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Este é o jogo em que os ouvintes também participam diretamente. É só enviar perguntas, críticas ou sugestões para foradobaralho@observador.pt. Um dos quatro ases da análise política responde, à vez, a cada semana. Hoje é o politólogo Jorge Fernandes. Olá, Jorge.
Olá, Vanessa.
Temos aqui perguntas sobre o conflito dos Estados Unidos, Israel e Irão, e também sobre Pedro Passos Coelho. Vamos começar por aqui, pela política nacional. Duarte Chastre, 24 anos, consultor de comunicação política, escreveu-nos por e-mail e pergunta: será assim tão óbvio que Passos Coelho é o único a poder travar André Ventura? O eleitorado que fez crescer o Chega não é precisamente dos mais afetados e críticos da governação de Passos Coelho, os pensionistas, os abstençãoistas, os abandonados pelo sistema?
Esta pergunta é muito difícil. Eu agradeço ao ouvinte, porque é uma boa pergunta, mas na verdade não há uma resposta boa a essa pergunta. O que eu quero dizer com isto? Digamos que desde 2015 que existe, no fundo, um fantasma ou um sebastianismo na direita portuguesa sobre o potencial valor eleitoral de Passos Coelho. O que eu quero dizer com isto? Desde essa altura, aquele momento que foi muito traumático para a direita portuguesa da geringonça, que se criou, no fundo, esta noção de que Passos Coelho é Dom Sebastião, que um dia regressará para resgatar a direita do ponto de vista moral, político e claro, eleitoral. E portanto, criou-se um pouco este mito, mas na verdade nós neste momento não sabemos exatamente o que Passos Coelho vale do ponto de vista eleitoral. Este é o primeiro ponto. É perfeitamente possível que Passos Coelho conseguisse ter mais votos que Montenegro, mas a ideia de que Passos Coelho chegaria ao PSD e acabaria com o Chega, ou muito perto disso, secaria o Chega. Admito que possa academicamente pensar na ideia, em tese, mas não há nenhuma prova que diga.
Até porque o Chega tem tido uma ascensão meteórica em eleições sucessivas.
Pronto, esse era o segundo ponto que eu ia fazer. Toda esta ideia sobre o Chega e a potencial ligação Passos Coelho-Chega-Ventura assenta em duas ou três premissas que eu não sei se são verdadeiras. Em primeiro lugar, na premissa que André Ventura estaria disponível simplesmente para ser uma espécie de número dois ou rapaz de recados de Pedro Passos Coelho. Bem, eu acho que isto poderia ser interessante para André Ventura há uns anos atrás, mas eu acho que é evidente para toda a gente que o Chega tem vindo a institucionalizar-se crescentemente, tem vindo a ganhar votos, a ganhar lugares. Portanto, para mim não é nada claro que André Ventura, neste momento, não quisesse conversar e dialogar politicamente com Pedro Passos Coelho, quase como se fosse um par, em que ele e Passos Coelho estariam se não bem no mesmo patamar, quase no mesmo patamar, e André Ventura exigiria para ele, por exemplo, aquilo que o CDS nunca foi capaz de exigir, porque o diferencial eleitoral entre o CDS e o PSD, quando havia eleições, era sempre muito maior, havia um declínio muito mais acentuado. Portanto, isso para mim não é nada líquido. E depois, claro, há essa questão do eleitorado. Eu não sei se o eleitorado que André Ventura conseguiu capturar à direita, e eleitorado também vindo, sabemos isso mais ou menos por outros estudos, o Chega para ter o tamanho que tem, no fundo, tem que ir buscar eleitores a todo lado, especialmente à esquerda, até porque considerando que o PSD vale 30, 31%, se o Chega vale o que vale, matematicamente a coisa tem que vir um bocadinho mais do outro lado. Porque senão o PSD ter-se-ia afundado. E portanto, sob este ponto de vista, eu tenho muitas dúvidas que Passos Coelho possa ser a solução para a direita ou a solução para os problemas da direita. E eu não sei se haverá aqui, ninguém sabe neste momento o que irá acontecer, se Passos Coelho irá ou não aceitar o repto de Montenegro para conduzir a eleições internas e medir forças internamente. É preciso perceber que Montenegro pode parecer, e na minha opinião é, um primeiro-ministro fraco, mas nunca subestimemos a sua capacidade de controlar o aparelho. Apesar de ter tido recentemente alguns desaires, por exemplo, Hugo Soares perdeu o controle, a fação mais direta de Hugo Soares perdeu o controle em Braga, etc. Mas quando se está no poder e quando há lugares para distribuir, a capacidade de fomentar ou de induzir a disciplina partidária é muito mais fácil do que quando se está na oposição.
