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A fotografia que circulou esta semana nas redes sociais, Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares à mesma mesa, sorridentes, pese embora as divergências políticas, é uma imagem difícil de conceber na política dos nossos dias. Podem as presidenciais ser um espelho dessa dificuldade? Já vamos em oito candidatos, só entre os que são apoiados pelos partidos com assento parlamentar, mais Henrique Gouveia e Melo. Fica para a jogada da semana, na segunda parte. Já aqui estão fora do baralho o Nuno Garoupa, o Luís Aguiar-Conraria e a Susana Peralta. Os ases vão lançar as primeiras cartas sobre outros temas. E a começar, Nuno, pelas eleições que estão mais frescas na nossa memória, as autárquicas. Isto vai para uma polêmica com a contagem de votos em Lisboa entre CDU e Chega, que merece uma carta de espadas.
Sim, olá a todos. Infelizmente, esta semana é uma carta de espadas. Deixa-me só telegráficamente relembrar a toda a gente que estamos quase há cinco meses sem Provedor de Justiça e que há quase cinco meses os Conselhos Superiores, Conselho Superior da Magistratura, Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais e o Conselho Superior do Ministério Público, estão a funcionar irregularmente. Ninguém quer saber, os partidos não querem saber, o Presidente da República não quer saber.
E todas as semanas vais a este tema certamente.
Vou lembrar até este tema estar resolvido, que pelos vistos vai ser a legislatura inteira, a este ritmo. Deixa-me falar das eleições. A questão das eleições nem é bem a minha carta de espadas, nem é bem para a polêmica. É mais para o problema que se tem vindo a acumular de eleições para eleições com o problema dos nulos. Nós já tivemos várias eleições legislativas europeias em que isto foi uma questão bastante polêmica à volta da votação dos imigrantes, em que até se repetiu uma eleição, e agora aqui em Lisboa, voltamos a ter um problema com a contabilização dos votos nulos e como isso afeta, de facto, a distribuição de um vereador entre a CDU e o Chega. O que merece a carta de espadas é o facto de continuarmos a não ter nem sistemas informáticos digitalizados e de inteligência artificial para fazer esta contagem. E, portanto, continuamos a ter sistemas arcaicos que acabam no Tribunal Constitucional, em discussões que agora até o problema é se houver um empate, a lei não diz o que é que acontece a esse segundo vereador, para quem é que ele vai. Portanto, podemos ter que repetir as eleições. E mais uma vez, para veres como eu mantenho os temas, isto entronca no 1,6 milhões de euros que gastámos no tagline na discussão da semana passada, que esta semana, segundo a notícia do Observador, é assumido que foi para o lixo, portanto está assumido que foi completamente para o lixo. Ora era bonito ter gasto 1,6 milhões de euros em inteligência artificial e em digitalização para termos eleições em que estas coisas acontecem de uma vez por todas.
Está justificada a tua carta de espadas e aqui uma sugestão sobre essa utilização do dinheiro. É uma polêmica aqui entre a CDU e o Chega e vamos agora falar precisamente do Chega. Luís Mithá Ribeiro, até há bem pouco tempo vice-presidente do Chega, é aqui o protagonista desta tua carta. Nós falámos dele na semana passada e também no artigo de opinião que assinou no site do Observador, com acusações a André Ventura. Chamou-o de predador narcísico, entre outras críticas. Já depois do programa tivemos a reação do líder, sendo que as tuas copas são para Mithá Ribeiro. Por quê voltar a falar dele agora?
É porque não tive a oportunidade de falar ainda e eu acho que é tão... Não sei. Eu acho que nunca mais vamos ouvir falar nele. E portanto, a bem dizer, ou eu falava dele agora, ou iria perder para sempre a oportunidade. E o que é interessante no caso dele, no artigo que ele escreveu no Observador e depois nas entrevistas todas em que se desdobrou, é que é perfeitamente óbvio que aquilo de que ele acusa André Ventura, é algo de que ele padece. O narcisismo dele é extraordinário. Todas as entrevistas não são horas, mas parecem horas, porque ele de facto é muito lento a falar. Mas todas aquelas longas respostas que ele dá, é sempre a falar do André Ventura que não me convidou para aquilo, que não me convidou para aquilo outro, que não me deu a atenção que eu devia. É absurdo.
Parece ressabiamento, é isso?
