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Fora do Baralho, edição extra dedicada aos ouvintes que nos escrevem para foradobaralho@observador.pt. Hoje o ás de serviço é o Nuno Garoupa. Temos perguntas sobre a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, Passos Coelho e a Operação Marquês. Vamos a isto, Nuno. Começamos aqui com a Diana Neves, que pergunta que legitimidade é que tem a ministra da Saúde para continuar no cargo depois de tantas falhas no atendimento de utentes e de ela própria estar, pelo que é noticiado e foi noticiado também pelo Observador, que está farta e cansada. Se vale a pena o governo prolongar esta situação, sendo que noticiamos também aqui no Observador que Luís Montenegro tem um prazo, dezembro, para reavaliar a continuidade da ministra já depois de fechar o capítulo do orçamento do Estado.

Eu acho que aqui nós temos que separar várias questões. Quer dizer, há aqui uma questão muito particular, que aliás, nós já discutimos no programa, se é que tragédias pessoais devem ou não devem levar a demissões de ministros. E aqui eu continuo a pensar aquilo que eu disse no programa, que há maus precedentes, em que se criaram precedentes sobre isso, mas que as tragédias pessoais não se devem levar a demissões de ministros, tal como tragédias pessoais na educação e na justiça ou nas polícias, não levam a demissões de ministros.

Sendo que, deixamos só fazer aqui este parêntesis, no programa em que falamos sobre isso, a ministra tinha garantido que o atendimento foi bem feito e que a grávida não estaria a ser seguida no SNS há muito tempo, mas depois veio a verificar se houve um erro na informação que foi veiculada e já estava a ser seguida desde julho.

Com certeza, mas aí, mais uma vez, não há que sacar responsabilidade à ministra, há que sacar responsabilidade a quem orienta e dá informação à ministra, porque não é a ministra que obviamente faz seguimento dos milhões de doentes cá em Portugal, isso são os serviços do SNS e simplesmente informaram mal o gabinete da ministra. Agora, há duas coisas diferentes: e a questão das tragédias pessoais. Outras duas questões completamente distintas é a questão política, e aí penso que a ministra não só está fragilizada, como não faz sentido nenhum, como diz a nossa ouvinte, que anda a dizer em público que está farta e que está cansada e que depois isso não tenha consequências. Pelo contrário, até estão agora a dizer que vai prosseguir mais seis meses porque está pronta pra guerra, o que é uma expressão muito peculiar também referirem-se ao SNS como "estão prontos pra guerra". Agora, é evidente que há aqui uma questão de política de fundo, que foi: a ministra deu corpo àquilo que foi um programa da AD, que era cortar com a reforma do PS, boa ou má, não vamos entrar agora nisso, e apresentar um plano de emergência em 60 dias e depois um plano de reforma e estruturação do SNS que apresentaria resultados muito bons ao fim de dois anos. Ora, o prazo está a se esgotar, não há resultados e, obviamente, pelo contrário, a percepção generalizada é que o SNS está igual ou pior do que estava há 18 meses. Portanto, desse ponto de vista, o governo tem problema objetivo e a ministra está numa posição muito fragilizada porque não tem nada pra apresentar e se tivesse, aliás, apresentava. Onde eu acho que a questão se agrava é quando a AD e a própria ministra vêm dizer que não fecham a porta a um entendimento agora com o PS, respondendo ao apelo do senhor Presidente da República, de um pacto pra saúde com o PS. Ora, isso é que não pode ser, porque a ministra e o primeiro-ministro foram eles que romperam com a reforma que vinha do PS e que disseram ao país que eles tinham a solução. É muito complicado, ao fim de dois anos, ou um ano e meio, dois anos, vir dizer: "Afinal, a solução que nós tínhamos não produziu resultados nenhuns". E agora as mesmas pessoas, nomeadamente a mesma ministra, vêm dizer que está aberta a fazer um pacto com o outro partido, no fundo, reconhecendo que foram dois anos perdidos. Eu acho que se chegarmos a essa situação, aí se a ministra não tem condições políticas objetivas pra continuar a tutelar o Ministério da Saúde.

Vamos passar para a próxima questão sobre Pedro Passos Coelho, que já tinha dito que não vai apoiar Luís Marques Mendes. Isto pode prejudicar o candidato apoiado pelo PSD nas presidenciais de janeiro, com uma direita a ser disputada por mais dois candidatos?

