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Está no ar o Explicador da Rádio Observador. Esta segunda-feira fazemos a análise aos candidatos e também às sondagens para as eleições presidenciais e por isso convidámos para estarem conosco nas manhãs 360, Pedro Lomba, do PSD, e Pedro Silva Pereira, do PS. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.

Muito bom dia, bem-vindos ao Explicador. Esta é uma semana clarificadora na corrida a Belém. Ontem a Iniciativa Liberal anunciou que Mariana Leitão é a sua escolha. Marques Mendes vai esta quinta-feira formalizar a sua candidatura e no sábado o Partido Socialista vai decidir alguma coisa, não se sabe o quê, em Comissão Nacional, numa altura em que uma parte do partido suspira por António Vitorino. Pedro Silva Pereira, começando precisamente por si e pela situação do PS, o PS ainda consegue, acha, resolver esta questão das presidenciais sem deixar fraturas internas demasiado expostas?

Muito bom dia a todos. Bom dia também ao Pedro Lomba. Eu creio que esta escolha que o Partido Socialista tem que fazer está a revelar-se uma escolha difícil, talvez até um pouco traumática no interior do Partido Socialista, mas eu acredito que o Partido Socialista vai ter o bom senso de se apresentar nestas eleições presidenciais com uma solução que lhe permita pelo menos passar à segunda volta, porque creio que é o primeiro grande objetivo que quer os candidatos do Partido Socialista, quer os candidatos do PSD, o doutor Marques Mendes, têm que enfrentar. O que as sondagens nos dizem neste momento é que o almirante, muito provável candidato, Gouveia e Melo, será um candidato que parte com considerável vantagem, que André Ventura consegue segurar o seu eleitorado e que os candidatos, quer na área do PSD, Marques Mendes, quer na área do PS, seja António Vitorino ou seja António José Seguro, estão com dificuldade em fixar o eleitorado do seu próprio partido. Ora, uma divisão na área do PS, e acho mesmo até uma divisão na área da esquerda, é o caminho mais curto pra derrota eleitoral. E para a esquerda, o desafio é mesmo esse. Para a esquerda pode não haver segunda volta, se não houver o bom senso de construir uma solução unitária.

Pedro Lomba, bom dia, bem-vindo também a este Explicador. Concorda que para o PSD também o objetivo será colocar, neste caso, Marques Mendes na segunda volta, dada a vantagem que as sondagens atribuem a Gouveia e Melo?

Sim, e cumprimento em primeiro lugar o Pedro Silva Pereira. Para o PSD era crucial, parece-me, apresentar um candidato unido, antecipando-se até a esta divisão que nós estamos a ver, estas fissuras demasiado expostas que estamos a ver do lado do PS. Isto não significa que à direita não haja a sua fragmentação, porque nós sabemos que Ventura se apresentou e sabemos que a Iniciativa Liberal também vai apresentar o seu próprio candidato. E portanto, o espaço à direita também é um espaço dividido. O facto de Marques Mendes se ter antecipado, cumprindo um trajeto que me parece que já estava a ser preparado há muito tempo e só precisava que ele verdadeiramente esclarecesse, é positivo para o PSD e de facto tem razão, a segunda volta é absolutamente crítica, porque nada é neste momento, nada está garantido. Enfim, não é a primeira vez que numas eleições presidenciais há um candidato que parte com considerável vantagem. Não quero fazer nenhum paralelo descabido, mas em 1986 tivemos uma situação em que as sondagens davam Diogo Freitas do Amaral muito à frente de todos os outros candidatos. É verdade que nessa altura não havia divisão à direita, mas havia divisão à esquerda, por acaso. E, portanto, as sondagens são sempre o que são. Agora, do lado de Marques Mendes, aquilo que me parece que vai ser também decisivo é qual é o discurso que Marques Mendes vai ter para estas eleições e, em particular, contra Gouveia e Melo. E esse é um aspecto que eu acho absolutamente vital, porque nós sabemos que há eleitorado do PSD que também está a ser dividido pela candidatura de Gouveia e Melo. E, portanto, acho que ele vai ter que falar pra essas pessoas, e essa é uma incógnita da sua candidatura e vamos ter tempo de olhar pra isso.

Pedro Silva Pereira, acredita que a solução na área socialista passa por um dos dois nomes que se tem falado até agora, António Vitorino ou António José Seguro?