Não, é total ressabiamento, isso é evidente. E é assumido. Quando alguém diz que a gota d'água é porque não foi convidado para formar o governo sombra, como se o governo sombra tivesse algum interesse. Vamos ver quantas notícias haverá sobre o governo sombra. E há aqui um ponto em que eu até concordo com André Ventura, que é até alguma ingratidão. O senhor foi eleito vice-presidente da Assembleia da República, exatamente em representação do Chega. Digamos que até é institucionalmente o cargo mais elevado que alguém do Chega tem. Na hierarquia do Estado, eu estou convencido disso, posso estar enganado, mas estou convencido disso, na hierarquia do Estado, a pessoa do Chega que está mais alto nessa hierarquia era ele, como vice-presidente da Assembleia da República. Portanto, até acho que há ali uma certa ingratidão. Mas as minhas copas são para isso. É para já, para esta cegueira toda. Aquilo que ele acusa André Ventura é uma coisa que metade do país está a dizer há vários anos, toda aquela manipulação, todo aquele narcisismo, aqueles congressos que são feitos no Chega, em que aquilo parece quase em que se está ali a emular um santo. E o santo é ele, André Ventura. Tudo isso é visível, tudo isso é óbvio para toda a gente. Pelos vistos não era para Mithá Ribeiro. E agora o que se percebe é que o grande intelectual do Chega era também obviamente alguém com uma personalidade narcísica tremenda e com uma enorme carência de atenção. E olha, isso aí
Umas copas, portanto, irônicas. Susana Peralta, já é conhecido o relatório preliminar do acidente do elevador da Glória, que motivou a renúncia do presidente da Carris esta semana, numa reunião com o presidente da Câmara, Carlos Moedas. Tens aqui uma carta de paus para o documento, para a empresa de transportes públicos ou para o autarca?
A minha carta de paus é para a empresa, para a Carris, e também para o autarca, para Carlos Moedas, e também para os prazos de estudo. Eu não tenho aqui nenhuma visão maniqueísta relativamente ao trabalho deste gabinete técnico, até porque o gabinete técnico, agora não me recordo puramente, de acidentes em aeronaves e ferroviários. Tem só um técnico, portanto, obviamente que essa pessoa não pode ir a todas, não é de maneira nenhuma uma crítica, mas mostra o irregular funcionamento das instituições do Estado noutro domínio. O Nuno trouxe aqui no domínio da justiça. Aqui a questão é, obviamente, que se este gabinete técnico estivesse dotado dos meios necessários, teria certamente feito este relatório com mais celeridade e ele tinha chegado quando tinha que ter chegado, que era antes das eleições e não duas semanas depois. Mais uma vez, repito e quero deixar isto muito claro, isto não é uma crítica à pessoa à frente deste gabinete, que é só um, e não é de nenhuma maneira uma teoria da conspiração. É de facto um falhanço do Estado que nos falha no mais essencial, que é na possibilidade de nós assacarmos as responsabilidades políticas de uma gestão da Carris que é completamente desastrosa.
E além dos prazos, na substância do que diz o relatório e depois na reação de Moedas, que enfatizou sempre, pelo menos eu ouvi uma declaração duas ou três vezes, disse que eram falhas técnicas, portanto aqui a afastar a tal responsabilidade política.
