo alguns insights, algumas coisas que não trouxe para cá.
Trouxe informações novas, João? O Lourenço Ortigão trouxe alguma coisa nova?
Sim, é interessante. Nós também desconhecíamos isto, mas ficamos muito felizes quando soubemos, porque nós gostamos destas coincidências, como vocês sabem. E é engraçado, há uma outra coincidência muito interessante, é que a nossa sonoplasta, que fez este projeto, a Mariana Sousa Aguiar, a família dela também é de Moçambique. Então foi aqui um pequeno...
Não fazes nada por acaso, João.
Exato.
Sim, então mergulhei na história de outra forma e por isso deu-me um prazer enorme fazer isto. Já ouvi o primeiro episódio, que já saiu.
E o que é que sente quando ouve a sua voz a narrar um podcast Plus como este?
É diferente.
É, não é? Tudo diferente.
É realmente diferente, não estou habituado. Eu cheguei aqui de manhã e disse logo ao João: "Eu sou péssimo
Maior crítico de mim próprio. O que eu sinto? Eu sinto que quando estou a narrar esta história, não sou eu próprio. Eu estou como narrador, mas também consigo estar como ouvinte e ouvir a história como se fosse a primeira vez, o que é incrível. E por isso estou curioso todas as semanas para que saia um episódio novo, porque eu próprio quero ouvir, porque com a sonoplastia, com a edição toda, fica outra coisa completamente diferente.
E quando nós temos também o Héber Marques e o Joel Silva dos HMB e pela primeira vez temos um grupo a assinar a música original de um podcast do "Plus". Como é que receberam este convite? O João já deu ali algumas dicas também de possíveis pistas de influências para a banda sonora. Tiveram isso em conta? Como é que foi todo esse processo?
Se calhar vou pôr aqui a musiquinha de fundo, só aqui para animar.
Primeiro foi a surpresa, como é óbvio. Eu achava que tinha ouvido a primeira série feita, eu achei que tinha sido o Piratinha do Ar, que foi uma que eu ouvi.
Não é a primeira pessoa a dizer isso, mas foi o sargento na cela sete.
Então quando o convite veio: "Ipe, pois isto é por causa do Piratinha do Ar". Fiquei muito entusiasmado, como é óbvio, em fazer parte de um projeto como este. E nem sequer pensámos: "Ok, depois na prática, como é que vai ser a música?" Para mim era um sim óbvio. Joel, tens alguma coisa a acrescentar?
Sim, foi isso. Depois, como o João estava a dizer, começou a dar-nos algum insight acerca da história do Jorge Jardim, que para mim foi totalmente novo. Não conhecia, não estava a par. E depois foi muito engraçado, porque para nós a música até fluiu bastante rapidamente. O João passou, nós começámos logo a imaginar, o Héber estava com o baixo na mão. Eu lembro-me perfeitamente, eu estava a ler um bocadinho do texto que o João tinha mandado, o primeiro episódio, estávamos lá no estúdio, eu estava a ler e o Héber começa a fazer a linha de baixo.
Ele não estava a ler tão bem como tu.
Não, esquece. Tanto que eu acho que estava a dificultar o processo criativo, se calhar.
Como tu neste caso foi pôr algo prático.
Mas estávamos a ler e o Héber pega no baixo e começa a fazer a linha de baixo que está na música.
Mas como é que vocês se inspiram? Onde é que vão buscar esta sonoridade?
Bem, essa pergunta é difícil, porque até para as músicas não é uma resposta tão óbvia.
É uma coisa que se sente à medida que estás a ler o guião?
Sim, eu acho que tem a ver com isso. Há alguma coisa que puxa um gatilho. Acho que foi uma mistura do que eu estava a ler, daquilo que já pairava no imaginário, etc, que com o som do baixo, uma coisa que eu percebi, que como a história se passava em África, eu sabia que o groove, a coisa rítmica tinha que ter logo uma africanidade muito explícita.
E está cá, nota-se ali.
Sim. Então eu comecei a fazer qualquer coisa logo com esse ADN.
Vocês fundaram os HMB em 2007. Alguma vez tinham feito alguma coisa destes géneros?
Nós já tínhamos feito uma banda sonora em que musicamos todas as personagens para uma série de televisão e também já tínhamos feito um genérico.
Um genérico? Sim, tens razão.
Passam muitos anos, até já se esquece.
E já tínhamos feito. Oi?
Estás a ser atacado pelo microfone.
Mas efetivamente é uma coisa que nos dá muito prazer. E volto ao briefing, eu lembro-me sempre do que o João disse, esta questão de África, do James Bond, do Indiana Jones. Foi muito fácil desta vez entrar direto no que era a história. Ok, James Bond, Indiana Jones, África. Então aquilo foi um processo rápido, o processo da criação inicial, eu diria que foi uma questão de poucas horas, que a gente tinha uma base feita. Bem, depende. O Héber às vezes em minutos faz músicas, outras vezes pode demorar semanas, mas este foi mesmo um processo rápido.
E tem os ingredientes do mistério.
Exato, este lado de mistério.
Acertaram logo, João?
Foi quase.
Foi um processo.
É sempre quase.
Mas eu lembro-me, uma das coisas que falámos e que eu lhes disse foi: podemos pôr mais imprevisibilidade. Ou seja, estamos a falar de uma personagem muito imprevisível. Há situações até meio de loucura, nas coisas que ele faz e eles acrescentaram depois esses elementos na música e acho que ficou muito interessante no final.
Disseste há pouco que tinhas falado com as irmãs Jardim, as filhas.
Não todas, porque são muitas.
E com quem mais conversaste para tentar reconstituir toda esta vida de Jorge Jardim?
