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Rádio Observador, Desporto. Vamos falar da saída de Cristiano Ronaldo da Seleção Nacional e da forma como estalou este caso. Ontem, quarta-feira, último dia de setembro de 2026, deu-se o início do fim da carreira de 23 anos de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional. Uma situação que mostra uma clara luta de egos e que pode ter também implicações na marca FPF. Vamos falar disso nos próximos minutos. Vamos estar num especial ao longo de toda esta hora do meio-dia, mas até o 12h30 vamos falar de liderança e vamos falar também da marca da FPF. Comigo tenho Luís Lourenço, professor e especialista em liderança, e contamos também nesta especial com Daniel Sá, diretor executivo do IPAM, especialista em marketing e marcas ligadas ao desporto. Bem-vindos à Rádio Observador. Luís Lourenço, eu começo por si. Quando falamos deste caso, naturalmente, e quando olharmos para trás no futuro, vamos sempre falar de uma possível luta de egos que se deu nesta situação entre Jorge Jesus, Cristiano Ronaldo e talvez até Pedro Proença. No final, houve aqui um problema de gestão, houve um problema ou uma luta por liderança em todo este processo?
Eu não tenho a ideia que a luta aqui tenha sido só de liderança. Eu tenho uma informação na qual acredito piamente de como tudo se passou. Aliás, como tudo se passou justifica a palavra traição, quer do jornalista, que eu não me recordo agora do nome, é Eduardo Aguirre, no "El Chiringuito", quer da própria irmã do Cristiano Ronaldo, que hoje num post, a Kátia, já colocou também a palavra traição. Acho que a palavra traição é capaz de ser a palavra-chave para nós percebermos tudo aquilo que se terá passado, ou pelo menos como Cristiano Ronaldo se sentiu e o que levou a que ele saísse da Seleção.
Mas, Luís, se houve efetivamente traição, isso pode indicar também um problema de gestão, um problema de liderança.
A traição é um problema daquilo onde você o quiser pôr. Pode pôr a traição numa amizade, onde não haja necessariamente uma relação de liderança, pode pôr onde quiser. Eu não digo que não há um problema de liderança. Aliás, já lá irei. O que eu disse foi que a palavra-chave disso talvez tenha sido a palavra traição. Muito resumidamente, o que se passou foi que o Cristiano Ronaldo ficou cego por ter estado 45 minutos a aquecer e não ter entrado.
Sim, mas temos que recapitular o caso. Portanto, terá existido uma conversa com Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo antes da convocatória de que contava com o jogador para o primeiro e para o último jogo, porque Cristiano Ronaldo estava a ponderar deixar a Federação Portuguesa de Futebol, deixar a Seleção. Falou disso no final do Mundial. Ora, Cristiano Ronaldo aceitou, percebeu que Jesus ainda contava com ele para pelo menos os jogos em casa e Jesus mostrou-lhe que seria importante nesses dois jogos. Só que Jesus, a meio da concentração, mudou de ideias, quis contar com Ronaldo no jogo com a Noruega, disse isso ao jogador, o jogador entendeu, mas depois acabou por não entrar. Esteve quase 40 minutos a aquecer, não entrou e ficou incomodado com isso, porque Jesus prometeu-lhe uma coisa, mudou de ideias, mas depois também não cumpriu com essa mudança de ideias.
Mas não é aí que está a traição. O Ronaldo ficou completamente cego com isso, achou que foi um desrespeito.
Exato.
