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E o Vencedor É, na Rádio Observador e também vídeo no YouTube, hoje com a Judite França, António Costa e o Gonçalo Duroteia Sevado. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje vamos falar de André Ventura e dos gastos nas eleições presidenciais, ainda da onda de violência em França e Espanha e também das declarações do presidente do IHRU. E ainda vamos ter tempo para conversar sobre a criação de um eventual novo partido ao centro, uma ideia levantada pelo presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais. Mas Judite França, vamos começar pelas declarações do presidente do IHRU e sobre a capacidade de sacrifício para enfrentar a vida.

O índice de sacrifício. Não sei se podia haver um índice de sacrifício.

Olha, eu não sei se queres-

Por acaso fiz um na faculdade, inventei um índice de sacrifício na faculdade.

Inventaste?

É verdade.

Passaste esse índice? Passavas ou não?

Tive 17. Mas isto para dizer o quê? Para dizer que Benjamim Pereira retratou-se, mas eu não acredito que o tenha feito por convicção, porque Benjamim Pereira disse aquilo que queria dizer.

Obviamente.

O problema, sendo presidente do IHRU, espero que estas convicções não façam política pública. É verdade que o caso para o governo ficou resolvido, Pinto Luz, que o tinha atacado na véspera, ficou satisfeito com as explicações e, portanto, o senhor mantém o emprego.

É mesmo isso, mantém o emprego.

O que eu acho bem, tendo em conta que disparates toda a gente diz de vez em quando. Só me preocupa que esta teoria da sardinha para três.

Desculpa, é para 10.

É para 10?

É.

Não era uma sardinha para três?

Não, uma sardinha para 10.

Uma sardinha para muita gente.

Espinhas incluídas.

Possa servir de alguma forma para interferir no funcionamento do IHRU, que como aliás sabemos, costuma funcionar muito bem. Não, estou a brincar, tem fama de funcionar muito mal. É preciso, de alguma forma, serenar os ânimos, porque acho que anda tudo um bocado cabeça perdida, mas pela falta de intervenções anteriores na comunicação social, eu diria que Benjamim Pereira nunca foi treinado para estar perante jornalistas a fazerem várias perguntas. Isso trabalha-se, é uma aprendizagem. E se aprende à rua, é preciso dar-lhe alguma formação para não cair nesta conversa.

António, sacrifica-te mais um bocadinho que eu já te dou a palavra.

É evidente que é preciso fazer sacrifícios para ter casa.

Acho que com o índice de sacrifício aqui, ficamos no limite.

Não interrompas.

É preciso fazer sacrifícios para ter casa, caso não sejas um herdeiro ou espetacularmente bem pago.

Exato.

Mas eu acho que os jovens sabem disso. Acho que sim. Também sabem que nem todos podem morar no centro do Porto ou no centro de Lisboa. É uma evidência. Mas sinceramente, para um jovem de 20 e tal anos, que tenha um emprego relativamente normal, mas diferenciado, como é que conseguem entrar no mercado de habitação? Neste momento não tem forma e isso é um problema real. E portanto eu acho que era bom que o presidente do IHRU apontasse para problemas reais e não para este tipo de opiniões pessoais, que eu percebo que ele tenha, mas que não as deve dar.

Legitimamente.

Legitimamente, mas que não as deve dar, porque soam bastante mal.

E tu, António?

Acabou o sacrifício. Eu acho que a coisa é mais grave que isso. É evidente que pensa o que disse. E é evidente que obviamente foi o preço que teve a pagar para manter o emprego. É isso que está em causa. Mas isto é mais profundo, porque este caso alerta-nos para a forma como os governos escolhem líderes de instituições.

Sim.

E para a CReSAP, por exemplo, que é um nato morto, que foi criado em bom tempo e com bons fins na altura do governo de Pedro Passos Coelho, que foi destruído pelo governo António Costa.

A CReSAP é uma espécie de-

Agente de avaliação prévia dos cargos do Estado. Este senhor foi presidente da Câmara de Esposende, distrito de Braga.

Aliás, não por acaso, Hugo Soares defendeu ontem com unhas e dentes.

