Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Explicador da Rádio Observador e não há notícia de detenção dos suspeitos ou recuperação das joias furtadas do Museu do Louvre este domingo. Nuno Vassalo e Silva, antigo secretário de Estado da Cultura, foi diretor da Fundação Calouste Gulbenkian na delegação francesa. Desde janeiro deste ano é presidente do Centro Cultural de Belém e está neste momento em Paris. Bem-vindo, obrigada por ter aceitado o nosso convite. O Louvre é o museu mais movimentado do mundo, tem peças de valor incalculável e, no entanto, aparentemente, é vulnerável ou não?
Foi e está bem testado. Para já, boa tarde a todos. Muito gosto do espaço que estou a participar, embora para um assunto bastante triste. A hipótese de uns trabalhos de recuperação que permitiram o roubo de cinco joias de caráter histórico único, todas do século XIX. Aliás, um dos conjuntos, que era o conjunto de safiras e diamantes que pertenciam à Casa dos Condes de Paris, esteve exposto durante a guerra no Museu Nacional de Arte Antiga, isto é só uma curiosidade, mas que se tratam de obras maiores da joalharia. Nós sabemos que são peças únicas. Em outubro do ano passado, 2024, foi roubado um conjunto também de caixas de ouro com grandes diamantes e que demorou quase um ano e foi recuperado pela polícia. E aqui o tempo é muito importante, porque há o risco de serem destruídas algumas joias, sobretudo estou a lembrar, por exemplo, o alfinete relicário da Imperatriz Eugénie de Montijo, que era do Alfred Bass, que incluiu diamantes da coroa e do Cardeal Mazzarino. Só para dizer que o Cardeal Mazzarino reuniu, no século XVII, um conjunto grande, uma coleção enorme de diamantes, alguns deles oferecidos pela Casa Real da Casa de Bragança para apoio à causa da independência de Portugal. E sobretudo, são obras de uma expressão absolutamente notável. Eu agora estava aqui a rever o Lemonié, o Ninon, o Alfred Bass, o Kramer, todos os maiores joalheiros. E que eram obras expostas naquela galeria absolutamente extraordinária, Galerie d'Apollon, para o usufruto de milhões e que de repente damos como desaparecidas. É um facto realmente gravíssimo para o Museu do Louvre, mas eu penso para todo o mundo da cultura. E o risco sempre disso, como é que se expõe, como é que não há a expor, e esta participação que todos têm na proteção do nosso património.
Isto vai mudar a forma como os museus olham para a proteção do seu património, precisamente?
Como referi, nós temos, infelizmente, mas felizmente, casos de roubos que acabaram em sucesso. E lembro o Concistório de Museiene, o famoso saleiro que o Cellini fez, século XVI, que foi roubado exatamente através de um andaime, aproveitando umas obras, e que foi encontrado em casa do assaltante, muito tempo depois, guardado debaixo da cama, quando se temia que ele tivesse sido destruído. Agora, há permanentemente nos museus um debate entre a conservação das peças, não estou só a falar só da conservação física, falo da conservação também da salvaguarda, da proteção contra roubos, nomeadamente, e o usufruto de todos, porque é esse usufruto que justifica um pouco até a conservação das obras. Está tudo interligado. E exige reflexões muito sérias. Como é que numa casa que sabemos que tem um sistema de segurança muito sofisticado, aconteceu algo que parece a todos nós saído de um filme, de uma peça do Arsène Lupin, um crime quase perfeito. É muito preocupante, mas eu conto também com tanto que a polícia francesa, a polícia europeia, que está no domínio das obras de arte, que o mais rapidamente possível possa encontrar estas joias para que não sofram danos.
Eu imagino que o orçamento anual do Louvre faça corar os maiores e melhores museus nacionais. Sem entrarmos em pormenor, os nossos museus têm boa segurança?
Pelo que eu conheço, acho que sim. Pelo que eu conheço, sinceramente, acho que sim. Acho que é algo que foi muito alterado nos últimos anos, esta consciência que o próprio meio, a sociedade, o meio em que estamos mudou muito, em certos momentos tornou-se mais agressivo, as obras de arte são mais apetecíveis e vamos dizer, isto aqui é um campo mais especial, que é o da joalharia e das pedras, que é um mercado muito próprio, é um mercado fechado, essas peças, como sabem, como todos os roubos. Portanto, eu espero que cedo ou mais tarde, que sobretudo não destruam as peças, porque sobretudo o grande laço que pertenceu à Imperatriz Eugénie de Montijo, é sobretudo um trabalho quase de renda com diamantes, nem sequer são diamantes muito grandes, portanto desmontar a peça não tem qualquer interesse. E para não falar dos conjuntos que pertenceram à Casa Real, e foi como disse, esmeraldas e safiras, que depois estiveram ligados à Casa dos Condes De Paris, porque são tudo peças absolutamente de importância. Não é só pela beleza e o valor financeiro, é o que significam de poder real, de imaginário, de beleza, mesmo pra quem gosta de estudar gemologia, são muito importantes. E é curioso que os ladrões foram exatamente para esta vitrine, pelo que eu sei. E não para onde estavam outros grandes diamantes, como o Hortense e o Regente, que estavam ali perto.
Isso revela um conhecimento.
Eles sabiam perfeitamente o que queriam. Eu penso que será isso, não quero pôr na cabeça, mas eles sabiam perfeitamente o que iam buscar. Eles estudaram muito bem a oportunidade pra poderem ter acesso a um espaço que é um dos mais, que eu saiba, protegidos do Museu do Louvre. Tirando a Gioconda.
Falava do destino das peças, que não fossem desmembradas.
Exatamente.
Se aparecerem num leilão ou no mercado legal, rapidamente se percebe que foram roubadas?
Exatamente, nunca vão ser. Eu estou a evitar falar do roubo das joias da coroa em Haia há umas décadas, provavelmente alguns ouvintes estão a perceber, em que realmente elas desapareceram, nunca tiveram rasto e foram diamantes que foram relapidados.
Ou seja, foram transformados pra que não haja qualquer semelhança.
Qualquer semelhança. E essas peças, as montagens são tão características, tão importantes, que eu espero que isso permita que elas sejam nunca destruídas e que venham a ser reencontradas.
É fácil ou acessível fazer seguros? Ou é muito complicado?
Nas exposições, sim. Há uns anos, o British Museum teve uma grande exposição sobre diamantes, que até teve que ser cancelada, isso é público, porque soube-se que a máfia russa preparava um assalto espetacular. Foi o Natural History em Londres. Um roubo espetacular a esta exposição, que tinha condições de segurança absolutamente extraordinárias. É algo terrível, é algo quase impensável, mas é possível, e foi o que assistimos agora aqui em Paris, no Museu do Louvre.
Muito obrigada, Nuno Vassalo e Silva, presidente do Centro Cultural de Belém. Está neste momento em Paris. Esteve a ajudar-nos a perceber o que aconteceu no passado domingo e como estão os museus portugueses. Mais uma vez, muito obrigada, Nuno Vassalo e Silva.
O prazer é todo meu. Espero todos os motivos mais tarde. Obrigado.
Obrigada.
Bons motivos. Obrigado.
Obrigada.