Nos últimos dias, nas últimas semanas, o quadro ali na área do Partido Socialista foi se clarificando, com alguns nomes a colocarem-se de fora da possibilidade de participarem nestas eleições. E de facto, os dois nomes de que mais se falam são António José Seguro e António Vitorino. Eu acredito que o secretário-geral do Partido Socialista, Pedro Nuno Santos, nos contactos que foi fazendo nas últimas semanas, foi recolhendo informação que lhe permitem marcar esta comissão nacional para o próximo sábado e aí ter uma discussão com sentido, que acrescente na definição da posição do Partido Socialista para estas eleições Eu creio que, na área do Partido Socialista, são mesmo esses os dois nomes que neste momento estão em equação.

Mas qualquer um dos dois tem sido alvo de críticas violentas dentro do próprio PS. O que explica esta incapacidade do PS se unir em torno de um candidato, quando um dos possíveis candidatos é um antigo líder do partido?

Nós estamos neste momento ainda no processo de escolha. Eu creio que a primeira razão que explica uma divisão mesmo dentro do Partido Socialista, neste momento, é o fato de os nomes mais óbvios para uma candidatura presidencial, na área do PS, não estarem disponíveis. António Costa, porque é secretário-geral das Nações Unidas e António Costa, porque preside ao Conselho Europeu. A partir daí, nós entramos num processo de seleção que é compreensível que seja mais complexo. Agora, uma coisa é a discussão que tem lugar até ao momento em que a decisão é tomada, e depois, a partir daí, eu espero que haja um sentido de responsabilidade que permita convergir para uma solução unitária na área do PS e mesmo na área da esquerda. Fala-se muito ainda do nome de Sampaio da Nova como uma solução possível na área da esquerda e também de Paulo Raimundo como candidato do Partido Comunista. Eu creio que com a fragilidade em que o Bloco de Esquerda se encontra e também o próprio Partido Comunista, esse exercício eleitoralmente é um exercício muito perigoso até. E portanto, acho que a esquerda faria melhor se logo na primeira volta pudesse convergir numa solução unitária.

E Pedro Silva Pereira, na sua opinião, quem é que poderia cumprir melhor esse papel dentro do PS, Vitorino ou Seguro?

Essa é a pergunta mais esperada desta manhã.

Demoramos um pouco a escalá-las, mas cá estamos.

Exatamente. Mas eu não vou antecipar preferências em relação a candidaturas que neste momento não existem. Vou aguardar serenamente pela reunião da Comissão Nacional do PS no sábado e obter mais informações sobre esta matéria e a seu tempo veremos. O mais importante neste momento eu acho que é fazer o caminho para construir uma solução forte para participar nestas eleições e para oferecer ao país uma alternativa em relação à grande incógnita que significa o almirante Gouveia e Melo, porque a verdade é que nós não sabemos nada sobre ele. Sabemos da sua competência na organização de operações logísticas, sabemos que defende o regresso do serviço militar obrigatório e o sacrifício de políticas sociais para financiar um investimento adicional em equipamento militar. Não são indicações extraordinárias. Ter um militar na presidência da República parece um pouco estranho no quadro das democracias republicanas contemporâneas. É claro que nada impede um ex-militar de exercer os seus direitos políticos, mas o que penso que faria sentido é o país escolher para presidente da República alguém que sabe o que politicamente representa, que interpretação tem dos poderes presidenciais e de facto, qual é o seu verdadeiro posicionamento político. Não sabemos.

Pedro Lomba, o que é que poderá explicar a vantagem do almirante Gouveia e Melo nas sondagens? É este silêncio que ele tem mantido em relação a praticamente tudo e aliás, ainda nem se sabe se será mesmo candidato.

Eu no lugar dele mantinha-me calado, que é o que ele tem feito e tem feito muito bem, até porque marca um contraste com a confusão partidária. Ele foi escolhido para liderar uma colossal operação logística, que é uma coisa que os militares normalmente sabem fazer, porque muitas vezes, aliás, durante o tempo do Covid, fazia-se a comparação entre a pandemia e uma situação de guerra. E ele fê-lo bem e com competência e tornou-se uma figura pública por causa disso. Não é só por causa disso, ele também tem um conjunto de outras características que lhe dão essa vantagem. Ele tem um efeito novidade e associado à novidade, um efeito de perturbação, que eu acho que também o torna até, não vou aqui dizer que é desiderato dos jornalistas, porque não é isso que eu quero dizer, mas que o torna mais interessante de discutir.