Exato, não mesmo por acaso. E chega a presidente do IHRU, porque já não se podia recandidatar.

Já tinha feito os três.

A Esposende, poderia se candidatar a outras autarquias, mas como é evidente, para lá de que o IHRU paga melhor do que o presidente de câmara, também resultava evidente na altura que na geometria político-partidária do conselho e do distrito, não havia espaço para a candidatura de Benjamim Pereira a outra câmara. E isto é grave. Por quê? Porque as declarações são uma consequência de um perfil, e não é por quê? Porque o instituto é um instituto que gere centenas de milhões de euros. Parece que se descobriu agora que é muito importante. Sempre foi muito importante, há muitos anos que é. Não tem funcionado particularmente bem, particularmente na relação com as câmaras. Já sei, vão dizer: "Tem muita experiência de camarada e isso é muito importante no IHRU para tratar e porque Esposende está lançado." Não quero ser injusto. Alguns concursos, não sei se lançou um, dois, cinco ou 10, não faço ideia, não tenho esses dados. Sei que não é o perfil para ser presidente do IHRU. Os institutos não podem ser cadeiras para políticos serem colocados, seja pelo PSD, seja pelo PS.

Não sei se foi escolhido por ser engenheiro civil

Não sei, pode ter sido.

Pois não sei. Sei que as declarações não foram mero lapso. No Facebook público, portanto não é privado, não é pra família, para os amigos, que eu poderia depreender que era uma conta, digamos assim, privada.

Mais privada, sim.

Tem declarações sobre Pedro Passos Coelho: "Uma canalhice, um ato cobarde e vingativo." Já era presidente do IHRU quando escreveu e disse isto.

Estava a defender Luís Montenegro.

Pois, mas é presidente do IHRU. Não é políticos, ele deixou de ser político quando deixou de ser presidente de câmara, passou a ter responsabilidades. Qualquer pessoa que vá à conta pública de Facebook deste gestor ou deste pseudogestor encontra coisas do PSD, cartazes, coisas de comícios, como coisas do IHRU. Não quero personalizar em excesso a figura. O ponto é: passou na CReSAP, não deveria ter passado. É um setor tão exigente, há tanta gente boa no país, dos malfadados fundos, habituados a investir, a liderar, a projetar, a gestores do setor imobiliário. E esse instituto deveria ter este perfil. Por isso é que vemos agora Pinto Luz, obviamente, a dizer o óbvio, aquilo é mais do que infeliz, disse o mínimo. E vemos Hugo Soares a suavizar, a normalizar uma declaração que por si não vale nada, mas sobretudo revela como é equivocada a forma como os outros governos, o PS obviamente também, mas este governo que nos dizia que queria fazer diferente e põe à frente do IHRU um instituto tão importante.

Gonçalo, é caso para citar Romário quando disse aquelas palavras imortais: "Pelé calado é um poeta"?

Não, e eu lamento, mas vou ter que discordar dos meus companheiros de mesa hoje. Discordar, no fundo, da questão ou da mensagem deste senhor, que eu confesso que só há pouco, quando me sentei nesta cadeira, que percebi que o homem se chamava Benjamim. Portanto, confesso que não tinha associado isso. Eu concordo com as críticas que o António faz ao processo e à forma como muitos ex-autarcas, aparatos chicos dos partidos, nomeadamente do PS e do PSD, chegam a estes lugares da administração pública, isso é grave. Mas eu acho que as declarações deste senhor têm um certo fundo de verdade. Eu não sei se isto é um tema, se é um legado cultural do fim da história, se é uma espécie de percepção de que é possível ter tudo ao mesmo tempo e muito cedo, mas é evidente que é preciso fazer sacrifícios para ou ter uma casa, ou ter outro tipo de bens, ou de luxos, ou de coisas que não sejam pequenos luxos. Ou seja, o problema de fundo que ninguém parece ter estado a discutir, porque acho que nos focamos muito no tom, na mensagem, se foi ou não foi apropriado, foi, lamento, é no fato de termos em Portugal salários absolutamente miseráveis. O problema não é o preço das casas, ou melhor, o preço das casas só é um problema a partir do momento em que os salários em Portugal são baixos e ninguém está disposto a discutir por que esses salários são baixos e o que é preciso fazer pra que eles deixem de ser baixos. E não é certamente por crédito, Gonçalo.

