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Gabinete de Guerra, está com a Rádio Observador, eu sou o Miguel Cordeiro. Vamos falar dos conflitos em curso, hoje com a análise do investigador de Chara Militar, Pedro Nascimento, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco nesta edição do Gabinete de Guerra. Muito boa tarde, Pedro. Vamos, antes de falar do que se passa no Médio Oriente, na Ucrânia, nestes conflitos mais midiáticos, falar de uma confirmação de Bruxelas. A Comissão Europeia diz que já recebeu 18 pedidos para empréstimos em defesa, incluindo de Portugal. Estamos a falar de empréstimos para investir no setor da defesa. Há um mecanismo criado pela Comissão Europeia para ajudar os países nesses investimentos. Portugal está envolvido. Qual é a importância, de fato, destes empréstimos para ajudar a desenvolver a capacidade de defesa nos diferentes países da União Europeia?
Boa tarde, Miguel, e boa tarde a todos os ouvintes. Obrigado à Rádio Observador uma vez mais pelo convite. Eu acho que desde logo é positivo. Estas solicitações, dentre as quais as de Portugal, acabam por marcar definitivamente uma mudança de paradigma, porque a Europa deixou de encarar, ou parece ter deixado de encarar a defesa como um mero apêndice diplomático ou humanitário, e passa a tratá-la como uma condição necessária para a sobrevivência coletiva, tendo em conta este contexto geopolítico anual. Por que esse movimento é decisivo? Essencialmente por três fatores. Temos a escalada russa, a ameaça que a Rússia representa reforçou esta urgência numa concertação coletiva de capacidades comum na defesa. Também a redução da confiança na proteção norte-americana, porque isto surge após sinais de que os Estados Unidos pretendem retirar gradualmente o seu compromisso militar, ou pelo menos o que era considerado prioritário, que era com a Europa, e por uma questão de autonomia estratégica, porque este plano que estamos a falar prevê empréstimos a longo prazo, até 45 anos, e pedidos de carência e pré-financiamentos pra países como Portugal permitem reestruturar uma base militar de uma forma sustentável e coordenada, ou pelo menos assim esperamos que seja. Para Portugal, significa um reativar ou um entrar numa nova fase, digamos, reconhecendo que não basta apenas participar em missões estrangeiras. Nós temos que definitivamente garantir capacidades próprias mínimas, que não temos, para responder a crises no nosso próprio espaço ou em cenários europeus. E este momento é mais do que números ou orçamentos, é uma viragem nesta diplomacia de dissuasão na ação coletiva europeia e na forma de gerir a soberania e segurança em tempos de crise interdependente.
De fato, é um pacote de 150 mil milhões de euros para disponibilizar investimentos em defesa, disponibilizado pela União Europeia aos países-membro. Vamos falar agora do Médio Oriente. Há polêmica em torno de vários países que se estão a disponibilizar para reconhecer o Estado da Palestina, polêmica aos olhos de Israel, claro. O Reino Unido anuncia que vai reconhecer o Estado da Palestina. Quinze países, incluindo Portugal, assinam uma declaração nas Nações Unidas em que admitem também reconhecer o Estado da Palestina. Israel parece não estar muito satisfeita com isso. O que efetivamente muda? Que impacto é que isto tem? Que mudanças existem com o reconhecimento do Estado da Palestina?