Dá uma narrativa mais interessante.

Do ponto de vista jornalístico. Portanto, ele tem estas coisas todas a favor dele. Agora, há uma pergunta que eu acho que ninguém fez e que vai ter que ser feita ao almirante Gouveia e Melo, e que é uma pergunta muito simples, que é: para que ele se está a candidatar? Para que ele se está a candidatar? O que ele quer? É óbvio que a autoestima e a ambição pessoal fazem parte destas coisas. Para se fazer política tem que se querer, e ele quer manifestamente, e já quer há muito tempo. Mas por que ele quer ser presidente da República?

A resposta tipo, Pedro Lomba, a essa pergunta costuma ser para servir o país, porque acho que tenha alguma coisa a acrescentar.

Certo, mas essa é a resposta que não diz nada. Ele tem um perfil que em algumas coisas é um perfil sidonista. Eu não acho que seja um perfil ianista, é um perfil sidonista. E a dúvida que ele me coloca é: nós não podemos esquecer que o sistema de governo português tem as suas complexidades e as suas janelas de oportunidade para mudanças curiosas e inesperadas. O presidente da República pode, por exemplo, se for convidado para ir, presidir ao Conselho de Ministros. Ou seja, há muita gente que acha que o sistema de governo português poderia ter uma evolução à francesa.

Mas para isso era preciso mudar a Constituição, não?

Não é preciso mudar a Constituição. Justamente as pessoas que acham que essa evolução pode acontecer, é preciso que haja alguém que tenha a força popular para provocar essa mudança contra, obviamente, aquilo que foram os últimos 40 anos de prática constitucional. Mas no quadro de possibilidades abstratas que a Constituição prevê, isso não é uma coisa impossível de acontecer. E a questão é: ele tem um perfil de possível presidencialização do sistema de governo, que é estranho à prática do sistema, e alguém tem que lhe perguntar e perceber se é verdadeiramente isso que ele tem na cabeça, porque obviamente que isso não corresponde ao que foi ofertado.

Eu penso que ele entrando numa campanha, essas perguntas serão todas feitas. Mas o Pedro há pouco disse que Marques Mendes também tem que se posicionar perante o discurso de Gouveia e Melo, isto é, que diferenciação é que Marques Mendes deve fazer em relação ao Gouveia e Melo?

Porque eu acho que não basta dizer que é preciso experiência política quando Gouveia e Melo me revelou experiência na execução de uma tarefa complexa. E também não chega dizer, como eu tenho visto algumas pessoas também repetirem, que Gouveia e Melo não é um político, porque o cargo de presidente da República tem uma hibridez natural, como toda a gente compreende. Quer dizer, o cargo que seja eleito por sufrágio universal direto é obviamente um cargo político, mas é um cargo de chefe de Estado. E não é por acaso, lembrando que o velho e falecido politólogo Maurice Duverger chamava a estes cargos os monarcas republicanos, porque há uma componente ali, curiosamente, até monárquica ou representativa ou suprapartidária ou suprapolítica. E portanto, Marques Mendes tem que ter cuidado com isso, porque a força dessa visão das coisas para a figura presidencial é demasiado forte. Portanto, ele tem de construir um discurso menos formal, mais substantivo. Para isso vai ser preciso que o homem antefale e que o homem seja obrigado a falar. E Marques Mendes vai ter de o confrontar, penso eu, com essas oportunidades de diálogo, sem as quais esse discurso alternativo dificilmente vai ser possível.

Pedro Silva Pereira, e qual é a importância destas presidenciais para a atual liderança do PS? Poderá, em última análise, Pedro Nuno Santos decidir não apoiar nenhum candidato?

Bom, eu acho isso improvável, dadas as declarações anteriores que o secretário-geral fez. Portanto, creio que o Partido Socialista alguma posição terá no final deste processo. Agora, evidentemente, todas as eleições são sempre importantes para qualquer liderança. Umas eleições presidenciais também. Agora, eu creio que o Partido Socialista, sendo de longe a maior força política na área da esquerda, não poderá passar ao lado da escolha que o país vai fazer e creio que vai ter uma posição quanto às candidaturas em presença.

Mas não deveria ter começado a trabalhar uma candidatura já há mais tempo o PS? Nós sabemos que são candidaturas pessoais, mas o PS não tem nenhuma figura na Presidência da República, da sua área política, há 20 anos. Não deveria ter começado a pensar nesse processo há mais tempo?

