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ILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA / OBSERVADOR

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O meu filho não quer ir à escola. Devo ficar preocupado?

Pontualmente ou em fases de mudança, não é preocupante. Mas “o facto de a criança não querer ir à escola pode, muitas vezes, esconder um pedido de ajuda”, diz a psicóloga Rita Mendes Bettencourt.

É um drama que se repete em muitas casas, de manhã. A criança acorda, começa a queixar-se de dor e pede para ficar em casa. Os pais oscilam entre a preocupação e a suspeita. Fazem perguntas rápidas — “dói onde?”, “dói desde quando?” — enquanto olham para o relógio e tocam na testa dos miúdos à procura de sinais de febre que não estão lá.

Noutras famílias, em vez de dores matinais há miúdos que choram, gritam e recusam-se a sair do carro já à porta da escola, ou pré-adolescentes que fingem que adormecem para perder o autocarro e faltar às aulas. As idades, comportamentos e contextos são diferentes, o objetivo é o mesmo: não ir à escola.

Estima-se que um grande número de crianças ou adolescentes, pontualmente ou em alguma fase, sente alguma ansiedade com a ida para a escola. Um inquérito recente no Reino Unido refere que quase 50% dos adolescentes inquiridos faltaram por questões relacionadas com a ansiedade de ir para a escola pelo menos uma vez durante o ano anterior. Outro estudo, nos EUA, refere que cerca de 28% das crianças passam por fases em que evitam ou resistem a ir à escola.

“O facto de a criança não querer ir à escola pontualmente não é, necessariamente, um sinal de alarme”, diz Rita Mendes Bettencourt. A psicóloga e psicoterapeuta de crianças e adolescentes diz que a recusa ocasional faz parte de um desenvolvimento normal e que estes episódios ocorrem sobretudo em fases de transição, como o início da escolaridade, a mudança de ciclo ou após períodos de férias.

“Esta recusa é muitas vezes interpretada [pelos pais] como um momento de preguiça e, na maioria dos casos, não passa disso mesmo. Contudo, é importante avaliar o comportamento da criança e falar abertamente com ela, de forma a perceber se se trata de uma fase passageira ou de algo mais persistente”, recomenda.

Além das fases de transição e mudanças de escola, também podem estar em causa alterações na rotina — por exemplo, a chegada de um irmão — ou dificuldades de separação da família, mais comuns após perdas familiares ou em situações de divórcio.

"Esta recusa é muitas vezes interpretada [pelos pais] como um momento de preguiça e, na maioria dos casos, não passa disso mesmo. Contudo, é importante avaliar o comportamento da criança e falar abertamente com ela, de forma a perceber se se trata de uma fase passageira ou de algo mais persistente.”
Rita Mendes Bettencourt, psicóloga e psicoterapeuta

Quando estas recusas surgem, os pais devem, em primeiro lugar, verificar se as rotinas são ajustadas — ou seja, se a criança ou adolescente está a dormir o suficiente e se a hora de despertar permite que as manhãs não sejam um momento de pressa e stresse. Devem também, acrescenta a psicóloga, evitar discursos que apresentem a escola como um local negativo ou de castigo e, no final do dia, demonstrar interesse e orgulho pelo que a criança fez.

Imprescindível é manter a comunicação aberta. Apesar de muitos pais terem memória de uma outra forma de lidar com este problema e sentirem a tentação de dizer: “Eu também não queria ir, mas ia na mesma”, devem ouvir a criança para perceber o que se passa e como ela se sente, e também falar com a escola, procurando saber se houve alterações, conflitos ou pressões que ajudem a explicar a recusa. Para muitos alunos, a escola não é difícil por causa da matéria, mas pelas relações. O recreio, a sala de aula, os grupos, os olhares — tudo isso pesa mais do que os conteúdos programáticos.

Entre os motivos mais preocupantes para a recusa ou ansiedade em ir à escola, a psicóloga refere situações em que a criança ou adolescente é vítima de bullying, dificuldades de aprendizagem e/ou falta de atenção — que podem gerar ansiedade, sobretudo em momentos de exposição perante a turma — e ainda a ansiedade ou fobia escolar/social, ou seja, um medo intenso da escola ou de estar com outras pessoas, muitas vezes acompanhado de sintomas físicos reais, como dores de barriga ou de cabeça. “É importante perceber que o facto de a criança não querer ir à escola pode, muitas vezes, esconder um pedido de ajuda.”

Como regra, este problema raramente se instala de um dia para o outro. A dificuldade está precisamente na fronteira pouco clara entre o que é uma fase e o que é um padrão, pelo menos nos primeiros episódios. Para isso, os pais devem estar atentos a alguns sinais de alerta e procurar ajuda se estiverem presentes outros sintomas como:

  • Recusa intensa e prolongada no tempo, com impacto no bem-estar da criança;
  • Queixas físicas diárias;
  • Alterações de comportamento e humor;
  • Isolamento;
  • Mudanças na alimentação e no sono.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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Com a colaboração de:

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