É um drama que se repete em muitas casas, de manhã. A criança acorda, começa a queixar-se de dor e pede para ficar em casa. Os pais oscilam entre a preocupação e a suspeita. Fazem perguntas rápidas — “dói onde?”, “dói desde quando?” — enquanto olham para o relógio e tocam na testa dos miúdos à procura de sinais de febre que não estão lá.
Noutras famílias, em vez de dores matinais há miúdos que choram, gritam e recusam-se a sair do carro já à porta da escola, ou pré-adolescentes que fingem que adormecem para perder o autocarro e faltar às aulas. As idades, comportamentos e contextos são diferentes, o objetivo é o mesmo: não ir à escola.
Estima-se que um grande número de crianças ou adolescentes, pontualmente ou em alguma fase, sente alguma ansiedade com a ida para a escola. Um inquérito recente no Reino Unido refere que quase 50% dos adolescentes inquiridos faltaram por questões relacionadas com a ansiedade de ir para a escola pelo menos uma vez durante o ano anterior. Outro estudo, nos EUA, refere que cerca de 28% das crianças passam por fases em que evitam ou resistem a ir à escola.
“O facto de a criança não querer ir à escola pontualmente não é, necessariamente, um sinal de alarme”, diz Rita Mendes Bettencourt. A psicóloga e psicoterapeuta de crianças e adolescentes diz que a recusa ocasional faz parte de um desenvolvimento normal e que estes episódios ocorrem sobretudo em fases de transição, como o início da escolaridade, a mudança de ciclo ou após períodos de férias.
“Esta recusa é muitas vezes interpretada [pelos pais] como um momento de preguiça e, na maioria dos casos, não passa disso mesmo. Contudo, é importante avaliar o comportamento da criança e falar abertamente com ela, de forma a perceber se se trata de uma fase passageira ou de algo mais persistente”, recomenda.
Além das fases de transição e mudanças de escola, também podem estar em causa alterações na rotina — por exemplo, a chegada de um irmão — ou dificuldades de separação da família, mais comuns após perdas familiares ou em situações de divórcio.
Quando estas recusas surgem, os pais devem, em primeiro lugar, verificar se as rotinas são ajustadas — ou seja, se a criança ou adolescente está a dormir o suficiente e se a hora de despertar permite que as manhãs não sejam um momento de pressa e stresse. Devem também, acrescenta a psicóloga, evitar discursos que apresentem a escola como um local negativo ou de castigo e, no final do dia, demonstrar interesse e orgulho pelo que a criança fez.
Imprescindível é manter a comunicação aberta. Apesar de muitos pais terem memória de uma outra forma de lidar com este problema e sentirem a tentação de dizer: “Eu também não queria ir, mas ia na mesma”, devem ouvir a criança para perceber o que se passa e como ela se sente, e também falar com a escola, procurando saber se houve alterações, conflitos ou pressões que ajudem a explicar a recusa. Para muitos alunos, a escola não é difícil por causa da matéria, mas pelas relações. O recreio, a sala de aula, os grupos, os olhares — tudo isso pesa mais do que os conteúdos programáticos.
Entre os motivos mais preocupantes para a recusa ou ansiedade em ir à escola, a psicóloga refere situações em que a criança ou adolescente é vítima de bullying, dificuldades de aprendizagem e/ou falta de atenção — que podem gerar ansiedade, sobretudo em momentos de exposição perante a turma — e ainda a ansiedade ou fobia escolar/social, ou seja, um medo intenso da escola ou de estar com outras pessoas, muitas vezes acompanhado de sintomas físicos reais, como dores de barriga ou de cabeça. “É importante perceber que o facto de a criança não querer ir à escola pode, muitas vezes, esconder um pedido de ajuda.”
Como regra, este problema raramente se instala de um dia para o outro. A dificuldade está precisamente na fronteira pouco clara entre o que é uma fase e o que é um padrão, pelo menos nos primeiros episódios. Para isso, os pais devem estar atentos a alguns sinais de alerta e procurar ajuda se estiverem presentes outros sintomas como:
- Recusa intensa e prolongada no tempo, com impacto no bem-estar da criança;
- Queixas físicas diárias;
- Alterações de comportamento e humor;
- Isolamento;
- Mudanças na alimentação e no sono.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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