Não, desculpa. Se me permites.

António.

Os salários são baixos, obviamente, mas há de fato um desequilíbrio no mercado imobiliário.

Claro que sim, claro que há.

E a habitação. É que os salários podiam ser altos.

António, é evidente que há.

Se nós temos um mercado em que um bem, neste caso a habitação, que é de fato um bem obviamente importante, sobe cinco, seis, sete vezes mais do que os salários, os salários podiam ser altos, o problema continuava. Agora, é pior quando os salários são baixos e a capacidade de resposta das famílias é pior.

É evidente que sim, mas há um ponto de partida inicial que é salários baixos, e disso ninguém quer discutir. E ninguém quer discutir porque isso implica acabar com derramas municipais, que são grandes fontes de financiamento para os municípios. Isso implica acabar com uma série de várias coisas que já falamos aqui várias vezes e que não permitem às empresas e ao tecido empresarial português ganhar escala, ganhar competitividade, fazer o que a Seralis fez na notícia que tu trouxeste aqui na semana passada.

Mas o que isso tem a ver com o sacrifício dos jovens?

Repara, tem tudo que ver. Ele só disse uma lapalissada. Eu detesto trazer exemplos individuais, mas eu emigrei e porque pude emigrar durante 10 anos, pude comprar uma casa em Portugal. Ou seja, o que eu quero dizer é que a expectativa de que, com base nas condições atuais, este é o quadro, e este quadro é igual pra todos. Os salários são os que são, o acesso a determinadas profissões são os que são.

É mais igual pra uns do que pra outros.

Sim, como sempre.

Ricardo, é evidente que sim, mas o que eu quero dizer é-

E a perspectiva que tu tens nesta altura, entre os mais jovens, é obviamente uma visão muito cinzenta do que é o futuro.

É pior do que a nossa expectativa quando éramos jovens.

Então eu vou só trazer aqui um dado.

A expectativa que nós tínhamos era termos alguma capacidade de alugar uma casa, comprar uma casa, não é?

Não, porque toda esta questão da habitação, de que todos temos que ter casa própria e viver na nossa própria casa aos 22, 23 anos, me perdoe, eu acho que isso também é uma grande ilusão.

Mas nós quando tínhamos, eu sou mais velho do que tu, mas quando tinha 22, 23 anos, no fundo, quando comecei a trabalhar, havia uma expectativa de obviamente seria um sacrifício, obviamente o ordenado ficava curto pra comprar uma casa.

Era o que era, obviamente.

Mas era possível, e hoje a ideia que há é Não vai ser possível.

Há um artigo da Economist do início de outubro, eu acho que isto é importante para a discussão, em que o título é bastante provocatório e diz: "Don't feel sorry for the millennials." E onde traz dados, não traz dados específicos pra Portugal, mas traz dados sobre 32 países ricos e onde diz que destes 32, só três, nomeadamente Itália, a Grécia e o Japão, é que estão numa situação pior, no sentido da geração atual, em termos de riqueza do que as gerações anteriores. Ou seja, em 29 países ricos, a geração de hoje vive melhor, tem acesso a mais bens, é mais rica do que era a anterior.

Não vou contrariar o que estás a dizer. Mas é óbvio que a vida dos jovens é hoje, se calhar, melhor e mais confortável do que foi a nossa, com mais acesso a mais coisas, a viagens, a outras experiências, a outro tipo de vida. Mas uma pessoa com 25 anos hoje, ou 26, quer sair da casa dos pais-

Claro que sim

...tem uma grande dificuldade em conseguir fazer isso.

E não é legítimo que tenha que imigrar pra fazer isso.

Não é legítimo, mas é uma opção que está à parte.

Claro que é uma opção.

Como esteve para os pais e dos avós do Benjamim.

Com certeza, mas não pode ser um princípio.

