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A Caminho de Belém, na Rádio Observador, depois de uma segunda-feira um pouco mais serena, os dois candidatos à segunda volta das presidenciais já estão na estrada e é em pleno. No A Caminho de Belém, na Rádio Observador, e também estamos disponíveis em vídeo no YouTube, juntamos os apoiantes e representantes das duas candidaturas que estão nesta segunda volta. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.

E são nossos convidados Felicidade Vital, apoiante de André Ventura, e Álvaro Beleza, apoiante de António José Seguro. Bem-vindos. Eu vou começar por si, Álvaro Beleza, o que podemos esperar da campanha de António José Seguro, que agora se inicia?

Muito boa tarde a todos, muito obrigado pelo convite. Muito boa tarde à minha colega de painel. A campanha será o que foi, isto é, o António José Seguro vai continuar a falar com os portugueses. Hoje, como ele tinha dito, que tem como primeira prioridade merecer a confiança dos portugueses como presidente da República, de pôr a saúde no primeiro ano como esse assunto, que realmente preocupa muitos portugueses. Fomos visitar uma unidade de saúde familiar em Odivelas, em que constatou o que é feito nessa unidade de saúde, que por sinal é das que funciona melhor, é um bom exemplo de saúde a tempo e horas e com qualidade para as pessoas, para os cidadãos. Mas de facto vai ser uma campanha serena, tranquila, de quem se disponibiliza para servir o país como presidente da República.

Mas, por exemplo, na área da saúde, e já ouvimos André Ventura hoje também aludir a isto, vou pôr isto numa pergunta à proposta de um pacto que foi apresentada logo por António José Seguro. Nesta fase da campanha, em que só temos dois protagonistas, no fundo, o tempo é dividido entre os dois, pode haver a expectativa por parte do eleitorado de algo de mais concreto, sendo que o presidente da República, obviamente, não governa, mas estou a falar da expectativa que o eleitorado tem.

Certo.

Como é que António José Seguro poderá ir ao encontro dessas expectativas?

Esse obviamente não é óbvio para todos, infelizmente. O presidente da República é o chamado quarto poder moderador. O presidente da República, no fundo, é o árbitro do sistema. E eu até já disse isto, e já agora volto a dizer para que se perceba o que quero dizer com isto, nós precisamos de um árbitro da República, do nosso sistema constitucional, que seja um árbitro à inglesa, isto é, que deixe jogar, neste caso, o Executivo que estiver em funções, o Parlamento, os outros poderes e a separação de poderes que existem, e que quando apita ou quando dá um cartão amarelo ou um vermelho, em último caso, ele é respeitado e não é discutido como nós temos aqui no futebol em Portugal, que andamos três dias a discutir a decisão dos árbitros. Portanto, sobriedade, rigor, sensibilidade e proximidade é o que ele é. Ele é o que é e está a fazer uma campanha como sempre foi, mas o uso da palavra do presidente é muito importante e deve ser usado com parcimônia, mas com consequências quando ela a tem.

Deixe-me só acrescentar esse ponto. Também temos que ouvir a Felicidade Vital, que é a nossa convidada, mas tem as sondagens a indicar que o eleitorado espera um presidente mais interventivo. Não sabemos bem o que será, em que chapéu é que podemos-

Mais do que o atual é difícil.

Pronto, depende da intervenção. Não teme que António José Seguro possa ser prejudicado por essa posição de árbitro que deixa jogar, quando o que parece vir da opinião pública é que é um árbitro que apite mais.

