Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Luís Smith é professor catedrático e diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, investigador sénior do IPRI, o Instituto Português de Relações Internacionais. Boa tarde, bem-vindo, professor. Obrigado pela sua disponibilidade. Professor, sugiro que comecemos por falar de um tema que seguramente causará sobressalto em muitos de nós. Há hoje, por exemplo, um relatório dos serviços secretos dinamarqueses revelado pelo jornal "The Guardian", que dá conta da possibilidade de ataques da Rússia nos próximos meses contra países da NATO com grande risco de baixas. Há também um relatório da CIA, que é revelado pelo jornal "El Mundo", que dá conta da possibilidade de ataques russos contra países do Mediterrâneo, em particular França, Espanha e Itália. Professor, devemos recear?

Olá, boa tarde. Sim, isto vem crescendo. Esta guerra híbrida da Rússia contra países europeus não é nova, mas assiste-se a uma escalada e acumulam-se os alertas de serviços de intelligence. É sintomático que estas novas notícias e alegados relatórios, por exemplo, da CIA, acontecem depois de o diretor da CIA ter estado em Moscovo no final de agosto, depois de uma reunião de dois, três dias de líderes dos serviços de intelligence europeus também já terem alertado para potenciais ataques russos contra países da NATO. E temos de recear que a principal novidade é este relatório da CIA que muito concretamente refere ataques russos com drones a países que até agora não tinham sofrido este tipo de ataques, pelo menos que se suspeite serem de origem russa: Espanha, França e Itália. Portanto, aquilo que nós vemos acontecer em países mais do flanco leste, Bálticos, Polónia, Alemanha, poderemos ver acontecer também no sul da Europa, desde logo estes três países que são referidos. E isto tudo faz, do meu ponto de vista, parte de uma estratégia russa contínua de dividir os países europeus e dividir a Europa e a NATO, testar os limites do artigo quinto da NATO, perturbar o quotidiano das sociedades europeias, no fundo, para interromper o apoio europeu ou a coesão europeia no apoio à Ucrânia e/ou impedir que esse apoio chegue ao país. Portanto, nada disto é propriamente novo, mas temos de levar a sério. Estranho que alguns acham que tudo isto é histeria e, em regra, são as mesmas vozes, pessoas e narrativas que diziam também antes de a Rússia invadir o resto da Ucrânia em fevereiro de 2022, que tudo isso era uma manobra propagandística e histeria. Faz parte do mesmo processo e da mesma estratégia de comunicação.

O professor falava no artigo quinto. Há dúvidas sobre o cumprimento por parte de alguns Estados deste artigo quinto, ou seja, a disponibilidade para ajudar países que sejam atacados?

Há, claro, para já porque quando nós estamos a falar em guerra híbrida, estamos a falar em muito tipo de incidentes que vêm acontecendo e designadamente com fortíssimas suspeitas de a Rússia estar por trás e que envolvem desde atos de sabotagem a ciberataques, interferências, desinformação, ataques diretos a infraestruturas críticas, intrometer-se em comunicações ou em sinais GPS, ataques ou quase a cabos submarinos. Enfim, temos até o uso de pressão migratória. Há vários tipos de forma de guerra híbrida que a Rússia vem desencadeando. Agora, o problema é onde situar este tipo de ataques no quadro do artigo quinto. E, por outro lado, como nós sabemos, hoje a coesão da Aliança Atlântica é menor e há dúvidas, em particular, sobre o real compromisso dos Estados Unidos para com os seus aliados europeus, perante ameaças deste tipo ou até uma ameaça maior, porque se formos ver alguns relatórios e sobressaltos nos países bálticos ou na Polónia ou até na Roménia, eles preparam-se inclusivamente para outro tipo de ações mais militares convencionais, embora a probabilidade seja crescente, mas o risco talvez mais baixo do que este guerra híbrida. E tudo isso, obviamente, que são munições que a Rússia de Putin vai explorando, vai testando, vai ultrapassando claramente limites, embora o foco central seja dividir-nos e diminuir o apoio e a resiliência europeia no apoio à Ucrânia.

É seguramente motivo para preocupação dos europeus. Professor, chegou há instantes à Casa Branca Xi Jinping, o presidente chinês, para um encontro com Donald Trump. Que expectativa tem em torno deste encontro?

Depende do que exatamente expectativas querem significar, porque se é no sentido de entregáveis, resultados muito significativos, não creio que tenhamos, porque me parece que este novo encontro faz parte de uma estratégia de ambos os presidentes de diplomacia muito personalizada para manter uma certa estabilidade estratégica e contenção estratégica mútua entre as duas superpotências. E, portanto, nós assistimos a um raro conjunto de encontros bilaterais num curto espaço de tempo. Estiveram juntos à margem da semana da APEC no final de outubro do ano passado na Coreia do Sul. Trump visitou em maio a China, agora Xi Jinping devolve e visita os Estados Unidos, coisa que já não faz desde 2015. E parece que se encontrarão de novo Na cimeira da APEC, que vai decorrer em Shenzhen, na China, já em novembro, e depois se calhar de novo na cimeira do G20, que vai decorrer em Miami em dezembro. Portanto, isto faz parte deste processo de umas certas tréguas que se iniciaram há cerca de um ano, porque, na verdade, ambos querem ganhar tempo, porque tanto Trump como Xi Jinping estão convencidos que este tempo adicional de tréguas por um ano, por um ano e meio, joga a seu favor, porque acentua as dificuldades ou o declínio do outro rival. E portanto, este encontro e esta cimeira faz parte deste conjunto da diplomacia muito pessoal, mas não vão, creio eu, traduzir-se em resultados significativos, embora haja claramente quatro aspetos que vão estar nas conversações, embora possamos não saber publicamente tudo aquilo que dizem, que têm a ver com o comércio. O Irão é um ponto muito interessante que Donald Trump vai querer ter a China, de alguma forma, a colaborar e a segurança energética e navegação. Taiwan, embora a China não queira assumir que dialoga com os Estados Unidos porque é uma questão interna chinesa, pelo menos vai tentar que os Estados Unidos mantenham o adiamento da entrega das armas no valor de 14 mil milhões de dólares que estão comprometidas e depois, claro, tecnologia e inteligência artificial. O que resulta destes pacotes e outros assuntos que estão na agenda não deverá ser muito significativo, mas pelo menos se tivermos a tal estabilidade estratégica não escalada para o mundo e para ambas as partes, creio que é bom nesta altura.

Os dois chefes de Estado entraram para este encontro com um largo sorriso. Não devem sair dessa reunião com a mesma expressão facial. Professor Luís Tomé, muito obrigado pela sua presença neste Gabinete de Guerra, hoje em formato mais reduzido. Tivemos que fazer aqui algumas alterações no nosso alinhamento, a pretexto do jogo, mais logo, da seleção nacional portuguesa frente a País de Gales. Professor Luís Tomé, professor catedrático e investigador do IPRI, foi nosso convidado desta quinta-feira de Gabinete de Guerra. Obrigado.