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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de Nuno Gouveia, especialista em política americana. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Começávamos pelas declarações do presidente do Irão na Assembleia Geral das Nações Unidas. Pezeshkian diz que o Irão está pronto para o diálogo, mas sublinha que o país não vai aceitar essa linguagem da força e reforça também que ninguém pode obrigar o Irão a render-se. O presidente iraniano defendeu ainda que o Irão é vítima de terrorismo norte-americano e, nesta altura, a delegação norte-americana abandonou a assembleia. Que significado é que teve este momento, tanto o discurso do presidente como a atitude também da delegação dos Estados Unidos?

Olá, muito boa noite. O discurso do presidente iraniano não traz nenhuma novidade. No fundo, repete aquilo que tem vindo a ser dito pelo regime iraniano sobre este conflito, sobre a sua visão mundial da situação política e acusando os Estados Unidos e Israel de serem os principais responsáveis pela atual situação do Médio Oriente e do mundo e por todos os males causados. Obviamente, nós encontramos no discurso do presidente iraniano muitas contradições, a começar logo pelo facto de que o próprio regime foi acusado de ter brutalizado e morto milhares de pessoas no início deste ano, ainda antes deste conflito, quando irromperam protestos dentro do país contra a situação política. É um país que se sabe que apoia grupos terroristas na região desde a gênese deste regime em 1979 e que tem sido o principal responsável pelo apoio a grupos terroristas da região. Basta recordar que o ataque de 7 de outubro a Israel, perpetrado pelo Hamas, teve o apoio e não teria sido possível sem o acordo do regime iraniano. Portanto, obviamente, há aqui muita contradição. Agora, também temos que reconhecer, e nós que estamos do lado ocidental, que o ataque americano do passado mês de fevereiro veio dar alguma razão de queixa ao regime iraniano por ter sofrido esse ataque e que o Irão agora também tem vindo a fazer é resistir ao ataque que foi efetuado pelos Estados Unidos e devido a este impasse em que vivemos, o Irão está a tentar maximizar os ganhos possíveis que poderá alcançar com o que tem conseguido através deste ato de resistência do ataque que sofreu por parte dos Estados Unidos. Os Estados Unidos também estão numa posição muito fragilizada devido, em primeiro lugar, à situação interna do presidente Trump e ao facto de os Estados Unidos não terem, até ao momento, conseguido vergar o regime iraniano e, portanto, este discurso é um discurso, de facto, desafiante por parte do presidente iraniano, feito em Nova York, e que pelo menos nos garante que o Irão pretende continuar com este impasse e não ceder nas suas posições. E nós sabemos que as suas posições e percebemos pelo que foi exigido e pelo que tem sido exigido recentemente do Irão e dos Estados Unidos, uma retirada total das suas tropas, um abandono da pressão económica que existe, até o devolver de verbas que estão retidas por parte dos Estados Unidos, e o fim das sanções, também são posições que seriam inaceitáveis para os Estados Unidos. Quanto à questão dos Estados Unidos terem retirado durante este discurso, isso já tinha acontecido ontem quando o presidente Trump discursava e a delegação iraniana abandonou a sala e, portanto, os Estados Unidos responderam com a mesma moeda.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, estiveram hoje reunidos à margem da Assembleia Geral da ONU. No final do encontro, Marco Rubio revelou que tanto a Rússia como a Ucrânia estarão interessadas num cessar-fogo energético, mas reconheceu que isto não será fácil. Concorda que será difícil? E pergunto-lhe também como é que avalia a postura de Donald Trump, que ontem, quando discursou, também na Assembleia Geral, reiterou que a guerra na Ucrânia vai acabar antes do que se pensa. Há motivos para pensar que assim será?

Infelizmente não. E digo infelizmente porque obviamente era muito bom que esta guerra terminasse, que já se arrasta desde 2022. Donald Trump tem dito isso ainda antes de ser eleito presidente neste segundo termo. Ele dizia que ia ali terminar a guerra em 24 horas e tem sido sempre muito veemente a dizer que a guerra está quase a acabar. E o que nós infelizmente temos assistido é que, de facto, aqui quem poderia terminar mais rapidamente a guerra, e aqui obviamente é o lado invasor, a Rússia, a Rússia continua a ter posições maximalistas, a exigir tudo do lado ucraniano. A Rússia continua a exigir território que não conseguiu conquistar pela via militar durante estes mais de quatro anos e meio de conflito e, portanto, obviamente a Ucrânia, que tem resistido a esta invasão, não irá ceder pela via negocial aquilo que não cedeu pela via militar. Os Estados Unidos, como nós percebemos neste segundo mandato da administração Trump, têm tido uma posição bastante ambígua, muitas vezes criticando o lado ucraniano por não ceder às pretensões russas, exercendo muito pouca pressão sobre a Rússia, que essa pressão, sim, poderia forçar, pelo menos à mudança de algum tipo de entendimento do lado russo. E, por outro lado, também assistimos neste encontro que Marco Rubio teve com Lavrov, e também já não é uma novidade, que os Estados Unidos vão convidar ou convidaram já a Rússia a participar no encontro do G20 que se vai realizar em Miami Que também é um retrocesso àquilo que tem sido o entendimento da comunidade internacional, não convidar a Rússia para este tipo de encontros, visto que é um país agressor, é um país que não respeita o direito internacional na questão da invasão da Ucrânia. E é um retrocesso, dando razão àqueles que entendem que esta administração está demasiado próxima do entendimento da Rússia sobre este conflito. E, por outro lado, não deixa também de ser curioso ver Marco Rubio nesta posição. Ele enquanto senador do Partido Republicano, sempre teve uma posição bastante agressiva em relação à Rússia e à postura expansionista da Rússia, incluindo depois da invasão da Ucrânia, que Marco Rubio sempre teve uma postura muito apoiante da Ucrânia e das pretensões ucranianas, e que agora, como secretário de Estado, obviamente obedecendo às orientações que recebe do presidente, tem uma postura completamente diferente.