Aí vivíamos num país de pé descalço.

Claro que sim.

E hoje, felizmente, já ultrapassamos isso.

Eu acho que há um texto desta semana do Jorge Fernandes no Observador que diz muito porque é que determinado tipo de temas se tornam centrais no debate público. Na geração da troika, que é a minha, paramos pra discutir muitas vezes, no caso a imigração, o desemprego, os baixos salários, etc, porque chegou aos filhos da classe média, classe média alta. Estamos hoje a discutir o tema da habitação, porque a imigração já existia. Portugal sempre foi um país de imigrantes. Imigravam pra França, pra Suíça, pro Luxemburgo, etc. Nós hoje estamos a discutir o tema da habitação porque ele está finalmente a chegar aos filhos de uma determinada classe social que tem algum peso. Lamento, mas não sejamos hipócritas. O meu ponto tem que ver com-

Eu não percebo a relação que fazes com-

Ele só disse uma obviedade, António

...a necessidade dos jovens fazerem sacrifícios pra terem casa, que foi o que ele disse. Isso é que eu não consigo perceber, porque eu concordo com o que estás a dizer, é óbvio, mas o que ele está a dizer?

A mensagem.

O que ele quer dizer?

O que ele quer dizer é que-

É que os jovens não fazem sacrifícios. É isso que ele quer dizer

...não estão disponíveis pra trabalhar o suficiente pra ganhar uma casa.

Ou pra abdicar de outras coisas pra comprar uma casa.

Nós podemos chegar a essa conclusão. Então temos que ser consequentes e dizer, ou no caso tu que estás a defender essa posição, que não há crise na habitação.

Eu não estou a dizer isso. Longe disso.

Eu quando chamo crise, vamos lá ver.

António, longe disso, mas uma notícia até do teu próprio jornal, do Eco, temos que fazer sempre publicidade.

Jornal Eco.

Dá conta de dados, inclusive do Banco de Portugal, que dizem que desde 2020 as famílias portuguesas estão muito mais ricas do que nunca antes. Há a boleira imobiliária.

Claro, até é o lado positivo disso.

Há a boleira imobiliária.

Há segmentos, sabes por quê? Porque quem tem uma casa que já comprou há 10 ou 15 anos, está exposto à inflação, mas valoriza o património. Quem está a entrar no mercado ou quem está em arrendamento com contratos a vencer, é que tem muita dificuldade.

Repara, mas é que todas as medidas que estamos a discutir para quem não tem uma casa, o problema neste momento é, sobretudo, daqueles que querem aceder ao mercado. E todas aquelas medidas que estamos a discutir, tetos às rendas, limitações a subidas de rendas, etc. Nada disto vai permitir, pelo contrário, a entrada destas pessoas no mercado de trabalho.

Estamos de acordo.

O que eu acho é que nós perdemos muito tempo a discutir o tom, perdoem-me, do senhor Benjamim.

Queres dar uma nota, António?

Sim. Eu ia dar um seis ao Benjamim Pereira, mas na verdade, dou um sete à nomeação.

Gonçalo.

Eu acompanho o sete pra o nível de discussão em que eu acho que nos limitamos a fazer este debate.

Não é este aqui.

Não, este debate em torno das declarações.

Não, ele tá a pensar noutro.

Não, este é 17, na linha da nota da Judite de índice sacrifício.

Eu vou dar um 14 a Miguel Pinto Luz, porque viu logo que era preciso distanciar-se destas declarações.

Vamos, se calhar, agora para a criação de um partido do centrão, com uma proposta de Isaltino. Proposta, não, Isaltino Morais não assume a proposta.

Uma reflexão.

Sim, mas diz que no atual estado da arte, é mais do que provável que surja um novo partido, que será um partido do centro. E Isaltino poderá ser o líder desse partido, Gonçalo.

Eu não sei se Isaltino Morais, a chegar aos 70 anos, tem capacidade.

76.

Pronto. Então a chegar aos 80 anos.

Tem 76.

Portanto, a caminhar para os 80 anos.