Estava tudo bem, tinha sido feita uma inspeção de segurança na própria manhã. O que nós agora vimos a saber é que o cabo não estava certificado para o transporte de pessoas, nem sequer respondia à própria norma técnica da Carris, portanto, interna à Carris para aqueles elevadores. Estaria certificado para o elevador de Santa Justa e para outro que tem um modo de funcionamento diferente. Não vou entrar aqui nos pormenores técnicos, até porque eu não os compreendo. Houve aqui uma confusão com o momento da encomenda. Parece que eles estavam a precisar de substituir o cabo de Santa Justa e então acabaram por substituir este com o cabo errado. Aparentemente, ele estava também mal ligado, portanto, a ligação do cabo ao veículo também não estava de acordo com as normas. A peça metálica que faz essa ligação, que dá pelo nome de pinha, era feita de acordo com o caderninho de notas de um funcionário da Carris. Atenção, eu também queria deixar isto claro. Havia um know-how dentro da Carris, quando tudo isto era feito pela Carris e que tinha um gabinete, um conjunto de pessoas, que era certamente sobredimensionado do ponto de vista do custo-benefício, sou economista e sou sensível a isso, para fazer isso. Mas depois, o problema é que uma coisa é haver um know-how dentro de uma equipa, uma equipa centenária, que vai passando de geração em geração, as pessoas não estavam lá há séculos, e outra coisa é depois esse know-how, quando é preciso passar para um fornecedor externo, ser um caderninho de uma peça que é absolutamente essencial para garantir que não morrem pessoas. A história do cabo ter cedido não sei quantos metros logo no momento em que foi instalado, a alma de aço versus a alma de fibra, portanto, sendo a alma de fibra aqui obviamente a menos forte e que acabou por ser a que correu mal. Carlos Moedas, que passou tanto tempo a dizer que isto era uma falha técnica, não havia responsabilidades. Agora, assim que sai este relatório, realmente já acabou por ser demitido ou aceitar a demissão do presidente da Carris. Isto é uma tragédia, é um país que nem sequer conseguiu. Temos uma tragédia que acontece um mês e pouco antes de umas eleições e o país não conseguiu pôr cá fora estas notícias. Eu não estou a dizer que isto tivesse um impacto nas eleições. Se calhar não tinha e tanto melhor. A questão é: as pessoas tinham o direito de ter este conhecimento, como é natural, 15 dias atrás e não esta semana.
Entretanto, há aqui também uma mudança na liderança do INEM. Sai Sérgio Janeiro, ainda não foi revelado o substituto, mas tudo aponta para que seja Luís Cabral, antigo secretário de Estado regional dos Açores, na área da saúde. E há aqui uma mudança também de nome do INEM, portanto, passa de instituto a autoridade, de INEM passa a ser ANEM e tu tens aqui uma carta de ouros para isto, Susana.
É de ouros, de ouros para quem?
Também por causa dos custos que isto vai implicar.
Claro. A minha carta de ouros é para a empresa que vai estar responsável não só pela mudança do logo, da imagem da nova ANEM, e depois as empresas que vão estar encarregues de mudar. Pensa na quantidade de veículos INEM, motas, carros e depois as roupas dos técnicos e tudo isso que nós cruzamos todos os dias, na cidade, na aldeia, por este país onde tu andas, estás sempre a ver coisas do INEM. Portanto, a minha carta de ouros é para o sortudo e eu até devo dizer que estou a oferecer aqui a minha disponibilidade.
Mas ainda não percebi o que é que vai mudar.
O nome de INEM, Instituto Nacional de Emergência Médica, para ANEM, Autoridade Nacional de Emergência Médica.
Por quê?
Porque é uma reforma, como sabes, aquilo está a correr mal, não tem corrido bem. E agora vamos fazer esta mudança. É uma reforma estrutural, Luís.
Porque no nosso direito administrativo, uma autoridade tem competências diferentes de um instituto e o governo acha que isto é uma reforma profunda, como aliás, estão a fazer na FCT e noutras instituições do Estado, em que passam a autoridades porque querem beneficiar de um tratamento jurídico distinto. Ou seja, fica tudo na mesma.
Mas não podia ficar na lei que era autoridade e chamar-lhe INEM na mesma?
Podes, só que isso exige provavelmente ir à Assembleia da República e este governo governa por decreto, não governa por leis. Só vai à assembleia quando é preciso.
Eu pelo sim pelo não, vou começar a pensar. Acho que é ilegal. Mas é uma pena, porque eu gostava de abrir agora aqui uma empresa de pintura de veículos. Pelo menos alguém ganhasse com isto. Mas eu não posso, é ilegal. Queria deixar já aqui isso claro, eu tenho exclusividade com o meu empregador.
Pronto, mas seria aqui uma oportunidade de negócio. Fica aqui a sugestão da Susana. Temos ainda duas cartas, isto hoje é um fartote, mas são duas cartas aqui que queremos de facto assinalar, porque foi uma semana de grandes perdas na política nacional e não só. A primeira, Luís, para Francisco Pinto Balsemão.
