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Com o novo governo, agora as atenções viram-se para as contas. Há quem faça previsões mais pessimistas que as do Executivo, o que é que isso significa? Mas primeiro, ainda as presidenciais, com dúvidas sobre os eventuais perigos de um militar ser presidente da República. Nesta edição, cabe à Susana Peralta responder às perguntas dos ouvintes. Susana, começamos com uma pergunta do ouvinte Miguel Ribeiro, que escreve o seguinte: "Dado que a nossa democracia e a democracia no mundo em geral vivem tempos deveras conturbados e de enorme incerteza, não será de certa forma perigoso para nós, portugueses, que o ex-almirante e candidato às presidenciais Gouveia e Melo vença as eleições? Apesar do cargo importante que exerceu, não tem qualquer experiência política e isso deixa-me com sérias dúvidas na sua real competência para estar num cargo como é o de ser presidente da República. Pessoalmente, sinto-me mais seguro se um candidato sair do mundo político e não de uma área totalmente diferente." É esta a mensagem do ouvinte Miguel Ribeiro. Susana, há perigos de um ex-almirante vir a ser presidente da República, como este ouvinte nos traz aqui esta dúvida?

Olá, boa tarde e obrigada, Miguel, pela pergunta. Eu acho que aqui a questão não é saber se há perigos ou não, é de facto um cenário de maior incerteza. Ou seja, à partida, nós sabemos melhor o que é que havemos de esperar de uma pessoa que tem uma carreira política e que, portanto, tem um determinado discurso. Nós conhecemos o seu percurso, conhecemos as suas ideias, conhecemos os seus aliados, conhecemos eventualmente das pessoas que têm experiência governativa, autárquica ou parlamentar, ações políticas que essas pessoas levaram a cabo. E de facto, no caso do almirante Gouveia e Melo, o problema é que não sabemos. Portanto, eu não sei se isso pode ser, à partida, pode apontar para uma surpresa ou positiva ou negativa. O que nós sabemos é que vai ser uma surpresa. Agora, de onde é que eu acho que pode vir essa inquietação do Miguel Ribeiro, e que também é uma inquietação que eu de algum modo partilho? É que, de facto, quer dizer, neste caso, nós sabemos que temos este lado de incerteza, que eu acho que teríamos de qualquer candidato desconhecido, candidato ou candidata, mas depois temos aqui um elemento que é o facto de realmente esta pessoa vir da hierarquia militar. E isso pode nos trazer aqui alguma inquietação relativamente à sua cultura democrática. Quer dizer, as estruturas militares são, por definição, estruturas que não são democráticas, quer dizer, em que as pessoas respondem perante uma hierarquia, em que há pouco lugar ao debate. Ainda bem que assim é, longe de mim aqui vir sugerir que as Forças Armadas devessem ter assembleias para decidir o rumo a tomar em situações de guerra. É claro, Portugal nunca esteve em guerra, mas como é evidente, nós temos umas Forças Armadas para isso, por um lado. Depois, por outro lado, é verdade que nós já conhecemos ao almirante, designadamente por pensar naquele navio, que estaria em condições que não eram muito boas para navegar. Enfim, houve aquela insurreição dos militares, que mais uma vez eu admito que tenha sido, que fosse do ponto de vista militar algo inaceitável, mas de facto houve ali uma performance pública, quer dizer, houve uma vontade do almirante em tornar aquilo público, ou pelo menos houve uma falta de pudor na admoestação pública que nos ofereceu àquelas pessoas que estavam aparentemente a desobedecer às ordens. Portanto, eu não estou a questionar nem a legitimidade da ação do almirante, nem estou a questionar que aquelas pessoas tivessem efetivamente em falta grave perante a hierarquia militar. Estou a questionar o fato do almirante ter ou promovido ou pelo menos permitido aquela publicidade em torno daquele momento, que foi um momento particularmente humilhante. Portanto, eu diria que há aqui alguns ingredientes que nos podem levar a estar pelo menos atentos. Mas à partida, por exemplo, eu devo dizer que a entrevista recente, a primeira entrevista mais a sério que o almirante deu a uma jornalista, à Sandra Felgueiras, pareceu-me uma pessoa bastante moderada e, portanto, eu acho que nós temos para expectantes. Agora, claro, estamos num contexto de incerteza fundamental. Quer dizer, se ganhar Luís Marques Mendes ou mesmo o próprio Tózy Seguro, nós estamos a falar de pessoas cujas ação política, cujo percurso, cujo historial, cujo partido, cujos aliados nós conhecemos e, portanto, à partida-

É mais previsível.