Sim, para ter lançado esse desafio a Passos Coelho é porque deve estar relativamente seguro de que consegue controlar o aparelho, ou não?
Eu acho que no fundo, acima de tudo, o que ele quis foi matar a hipótese de Passos Coelho o tentar de alguma maneira desfundrar daqui a um ano ou dois anos. Isto é, no fundo, ao fazer isto agora, obriga Passos Coelho a uma clarificação muito rápida.
Quis jogar já na antecipação.
Ou agora ou nunca. Acho que dificilmente, vamos considerar que Montenegro agora em maio é reconfirmado como líder do PSD, e eu acho que o será, primeiro-ministro em funções já aconteceu noutros países, mas na nossa tradição constitucional Nunca aconteceu. Portanto, suponhamos que Montenegro é agora reconduzido no cargo de presidente do PSD, eu penso que isto retirará muita margem de manobra a Passos Coelho, até porque rapidamente dentro do próprio partido irão aparecer outras vozes que não a de Montenegro a criticar Passos Coelho por estar continuadamente neste ritmo. Passos Coelho agora está várias vezes por semana a criticar Montenegro. E relembre-se, para quem é um pouquinho mais velho, não sei se é o caso deste ouvinte, mas eu lembro-me bem.
Este ouvinte tem 24 anos.
Então provavelmente não se lembra. Mas o que Passos Coelho está a fazer a Montenegro é exatamente a mesma coisa que Passos Coelho fez a Manuela Ferreira Leite na altura, quando ele tentou tomar o poder, inicialmente falhou, mas depois numa segunda tentativa conseguiu. Em 2009, é exatamente o mesmo estilo, marcação cerrada, uma operação midiática muito bem montada e muito bem articulada, e eu não acredito que isto de Passos Coelho sejam coisas improvisadas, até porque Passos Coelho é demasiado inteligente e demasiado profissional para isto não ser uma coisa bem pensada, bem articulada. A diferença é que na altura Manuela Ferreira Leite estava na oposição, enquanto Luís Montenegro está no poder e isso muda tudo.
Muda tudo. Vamos agora à pergunta da Madalena Frias: Espanha deu um murro na mesa perante as ameaças de Donald Trump e tem tido uma postura firme e dissonante, Pedro Sánchez, em relação aos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão. É o patinho feio ou tem razão?
Duas premissas das quais eu acho que é importante partir. Em primeiro lugar, Pedro Sánchez está absolutamente atolado em casos de corrupção internamente e está com graves problemas de governabilidade em Espanha. Embora, eu moro em Madrid, acho que os nossos ouvintes mais fiéis pelo menos saberão, eu acho que apesar de tudo, ele está com problemas graves de corrupção. Agora, eu acho que ele conseguiu passar um Rubicão que é, neste momento, muito pouca coisa mais pode acontecer que fragilize ainda mais a sua posição. E ele consegue, apesar de tudo, controlar a narrativa midiática. Isto é o primeiro ponto. O segundo ponto é o seguinte: Pedro Sánchez, obviamente, quando toma esta posição, fá-lo de uma maneira que vai muito para lá de qualquer preceito moral ou de preocupação com o direito internacional, com a moralidade da guerra. Isto aqui tem uma função política interna muito clara, que tem que ver com a mobilização da esquerda, que as sondagens em Espanha mostram que um dos problemas do PSOE neste momento é precisamente a desmobilização da sua base eleitoral, enquanto a direita está fortemente mobilizada ou estará numas eleições. Sánchez faz isto estrategicamente para conseguir mobilizar a esquerda do PSOE e a esquerda à sua esquerda. Pronto, posto isto, e portanto agora falando substantivamente da posição, porque eu acho que as pessoas de alguma maneira têm tentado denegrir ou criticar a posição de Sánchez da seguinte maneira: "Bom, mas ele tem muitos casos de corrupção ou faz isto para consumo interno", e é evidente que isso acontece. Agora, devemos