Aqui uma declaração de interesses. Eu trabalho ou escrevo artigos semanalmente para o Expresso e, portanto, de certa forma, Pinto Balsemão era meu patrão e agora os seus herdeiros serão os meus patrões. Portanto, feita essa declaração de interesses, ficava-nos mal se não assinalássemos este dia. Podemos discutir muito aquela politiquice de se o Expresso, nos últimos 10 anos, se servia de porta-voz do governo ou de porta-voz de Belém, essas coisas, mas acho que a vida de Balsemão vai para além disso. E acho que vale a pena lembrar, se calhar, três, quatro coisas que ele fez. Ele foi deputado da Ala Liberal, ainda durante o Estado Novo, que é já o estertor do regime. É um fundador do PSD. Criou o Expresso ainda antes do 25 de Abril, ainda quando havia as leis da censura, que ele aliás tentou combater enquanto deputado da Ala Liberal. E depois, mais tarde, não só foi primeiro-ministro, acho que aí a experiência não foi particularmente bem-sucedida, como foi o pioneiro também no audiovisual ao ser o dono da primeira televisão privada. Portanto, eu acho que isto é claramente uma pessoa que marca o país e hoje o país é diferente do que seria se ele não existisse. E acho que é legítimo dizer que é diferente para melhor e, portanto, é justo os dias de luto nacionais que vamos ter em sua homenagem. Penso que seria obrigatório porque ele foi primeiro-ministro, mas independentemente disso, acho que o papel dele neste país e no desenvolvimento da democracia deste país foi um papel importante e pioneiro.
Uma carta de copas para Pinto Balsemão. Também aqui uma carta para Laborinho Lúcio, morreu esta semana o antigo ministro da Justiça, juiz conselheiro do Tribunal Constitucional, recentemente membro da comissão criada para investigar abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa. Nuno.
Muito rapidamente, acho que Laborinho Lúcio teve múltiplas intervenções públicas em vários cargos que desempenhou. Fundamentalmente, na minha opinião, foi o último ministro da Justiça que Portugal teve, que fez uma reforma da Justiça e já lá vão 30 anos e isto é um grande elogio a Laborinho Lúcio e é uma grande crítica ao PS e ao PSD e a todos os ministros que se seguiram desde 1993 a esta parte, que não fizeram reformas rigorosamente nenhumas. E Laborinho Lúcio é a última pessoa que tentou fazer aquilo que é uma reforma da Justiça e o país, nesse sentido, deve-lhe o pouco que ainda funciona na Justiça portuguesa, deve-o a Laborinho Lúcio.
Mais uma carta também para o antigo ministro da Justiça, a fechar esta primeira parte do Fora do Baralho. Já a seguir, a jogada da semana. Já vamos à jogada da semana no Fora do Baralho, mas primeiro, Luís, duas correções.
Dois desmentidos. No intervalo estavamos a conversar no nosso grupo do WhatsApp e o Gabriel Mithá Ribeiro não foi vice-presidente da Assembleia da República, foi proposto, mas naquela altura em que as propostas do Chega eram rejeitadas. Desta última vez, quem foi proposto e aceito foi Pacheco Amorim. Ele era, sim, secretário de mesa da Assembleia da República. Agora, penso que até de forma mais relevante, estávamos aqui a pôr a hipótese de termos de decretar luto nacional quando José Sócrates morresse, e fomos verificar a lei e não. Fomos verificar a lei e o luto é obrigatório para presidentes da República que morrem, presidentes da Assembleia da República e primeiros-ministros em exercício e para quem já não está em exercício, portanto, para antigos presidentes. Aqui o luto não era obrigatório e nesse caso, ainda mais se reforça o elogio ao governo por ter decretado o luto nacional.
Vamos agora à jogada da semana. Entre apresentações de candidatura, anúncios que viram imbróglios e apelos a desistências, as eleições presidenciais de janeiro do próximo ano têm já história e elenco suficientes para uma boa temporada. E todos querem ser os heróis da trama, mas há também quem queira rotular vilões. Apareceu mais um candidato à esquerda, anunciado como tal, mas afinal ainda não é oficialmente. Jorge Pinto pode ou não ser uma boa escolha para candidato presidencial apoiado pelo LIVRE, Susana Peralta. E já agora, este processo, falta decidir se o apoio é imediato ou se o LIVRE opta por primárias para decidir. Lembra-nos aqui algum filme? Já vimos este filme?
