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Fora do Baralho, no seu episódio dominical dedicado às perguntas dos ouvintes. E é muito fácil enviar perguntas ou comentários, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje cabe à Susana Peralta responder aos ouvintes, neste caso, ao ouvinte. Olá, Susana, bem-vinda.
Olá, Ricardo. Bom dia.
E hoje temos uma pergunta que nos foi enviada por Álvaro Antunes. É uma pergunta e uma provocação. Escreve o Álvaro Antunes que gostaria de ouvir um comentário ao que lhe parece, no atualmente, ser a possibilidade de estar na forja uma formação de um novo partido ou coligação que chama de PPD Chill. Ou seja, será removida aqui a fação social-democrata do PSD. Diz ele ainda, o Álvaro, que se expurga do Chega a fação mais arruaceira, integra-se a iniciativa liberal e Passos Coelho assume a liderança deste PPD Chill. Provocatoriamente, o Álvaro escreve ainda: "E a Rádio Observador das 7 às 10 é a porta-voz da comissão instaladora deste novo partido, Susana?"
Em primeiro lugar, eu acho o nome fantástico, PPD Chill.
É bom para o Santo do Sete.
O nome é ótimo para o Santo do Sete, embora eu pessoalmente não fique nada chill com essa ideia desta coligação tripartida entre este PSD.
Pode causar chill arrepio, no sentido de arrepio.
Sim, é mais isso. Fico mais arrepiada.
Sim, já percebemos.
Fico mais com pele de galinha, mais chicken do que chill para mim. Agora, se essa coligação se está a formar ou não, eu até sou mais otimista do que o Álvaro. Acho que a coligação já está formada. Ela não está em formação, porque, de facto, quando nós vemos o que este governo, ou seja, a segunda encarnação do governo do Luís Montenegro, portanto, tivemos a primeira encarnação, Luís Montenegro apresentou-se a eleições em 2024 com o famoso não é não. No seu primeiro governo, acho que foi mais comedido, pelo menos na aproximação ao Chega, vamos dizer assim agora. Na encarnação que começou em maio de 2025, Luís Montenegro tem feito uma governação completamente colada ao Chega. E até vou tirar daqui a Iniciativa Liberal em alguns aspetos. Repara que os grandes pacotes, por assim dizer, simbólicos deste governo foram a nova lei da imigração, a nova lei da nacionalidade, incluindo antigas reivindicações do Chega, como a destituição de nacionalidade para pessoas que cometem crimes. Essa regra não é da nacionalidade, é da lei criminal e, portanto, ainda nem sequer está aprovada, porque entretanto bateu na trave da Constituição. Vamos lá ver como é que isso fica. Tivemos depois uma lei fortemente penalizadora da autodeterminação das pessoas que querem mudar de género e de identidade, atentatória dos direitos fundamentais dessas pessoas, mais uma vez uma reivindicação antiga do Chega de atentar às minorias de género e sexuais. Tivemos a famosa lei das bandeiras, que no fundo quis proibir os edifícios públicos de hastearem bandeiras. Isso já foi discutido aqui no nosso Fora do Baralho da semana passada pelo Jorge, não me vou repetir. E porque eu disse que eu não incluía necessariamente a Iniciativa Liberal aqui? Porque a Iniciativa Liberal não acompanhou sempre o governo e o Chega, por exemplo, nas questões da identidade de género e das bandeiras, não votou em conjunto, o que eu saúdo. É bom que ainda se lembrem porque é que nós queremos um partido liberal. E onde é que eu quero chegar? Mesmo agora nesta história do pacote laboral, embora nós estejamos a gravar esta pergunta antes de sabermos o desfecho final, mas já depois do primeiro debate, e nós vimos de facto ali uma aproximação. Quer dizer, Ventura que ainda tinha dito no dia da greve geral: "Esta lei vai morrer onde deve morrer, que é no Parlamento", algo assim, estou a citar de cor. No Parlamento, no primeiro dia de debate da lei laboral, deu um show a dizer que de facto, de repente, o Chega é o partido que representa os legítimos interesses dos trabalhadores portugueses, a dar mais férias, e não sei o quê. Portanto, eu acho que essa coligação já está implementada, para ser honesta. Acho que a coligação conseguiu acolher no seu seio este PSD, infelizmente, que não é certamente o PSD de uma série de pessoas que eu conheço no PSD, que têm sido aliás críticas desta solução, mas este PSD que está no governo, junto com este CDS verdadeiramente conservador e bafiento, consegue acolher com toda a tranquilidade a versão mais grunha, energúmena, grunha e arruaceira do Chega, não lhe parece causar qualquer pejo. Portanto, acho que nem vale a pena vir o Passos Coelho. Quanto a essa ideia de vir o Passos Coelho, acho que o Passos Coelho provavelmente já percebeu que isto está a acontecer sem ele, e portanto também anda ressabiado e anda para aí a espernear em vários sentidos e acho que já está a perder a sua relevância. Até já falo ao Observador.