Não, o que vem da opinião pública é que António José Seguro ganhou estas eleições porque teve a confiança de muitos portugueses que percebem que este é o perfil certo para presidente da República. Estou absolutamente convicto. Eu estou a vir para aqui a receber telefonemas de gente relevante do Partido Socialista, do Partido Social-Democrata, do CDS, ainda agora estive com um grande dirigente e ex-membro de um governo da AD, do CDS, de liberais, da iniciativa liberal, mas das pessoas na rua, que isso é que importa, porque a República não tem donos disto tudo. Os donos são cada cidadão. E, portanto, é bom relembrar. E o que me parece é que os portugueses perceberam e estão, de facto, a aderir a esta candidatura, porque também perceberam que nós estamos em tempo que precisamos de tranquilidade e não de instabilidade. Precisamos de estabilidade. Estabilidade pessoal, individual. O presidente tem que ser alguém estável, sereno, que nós possamos dormir e acordar no dia seguinte sem ter um sobressalto. Mas alguém que tem experiência política, como é o caso dele, que tem conhecimento dos assuntos. Ele é um perfecionista, estuda os dossiês, ouve as pessoas, não decide antes de ouvir e de ponderar sobre os assuntos. E acho que é isso, no fundo, ser presidente da República, que é o garante para nós todos dessa capacidade de ouvir, dessa capacidade de todos respeitar. Aliás, ele como candidato respeitou todos os candidatos que merecem esse respeito. Ser alguém educado E que tem aqueles princípios antigos, ele fala muito nisso, que recebeu dos pais, que nós recebemos, que é de respeitar os outros, de saber ouvir os outros.

Discordarmos, a democracia é feita de discordar.

Pronto, vamos ouvir também. Temos que chamar também a Felicidade Vital à conversa.

Sem besarias.

Felicidade Vital, bem-vinda também. Faço-lhe a mesma pergunta: o que é que podemos esperar da campanha de André Ventura, que agora se inicia uma nova fase de campanha?

Antes de mais, agradecer o convite, cumprimentar o meu colega de painel e cumprimentar, principalmente, as pessoas que estão lá em casa a ouvir-nos. O objetivo desta segunda fase de campanha de André Ventura, na verdade, é agregar a direita. Quem, de facto, ganhou estas eleições foi a direita. A direita obteve 50 e tal por cento dos votos, enquanto a esquerda está nos 32%, retirando o almirante com o VML. Portanto, o objetivo é que essa direita vote André Ventura. Nós pensamos que ninguém da direita quer ter um presidente socialista e vamos trabalhar no sentido de mostrar à direita que o único presidente que defende, de facto, os valores da direita é André Ventura.

E isso é um André Ventura mais sereno, mais calmo?

É o André Ventura tal como ele é. O André Ventura já disse várias vezes que não será-

É que estamos a ver uma espécie de mudança, a calmia, se quiser. Estamos habituados a um mar revolto e agora estamos a ver um mar mais calmo. Vai ser essa a forma de agregar a direita?

André Ventura é, antes de mais, uma pessoa responsável, que coloca as suas ideias de uma forma com força. E às vezes é interpretado como sendo revolto quando ele simplesmente está a colocar as suas ideias de uma forma strong, de força, e diz exatamente o que é preciso ser dito. E felizmente, o povo português tem percebido essa mensagem e até está bastante agradado com essa forma de fazer política. André Ventura tem subido sempre em todas as eleições.

E a expectativa agora é que suba mais.

A expectativa é que suba, porque agrega esses votos de direita que, na verdade, neste momento não tem quem os represente.

Fala em agregar votos de direita e temos tido tantos apoios da direita a António José Seguro.

São os dirigentes. Nós estamos a falar de votos do povo.

E acha que o povo também não acompanha os seus dirigentes?

Acho que não. Acho que nesta fase, cada pessoa que pensa segundo os valores da direita deve se interrogar o que é que quer para presidente da República.

Já tivemos uma boa fatia da AD a votar Seguro na primeira volta.

Sim, as pessoas são livres. Os votos, neste momento, não são dos partidos. Quando se vota um presidente da República, o voto não é no partido, é na pessoa. A eleição do presidente da República é muito personalizada e o que temos aqui é uma eleição que vai colocar um homem de esquerda com pensamentos de esquerda contra, estão os dois a disputar o lugar, um homem de direita com pensamentos de direita.

Álvaro Beleza, já percebemos que André Ventura vai tentar amenizar, se calhar, a ideia do extremista ou do extremismo. A campanha de António José Seguro vai insistir nessa separação entre o candidato extremista e o candidato não extremista, o candidato democrata e o que não é democrata?