Objetivamente, a direita está fragmentada nestas eleições, como está a esquerda. Quer dizer, isso não é questão absolutamente de especial relevância nesta altura, é evidente. E Marques Mendes, obviamente, as sondagens todas colocam muito abaixo da AD. A AD teve 32% nas eleições legislativas, terá tido qualquer coisa como 35%, porque é sempre mais difícil aqui contar votos nas autárquicas, e ele está com 15% a 20% nas sondagens. E, portanto, obviamente, está muito abaixo do potencial da AD. E portanto, é normal que se Passos Coelho e outras altas figuras do partido, estamos a falar de Passos Coelho, porque é Passos Coelho, mas Pedro Santana Lopes, que também foi primeiro-ministro e também foi líder do PSD, já disse que não apoia Marques Mendes. Em contrapartida, Cavaco Silva saiu em apoio de Marques Mendes, mas evidentemente, isso mostra uma fragmentação da área da AD, que também se reflete nos apoios que Marques Mendes tem. Eu penso que o problema de Marques Mendes nesta altura mesmo já nem é sequer se faz ou não faz o apoio dos ex-líderes do PSD. De repente, estou me a lembrar Rui Rio, que obviamente apoia Gouveia e Melo, portanto, temos praticamente vários líderes do PSD que não apoiam Marques Mendes. A questão agora é saber se Marques Mendes consegue ou não consegue passar à segunda volta. E acho que isso, desse ponto de vista, não vamos saber até o fim, porque as sondagens vão andar sempre dentro da margem de erro.

Sendo que recebeu um apoio que pode ser lido como um apoio de peso, que é Cavaco Silva, que escreveu um artigo no Observador a explicar porquê.

Sim, mas parece-me que infelizmente Cavaco Silva nesta altura já não tem grande influência na área direita. Não, eu penso que não, porque repara, Cavaco Silva saiu em grande apoio De Luís Montenegro duas vezes e os resultados da AD foram os mais baixos de sempre, 29% e 32%. E Cavaco Silva tem sido muito crítico do Chega e tem feito uma campanha contra o Chega, e o Chega cresceu. Isso é o eleitorado da direita. Claramente, parece-me que Cavaco Silva há muito tempo que não tem os 50% da direita como teve nas presidenciais, senão o PSD estaria perto dos 50% e está muito longe dessa porcentagem. Eu acho que Cavaco Silva dinamiza a direita cavaquista, sem dúvida, mobiliza a direita cavaquista, sem dúvida, isso é importante para Marques Mendes, porque Marques Mendes nem os 32% que essa direita tem, mas estamos a falar de 32%, não estamos a falar dos 51%, nem dos 54% que houve no tempo das maiorias absolutas de Cavaco Silva.

De resto, falamos tanto de Cavaco Silva como de Pedro Passos Coelho na jogada da semana do "Fora do Baralho", o programa original das sextas-feiras com os nossos quatro ases, Susana Prado, Luís Aguiar-Conraria, Jorge Fernandes e também o Nuno Garoupa. Só mais uma questão, agora sobre justiça, Nuno. Alexandre Borges, que é um colaborador da casa do Observador, nosso comentador, também colunista, tem esta pergunta para ti, também é ouvinte do "Fora do Baralho": a recusa da juíza Susana Seca em conceder tempo ao advogado oficioso de José Sócrates, no julgamento da Operação Marquês, para se inteirar do processo, pode ter saído melhor do que a encomenda a Sócrates e também de Lilo, o advogado que acabou por renunciar?

Eu diria o contrário. A juíza está numa situação complicada, porque repara, isso parte do princípio que haveria alternativas, mas não há. A juíza sabe que qualquer incidência vai ser sujeita a recurso. Faça o que a juíza fizer, só há uma situação em que não haveria nenhum recurso nem nenhum atraso, que era a juíza fazer tudo aquilo que José Sócrates pede e exige. Partindo do princípio de que José Sócrates vai continuar as incidências processuais e vai persistir em incidências processuais por tudo e por nada, então mais vale fazer o nada, porque de alguma forma o tribunal fica numa imagem de mais independência, uma imagem pública de seriedade, enquanto obviamente haverá os recursos. Esses recursos que vão haver, iam haver de qualquer maneira, a não ser que a juíza fizesse aquilo que José Sócrates quer, que é suspender o julgamento ad eternum e permitir tudo e qualquer intervenção de José Sócrates. A mim parece-me que não é possível, nesta altura, esperar uma solução ou um julgamento normal, quando o réu, porque é réu, insiste em todas as incidências processuais possíveis e imaginárias dentro do Código de Processo Penal português. Eu penso que a juíza fez bem e agora vamos assistir a mais um sarilho processual, mas é normal. Todo este processo já só sabe fazer sarilhos processuais.

E é com sarilhos que terminamos esta edição extra do "Fora do Baralho", dedicada às respostas dos ouvintes. Obrigada, Nuno Garoupa. Já sabe, pode sempre escrever-nos para foradobaralho@observador.pt. Os quatro ases respondem a dúvidas, a sugestões, a críticas, estão cá também para isso. Já sabe, pode sempre escrever-nos. Eu sou a Vanessa Cruz, até ao "Fora do Baralho" de sexta-feira.