Sim, se já vimos este filme das trapalhadas do LIVRE com as primárias, já vimos este filme, claramente. Eu tenho uma posição bastante crítica relativamente à ideia das primárias num partido pequeno. Ou seja, eu acho que as primárias têm o seu interesse, têm vantagens e inconvenientes, mas eu acho que elas são sempre menos arriscadas, por assim dizer, num partido maior, onde a lei dos grandes números de algum modo suaviza, ou evita que haja grandes surpresas nas primárias, e de algum modo garante que elas refletem uma espécie de vontade coletiva, o que num grupo menor é mais fácil uma pequena fação, não estou a dizer que é isso que acontece no LIVRE, de maneira nenhuma. Estou apenas a dizer que isso teoricamente é mais fácil num grupo mais pequeno, em primeiro lugar. Agora, também é verdade que o Rui Tavares disse várias vezes que o que ele queria mesmo era ter tido umas grandes primárias à esquerda, e eu devo dizer que eu tenho bastante simpatia por essa ideia. A ideia que havia umas primárias à esquerda e depois também era mais fácil obter a tal convergência das esquerdas num único candidato. Mas essas primárias não existiram e aqui estamos a falar de outras primárias, são primárias internas ao partido e agora vamos ver se de facto, agora também se só houver primárias e só houver um candidato, não sei se vão surgir mais candidatos, ou se de facto o LIVRE vai abrir essas primárias à possibilidade de o partido ainda se coordenar para eventualmente apoiar um dos candidatos externos ao partido, não sei. Não sei como é que vai ser, não faço ideia, mas só haver de facto apenas um candidato, haver primárias ou não, é um bocadinho irrelevante. Mas eu acho que já vimos este filme, e acho sinceramente que estas primárias acabam muitas vezes por encerrar mais riscos. Eu percebo que do ponto de vista da reputação é bom e é positivo termos um partido com esta abertura e eu acho isso interessante, como já disse, mas acho que elas acabam por encerrar um risco reputacional para o LIVRE que não sei se compensa. Relativamente a Jorge Pinto, deixa-me só dizer, Jorge Pinto é um excelente deputado, é uma pessoa interessante, eu até li uma vez uma banda desenhada dele. Eu tenho a minha opinião, como já disse várias vezes, acerca do que a esquerda devia fazer nestas presidenciais. Agora, se Jorge Pinto pode ser um bom candidato, se ele pode ou não aparecer nos debates e agora em campanha, nas entrevistas, etc., e se ele vier a revelar-se candidato como um bom ativo político, e se isto até pode ajudar o LIVRE a fugir um bocadinho daquela imagem. Acho que hoje em dia Isabel Mendes Lopes também já participou em debates, etc., já tem uma presença. Mas quer dizer, multiplicar estas presenças de outros indivíduos no seio do partido que têm qualidades políticas, para além do Rui Tavares, acho que isso é positivo.
Mas preferias ver o LIVRE apoiar António José Seguro?
Eu preferia que a esquerda maximizasse as possibilidades de António José Seguro chegar à segunda volta.
Posso tronfar aqui a professora Peralta?
Sim, senhor, professor.
A professora Peralta.
Sou honraria. Professor, diga, diga professor.
Eu acho que foste demasiado branda com o LIVRE. Esta coisa do LIVRE fazer umas primárias para decidir quem é o seu candidato, isso é mesmo partidarizar de forma mais extrema possível a presidência da República. O Jorge Pinto ou se quer candidatar ou não quer. Uma coisa é querer se candidatar e não conseguir reunir os apoios e por isso depois desiste. Isso é normal e acho que é aceitável.
Mas atenção.
Só mais uma coisa, porque eu acho que sei o que vais dizer e também concordo com a correção que vais fazer. Isto é absurdo, há dois ou três dias anunciam o candidato e agora ficamos a perceber que ainda não sabem bem se é ou se não é, e se vai haver primárias e que candidatos é que serão incluídos nas primárias. Não penso que dê uma imagem de abertura nem democracia, isto dá a imagem de amadorismo e de criancices.
Susana, só para finalizar.
Não, a única coisa que eu queria corrigir, eu queria só aqui assinalar que este é o único programa de comentário no qual há um trunfo e depois nós entendemos tão bem que o Luís até sabe o que eu vou dizer.
O partido tem o direito, parece-me. É verdade que as candidaturas são pessoais e que isto é uma eleição presidencial, e desse ponto de vista estou completamente alinhada com o Luís, mas o partido tem o direito de decidir de acordo com o seu método interno, de acordo com os seus estatutos, já falámos aqui deles, não vale a pena, em quem se apoia ou não apoia financeiramente um determinado candidato. E eu acho que isso é crítico. Nós já tivemos as histórias de candidaturas presidenciais que acabaram em problemas financeiros para os candidatos por não chegarem ao mínimo. Portanto, acho que desse ponto de vista, há uma porta aberta para as primárias.