O António José Seguro é candidato a presidente da República de Portugal, não é candidato a presidente da República da esquerda ou da direita. É de Portugal e tem como lema agregar todos os portugueses. Não é a esquerda ou a direita ou o centro, é todos. O presidente da República deve ser o presidente de todos os portugueses e deve, quanto a ele e quanto a mim, acho que ele está a fazer isso bem, enquanto candidato, fazer aquilo que fará depois. Uma das coisas que nós estamos a perder, as pessoas estão a perder confiança nos políticos por vários motivos. E uma delas é: os políticos muitas vezes mudam de posição e mudam de discurso consoante o papel em questão. O António José Seguro, eu garanto uma coisa, é o mesmo produtor de vinho, azeite, quando foi deputado, líder do PS, candidato a presidente da República e presidente da República.

E o André Ventura não é.

É moderado, é um homem do centro-esquerda, é um homem da social-democracia desde miúdo, eu conheço-o há 40 anos. Somos da social-democracia, como o Partido Socialista é Partido Socialista de nome, mas o Mário Soares percebeu isso logo em 74, 75, e o Partido Socialista é verdadeiramente o partido da social-democracia em Portugal desde há 50 anos. Agora, socialismo é a Coreia do Norte, socialismo é Cuba. Portugal nunca foi um país socialista, felizmente, porque teve Mário Soares, que aqui na Alameda, aqui bem perto, eu estive lá, enfrentou essa deriva que poderia ter levado Portugal a ser uma Cuba da Europa. Mas isto para dizer o quê? Este é o processo, é a maneira dele estar, das suas convicções. É um moderado, é um homem ao centro, do centro-esquerda. Claro que é da esquerda, assuma aquilo que é nos valores. Vamos lá ver, que nós defendemos do Estado Social, nós temos que ter o que distingue a Europa e Portugal de outros cantos do mundo é que nós temos um Estado Social que protege aqueles que ficam para trás Aqueles que precisam quando necessitam de ajuda, seja saúde, segurança social, termos educação para todos, independentemente do seu estatuto social, mas temos que ter, ao mesmo tempo, crescimento económico. Economia e não há economia sem empresas, sem propriedade privada.

Está a descrever o Partido Chega.

E as duas coisas.

Era isso que ia perguntar, André Ventura, exatamente a mesma coisa.

Nós defendemos exatamente isso. Nós defendemos o Estado social.

O Partido Chega está mais socialista do que o Presidente do PSD.

Não, não está mais socialista. O Partido Chega defende o Estado social, defende quem trabalha.

Tem dias.

Não, sempre. Nós dizemos isso repetidamente. Eu até costumo dizer que a defesa dos trabalhadores não é um exclusivo da esquerda, porque nós, de facto, defendemos quem trabalha, defendemos o Estado social, mas atenção, defendemos o Estado social para quem precisa, para quem de facto precisa. E o que temos visto nos últimos anos no socialismo é que o Estado social não está ao serviço de quem precisa. Está ao serviço de muitas pessoas que poderiam trabalhar e não trabalham, e temos um país de subsidiodependência. Temos um país onde, por vezes, compensa mais não trabalhar do que trabalhar, e é contra isso que nós temos lutado. Portanto, nós queremos um país em que as pessoas trabalhem, as pessoas paguem os seus impostos e quando precisam-

Mas não há dados ou objetivos que sustentem essa direção.

É a realidade todos os dias. Nós temos pessoas que não vão trabalhar porque ficando em casa recebem o mesmo.

E temos milhões que vão trabalhar também.

Porque o ordenado mínimo é o que é. E, portanto, André Ventura, mas deixe-me só responder a uma questão que disse há pouco.

Sobre o campo democrático e não democrático.

Exatamente. Voltou a falar na questão do não democrático.

A campanha pode ir por aí. A questão é essa.

Exato, mas se for, é mais um erro, porque eu não consigo perceber como é que ainda hoje se continua a afirmar que o Chega e que André Ventura não é democrático. Eu não percebo em que é que nós não somos democráticos. Nós estamos na democracia, seguimos as regras da democracia, portanto, acho que isso foi mais um papão que foi inventado pela esquerda no início para tentar assustar as pessoas de que a direita não era democrática, e que vem aí o fascismo e que são uns malandros. Não é verdade.

E esta campanha vai ser aproveitada pelo Chega, ou neste caso, por André Ventura, para tentar atacar essa ideia?

Não é uma questão de ser aproveitada, é simplesmente continuar a dizer o que é verdade. Nós somos democratas, sempre fomos democratas, sempre jogámos segundo as leis da democracia, sempre nos sujeitámos a eleições.