Miguel, uma pequena nota introdutória neste ponto. Este ponto é um ponto muito sensível e é preciso termos muito cuidado quando fazemos uma análise ou nos pronunciamos sobre ele, tendo em conta uma opinião muito específica de todos os nossos ouvintes. Porque nós temos imagens que têm passado todos os dias na televisão e objetivamente nós não nos podemos desligar delas, e é uma tragédia enorme, mas a nossa obrigação enquanto analistas e mesmo a obrigação dos políticos que tomam decisão, é tentarmos afastar um pouco dessa emoção e apelar à razão. E as pessoas podem sempre dizer que perante aquelas imagens não há razão que subsista. Mas a verdade é que nós temos que ser contundentes na análise. O que isso muda? Simbolicamente, muito. Politicamente, muito menos do que parece. Isto é um gesto com peso diplomático que procura pressionar Israel a aceitar uma solução negociada a dois Estados. Mas há um ponto aqui que é muito importante. No terreno, e as pessoas vão perceber já aquilo que pretendo dizer, a autoridade palestiniana não tem controle sobre Gaza. Isto é muito relevante e por quê? Do ponto de vista histórico, reconhecer o Estado da Palestina em plena guerra, sem um cessar-fogo ou sem um processo político legítimo em andamento, pode ser um erro colossal. Ao longo do último século, a criação de Estados que foram viáveis, temos o exemplo da Índia e mais recentemente do Sudão do Sul, só foi bem-sucedida porque houve três fatores que se verificaram em simultâneo. Um, autoridade política clara no terreno. Dois, instituições mínimas. E três, uma vontade real de compromisso entre as partes. Nós hoje, na Palestina, assistimos a uma fragmentação clara entre Gaza, que está sob o controle do Hamas, ou teoricamente, e a Cisjordânia, que é governada por uma autoridade palestiniana completamente frágil e diria mesmo que carece de legitimidade. Mas reconhecer o Estado neste contexto pode não fortalecer os moderados, mas sim legitimar os radicais Israel argumenta algo parecido com isto, com alguma razão. Não exatamente e nem posso dizer que tem toda a razão, porque tem o seu interesse direto. Mas a história ensina-nos que um Estado só ganha soberania internacionalmente sustentável quando controla efetivamente o seu território e quando esse reconhecimento faz parte de um processo e não de uma reação. De outra forma, corremos o risco de transformar um gesto político em mais um ponto de fratura e não propriamente numa base para a paz. Daí que não me parece que seja este o momento adequado para se tomar uma decisão desta envergadura.
Muito bem. Mas faz sentido a decisão de Israel, as críticas de Israel? Diz que, por exemplo, o Reino Unido está a dar força ao Hamas.
Miguel, do ponto de vista estratégico, eu creio que a crítica faz todo sentido, porque com o Hamas ainda ativo, qualquer reconhecimento unilateral pode ser interpretado como uma recompensa à violência que veio do 7 de outubro. Evidentemente que do ponto de vista internacional, os países que querem tomar esta decisão, pelo menos na maioria dos casos, pretendem reconhecer este Estado palestiniano, mas sob a égide, eventualmente, da autoridade palestiniana e não do Hamas. O problema é que no terreno, essas fronteiras políticas são cada vez mais frágeis. Eu sei que nós temos pouco tempo, mas em 30 segundos vou tentar explicar esta questão da interpretação. Eu penso que por vezes era importante haver aqui uma revolução copernicana da interpretação da própria guerra, porque nós tendemos sempre a fazer uma interpretação de que as decisões ditam o que se vai passar no terreno. Tem ditado muitas vezes as decisões que se tomam. Portanto, nós temos que perceber que neste momento, no terreno, como eu disse, essas fronteiras políticas são cada vez mais frágeis e esta tentativa de reequilibrar, pelo menos eu creio que no Hamas estará essa intenção, reequilibrar esta perceção global, sem alterar a realidade operacional, é praticamente o caminho para o insucesso.
Mais de 30 personalidades israelitas têm pedido a imposição de sanções drásticas a Tel Aviv. Estamos a falar de figuras da alta sociedade israelita que se posicionam contra Netanyahu. Temos visto alguma contestação a surgir também ao longo das últimas semanas, com críticas a apontarem até para um genocídio por parte das Forças Armadas israelitas. Que futuro tem a governação israelita depois de tanta contestação que temos visto e depois do desgaste de todo este conflito?
Miguel, historicamente, há uma coisa que nós não podemos olvidar, que há uma crise interna profunda na sociedade israelita, pelo menos esses são os sinais que nós conseguimos avaliar. Mas é importante nós lembrarmos que Israel tem uma tradição de debate interno muito forte. Concomitantemente, é verdade também que raramente se viu figuras do establishment a pedir esta pressão externa para mudar o rumo político interno. E isto sempre nos períodos em que regimes democráticos sob estresse militar acabaram por entrar numa rutura interna, como vemos estudando a história, aquilo que aconteceu nos Estados Unidos durante a Guerra do Vietname ou na França durante a Guerra da Argélia. Mas eu creio que o futuro da governação israelita vai depender de duas coisas. Evidentemente, da manutenção ou não da coligação de Netanyahu. E nós aqui não nos podemos esquecer, e eu já fiz referência aqui no Gabinete de Guerra, que grande parte da discordância não está essencialmente nesta guerra de Gaza, mas relacionada com questões de recrutamento. E por outro lado, a capacidade de Israel responder à crescente perceção, que é tanto interna como externa, de que esta atual linha política é que está a isolar Israel no mundo e o receio que os israelitas podem ter do país se tornar um Estado pária. Como eu disse, e não é para minimizar a questão, mas Israel tem este histórico de debate interno profundo, muito forte. Se algum dia chegou a este ponto, talvez não, mas a forma dos israelitas e de Netanyahu lidar com isto já conta com anos de experiência e é um assunto que já temos falado nos últimos meses, desde 7 de outubro que se fala deste assunto, mas como disse, o que se passa no terreno acaba por não refletir.