Eu não sei se não começou a pensar há mais tempo. Enfim, e é público que o secretário-geral fez contactos com todos os presumíveis candidatos na área do Partido Socialista. É claro que não está na sua disponibilidade poder impor quem é que se vai candidatar e quem é que não se vai candidatar. Portanto, é da lógica das eleições presidenciais que haja uma componente importante da iniciativa pessoal dos candidatos. Portanto, eu creio que ele procurou gerir este processo. É verdade, ele próprio reconheceu que aquela declaração em que listou os presumíveis candidatos não foi, porventura, o melhor movimento naquela altura.

Porque abriu a porta a uma candidatura de António José Seguro, que foi na prática...

Sim, isso foi visto dessa forma e por isso é que ele depois disse que não foi um momento particularmente feliz. Mas isso não quer dizer que ele não tenha feito o seu trabalho de procurar sondar os presumíveis candidatos e perceber as condições para que o Partido Socialista tomasse a tal decisão que pudesse conduzir a um candidato com possibilidades reais nestas eleições presidenciais. E para isso é preciso um candidato que primeiro chegue à segunda volta, se ela existir, como é provável. E depois então cá estaremos para conversar sobre a segunda volta das eleições presidenciais Deixe-me dizer que em relação ao almirante Gouveia e Melo, a incógnita é tão grande que nós nem mesmo a sua interpretação das funções presidenciais conhecemos. E portanto, realmente, tanto pode ser como o Pedro Lomba dizia, num sentido mais presidencialista do funcionamento do sistema de governo, como ser exactamente o seu contrário. Não sabemos. Evidentemente, temos que saber e a campanha eleitoral certamente ajudará a esclarecê-lo. Agora o que me parece é que, neste momento, o país e a Europa estão confrontados com desafios tão grandes e um deles, como já se está a ver depois da eleição do presidente Trump, vai ser precisamente a grande decisão que vamos ter que tomar sobre o investimento que a Europa e os membros europeus da NATO têm que fazer na sua própria segurança. O equilíbrio entre esse investimento em defesa e as políticas sociais, os serviços públicos, a modernização da economia, o equilíbrio nessa decisão de investimento parece-me essencial. E é por isso que vejo aí uma possível fragilidade no almirante Gouveia e Melo, porque necessariamente ele será visto como alguém que à partida tem uma inclinação para um determinado sentido nessa decisão.

Mas isso não pode ser uma vantagem, Pedro Silva Pereira, ter um militar à frente do país, do Estado, precisamente numa altura em que a defesa é crítica?

Não me parece porque em primeiro lugar, o Presidente da República não conduz sequer a política de defesa. A condição de ele ser comandante supremo das Forças Armadas não lhe dá superintendência sequer sobre a política de defesa. Portanto só uma errada interpretação das funções presidenciais é que valorizaria essa componente. E em segundo lugar, por causa desta questão. Sim, há uma equação importante em matéria de defesa a que o país e a Europa precisam de responder, mas precisam de responder com sentido de equilíbrio, que não prejudique a modernização da economia, as políticas sociais e os serviços públicos. E aí é que eu acho que o almirante tem uma inclinação para uma decisão que não seja equilibrada numa matéria muito sensível.

Pedro Lomba, telegráfica mesmo esta questão da defesa e de Gouveia e Melo pode ser mais uma desvantagem do que uma vantagem, como diz Pedro Silva Pereira?

Eu não percebi muito bem essas declarações de Gouveia e Melo por parecerem ditas sem grande contexto. Vamos ainda perceber o que ele verdadeiramente pensa. Se o tema é o Estado social fica em risco com o Gouveia e Melo, parece-me uma interpretação um pouco apressada. De facto, os temas de defesa são temas críticos e vão ser temas críticos para o futuro, mas penso que não vejo ainda nesta fase que isso possa ser ainda uma desvantagem. Acho que vamos ter outras oportunidades para perceber quais é que são as vulnerabilidades do Gouveia e Melo.

E de qualquer das maneiras, vamos ter de aguardar também por saber quais são os candidatos que efectivamente avançam para esta corrida. Pedro Lomba, Pedro Silva Pereira, muito obrigado pela vossa participação neste Explicador. Um bom dia, uma boa semana.

Bom dia.

Bom dia.