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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, é aqui que todos os dias analisamos os dois principais conflitos pelo mundo, quer na Ucrânia, quer também no Médio Oriente, na Faixa de Gaza. Hoje junta-se a nós mais uma vez o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo. Vamos começar pela guerra na Ucrânia e vamos olhar para as declarações de Vladimir Putin, o presidente da Rússia, diz que, para já, e aqui sublinho este para já, é uma citação: "Não quer conquistar a região de Kharkiv, mas quer sim fazer uma zona tampão". O que é que diz a estas declarações de Putin, na verdade, mostra aqui que a Rússia tem interesse nesta zona, apesar de não a querer conquistar já?

Acho que também tem muito a ver com alguma gestão de expectativas, ou seja, de repente parecia que a Rússia estava a ganhar a guerra e que ia ganhar nos próximos dias, e Kharkiv, que é uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes, a segunda mais importante da Ucrânia, que já foi, aliás, a capital no período inicial da ocupação soviética da Ucrânia, que era uma queda iminente e, portanto, isso realmente não parecia realista e pelos vistos não parece também a Putin, que terá a informação melhor também da linha da frente. E, portanto, parece-me que é sobretudo isso, esse cuidado de gestão de expectativas, também salvaguardando que se as coisas correrem muito bem, se houver aqui um colapso da resistência ucraniana, até se pode avançar pra aí. Mas este cuidado de poder dizer se agora que aparentemente as forças russas chegaram a linhas defensivas mais organizadas da parte da Ucrânia, que houve aqui um esforço também de reforço das tropas ucranianas nesta região, transferindo tropas de outras zonas da frente. Se agora houver aqui uma travagem nestes avanços, que isso não será visto como uma derrota, mas pode ser sempre apresentado como a concretização do objetivo de criar uma zona tampão, porque também como não se define qual é a dimensão dessa zona tampão, qualquer território adicional ucraniano, mesmo que sejam poucos quilômetros nesta zona, pode ser apresentado como uma concretização desse objetivo russo.

Bruno, ainda em destaque durante o dia de hoje, um ataque à Crimeia. A Ucrânia terá lançado o maior ataque com drones à Rússia e à Crimeia. No Telegram, o ministro da Defesa russo anunciou ter interceptado e destruído 102 drones. Estamos aqui a falar de um ataque de grande escala. Por que continuamos também a ver sempre esta atenção especial à Crimeia? O que é que tem de tão especial e como é que está também neste momento essa zona do terreno?

Sim, e houve inclusive também um ataque a uma grande refinaria no porto de Novorossiysk, que é agora a principal base da esquadra russa do Mar Negro, que teve de sair da Crimeia em grande parte porque estava a ser afundada a um ritmo alarmante do ponto de vista russo, por estes ataques ucranianos. Estima-se que entre 25 e 30% da frota tenha ido ao fundo entretanto. E portanto, isto mostra que realmente a guerra continua em várias dimensões. Temos estado mais atentos agora à zona do norte, e é normal, esta zona de Kharkiv, que é uma zona importante, é uma cidade muito importante, é onde a frente está mais fluída. Mas isso não quer dizer que não continue a haver combates noutras zonas e com outros meios. E nomeadamente, isto também confirma um outro aspecto que é a importância para a Ucrânia dos drones, como um instrumento de guerra aérea mais ofensiva, que permite compensar a ausência de outros meios mais convencionais, por exemplo, os famosos F-16, que continuam sem chegar. Estão sempre a chegar, mas ainda não chegaram. E portanto, a Ucrânia criou, aliás, todo um novo ramo das Forças Armadas, elevou os drones a um grau de importância equivalente ao da Marinha, da Força Aérea, do Exército. E portanto, isto mostra que realmente essa aposta continua e tem aqui algum impacto. Houve notícias de que houve, por exemplo, cortes da eletricidade na própria cidade de Sevastopol, que é a principal cidade na Crimeia. E portanto, isto mostra que, apesar de tudo, a Ucrânia também continua a procurar ter aqui alguma capacidade de iniciativa de contra-ataque, vamos dizer assim, em relação à Rússia, mesmo que esteja com dificuldades maiores na guerra mais terrestre, nesta frente mais a norte da zona de Kharkiv.

Bruno, vamos olhar para a guerra no Médio Oriente, vamos até à Faixa de Gaza. Não propriamente à Faixa de Gaza, mas vamos falar sobre uma situação que aconteceu no dia de hoje, em Estocolmo, na Suécia. Houve um tiroteio junto à embaixada de Israel, um alerta que foi dado às 2:00 da manhã, sendo que as autoridades suecas revelam ter feito várias detenções e encontrar também indícios que apontam para uma troca de tiros. As embaixadas de Israel nos vários pontos do mundo devem estar sob alerta nesta altura em que começamos a ver cada vez mais protestos e mais violentos contra Israel?

Sim, infelizmente, não é uma grande novidade neste sentido. Israel já há muitas décadas que tem um grau de segurança, por exemplo, em relação aos seus diplomatas, às suas representações diplomáticas, muito superior àquilo que a maior parte dos outros Estados têm. Porque há realmente um histórico grande, longo de ataques contra embaixadas, contra associações ligadas à comunidade judaica nos diferentes países. Portanto, é realmente algo que já acontece há muito tempo, mas certamente houve aqui um aumento desse grau de alerta. Por exemplo, eu estava aqui a rever as notícias, na Suécia houve um reporte, um aumento muito significativo de ataques antissemitas, de ameaças, de ataques a locais com algum tipo de ligação à comunidade judaica. E não só apenas a Israel, e portanto, é normal que nesse caldo depois possam aparecer fenômenos de radicalização violenta. de algumas destas pessoas que acham que sendo o caso assim tão sério, a forma de resolver o problema é recorrer realmente à violência e portanto, isso obriga realmente a reforçar ainda mais esse tipo de medidas. À partida, como eu digo, até por causa de todo este histórico de décadas, as embaixadas israelitas são das mais bem preparadas para qualquer tipo de ataque. Mas há sempre outros alvos mais frágeis. Portanto, eu diria que o risco maior é realmente em relação, nomeadamente às comunidades judaicas por toda a Europa, a locais de culto, a locais de reunião dessas comunidades, sendo que isso, obviamente, qualquer tipo de violência contra alvos civis, contra pessoas que não estão envolvidas no conflito, são uma atividade criminosa inaceitável, mas neste caso, tem este lado adicional de haver aqui uma lógica claramente racista. Porque não há nenhuma razão para concluir que pelo fato de alguém ser judeu ou ser membro da comunidade judaica, automaticamente apoia as políticas do atual governo israelita ou apoia a ação militar de Israel em Gaza. Portanto, a única razão para haver essa associação, essa culpa que desculparia esse tipo de atos violentos seria, no fundo, partir-se dessa lógica que todos os judeus são de alguma forma culpados por aquilo que está a acontecer em Gaza ou que são corresponsáveis pelas decisões do governo israelita, o que obviamente é um completo disparate. Até em Israel há muita gente que se opõe a estas políticas e a estas decisões.

Deste tiroteio junto à embaixada, não há informação, por enquanto, de feridos. Houve várias detenções, como dissemos, como disse o jornal Times of Israel, por enquanto, sem informação de danos maiores. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado. O Gabinete de Guerra regressa na próxima segunda-feira, sempre à hora habitual, depois das 16h10. Obrigado, Bruno.

Obrigado.