Vamos falar aqui um pouco também do conflito da Ucrânia. Rússia e China anunciaram hoje que vão realizar exercícios navais em conjunto no mar do Japão, exercícios marítimos entre os dois países. Dizem que são essencialmente exercícios defensivos, mas isto mostra aqui esta parceria estratégica que se mantém entre a Rússia e a China.
Claro que sim, Miguel. Isto é uma forma de desafiar a ordem internacional ainda liderada pelo Ocidente. É a forma que têm de afirmar que há um novo eixo de poder a consolidar-se, essencialmente ali no Indo-Pacífico, que é uma preocupação que nós sabemos que está bem patente e que está bem presente na mente americana. Nós aqui na Europa sempre estivemos habituados a que os olhos estivessem aqui focados, mas a verdade é que os Estados Unidos estão muito preocupados com a questão do Indo-Pacífico. E as potências, uma vez mais, até porque estou aqui nessa qualidade, olhando para a história, quando as grandes potências se sentem isoladas, procuram aliados estratégicos. Isso já foi assim no eixo Roma-Berlim-Tóquio nos anos 30. E agora temos a China e a Rússia, que não são propriamente aliados ideológicos, mas são parceiros táticos e têm este desejo comum de enfraquecer a influência americana e de testar os limites da NATO e dos seus aliados asiáticos. E o local, o mar do Japão, também é muito importante. Repare, está próximo da Coreia do Sul, do Japão e de Taiwan. Isto é claramente uma forma indireta de enviar uma mensagem para os Estados Unidos e para os seus aliados no Pacífico, ao mesmo tempo que em termos imateriais acaba por reforçar a narrativa de um mundo multipolar.
Estamos a chegar ao fim deste Gabinete de Guerra. Falar ainda aqui desta questão que o Donald Trump falou, a possibilidade de permitir a permanência de ucranianos nos Estados Unidos da América até ao fim da guerra. Sabemos que a permanência nos Estados Unidos nem sempre é uma questão fácil. Há muita papelada, vistos e autorizações que têm que ser dadas a refugiados ucranianos em território norte-americano e Trump admite a possibilidade de permitir que essa permanência seja prolongada por causa do conflito. Não seria de esperar outra coisa, mas com Donald Trump nunca se sabe.
Verdade, mas quando o Miguel diz, e muito bem, que não seria de esperar outra coisa, basta olharmos para o passado e percebemos que as grandes potências sempre usaram este acolhimento de refugiados como um instrumento de política externa também. Ou seja, não apenas por razões humanitárias, mas como forma de reforçar a sua imagem global e de exercer uma influência moral e criar narrativas estratégicas. E ao admitir que os ucranianos poderão permanecer nos Estados Unidos até o final da guerra, Trump faz várias coisas ao mesmo tempo. Desde logo, há uma gestão da perceção pública, que sinaliza uma empatia para com as vítimas de guerra, mas sempre sem se comprometer com o apoio militar direto à Ucrânia. Depois passa uma mensagem política interna que aclama, não é propriamente fácil de explicar aqui em 30 segundos, mas as comunidades de leste apresentam-se como muito pragmáticas e há aqui um aproximar com este ato. E também é uma pressão diplomática que é indireta, ao reconhecer que esta guerra não tem fim à vista, Trump também está a sugerir que esta responsabilidade é dos Estados Unidos, não por não ter o fim da guerra à vista, mas por tratar estas pessoas e dar-lhes acolhimento. Ou seja, há sempre aqui, evidentemente, e como diz o Miguel, e bem, já se esperava que assim fosse, mas há sempre uma intenção de política, de gestão de perceção pública, de passar mensagens de políticas internas e de fazer uma pressão diplomática.
Está feita esta edição do Gabinete de Guerra. Pedro Nascimento, investigador de esfera militar, muito obrigado por ter estado conosco mais uma vez aqui na Rádio Observador.
Muito prazer.