E acha que o Vladimir Putin irá marcar presença no G20?

Ainda não temos indicações disso. Eu acredito que não, pois o entendimento russo também não tem sido esse de partilhar o palco com líderes ocidentais. Nós sabemos que neste encontro terão líderes com quem ele tem partilhado diversos palcos, como na Índia, no caso da Índia, noutros países, o Brasil. Parece-me que a não resposta dele, ele disse que estaria disponível. O que ele disse é que está disponível novamente para reunir com o presidente Trump, mas não demonstrou essa disponibilidade para reunir com outros líderes internacionais. Ele voltou a reiterar também que para reunir com o Zelensky, que apenas tem disponibilidade para o fazer em Moscovo e não em qualquer outra parte do mundo. Portanto, ele reiterou que não se encontrará com Zelensky neste hipotético encontro do G20. Parece-me que ele vai manter o suspense e obviamente, uma pessoa não sabe o que se passa na cabeça dele. Eu neste momento apostaria que ele não vai estar em Miami.

Hoje também no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o chefe da diplomacia russa rejeitou a possibilidade de parar os ataques à Ucrânia durante possíveis negociações. Sergei Lavrov argumenta que isso seria uma oportunidade para a Europa encher o regime de Kiev com armas, estou a citar. Acha que seria de facto essa a atitude dos aliados da Ucrânia, tentar de alguma forma ganhar vantagem durante um cessar-fogo?

Os aliados, desde o início da guerra, que têm apoiado ao máximo, dentro das suas possibilidades, a Ucrânia. Isso tem acontecido desde 2022. Depois da entrada de Donald Trump na Casa Branca, a situação tem sido mais difícil, visto que muito do armamento necessário é americano e apesar de agora até haver um entendimento em que os europeus compram armamento aos Estados Unidos para ceder à Ucrânia. É verdade, é evidente que os europeus continuariam a ceder armamento à Ucrânia, mas não me parece que seja esse o motivo porque a Rússia não aceita um cessar-fogo. A Rússia não aceita um cessar-fogo, porque Vladimir Putin está convencido que irá conseguir conquistar todos os seus objectivos na Ucrânia, apesar da situação militar não ser a mais favorável para a Rússia. Ele continua a acreditar que pressionando militarmente e também politicamente a Ucrânia, irá conseguir alcançar os seus objectivos. Infelizmente para a Ucrânia, os Estados Unidos, nesta administração Trump, têm dado alguns motivos para Vladimir Putin acreditar que mais tarde ou mais cedo a Ucrânia irá ceder nas pretensões russas. E parece-me que é por isso que a Rússia não tem demonstrado disponibilidade para discutir um cessar-fogo, mesmo um cessar-fogo parcial, como tem sido falado ultimamente.

Depois do encontro com Marco Rubio, Sergei Lavrov, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, emitiu um comunicado onde deixou claro que Moscovo não vai abdicar dos objectivos de invasão à Ucrânia. Admite, no entanto, fazê-lo através da via diplomática e, para além disto, na reunião terá também sido abordada pela Rússia a necessidade de uma célere recuperação das relações bilaterais, em conformidade com os acordos entre o presidente da Rússia e dos Estados Unidos. De que forma é que mudou nos últimos anos a relação entre Moscovo e Washington à luz do conflito na Ucrânia?

Nós sabemos que tem havido muitas conversas entre o presidente americano e o presidente russo e tal não existiu, por exemplo, nos últimos anos com Joe Biden e havia, de facto, um grande afastamento entre os dois países. Com Donald Trump tem sido possível esse aproximar. Agora, nós também temos que perceber que existe na opinião pública americana uma grande oposição à Rússia e a Vladimir Putin. As sondagens, mesmo com essa aproximação do presidente Trump, indicam que uma esmagadora maioria, incluindo eleitores do Partido Republicano, são contrários ao interesse russos. Existe também, de facto, um interesse estratégico dos Estados Unidos, e isso é materializado em muitos intelectuais, muitos membros do aparelho militar, do aparelho dos serviços de inteligência, em toda a sociedade americana, que a Rússia é um adversário estratégico dos Estados Unidos. Trump com alguns dos seus aliados, tem dito que os Estados Unidos poderiam ganhar muito com o aproximar de relações económicas, mas muita gente tem contrariado isso, dizendo que a economia russa é uma economia pequena à escala global e ainda por cima dilacerada com esta guerra, não tem muito a oferecer aos Estados Unidos. Portanto, nós percebemos que há aqui algum interesse por parte do topo da administração Trump em realizar essa aproximação, mas depois, pelo menos nós nestes últimos ano e meio, dois anos com a administração Trump, não temos visto isso materializar-se, porque, de facto, não há grandes condições para que essa aproximação se concretize, apesar de toda a retórica que tem existido por parte da administração Trump, e obviamente a Rússia fica toda contente com essas palavras e obviamente a Rússia, sim, teria muito a ganhar com essa aproximação aos Estados Unidos em termos comerciais ou em termos políticos.

Nuno Gouveia, especialista em política americana, muito obrigada pela sua análise.

Muito bem, muito boa noite.

Fica por aqui o Gabinete de Guerra, está de regresso amanhã.