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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

E lá vão por aí aumentar os combustíveis, Paulo, e estamos de mãos e pés atados?

Em larga medida, sim, podemos fazer muito pouco para combater esta conjuntura. O bocado original disso está na grande dependência que temos da energia fóssil que tem no Médio Oriente, a maior cota de produção mundial e por isso estamos dependentes dos preços que se formam lá no sítio onde o petróleo é extraído. Os descontos no ISP ou a eventual descida do IVA, que muita gente reclama, são apenas paliativos de duração e amplitude limitada, porque é impossível a qualquer Estado, seja ele qual for, anular completamente estas subidas. Não há orçamento que aguente isso, que resista a isso. Por isso vamos continuar a pagar os combustíveis a estes preços, seja na qualidade de consumidores ou então de contribuintes, porque a diferença entre as várias propostas políticas, não entre pagar ou não pagar os aumentos, está apenas diferença das propostas sobre quem os paga, ou os condutores nas bombas, ou então todos os contribuintes quando pagam o IVA no supermercado, ou descontam, por exemplo, o IRS nos recibos de ordenado.

E agora falamos do PS. Estará já pronto para governar?

Pronto, ainda não sabemos, mas dentro do PS haverá quem esteja ansioso por voltar ao poder, porque é esse o ADN dos grandes partidos. Longe do poder, não têm o oxigénio que lhes permite sobreviver ou, dito de outra forma, só têm o oxigénio necessário para sobreviver. Mas dentro do PS também há a perfeita noção de que neste momento o partido não teria condições de governabilidade, mesmo que ganhasse umas eleições sem maioria absoluta. As sondagens podem ser animadoras, porque o partido parece estar num caminho de recuperação em relação às últimas eleições, onde a pancada foi forte, mas ainda não é o suficiente para uma vez regressado ao governo, poder governar a sério. José Luís Carneiro deixou implícito que não há pressa no PS e não há pressa porque não haveria condições, como ontem deixou claro a autarca de Matosinhos, Luísa Salgueiro. Um partido com o historial do PS estará sempre pronto para governar, mas ainda faltam as condições.

E o PSD tem essas condições?

Mário Centeno acha que não e por isso diz que não compreende como é que Marcelo Rebelo de Sousa deu posse a um governo que não tem sustentação no Parlamento e que, de acordo com o antigo governador do Banco de Portugal, também não fez nada para garantir esse apoio, e isso será mais grave. Este quadro de incerteza, para Mário Centeno, torna virtualmente impossível qualquer política reformista. Como é que pode ser reformista um governo que depende de negociações permanentes com a oposição? Centeno diz isto, que claro está, para fazer o elogio da geringonça e o papel que o então presidente da República, Cavaco Silva, teve ao exigir um acordo escrito, embora aqui este elogio a Cavaco Silva seja um bocadinho envenenado, porque diz que esse terá sido um dos principais contributos do antigo presidente da República para a democracia portuguesa. Diz Centeno que o governo da geringonça foi o mais reformista da história recente do país, mas se a estabilidade nessa altura estava garantida por um acordo, também é verdade que teve de haver muitas cedências do PS aos seus parceiros. Chamar reformista ao governo da geringonça é aqui capaz de ser um excesso retórico de Mário Centeno.

E vamos continuar nessa época histórica, Paulo. Passos Coelho está a tornar-se assim um tema irritante para o PSD?

É cada vez mais incómodo, não é isso? Sem dúvida. Aliás, as respostas recentes, quer de Leonor Beleza, quer da atual ministra do Ambiente, com críticas a Passos Coelho, indicam isso mesmo. A atual direção do PSD prefere assumir, no fundo, essas críticas, rebater essas críticas do ex-primeiro-ministro, do que tentar virá-las a seu favor. Isto no sentido de tentar acelerar um programa de reformas que possa apresentar ao país. A alternativa são estas águas mornas, este banho-maria em que o país está, que não avança, não recua, enfim, às vezes dá um passo em frente para logo a seguir dar outro passo atrás. O que parece evidente é que Passos Coelho vai continuar a andar por aí. Aliás, a presença dele tem sido cada vez mais assídua no espaço mediático e ainda falta chegarmos a novembro ou dezembro com o lançamento ou a apresentação do tal estudo de propostas que está a preparar também com Sérgio Sousa Pinto, o presidente da Associação Comercial do Porto, e feito pela Faculdade de Economia do Porto. E as águas mornas em que estamos, em que vamos estando, rapidamente arrefecem e sabemos também que a consultora externa não está para brincadeiras.

Perguntas que lançam o início da semana e mais uma edição do Ainda Bem Que Faz Essa Pergunta. Amanhã regressa à mesma hora. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.