Mas se houver primárias, Joacine concorre. Está bem? Joacine, se estás a ouvir o "Fora de Baralho", se tiver de ouvir, concorre, Joacine.
Ora bem, há poucos dias foi Catarina Martins a apresentar-se oficialmente como candidata, a candidata que cuida da democracia e a comprometer-se com uma linha vermelha. Se chegar a Belém, o Chega nunca será governo. Nuno Garoupa, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda diz ao que vem e ao que não vem.
Digamos assim, do ponto de vista estritamente estatístico, eu estou completamente de acordo com ela. Se ela for eleita para Belém, o país virou de tal maneira à esquerda que o Chega nunca será governo nos próximos tempos. Mas também diria o contrário. Se André Ventura chegar a Belém, é muito difícil que Mariana Mortágua ou ela ou Rui Tavares sejam o próximo primeiro-ministro numas próximas legislativas. Portanto, isto é uma coisa completamente vazia de sentido prático. Onde é que eu acho que está o problema, que aliás a Susana e o Luís já estavam a tocar. Primeiro, parece que transformamos estas eleições em campeonatos de médios e pequeninos. Aqui temos o campeonato dos pequeninos. O Bloco, o Livre e o PCP estão a concorrer para ver quem é que vai ter uma maior fatia dos 10% que neste momento estes três partidos somam em eleições. Portanto, é o campeonato dos pequeninos. Só falta o PAN também entrar neste campeonato para ver como é que os quatro pequeninos se organizam. Segundo, eu acho que, nós já falámos disso aqui, como eleitor de direita que sou, não estaria muito preocupado com a fragmentação das candidaturas à esquerda. Mas para quem é de esquerda, acho que há aqui dois problemas complicados que o Livre, o Bloco e o PCP não estão a querer analisar. Primeiro, a esquerda está afastada de Belém há 20 anos. Portanto, é normal que a esquerda tivesse alguma ambição destas eleições voltar a Belém, de onde saiu em 2006. E a segunda questão é que a esquerda entra neste ciclo eleitoral com uma base muito diminuta, 35% nas legislativas, pouco mais de 36% nas autárquicas. Portanto, como é que a esquerda se dá ao luxo de ainda ir se dividir em médios, pequenos e mínimos candidatos, uma base eleitoral que está minguada e que neste momento significa que a direita é preponderante, senão mesmo hegemônica nos atos eleitorais. E, portanto, como ainda por cima uma parte da esquerda provavelmente votará na candidatura do almirante, que aliás, devo dizer aqui, repor e fazer justa homenagem ao Luís, que disse da outra vez e me corrigiu, certamente, que na questão de imigração, a posição da candidatura do Gouveia de Melo é mais à esquerda do que qualquer dos partidos que neste momento é da direita e do próprio Partido Socialista. E, portanto, nesse sentido, estamos de facto a assistir a uma fragmentação à esquerda e à direita, mas mais uma implosão à esquerda. E eu acho que a esquerda devia estar muitíssimo preocupada com isto.
Mas achas que o PS pode ter contribuído para esta situação?
Não acho, tenho a certeza, e diria mais.
Por enquanto demorou a endossar o apoio a António José Seguro.
Mas aqui há uma responsabilidade enorme que estamos todos a fingir que não estamos a ver, que é de António Costa. António Costa e a sua fação dentro do Partido Socialista, a que se juntou Pedro Nuno Santos e os acólitos de Pedro Nuno Santos, criaram este problema. Andaram atrás de Augusto Santos Silva, que aliás veio dizer que não vota em António José Seguro, porque não tem categoria para ser presidente da República. Pelos vistos, Augusto Santos Silva prefere que André Ventura ou Gouveia de Melo sejam presidente da República. Não sei. A certa altura é confuso como é que a esquerda, estando com 35% em eleições legislativas e autárquicas, há 20 anos afastado de Belém, se dedica a estas guerras internas de tal maneira, a implosão existe na esquerda da esquerda.
Luís, gostava de ouvir também sobre esta ideia do Nuno, se António Costa tem aqui responsabilidade e se o PS deu ou não um apoio envergonhado a António José Seguro.