olhar para o mérito da posição substantiva dele e na minha opinião, Sánchez tem absoluta razão. Eu não gosto muito de fazer essas previsões, mas eu acho que a história dar-lhe-á razão, isto é, aquilo que se vai passar no Irão e no Médio Oriente a prazo, e ninguém sabe o que é que vai acontecer a prazo. E o mais preocupante não é nós não sabermos, o mais preocupante é os próprios Estados Unidos não terem a mais pequena ideia do que se vai passar. Basta vermos no primeiro fim de semana e na primeira semana de guerra, ouvimos várias pessoas da administração de Donald Trump, quando perguntadas sobre quais são os objetivos da guerra, cada um dava uma resposta diferente. Qual será a duração da guerra? Ouvimos respostas para todos os gostos. Aliás, Donald Trump a dada altura perguntam-lhe: "Quem é que vai liderar o Irão?" Ele diz: "Pois nós tínhamos aqui umas pessoas em mente, mas essas pessoas estão todas mortas. Depois havia outras pessoas ainda, mas morreram todas." Portanto, não é uma suposição minha. Observando puramente aquilo que a administração americana está a fazer.
As declarações públicas.
As declarações públicas, não parece haver a mínima ideia do que fazer no Irão. Na minha opinião, Sánchez, apesar de tudo, e eu penso que a posição de Sánchez é partilhada em segredo nas várias chancelarias europeias, o problema é que, ao contrário de 2013, em que houve uma grande divisão, uma crise transatlântica, nada comparada com o que é hoje, mas o problema que está a acontecer na Europa é que toda a gente sabe que Donald Trump é uma pessoa profundamente vingativa e que qualquer pessoa ou qualquer governo que tente de alguma maneira contrariá-lo numa matéria, corre o risco de ter, por exemplo, uma retaliação noutra matéria, alguém que o contrarie na questão da guerra. Aliás, ele próprio disse: "Vou acabar com as relações comerciais com Espanha". Que não pode fazer devido à União Europeia. Infelizmente, não sei se ele saberá que a União Europeia comanda as relações externas em matéria de comércio. Mas portanto, isto para dizer e para concluir que, na minha opinião, Sánchez tem razão, muito provavelmente muitos mais países europeus concordarão Com a posição dele.
Mas não o expressam desta maneira publicamente.
Não é terem coragem, só, porque eu não gosto de pôr isto numa questão de coragem. Infelizmente, há demasiadas coisas em jogo na relação com os Estados Unidos, a começar na política comercial e, muito importante, passando pela Ucrânia, que no fundo obriga os países europeus a estarem prostrados perante Donald Trump. Vimos o Reino Unido, e termino mesmo com isto, que fez uma jogada política muito interessante, em que Starmer diz: "Eu não apoio a intervenção dos Estados Unidos". Ele apoia os Estados Unidos na resposta à retaliação do Irão. Portanto, ele é contra a operação inicial, mas depois, como o Irão responde aos Estados Unidos, o apoio dele é dado aos Estados Unidos para responder à resposta do Irão, que é uma tecnicalidade. Mas eu acho que isto ilustra bem a grande dificuldade que os países europeus vivem e, infelizmente, a falta de autonomia estratégica. E eu penso que, infelizmente para o mundo, não sei daqui a quanto tempo, mas veremos que Sánchez tem razão e que independentemente daquilo que se passa internamente em Espanha, e isso é um problema da população espanhola, dos eleitores espanhóis, e não deve servir para diminuir a posição que ele tem externamente, é aqui que estamos e, portanto, eu acho que Sánchez está correto.
Muitas jogadas de risco e aqui estamos no jogo do Fora do Baralho, na análise política nacional e internacional. Obrigada, Jorge Fernandes. Boa semana para os nossos ouvintes. Pode escrever-nos para foradobaralho@observador.pt. Eu sou a Vanessa Cruz, já sabe, estamos sempre em podcast.