Já lá vamos a essa provocação. Portanto, na tua opinião, mais do que haver espaço para a criação de um novo partido que congregasse estas diferentes correntes, há um espaço ou pelo menos há terreno, chão comum, para que se encontre aqui uma espécie de coligação que junte PSD, Chega e Iniciativa Liberal?
Eu acho que esse chão começa a estar Se vamos ter um acordo de incidência parlamentar, ou seja, se o Chega será a nova geringonça? Não sei, acho que não. Parece-me que neste momento nem tem nada claro que o Chega tenha qualquer espécie de interesse nisso, e vamos ver o que é que André Ventura vai fazer. Mais uma vez, estamos a falar aqui num momento de incerteza relativamente ao diálogo laboral, mas André Ventura o que ele quer é ir dando a mão ao governo quando é preciso nas suas bandeiras mais ideológicas e mais simbólicas, para depois se poder vangloriar de ter conseguido mudar o país para os portugueses do bem ou salvar Portugal, aquilo que ele quer fazer, mas não quer ficar ligado a qualquer espécie de medida impopular que, mesmo agora no pacote laboral, nós já vimos este ensaio, que é: nós viemos trazer as férias, viemos trazer os direitos aos trabalhadores, e vai tentar dissociar-se das medidas penalizadoras dos direitos dos trabalhadores que aquele pacote laboral tem, como os despedimentos, os contratos a prazo, outsourcing, etc. Eu não vejo de que maneira é que André Ventura neste momento teria os incentivos para dar a mão ao governo de uma forma mais estruturada. Agora, eu acho que isso não vai ser preciso. Eu acho que Luís Montenegro acha que implementando devagarinho a agenda política do Chega, aliás, eu estive numa comissão parlamentar de audiências acerca da prestação social única, que é outra medida que estava no PRR, que realmente tínhamos de fazer alguma coisa relativamente à multiplicação, à miríade de apoios sociais, mas que o governo mais uma vez está a aproveitar esta alteração para enfiar no sistema de apoios sociais uma série de reivindicações do Chega. Ouvimos a ministra falar do subsídio de dependência, queremos pôr as pessoas a trabalhar de graça, etc. e portanto, outra vez, Luís Montenegro acha, quanto a mim erradamente, o tempo dirá se eu tenho razão, que ao abraçar as causas do Chega vai conseguir esvaziar o Chega. E eu acho que provavelmente o que ele está a fazer é legitimar o Chega e pode ser que seja ele que seja engolido.
E em relação à provocação aqui do nosso ouvinte Álvaro Antunes, será a Rádio Observador das 07 às 10 a porta-voz da comissão instaladora do PPD/Chega?
Eu acho que há vários porta-vozes da comissão instaladora espalhados pelos vários órgãos de comunicação social. Não me parece que a Rádio Observador tenha o exclusivo dessa missão patriótica, mas eu percebo o que o nosso ouvinte quer dizer. Eu acho que por vezes o programa de debate matinal, o Contracorrente, e não só o Contracorrente, também os restantes programas, não todos, mas alguns dos programas matinais da Rádio Observador, o Vencer ou Eu, o Bom, o Mau e o Vilão e o Contracorrente pecam um bocadinho por falta de diversidade das opiniões. Eu acho que as opiniões que são veiculadas são perfeitamente legítimas. Já agora, eu acho que defender a geringonça P/Chega é uma agenda legítima, não é minha, naturalmente, política, mas acho que é legítima, mas acho que realmente a Rádio Observador, pelo menos no seu espaço matinal, se calhar beneficiava de ter um pouco mais de contraditório. Isto dito, aqui estou eu a falar na Rádio Observador e acho que aqui o nosso Álvaro reconhecerá que eu sou a pessoa menos alinhada com a agenda P/Chega. Não é menos, mas sou uma pessoa muito pouco alinhada e a Rádio Observador dá-me palco, mas era se calhar interessante criar mais confronto de opiniões, em vez de nos pôr compartimentados, mas cá estamos para ir falando disso livremente.
Obrigado, Susana. Professora Peralta.
Obrigada.
Teve a missão aqui de responder nesta edição de domingo aos ouvintes. É muito fácil fazer as perguntas ou comentários, desafiando os membros do painel do Fora do Baralho a falar sobre isso aqui na rádio e em podcast. Basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. As respostas são dadas aos domingos na rádio e ficam disponíveis em podcast. Bom fim de semana.