Sim, nós falámos das irmãs, falámos com a Carmo Jardim e com a Patucha Jardim, que é a irmã mais velha, mas depois eu penso que tive muita sorte, porque foi possível falar com pessoas muito diferentes e que no fundo nos ajudou a fazer um retrato das várias dimensões da vida do Jorge Jardim. Por exemplo, falámos com o filho do cantor João Maria Tudela, que se calhar um público mais novo já não se recorda, mas foi na altura um começo em Moçambique.
Era o Kanimambo.
O Kanimambo, exatamente.
Sim, nos anos 60, grande sucesso.
Que foi um dos agentes da rede do Jorge Jardim, foi muito próximo de Jorge Jardim. Falámos com uma Miss Portugal e Moçambique em 1973, porque o Jorge Jardim promoveu concursos de Miss em Moçambique. E aliás, os concursos de Miss faziam parte também de um plano dele, a dada altura, depois ali no início dos anos 70, de promoção de Moçambique.
Isso é mesmo Bond Girls.
É, exato, lá está. É um bocadinho por aí. Não a Íris, a Miss com que nós falámos, mas há outros casos de Misses que participaram mesmo em ações secretas. Portanto, é um bocadinho por aí. E, Lourenço, agora pegando também nisto que o João estava a dizer, o que o surpreendeu mais nesta história? Já disse que percebeu que sabia até um pouco mais e podia saber pelas ligações familiares, mas o que o surpreendeu?
O grau de imprevisibilidade do desenrolar da história, porque como o João estava a dizer, e bem, a história dá tantas voltas da vida dele que parece mesmo um filme de ficção. E o fato de ser uma história oculta, portanto, muitas pessoas não sabem da existência de Jorge Jardim ou pelo menos da importância que ele teve.
E os pormenores, muito poucas pessoas saberão.
Exatamente. Muito poucas pessoas saberão. E o poder que ele teve na altura, o poder dentro do poder, nós falamos disso. O poder dentro do poder, que a dada altura, não quero estar aqui a desvendar.
Atenção.
Mas esse poder dentro do poder também cria anticorpos. Porque os tempos avançam, há outras pessoas que ganham poder e que de repente podem não encarar este poder oculto do Jorge Jardim como uma coisa assim tão boa. E é muito interessante ver essa história de vida, esse caminho que tem altos e baixos e tantas vezes que esteve perto de um final trágico e que conseguiu sobreviver, como o Indiana Jones.
Num tropeço escapa sempre.
Num tropeço. Acho que daria um filme incrível.
Estava aqui a ouvir o Lourenço e a pensar: isto dá vontade de transpor isto para outro meio.
Acho que sim. Eu acho que isto dá um filme incrível e audível. E temos a sorte de ter ainda muitas pessoas aqui testemunhas da história de vida dele, que podem, assim como aqui para este podcast, para um filme, também podem testemunhar outros capítulos. Eu, como eu estava a dizer, fui sabendo outras informações que não posso desvendar aqui, porque não me deixam, mas fui sabendo e comentava com a minha avó: "Olha, estou a fazer o Jorge Jardim". "Ah, pois, ele até fez isto, isto e isto e aquilo". Isso não está lá na história.
Estou sempre cá a mandar uma mensagem ao João.
Há muito para puxar ainda nessa história.
E em relação às Misses também. A história das Misses fez-me logo pensar noutra coisa, se calhar vamos ligar aqui, porque a história das Misses depois fez parte do campo pessoal do Jorge Jardim. Mais tarde, depois da morte da Teresa, da mulher. Mas é isso, realmente tem muitos contornos. Aqui em seis episódios nós podemos contar vários episódios incríveis da vida de Jorge Jardim, mas daria para muito mais, eu acho.
Claro, e fica já aqui então essa pontinha de ideia para o futuro. Estamos quase a chegar ao fim deste nosso Explicador. Héber, como é que é o processo? Já percebemos há pouco que vocês pegam no baixo e sai logo ali qualquer coisa.
Não é sempre assim.
Não, eu sei. Mas ao longo do podcast, vocês foram escrevendo a música de acordo com o tipo de cena que aparece no podcast, conforme é mais misteriosa ou não?
Quando compusemos, fomos tentando ter sempre presente os elementos. A tal imprevisibilidade que o João falava, a tal aventura que a personagem de Jorge Jardim tem. E pronto, era isso. Era a imprevisibilidade, a aventura e África. A minha preocupação era essa. Esta era a minha base. E depois, como o João estava a dizer, fizemos um grosso e depois fomos calibrando com a equipa, por aqui mais umas coisinhas, etc.
Joel, e depois ajustam com a voz, neste caso já do Lourenço Ortigão, vão ajustando a música?
Ou a voz é que se ajusta à música.
Ou a voz é que se ajusta de alguma maneira, como é que é o processo?
Não sei. Ou seja, o João era aqui o nosso ponta de lança, que era isso, como o Héber estava a dizer, nós tínhamos a base, depois o João ia dizer: "Olha, aqui precisamos que haja uns momentos mais de release da música aqui, se pudessem criar alguma base com mais suspense". Depois foi tudo trabalho de sonoplastia.
O João é o chefe, vocês fornecem os ingredientes.
Aliás, nós ainda não ouvimos um episódio completo. Para nós a história ainda é... O João mandou os scripts, mas nós queríamos ouvir. Portanto, ainda só ouvimos um trecho de três ou quatro minutos.
A partir de hoje têm muito a ouvir.
A sonoplastia depois faz a magia final, junta os ingredientes todos.
Joel Silva, Héber Marques, Lourenço Ortigão, João Santos Duarte, muito obrigada por terem estado conosco neste Explicador. O Misterioso Engenheiro Jardim é o novo podcast Plano. O primeiro episódio já está disponível. Se for assinante do Observador, tem acesso antecipado à série completa, que também já está disponível no nosso site.