Bem, deixa-me fazer declaração de interesses. Eu no meu artigo da semana passada do Expresso declarei apoio no sentido de alguém que é cidadão e declarei que iria votar, muito provavelmente, em António José Seguro. Portanto, se não houver nenhum desastre até o dia das eleições, a partir dele tem meu apoio, portanto deixa-me fazer esta declaração de interesses. Respondendo à tua pergunta, eu concordo totalmente com o Nuno, e aliás acho que já falámos sobre isto aqui ainda antes do Nuno fazer parte do painel. O apoio que o PS deu é obviamente envergonhado e é até absurdo, mas o que já não é óbvio é que desfavoreça António José Seguro. Eu não acho nada óbvio que o PS não esteja empenhado na eleição de António José Seguro. Para mim é óbvio que há ali uma certa elite de Lisboa e do Porto, já não sei qual foi o colunista do jornal que até chamou com piada os Silvas, estavas a referir ao Vieira da Silva e ao Augusto Santos Silva, que claramente detestam Seguro. Isto é simples, isso é gente que veio do socratismo, pessoas que num país normal, depois do escândalo que foi Sócrates, teriam se calar visto a sua vida política acabar ou pelo menos teriam de fazer um enorme mea culpa que nunca fizeram, e mantiveram-se no poder. E portanto, não conseguem apoiar alguém que 10 anos antes delas foi opositor de José Sócrates. Isto é o que me parece. Em relação a esta elite.
A própria Alexandra Leitão, ex-ministra de António Costa, também disse aqui em entrevista à Rádio Observador que é natural o apoio do PS a António José Seguro, mas que ela própria ainda está a refletir em quem vai votar.
Que reflita e que vote em quem quiser. Outro aspecto diferente, e é normal, a candidatura dela a Lisboa mostra uma estratégia completamente diferente àquela que corresponde à ala segurista do PS. Outra coisa diferente é se o PS apoia ou não, e essa elite não apoia. Mas deixa-me só contar que nós, eu aqui na Universidade do Porto, com uma associação cívica, organizamos três conferências presidenciais com os três principais candidatos.
Sim.
Na altura, Ventura não era ainda candidato e, portanto, nem sequer tivemos que tomar a decisão sobre se Ventura seria convidado ou não. E a ideia com que eu fiquei, é uma ideia que não pude confirmar, é que o PS de Braga se mobilizou para garantir que António José Seguro tinha ali uma sala cheia. Essa foi a ideia com que eu fiquei. Quando nós sabemos os apoios de António José Seguro, já há várias semanas ou até meses, que vários presidentes de distritais e de concelhias declararam o apoio ao António José Seguro. Para mim não é nada líquido que o PS não esteja com António José Seguro.
E o próprio António José Seguro também sinaliza que o PS só apoiou oficialmente quatro candidatos presidenciais: Mário Soares, Jorge Sampaio, Manuel Alegre e ele próprio. Isso também tem algum peso aqui.
O objetivo é óbvio: pôr-se no patamar de Mário Soares e de Jorge Sampaio. Já não sei o que eu queria dizer. Passa ao próximo e depois se me lembrar eu peço a palavra.
Temos aqui também, Susana, mais um apelo à desistência de António Filipe, desta feita pelo líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias.
Já sei. Posso? Desculpa, lembrei-me. Desculpa, Susana.
Isto é uma conversa. Força. Go.
Eu ia dizer isso, depois a Vanessa interrompeu-me.
A culpa é minha, é da jovem.
Eu já tenho mais de 50 anos.
Somos nós as duas, Vanessa, nós desconcentramos o Luís.
É isso. O António José Seguro não quer ir à segunda volta. O António José Seguro quer ganhar as eleições e para ganhar as eleições tem ter 51% dos votos. O que quer dizer que precisa de entrar numa fatia importante do eleitorado de direita para ganhar e ainda mais importante, porque algum da esquerda poderá eventualmente ser perdido se a segunda volta for com o almirante. Isso quer dizer que não é nada óbvio que para Seguro fosse bom ter o apoio entusiástico de figuras como Augusto Santos Silva, Alexandra Leitão ou Vieira da Silva ou outros socratistas. Não é nada óbvio. Este apoio envergonhado pode eventualmente prejudicá-lo um bocadinho na primeira volta, mas beneficia-o para a segunda. Não tenho dúvidas disso, que a segunda volta ganha-se garantidamente ao centro, não vai ser à esquerda.