E há uma primeira reunião logo a seguir ao jogo com o Ronaldo e o Jorge Jesus. E a informação que eu tenho é que o Ronaldo não aceitou as justificações do Jorge Jesus. Foi por isso que foi necessário vir o Pedro Proença para tentar acalmar as coisas. E quando fazem a reunião já com o Pedro Proença, o Jorge Jesus assume que na conferência de imprensa iria pedir desculpas ao Ronaldo pelo sucedido. E o que acontece é que ele não pediu. O que acontece é que, pelo contrário, para além de não ter pedido, há ali uma parte em que ele assume alguma culpa, diz: "Bom, eu deveria tê-lo posto 10 ou 15 minutos mais tarde". O que não modificaria muita coisa, o Ronaldo estará a aquecer 45 minutos ou meia hora, se só começasse a aquecer, seria a mesma coisa. Mas é a única coisa que o Jesus diz relativamente a isso. Depois, expõe o Ronaldo. Quer dizer, o Jorge Jesus é o elefante na sala naquela conferência de imprensa. Expõe o Ronaldo ao dizer que ele que já não pode, tem que ter dois dias de descanso depois do jogo, expõe o Ronaldo ao dizer: "Ele não vai jogar, quem vai jogar é o Gonçalo Ramos", e é nisto que está a traição. Citada por Eduardo Aguirre, é citada pela Kátia Aveiro, é aí que está a traição e que o Cristiano Ronaldo, com toda a seleção a assistir no balneário Com toda a seleção a assistir no balneário à conferência de imprensa do Jorge Jesus. Quando acaba a conferência de imprensa, o Cristiano Ronaldo deu um pontapé num balde que tinha à frente, disse: "Mentiroso de..." e depois um valente palavrão e disse: "Vou-me embora". Pegou nas coisas e foi-se embora, porque se sentiu traído pelo Jorge Jesus. Basicamente, o que aconteceu foi isto. Agora, problema de liderança, Jorge Jesus sempre teve. Repare, quando alguém tem que dizer como ele diz: "Quem manda aqui sou eu", ele não se apercebe. Diz: "Quem manda aqui sou eu, porque sou o treinador." Ele não está a ser líder, ele está a ser chefe. Ele está a ser treinador, está a ser chefe, que são duas coisas diferentes, liderança e chefia. Quer dizer, o cargo de treinador não lhe dá o estatuto de líder. E ele isso nunca conseguiu ser. O Jorge Jesus respira futebol, ouve futebol, fala de futebol, dorme futebol. O futebol é a vida dele. E ele de futebol percebe muito, dos 90 minutos, é um treinador com uma intuição para ver o jogo. Eu diria que é até diferente dos outros, mas depois fora do futebol percebe muito pouco.
Luís, antes de falarmos aqui também com o Daniel Sá, ontem o Jorge Jesus, na conferência de imprensa, tem uma frase em que diz basicamente isto: "Treinar os grandes jogadores é mais fácil do que treinar os jogadores medianos". Esta passagem pela Federação Portuguesa de Futebol, pela seleção, estes primeiros dias em que está de facto a lidar com o balneário, com muitos egos, em que dentro desses egos está também o do Cristiano Ronaldo, mostra que, na verdade, não é bem assim, como disse Jesus?
Pois, mostra, temos isso e prova. E a prova é que ao fim de alguns dias de estarem juntos, já está a dar o caso que está a dar. Que é um caso que se projeta a nível mundial. E, portanto, eu acreditei no Jorge Jesus, porque eu acho que o Jorge Jesus tem esse problema. O Jorge Jesus era aquilo que eu lhe estava a dizer: futebol. E o professor Manuel Sérgio, falecido, o mestre professor Manuel Sérgio, dizia uma frase que dá muita ideia daquilo que eu lhe vou dizer, que é: "Quem só sabe de futebol, de futebol nada sabe". Porque antes do jogador, vem o humano, sempre. Antes do treinador, vem o humano. Professor Manuel Sérgio dizia também que não há remates, há homens e mulheres que rematam. Não há faltas, há homens e mulheres que fazem faltas. Não há gols, há homens e mulheres que fazem gols. Portanto, isto para dizer que o humano vem sempre em primeiro lugar. Para Jesus, não. E é aí a grande falha de liderança dele, porque depois ele precisa de se afirmar dizendo: "Quem manda sou eu". E ele não percebe que o que ele quer é resultados, é óbvio, mas ele não percebe que para se atingir resultados, a forma mais fácil é retirar das pessoas o melhor que as pessoas têm dentro de si. E não se retira o melhor das pessoas sendo chefe. Lá está, tendo uma supremacia formal, tendo uma autoridade formal vinda do cargo. Não, essa autoridade tem que ser reconhecida pelos outros. Só aí é que as pessoas acreditam no que estão a fazer e dão o seu melhor. E o Jorge Jesus é evidente que não percebe isso.
Vamos introduzir aqui também o Daniel Sá, porque naturalmente este caso, para além de tudo isso que estamos a discutir, a questão de liderança, a situação do balneário, as relações humanas que existem também, que é preciso analisar nesta situação, há todo o impacto que isto tem na imagem da FPF, na imagem da Seleção Portuguesa de Futebol, da equipa A, e na imagem de todas estas figuras, Jorge Jesus, Cristiano Ronaldo, também eles são marcas. Daniel Sá, há um impacto a tirar de tudo isto. Já vimos, por exemplo, os seguidores da Federação Portuguesa de Futebol diminuírem, mas há também contratos que podem estar em risco e a própria marca da FPF ter aqui um impacto direto perante tudo isto.