Foi o que disse esta semana na entrevista à RTP. 76, não foi?

Acho difícil que se veja a ele próprio como líder do que quer que seja pra lá da Câmara de Oeiras. Dito isto, a mim parece-me uma reflexão muito interessante, mas acho que não tem pernas pra andar a execução, ou seja, a existência desse partido, o partido até se pode formar, mas que tenha capacidade para ter peso eleitoral suficiente para baralhar o atual sistema político-partidário português Olhemos só para alguns exemplos. Macron, depois de 10 anos na presidência francesa, é talvez o grau de maior sucesso do que é um partido de centro ou daquilo que é uma inspiração de centro, o resultado está à vista nas ruas e nas sondagens daquilo que se lhe seguirá. Não me parece que tenha tido grande sucesso nesse sentido. Eu acho que nós somos medidos pelo sucesso, como dizia Thatcher: "O meu maior sucesso foi Tony Blair." Se o maior sucesso de Macron será a Marine Le Pen, acho difícil que assim seja visto dessa maneira. Mas depois olhemos para dois outros exemplos, o Ciudadanos em Espanha, que em seis meses, em 2019, passa de 57 para 10 deputados, e um outro partido na Holanda, o SNC, que passa de zero para 20 e de 20 para zero num espaço de meia dúzia de anos. Ora, estes partidos de centro, na lógica de Isaltino Morais, deveriam assumir a lógica da estabilidade e deveriam permitir estabilidade a governos de centro-esquerda ou de centro-direita. Não há nada mais estável do que um governo de um só partido. Uma coligação, como nós sabemos, tem tudo para ser instável. Estes partidos funcionariam com base em quê? A partir de que ponto ideológico? Porque o centro é um enorme buraco negro. Os partidos políticos partem de uma visão do mundo, uma visão do que é a natureza humana, do que é o homem, do bem, do mal, etc. E a partir daí formulam políticas públicas. Ora, um partido do centro partiria do quê? Do grau de execução de quantas casas se conseguem construir em menos tempo? Parece-me pouco, não responde à pergunta por quê, para quê, sobretudo para quê. Eu acho que no atual quadro político ou midiático em que a moderação também não tem grande tração eleitoral, não sei qual seria o grau de sucesso deste partido. Aliás, Gouveia e Melo foi tentado.

Mas Gouveia e Melo correu-lhe mal depois da campanha presidencial, não é?

Começou a variar para não ser esse extremo centro e ser outra coisa. Mas eu ia dizer que tenho que discordar de ti .

Força, papá!

Isto é a sexta-feira? Finalmente.

Mas discordo só num ponto, que é: os resultados são os resultados, e tu apontaste muito bem os resultados. Mas o paradoxo é que os eleitores queriam partidos de centro, porque Macron ganhou duas eleições com aquela agenda. Depois não foi capaz de desembrulhar. O Ciudadanos, como tu dizias, passou para 56 deputados e depois caiu. Houve momentos em que a agenda, em que o eleitorado desses países olhou para os partidos que estavam e disse: "Estes não servem, queremos partidos de centro." E depois os partidos de centro não foram capazes de entregar a expectativa que os cidadãos tinham e os eleitores tinham na sua agenda política. Obviamente, não havendo Macron, foi reeleito. Nós chegamos com estes resultados, não só na política, no contexto social, econômico, mas a França, de facto, é mesmo um país que não se governa e nem se deixar governar não é de Macron apenas. Aliás, Macron também é ele próprio consequência de uma sucessão de problemas econômicos, sociais em França que tendem a agravar-se.

Mas eu próprio não tenho a certeza. Aliás, estou inclinado para responder que é uma causa, a existência destes centros amortizados de qualquer tipo de ideologia, ou de princípios, ou de um quadro valorativo que seja percetível pelos eleitores, é a maior fonte de crescimento dos extremos.

Poderá ser.

Parece estar a ser em França.

