Um em cada seis compradores de tecnologia de consumo rápido que participaram num estudo em Portugal admitiu já ter colocado no lixo comum ou em contentores errados pequenos equipamentos elétricos desse tipo.

Os dados foram divulgados esta quarta-feira pela associação Electrão, no Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, este ano dedicado ao tema da tecnologia de consumo rápido, ou fast tech, e fazem parte de uma análise ao comportamento dos consumidores de 12 países, numa iniciativa da organização WEEE Forum.

Segundo o documento divulgado, o inquérito mostrou que 8 em cada 10 inquiridos em Portugal compraram fast tech no último ano, e um terço guardou em casa aparelhos fora de uso.

Em causa estão aparelhos como carregadores, cabos, auriculares, luzes LED e outros pequenos aparelhos do quotidiano que são muitas vezes adquiridos a baixo custo para satisfazer uma necessidade pontual ou assegurar um equipamento de reserva.

Segundo o estudo, 17,8% dos consumidores já deitaram estes resíduos no lixo comum; as papeleiras de rua e o ecoponto amarelo são indicados por 29,8% dos compradores como destinos inadequados onde já colocaram estes pequenos equipamentos elétricos, enquanto 41,9% disseram ter feito a entrega num local de recolha ou instalação municipal (ecocentros).

O WEEE Forum é a associação internacional de entidades gestoras de resíduos elétricos da qual faz parte a Electrão – Associação de Gestão de Resíduos, responsável por três dos principais sistemas de recolha e reciclagem de resíduos: embalagens, pilhas e equipamentos elétricos usados.

No conjunto dos 12 países, 38,6% dos compradores disseram ter descartado pelo menos um desses equipamentos sem nunca o utilizar, depois de uma única utilização ou antes de completar um mês de uso.

Citado no comunicado, o diretor-geral de Elétricos e Pilhas, da Electrão, Ricardo Furtado, alertou: “Os aparelhos de baixo custo e curta duração continuam a ser equipamentos elétricos. Devemos prolongar o seu uso até ser possível, nomeadamente através da reutilização, e quando deixam de servir é necessário encaminhá-los para reciclagem”.

A Electrão enfatiza que os aparelhos, mesmo que pequenos, têm de ser encaminhados para reciclagem, para que os seus materiais sejam recuperados e tratados, reduzindo a necessidade de extrair novas matérias-primas.

O tratamento adequado inclui também a remoção e gestão dos componentes com substâncias perigosas, para proteger o ambiente e a saúde humana, e para evitar situações perigosas, como o esmagamento de baterias, que pode provocar incêndios em veículos de recolha, por exemplo.

Segundo dados do “Global E-waste Monitor”, o principal relatório global que monitoriza a geração, recolha e reciclagem de lixo eletrónico no mundo, em 2022 foram geradas 62 milhões de toneladas de resíduos elétricos e eletrónicos. Mas só 22,3% tiveram recolha e reciclagem formalmente documentadas.

O Dia Internacional dos Resíduos Elétricos (International E-Waste Day, na sigla original) pretende mobilizar consumidores, empresas e outras organizações a dar o destino correto a estes resíduos.

No comunicado, a associação Electrão apela a que os consumidores verifiquem quais os equipamentos que ainda podem utilizar, reparar ou doar, e que entreguem os que chegaram ao fim de vida nos pontos de recolha adequados.

A Electrão gere uma rede de recolha de equipamentos elétricos e pilhas usadas com cerca de 18 mil locais de recolha dispersos por todo o território nacional e é também responsável pela reciclagem de embalagens em todo o país.

Associação Zero aponta “descalabro” na reciclagem de resíduos elétricos

A associação ambientalista Zero também assinala esta quarta-feira o Dia Internacional dos Resíduos Elétricos recordando os números que indicam que se recicla menos de metade da meta comunitária, e aponta o Governo como principal responsável pelo “descalabro”.

“As razões para este descalabro são múltiplas, mas têm sempre por base ações ou omissões das três entidades públicas que ao longo destes 20 anos deveriam ter zelado por garantir a boa gestão dos Resíduos dos Equipamentos Elétricos e Eletrónicos (REEE): o Ministério do Ambiente, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE)”, diz a associação.

Recordando que neste ano se cumprem 20 anos da entrada em funcionamento do Sistema de Gestão dos REEE (SIGREEE), a Zero diz que são 20 anos de boicotes e ilegalidades e que as comemorações não podiam ser mais tristes.

Segundo os últimos dados oficiais, da APA, em 2024 Portugal recolheu e tratou 32% dos REEE, menos de metade da meta comunitária que é de 65%.

“Além da baixa taxa de recolha de REEE, as entidades gestoras, em muitos casos, entregam os REEE recolhidos a empresas de tratamento que não cumprem os mínimos exigíveis em termos de remoção de substâncias perigosas, mas a APA, em vez de atuar, tem fechado os olhos a esta situação”, acusa a Zero no comunicado.

E aponta ainda o não funcionamento da Comissão de Acompanhamento da Gestão dos Resíduos (CAGER), que nunca funcionou bem e que agora está parada há dois anos.

A Zero conclui que a “gestão calamitosa dos REEE tem impactes muito significativos na saúde pública e no ambiente”, além de que a partir de 2027 pode “vir a ser responsável por uma fatura de várias centenas de milhões de euros que o Estado Português vai ter de pagar à União Europeia pelas toneladas de REEE que não forem devidamente geridas”.