Sim, o impacto instantâneo é negativo, quer para a Federação, quer para o próprio Cristiano Ronaldo. Ou seja, nas últimas 24 horas, meio mundo ficou a saber que Jesus e Ronaldo se zangaram e que Ronaldo tomou aqui uma posição extrema, largando o estágio. Portanto, é negativo, há muito ruído, há muita gente zangada. Neste mundo das redes sociais, vai aqui um pandemónio. Há vilões, há tragédias, há posições extremas. Até redes sociais como o LinkedIn, que são mais empresariais, estão inundadas hoje de opiniões. Toda mundo sabe de tudo e toda mundo acha que aquele é vilão ou que é boa pessoa. Bom, o que seja, é futebol, é visceral, é assim que as coisas funcionam. Agora, convém aqui esquecer uma coisa: a marca Ronaldo não tem 24 horas, nem a marca Federação Portuguesa de Futebol. A Federação Portuguesa de Futebol tem dezenas de anos e Ronaldo tem uma carreira de 25. E, portanto, a minha sensibilidade diz-me que esta história não vai terminar assim. Eu não acredito que Ronaldo e a Federação se despeçam assim um do outro, desta forma. Não acredito, porque a história que está para trás não me leva a crer que isso seja verdade. E, portanto, o que eu tenho como sensibilidade é que daqui a uns dias, daqui a umas semanas ou daqui a uns meses, quase ninguém se lembra disto e daqui a 10 anos isto não tem relevância nenhuma e não aparece quer na biografia do Ronaldo, nem na história da Federação. Portanto, a minha resposta é: há algum contacto e algum impacto imediato negativo
Mas como acredito que as coisas vão ser resolvidas de uma outra forma, estou perfeitamente em crer que não haverá grandes danos para cada uma das marcas, sendo que neste momento a que me parece mais suscetível é a da Federação, que pode ficar amputada do valor que Cristiano Ronaldo traz, porque a marca Cristiano Ronaldo, ela própria, mesmo depois de ele deixar de jogar, vai seguramente continuar a crescer e a ser cada vez mais relevante.
Pegando nesta parte humana de todo este caso, houve, na sua análise, Daniel, uma má gestão?
Sim, claro que sim. Eu lembro-me que há tais dias atrás, se não estou em erro, tivemos uma conferência de imprensa aberta e montada para uma conferência, onde Jesus e Ronaldo apareceram numa comunhão e numa intimidade de quem tinha trabalhado até de perto no último ano, que seguramente não levava a crer que cinco, seis dias depois estávamos onde estávamos.
E não foi só uma conferência de imprensa, foi uma conferência dentro de uma summit, uma cimeira com público a assistir.
Com público. Até um evento bastante inovador desse ponto de vista. Quem desenhou, quem preparou e quem assistiu não imaginava, obviamente, que poucos dias depois o resultado final seria este. Portanto, alguma coisa aqui estava pensada e programada? Seguramente que não. Toda a gente foi apanhada desprevenida. O Luís acabou de comentar há pouco a sua visão de como terão acontecido as coisas. Nunca a saberemos a 100%, mas também não deverá andar muito longe da verdade. Quem já andou no meio do desporto sabe que o balneário é um território difícil para ser gerido e portanto há a parte das opiniões que as pessoas têm, nem têm esta visão de quem está por dentro. Agora, era isto que se queria? Evidentemente que não. Estamos a meio de um ciclo desportivo. Agora, meus caros, a minha discussão, e trago aqui a minha visão de pessoa de marketing, não é se o Ronaldo devia ter aquecido ou jogado, ou se está velho para jogar ou para não estar. A minha visão é de negócio. E olhando para o negócio, o futebol hoje já não é apenas o romantismo habitual dos tempos de Eusébio. Nós não estamos no tempo de Eusébio. E portanto, os clubes portugueses têm que ganhar e vender jogadores ao mesmo tempo, porque se não venderem jogadores, não conseguem ganhar. Portanto, o futebol e o negócio estão juntos, neste momento é impossível. E por isso é que ter o Ronaldo com a expressão e a visibilidade global que tem é tão importante para a seleção. É evidente que tem que se fazer uma conciliação de interesses desportivos com financeiros. O adepto não pode ao mesmo tempo querer ter os melhores jogadores do mundo e ter o romantismo que só quer gente que gosta do clube, como se fossem nos tempos de Eusébio, e toda a gente aponta o Paris Saint-Germain como a delícia do momento, que venceu duas Champions seguidas, com todo o mérito desportivo, mas se não houvesse um poço de petróleo por trás, não havia vitória de Paris Saint-Germain nenhuma. É o futebol moderno com as coisas boas e más que tem que ter.
Daniel Sá, Luís Lourenço, obrigado por esta participação na Rádio Observador. Um outro olhar também para esta situação em torno de Cristiano Ronaldo e da Seleção Nacional. Rádio Observador. Desporto.