Está a ser, nomeadamente nos países onde o centro ganhou com expressão. E depois, nuns casos, até perdeu também com muita expressão. Mas a verdade é que os eleitores sinalizaram que queriam aquele centro. Se calhar a resposta ou a pergunta que nós temos que fazer é se o centro que emergiu e a forma como geriu foi exatamente aquela que os eleitores sinalizaram nos seus votos. Não foram, porque depois foram apeados ou criaram uma situação ainda mais difícil no caso de França. Eu não daria por esgotada a solução de centro face ao contexto político. Cada país é um país, obviamente. Mas eu não daria por esgotado porque em França resultou nisto e o Ciudadanos, porque eu olho para os resultados desses partidos ou desses líderes e, na verdade, eles chegaram lá porque os eleitores quiseram.

Deixa-me dizer uma coisa, Ricardo. Hoje no Contracorrente, que falava deste tema.

Foi sobre este tema, sim.

O Jaime Nogueira Pinto deu uma pista ou fez um comentário que me pareceu interessante na análise, que é: nós estamos num momento em que as pessoas não votam por qualquer coisa, mas contra qualquer coisa. O Ciudadanos, o caso espanhol é o que melhor conheço, mas o Ciudadanos tem aquela pujança eleitoral na Catalunha e em tudo.

Muito forte.

Fortíssima.

Mais rápida que o cheiro.

Sim, porque era contra o PP da corrupção, que não foi firme no tema da Catalunha, etc. Havia ali um trigger. Eu não sei qual é que será o trigger em Portugal que poderá despoletar este partido de centro.

Central.

Eu acho que...

Vais-te para o centro, Judite?

Eu acho que o bloco central não tem resultado em Portugal, nem quando PS e PSD tentam dar a mão. Acho difícil haver aqui uma movimentação para um partido de centro. Acho mais fácil Haver uma assimilação de partidos do que maior dispersão de partidos.

Mas há muitos eleitores órfãos, não é?

Há muitos eleitores órfãos, mas não acho que seja de partido, eu acho que é de líder. São órfãos de líderes, não são órfãos de partidos.

Que grande frase.

Tá bem.

Vou pôr essa frase num pus.

Tá bem. Fico por aqui.

Ficas por aqui?

Acabar com frase.

Então vá, dá uma nota. Só para encerrarmos isto.

À ideia de um partido de centro, dou um oito.

António.

Eu dou um 12 à ideia de novos partidos. Eu acho que o sistema precisa de regenerar, porque acho que o modelo atual-

Tu gostas do empreendedorismo, não é?

É, eles acabar com os incumbentes e trazer novos partidos. Eu não vejo solução pra forma como o PSD e o PS estão organizados nos distritais. Falamos do Iru, é o que é.

Sim.

Claro, eu olho para a Iniciativa Liberal ou para o Bloco de Esquerda ou para o Livre, e o que vejo também só me parece coisas a mimetizar os grandes no seu pior e a não trazer verdadeiramente nada de novo. E o Chega é esse efeito contra o sistema. Mas alguma coisa precisa de acontecer no sistema.

Gonçalo.

Eu dou um quatro, porque acho que a tendência deve ser precisamente a contrária. Do meu ponto de vista, é fusões, aquisições, concentrações de partidos para formar dois grandes polos e não esta pulverização.

E tu ainda querias falar do André Ventura, António.

Queria, porque se fala muito de habitação e eu acho que passou ao lado uma notícia que eu creio que é importante, que saíram as contas das presidenciais.

Das campanhas.

Das campanhas presidenciais. E André Ventura apresentou um orçamento de €900 mil, um orçamento a priori, digamos assim, à partida, e acaba com gastos de €3,7 milhões.

Derrapou.

Um tudo nada.

Incluiu as despesas médicas ou não?

Incluiu tudo. Ainda por cima, confesso na busca que fui fazer do contexto da apresentação das contas, André Ventura diz isto: "Vai ser clarinho como água, isto é tudo clarinho, tudo em cima da mesa." Eu gostava que agora fosse clarinho. Gastou €1 milhão em brindes. As receitas também são interessantes.

Sabes a preço que estão as canetas?

Exato.

Devem ser o transporte da China, porque eles são feitos todos na China ou, enfim, na Ásia. Agora não é a China que faz brindes, a China faz automóveis superdesenvolvidos.