E continuamos a falar da esquerda porque Eurico Brilhante Dias, como estava a dizer, também fez um apelo à desistência de António Filipe. Vasco Lourenço também já tinha feito o mesmo, Ana Gomes também um pouco. É sinal de que Seguro pode recear perder com esta fragmentação de candidatos à esquerda, Susana?
Parece-me evidente a fragmentação de candidatos à esquerda. Já agora, só para acrescentar o que o Luís disse, eu quando falei de Seguro passar à segunda volta é porque para mim isso é uma condição necessária para Seguro ganhar as eleições, e é evidente que é isso que ele quer, e tem hipótese de as ganhar, sobretudo passando à segunda volta. Mas é evidente que aqui o risco é haver uma tal fragmentação de votos à esquerda que Seguro não passe à segunda volta. É óbvio que qualquer candidato de esquerda, seja Catarina Martins, António Filipe ou o próprio candidato que o Livre venha a apoiar, se tal acontecer, é boa e ajudava nesse sentido. Se é boa ou não, estou aqui a fazer um julgamento de valor relativamente ao meu objetivo, que é efetivamente que António José Seguro passe à segunda volta e ganhe as eleições, porque eu sou sensível ao que o Bruno disse, que há 20 anos que a esquerda não consegue ocupar o Palácio de Belém. Mas deixa-me só dizer aqui uma coisa. Há aqui este efeito da mobilização, que é de facto António José Seguro é uma pessoa que não é galvanizador de certo eleitorado de esquerda e pode acontecer que as pessoas decidam não votar. Ter aqui candidatos de esquerda que porventura consigam mobilizar algum eleitorado e depois, estou a ser muito otimista, eu acho que estou mesmo muito vítima do meu wishful thinking, mas de facto que não só consigam mobilizar, como depois ao desistir, se isso acontecer, que eu também acho muito improvável, consigam que essas pessoas que de outro modo provavelmente não votariam, até votem em Seguro. Pode haver aqui uma espécie de efeito multiplicador desta coisa. Desculpa, deixa-me só dizer, é um caminho muito estreito relativamente ao outro caminho, que é arriscadíssimo, da fragmentação e de diminuir as probabilidades de António José Seguro passar à segunda volta.
Nuno, há pouco falaste que só faltava o PAN também ter um candidato. E o CDS? Com tanto candidato ainda se mete nisto ou não? Nuno Melo assume o apoio a Paulo Portas se o antigo presidente e vice-primeiro-ministro se candidatar, sendo que o CDS vai reunir na próxima semana o Conselho Nacional e as presidenciais vão ser também tema.
Parece que neste momento o CDS vale 1% em eleições autárquicas e 0,3% em eleições legislativas, segundo as sondagens, e portanto não tem qualquer relevância. Aqui a questão é que o CDS está a fingir que é relevante. O CDS vai ter que apoiar, obviamente, pelo sim ou pelo não, a candidatura da AD, porque de facto, o problema nas presidenciais, que vai afetar o CDS, o PSD e o Chega, é a relação de forças entre André Ventura e Marques Mendes. André Ventura faz um discurso obviamente hiperbólico, que diz que vai ganhar tudo e que vai ficar à frente de tudo. Como dizia a Susana, estes discursos hiperbólicos talvez galvanizem a base e mobilizem. Para mim, mas ele também não está a falar para mim, nunca percebo porque é que se dizem estas coisas que são exageros e que na minha opinião só descredibiliza quem as diz. Mas admito que sim, que quem acha que Ventura é o Messias da direita fique extremamente excitado com as 30 câmaras que depois são três, as ganhar as europeias que depois não ganha, e agora ganhar e arrasar nas presidenciais. Agora aqui um ponto. Do ponto de vista da direita, o que interessa é o ranking entre Marques Mendes e Ventura. Se Ventura ficar à frente de Marques Mendes, isto é um problema grave para este governo. E desse ponto de vista, o CDS faz parte deste governo.
Ainda vamos voltar certamente às presidenciais noutras jogadas da semana. Deixe-me só dizer que a fotografia de que falámos no arranque com dois grandes fundadores da democracia em Portugal, Pinto Balsemão e Mário Soares, é do fotojornalista Tiago Miranda. Os Quatro Ases estão de volta para a semana, já com o Jorge Fernandes. Eu sou a Vanessa Cruz. Bons jogos, bom fim de semana.