Mas quer uma mudança de regime.

Sempre respeitamos muito. Quer uma mudança do regime que temos atualmente, da corrupção, dos amigos, do que nós chamamos os tachos, utilizando uma linguagem particular.

Mas isso é mais um modo de Estado do que uma orientação política para um Estado ou para uma nação. Não querer tachos é uma orientação da sociedade e não política, de organização política.

A política hoje tornou-se, em vez de quem está na política estar a fazer um serviço público, tornou-se uma carreira. E nós não vemos a política assim. Nós vemos a política como quem tem algo a dar às populações, está na política, e não fazer da política uma carreira. Portanto, é essa a diferença.

Felicidade Vital, você falava há pouco do papão. O papão vai ser o socialismo nesta campanha?

Não, nós não temos papões. Se não defendemos para nós, também não defendemos para os outros. E portanto, os nossos argumentos contra o socialismo têm a ver com termos uma experiência, como o socialismo deixou o país passado oito anos, o socialismo teve maioria absoluta e pôde fazer o que quis e deixou o país como deixou. E eu até acho alguma graça quando se diz agora que António José Seguro não vai ser um presidente para os socialistas, vai ser um presidente para todos os portugueses, porque a impressão que dá é que António José Seguro, de facto, está a descolar-se um bocadinho do socialismo, porque sabe que os portugueses não votam no socialismo e que tiveram uma má experiência com o socialismo, porque as ideias socialistas e as políticas socialistas deixaram o país sem saúde, sem educação.

Temos aqui um minutinho. Vamos lá a mais uma coisa.

Um minuto para lhe perguntar se o endosso de Luís Montenegro era importante nesta fase.

O primeiro-ministro faz aquilo que acha que deve fazer. Eu tenho muito gosto em estar aqui neste debate. Eu vim para um debate sobre eleições de Presidente da República, não de governo, não de programas de governo. Terei o maior gosto em debater com o Chega, com quem for, as questões da saúde, programas, o que é que é melhor a organização do Estado social.

Sim, mas o Presidente tem que intervir, tem que ser interventivo. Aliás, o próprio António José Seguro sempre teve esse lado de saúde.

Minha cara amiga, eu não interrompi. A questão é a seguinte: o António José Seguro não esteve nos últimos anos na política, como se sabe, e portanto essa conversa não faz qualquer sentido. O António José Seguro é verdadeiramente um social-democrata. Essa coisa do socialismo, eu já expliquei aqui, é como nos nossos nomes de família. O Partido Socialista é o partido da social-democracia europeia em Portugal há 50 anos. E o PSD também tem sociais-democratas, mas tem outros, tem liberais, tem outro tipo de ideologias. Portanto, se vamos pra ideologia, temos então que ser rigorosos na coisa. Quanto às generalizações, elas também são perigosas, porque é assim: é evidente que a maior parte das pessoas em Portugal trabalham imenso, são pessoas decentes, são pessoas que querem o melhor para o seu país, assim como a maior parte das pessoas que estão na política, independentemente dos partidos, são pessoas que querem o melhor para o seu país, são pessoas decentes. Como em qualquer país e como em tudo na vida, há gente que prevarica, há corrupção em todos os países do mundo, há corrupção em todas as democracias.

Álvaro Beleza, temos que concluir.

E como o Churchill dizia, o sistema democrático pluralista é muito imperfeito, mas ainda não encontraram melhor. O que está em causa nesta eleição é se queremos um Presidente da República da tolerância, do respeito pelos outros, da democracia liberal e pluralista que nós temos, dos valores que nós temos destes últimos 50 anos.

Por oposição a?

Com todos os defeitos que temos. Não é oposição a nada. É pela positiva. Não é contra ninguém.

Temos que fechar, Álvaro Beleza.

Nós queremos nesta eleição um presidente que defenda os portugueses.

Energia positiva.

Vamos ter mais oportunidades aqui na Tarde Política de voltar à discussão neste A Caminho de Blind.

Temos que puxar Portugal para cima.

Vamos manter este A Caminho de Blind durante a campanha para a segunda volta das presidenciais na Tarde Política. Muito obrigado, Felicidade Vital e Álvaro Beleza.

Obrigada, foi um gosto.