Daqueles que se estacionam sozinhos.

Exato. Isso não são bem brindes, são coisas muito sofisticadas.

Mas foi antes do fecho do Estreito de Ormuz, portanto ainda deve ter conseguido passar por ali.

Exato. Agora, receitas. Mais de €2 milhões, €2,5 milhões, mais coisa menos coisa, que vêm de partidos. Aquilo vem classificado como partidos, mas eu suponho que partido seja um partido, o Chega. Na verdade, podemos também supor que foi tudo financiamento público, porque obviamente o grande financiamento dos partidos, e do Chega em particular, legitimamente, como todos os outros, vem da sua representatividade eleitoral, portanto, é um partido, digamos, rico. Não sei se se lembram de notícias nunca desmentidas e, aliás, que eu acho que nunca desapareceram verdadeiramente, que o Chega queria comprar o Caldas.

Lembro-me disso.

Não sei como é que aquilo ficou. O edifício onde está o CDS. E que havia ali um tema, eu não sei se isso foi completamente ultrapassado, mas porque o Chega tinha capacidade e fôlego financeiro, que obviamente o CDS não tinha, porque despediu uma série de gente, teve que fazer uma reestruturação. Bem, assim como o Bloco de Esquerda e afins. Mas para transparência de contas e para um partido que exige tanta transparência a toda a gente, por tudo e mais alguma coisa.

Queres dar uma nota?

Eu dou um seis a André Ventura, porque isto não são contas que se apresentem. António José Seguro também foi à segunda volta. Depois dizem: "Ah, mas foi à primeira volta e à segunda." Teve uma derrapagem de 8%, passou de um milhão.

E passou 1,2.

Pouco mais de €1 milhão. Portanto, uma derrapagem dentro do que se pode considerar aceitável, tendo em conta a perspectiva de passar uma primeira a uma segunda volta, que não era óbvio para nenhum dos dois quando começaram o orçamento.

E Gonçalo, ainda te consigo dar aqui um longo minuto para discorrer sobre as ondas de violência em França e Espanha.

Eu acho que aquilo que nós assistimos em França no fim de semana passado deveria preocupar qualquer democrata, qualquer pessoa que preza as instituições, que preza a ordem democrática, porque o que assistimos foi, de facto, grave, violento, telegénico, é certo, mas muito grave. E a verdade é que nós olhamos para as imagens de hoje, sexta-feira, em França, e em que os comerciantes já se estão a preparar para as manifestações deste fim de semana como se de uma guerra se tratasse.

É incrível, as imagens são incríveis.

Portanto, é possível que Kiev tenha mais tranquilidade do que Paris aos fins de semana, o que é uma coisa estranha. E isso deveria preocupar-nos. Todas as discussões sobre os perigos do fascismo e os perigos da extrema-direita, eu lamento. Acho que é muito importante falar sobre isso, mas não podemos ignorar, mais uma vez, os números. Eu recorri a um artigo do Diário de Notícias do Diogo Noivo, em que ele nos fala sobre dados da Europol sobre 58 atos de terrorismo na Europa em 2024, 24 são jihadistas, 21 de extrema-esquerda e anarquistas, quatro separatistas e um sem autodenominação, digamos assim. Ou seja, nós andamos nos últimos anos a falar sobre os perigos da extrema-direita. É certo, mas ignoramos, desvalorizamos os perigos da extrema-esquerda. E aquilo que vimos em França é o exemplo máximo da violência dessa extrema-esquerda, que não respeita a ordem democrática, que não respeita as instituições. E isso se prova quando há uma espécie de desculpa por parte dos líderes da França Insubmissa, nomeadamente, sobre o que está a acontecer. E a violência não se desculpa, a violência condena-se.

Queres deixar uma nota?

Vou dar um oito, com a expectativa de que este fim de semana as coisas não corram mal.

E Gonçalo, gostou tanto disto que amanhã está cá outra vez. Nas manhãs "360", no "Eu Venço or É", amanhã com a Eunice Lourenço e o Gonçalo Duro Teia Sevada.