Mais previsível, exatamente.

Susana, este ouvinte diz que se sente mais seguro com o candidato do mundo político, mas esta inquietação aparentemente não é uma inquietação que se mostre e que se veja nas sondagens, que parecem mostrar exatamente o contrário.

Portanto, eu acho que o problema é que nós sentimo-nos mais seguros com o candidato do mundo político. Eu não sei se me sinto mais segura. Eu sinto que sei melhor o que estou à espera. Mas se esse candidato do mundo político for, por exemplo, Joana Amaral Dias, que apesar de tudo tem um percurso político, não é? Ou se for André Ventura, eu sinto-me mais segura com o almirante Gouveia e Melo, porque das opiniões que até agora se ouviram dele, parece uma pessoa bastante mais razoavelmente extremista. Portanto, lá está, eu não associou isto a uma questão de segurança. De facto, eu associou isto a um tema de nós não sabermos muito bem o que é que dali vem. Há candidatos do mundo político dos quais nós sabemos o que é que dali vem e que eu não gostaria de ter, enfim, que fugia como o Diabo da cruz, ter essas pessoas como presidente da República. Mas o que eu acho relativamente às sondagens, que estás a perguntar Não é o que eu acho, é que os dados recentes de inquéritos de opinião e de sondagens, de inquéritos como o Inquérito Social Europeu ou o Eurobarómetro, quando se pergunta às pessoas, quando se tenta medir a confiança nas instituições, nós verificamos que há uma grande falta de confiança das pessoas em Portugal relativamente às instituições de democracia e principalmente aos políticos e aos partidos políticos. Lá está, neste contexto, essas pessoas realmente têm uma grande desconfiança dos políticos e dos partidos políticos, preferem apostar numa coisa que não sabem o que é, porque para elas, estão naquele cenário no qual eu me coloquei, por exemplo, relativamente a Joana Amaral Dias ou André Ventura, que é: "Isto eu sei o que é e não quero." Há essa indicação, pelo menos, de dados de inquéritos de sentimento das pessoas que mostram que há essa desconfiança e as pessoas aparentemente estão à procura do desconhecido. É claro que além disso, este homem do Gouveia e Melo está associado a um dos maiores sucessos de políticas públicas dos últimos anos em Portugal, que é a vacinação. Eu sou cética relativamente à forma como isso nos garante alguma coisa relativamente à sua ação política. E podíamos se calhar aqui até falar um bocadinho sobre isso.

Hoje não vamos ter tempo.

Não vamos ter tempo, exatamente. O que nós conhecemos dele é um caso de sucesso, portanto é natural que as pessoas se agarrem a estes valores seguros.

Que a conhecem de alguma forma.

É esta esperança de uma coisa que vai funcionar.

Fica esta resposta da Susana à pergunta do ouvinte Miguel Ribeiro. Susana, vamos a outra pergunta, a ouvinte Ângela Marques coloca uma questão relacionada com as contas do Estado. O jornal Público fez as contas e concluiu que o governo está cada vez mais isolado nas previsões, os vários organismos nacionais e internacionais estão cada vez mais pessimistas, o que leva a ouvinte a perguntar se as previsões económicas do governo estão em causa. Estão, Susana?

Estão, obviamente que estão em causa. A resposta simples e curta a essa questão é que as previsões económicas do governo estão em causa. Há aqui uma questão, que é importante também dizer, de prazo, ou seja, de calendário. De facto, as previsões que nós temos do governo foram antes de se conhecerem as más notícias do desempenho da economia portuguesa durante o primeiro trimestre, em primeiro lugar, e antes de nós vermos em ação a atitude completamente irresponsável e destruidora de valor económico da administração Trump dos Estados Unidos. É natural que o governo tenha uma tendência para ser especialmente otimista nas suas previsões, sobretudo em período em que já admitia que pudesse haver umas eleições. Também não é só maniqueísmo. De facto, o governo fez as suas previsões no contexto do orçamento de Estado, e que era um calendário muito diferente e o mundo está muito incerto. Portanto, como o mundo está muito incerto, as coisas mudam muito depressa. Agora, de facto, é muito pouco provável que as previsões económicas do governo acabem por verificar-se. O que nós verificamos é que ao longo do último ano, por assim dizer, as previsões foram sendo sucessivamente revistas em baixa, inclusivamente esta revisão agora do Banco de Portugal é pior do que a última. Há de facto aqui um contexto negativo que se adensa. De onde é que vem esse contexto negativo? Já agora, vem claramente da questão das tarifas, ou seja, uma coisa era nós termos uma ameaça de Donald Trump, outra coisa é vermos Donald Trump em ação, e isso já permite ver aqui custos económicos. Vem, de facto, do mau desempenho da economia portuguesa no primeiro trimestre. Eu recordo a queda de meio ponto percentual, queda no sentido de efetivamente uma contração da atividade económica de meio ponto percentual, que também poderá estar, ela própria, ligada ao contexto de fundamental incerteza ligada às tarifas, porque isso faz com que as empresas exportadoras não aceitem encomendas, retraiam-se nas suas decisões de investimento, ou retraiam-se nas suas decisões de contratação. Está essa questão, depois há aqui também, obviamente, o que o Banco de Portugal também assinala, os atrasos na execução do PRR, que também levam, porque o PRR tem um efeito positivo na economia. Nós às vezes discutimos: "Isto é uma oportunidade perdida." Mas a questão é relativamente a quê? Ou seja, relativamente ao que o PRR nos poderia ter trazido se nós tivéssemos tido a capacidade não só de planear a coisa com outra envergadura e depois de a executarmos, podíamos ter tido um impacto mais positivo, mas é evidente, quando nós estamos a gastar esse dinheiro todo na economia, isso tem um impacto positivo na mesma. Portanto, continuamos a ter um impacto mais positivo do que teríamos se não tivéssemos PRR. E os atrasos na execução do PRR, que aliás soubemos esta semana, quase ao mesmo tempo das previsões económicas do Banco de Portugal, o relatório da Comissão Nacional de Acompanhamento vem dizer que se havia previsões económicas que tinham em conta uma certa velocidade de gastar o dinheiro, agora elas têm que ser revistas em baixo. Por outro lado, o próprio Banco de Portugal também é mais pessimista do que o governo relativamente às contas públicas e prevê um déficit já este ano, em 2025. Isso deve-se não só aos vários gastos, à despesa pública que o governo foi executando em clima até de pré-campanha eleitoral, embora uma parte dessa despesa pública, certamente os acertos em muitas das carreiras da função pública eram necessários e justos. Mas depois, por exemplo, um enorme rombo nas contas públicas, que é o IRS Jovem, que já tinha sido assinalado pelo FMI, já tinha sido assinalado pelo Conselho de Finanças Públicas e que agora também se vem verificar.

Tudo isso vai ter impacto.

Tudo isto vai ter impacto. Depois há este contexto de grande incerteza com as guerras, que leva a que também haja depois do lado do consumo alguns sinais de alguma retração, porque as pessoas sentem-se mais inseguras e portanto tentam poupar mais.

E gastar menos.

Agora, só para não ficar uma nota exclusivamente negativa, pessimista, há aspetos positivos que o Banco de Portugal assinala no seu Boletim Económico, desde logo, por exemplo, o desempenho do mercado do emprego, muito coadjuvado também pela mão de obra imigrante. Não só do ponto de vista do emprego, como do ponto de vista da criação, que tipo de emprego é que se está a criar. E verifica-se que há um crescimento do emprego nos setores que pagam salários mais altos, que têm representado 41% do aumento do emprego no período pós-pandemia, desde a pandemia, e que antes representavam 27%. E o Banco de Portugal não prevê que haja más notícias deste lado do emprego, repito, não só no lado de haver mais desemprego, acham que não, que o desemprego se vai manter, como se acha que se vai manter esta dinâmica positiva de crescimento do emprego muito concentrada em setores que pagam bem, portanto, em bons salários. É por isso que nós temos tido um bom desempenho também do salário médio, enfim, nem tudo são nuvens negras aqui no horizonte.

As respostas da Susana Peralta às perguntas dos ouvintes. Domingo que vem há mais, não se esqueça. Envie as questões para os ases responderem através do e-mail foradobaraio@observador.pt.