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Gabinete de Guerra está com a Rádio Observador, no programa em que falamos dos conflitos em curso. Sou o Miguel Cordeiro e vou estar nos próximos minutos à conversa com Liliana Reis, especialista em relações internacionais. Liliana, bom dia, bem-vinda à Rádio Observador.
Bom dia, Miguel.
Já vamos falar mais concretamente destes conflitos em curso, mas hoje há uma eleição importante. É uma primeira volta, sim, com uma segunda volta quase garantida. Eleições no Brasil, eleições presidenciais. Voltamos a ter Lula da Silva frente a um Bolsonaro. Não é o mesmo Bolsonaro que tivemos na eleição anterior. Já era o Bolsonaro, agora é o filho, Flávio. É uma eleição sempre importante. Estamos a falar de uma potência mundial, de um grande país a nível mundial.
Membro dos BRICS.
Exatamente. E que a política externa também entrou nestas eleições. Há até um caso mais concreto, os Estados Unidos têm suspendido a atividade diplomática desde sexta-feira por segurança e com membros do PT, por exemplo, o secretário da comunicação a falar em guerra híbrida por parte dos Estados Unidos da América. Que importância tem esta eleição para diferentes conflitos e para aquilo que pode ser o posicionamento do Brasil também nesses diferentes conflitos? Sabemos, por exemplo, que Lula da Silva, ainda agora na ONU, foi muito crítico daquilo que se passa em Israel, por exemplo, e é também alguém mais afastado das posições dos Estados Unidos da América.
Exatamente. Aquilo que nós compreendemos nesta última campanha foi que a política externa assumiu uma posição de natural destaque que, por exemplo, nós não vimos em campanhas anteriores. E vimos também, de certa forma, aqui uma captura por dois blocos em relação às duas candidaturas mais fortes, à candidatura de Bolsonaro e à candidatura de Lula. Ora, se por um lado, aquilo que se consegue cada vez mais compreender é que Lula da Silva está cada vez mais alinhado não apenas com os BRICS, mas também com o Global Sul, e por isso as suas posições, quer nas Nações Unidas, quer também ao nível dos conflitos internacionais, é cada vez de maior crispação com os Estados Unidos e também com alguns Estados membros da União Europeia. Por outro lado, aquilo que nós observamos é que os Estados Unidos têm um alinhamento cada vez mais sólido com a candidatura de Bolsonaro. E repare que isto até levou à própria questão interna do ponto de vista do sistema eleitoral, tendo Lula vindo a denunciar que podia haver intromissão, e nomeadamente campanhas de desinformação ao nível dos Estados Unidos, ou seja, patrocinados pelos Estados Unidos nestas eleições a favor de Bolsonaro. Agora, do ponto de vista daquilo que poderá sair do resultado destas eleições, parece claro é que neste momento a América Latina está muito mais alinhada com os Estados Unidos do que com os países do Global Sul, e nomeadamente com a Rússia, com o Irão e com a China.
Sim, e muito mais inclinada à direita também.
Sim, está muito mais inclinada para as democracias ocidentais. Ora, em caso de uma vitória de Bolsonaro, este alinhamento vai ser, não diria total, mas vai se visualizar de uma forma muito mais contundente a propósito da América Latina. Se por acaso vencer Lula da Silva, aquilo que nós assistiremos, provavelmente, será a continuidade desta, não diria o decoupling, mas o de-risking da América Latina, não toda, mas do Brasil em relação a alguns estados da América Latina e em relação aos Estados Unidos, até porque, como nós sabemos, Lula da Silva está cada vez mais distante do Donald Trump e isso tem sido visível. Agora, pode haver aqui uma alteração muito importante, até do ponto de vista dos conflitos a nível internacional, se o Brasil virar para Bolsonaro e conseguir o realinhamento da América Latina com os Estados Unidos, porque fica praticamente o continente americano como oposição àquilo que se passa em relação aos outros blocos e pode constituir uma força de bloqueio muito importante dos Estados Unidos em relação à China e até a questão daquilo que poderá ser o controle dos materiais críticos e da possibilidade também da inteligência artificial.
Vamos falar do conflito na Ucrânia, porque hoje há uma visita surpresa do chanceler alemão à Ucrânia. Friedrich Merz chegou a Kiev numa visita que não foi anunciada. Disse que tem como objetivo demonstrar o apoio ao país. "Desloquei-me a Kiev porque a Ucrânia precisa de todo o nosso apoio nas próximas semanas. Se a Rússia não for travada, a máquina de guerra vai acabar, mais cedo ou mais tarde, por se voltar contra nós." Foi o que disse Merz, que espera encontrar-se com o presidente Zelensky, naturalmente, e quer dizer-lhe que pode continuar a contar com a ajuda da Alemanha. Estas visitas nunca são apenas para esta parte política.
Não, esta visita é muito significativa.
Exatamente. Há aqui pontos importantes para esta visita, não é apenas manifestar um apoio público à Ucrânia.
Não Não, eu estava a dizer que esta visita me parece muito significativa, em primeiro lugar, porque não foi anunciada. E depois aquilo que nós já sabemos é que Merz veio dar uma demonstração do apoio alemão com cerca de mil milhões de ajuda militar e também 350 milhões para reparar infraestruturas energéticas que, com a aproximação do inverno, revestem-se de particular importância, mas veio também, me parece mais importante, anunciar o desenvolvimento de uma base industrial e tecnológica de defesa conjunta. Isto é incluir, de certa forma, a Ucrânia nos esforços de desenvolvimento ao nível da defesa também europeu. A Ucrânia já não é apenas a linha de defesa da Rússia contra a Europa. Nós víamos as visitas de chefes de Estado europeus e, nomeadamente, também da presidenta da Comissão Europeia e também do presidente do Conselho Europeu, em todas as deslocações anunciarem, por um lado, a continuidade do apoio militar à Ucrânia, mas por outro lado, também reiterar a necessidade da Europa continuar essa mesma ajuda. E aquilo que nós agora assistimos é que não é apenas isso. A Ucrânia está-se a tornar o parceiro mais importante do ponto de vista tecnológico e militar, o que com as debilidades do ponto de vista da defesa que a Europa tem, isto é importantíssimo, porque pode efetivamente fornecer conhecimento e tecnologia à Europa, que nós precisamos sobremaneira. E Merz aquilo que hoje está a fazer não é apenas uma visita diplomática. Também me parece que é uma visita com uma ambição ao nível estratégico e militar muito importante.
Sendo que nas últimas horas a Rússia pediu a diplomatas estrangeiros para abandonarem Kiev e avisar que vai retaliar contra a Ucrânia. Rússia que tem tido aqui algumas baixas em algumas zonas importantes nessa linha da frente, ou seja, onde ucranianos e russos lutam por ganhar terreno. A Ucrânia tem conseguido avanços importantes nas últimas semanas, principalmente com recurso a essa operação Vivaldi, que utiliza uma nova forma de cerco com manobras nunca antes vistas.
Com tecnologia.
Exatamente.
Não é só a manobra, é também muita capacidade ao nível tecnológico, vieram também alterar e revolucionar, de certa forma, aquilo que é a condução operacional da guerra.
Sendo que a Rússia tem respondido principalmente com ataques diretamente a Kiev. Vimos ontem o terceiro dia consecutivo de ataques a pontes na capital ucraniana e a Rússia a deixar este aviso. É perante este aviso, perante estes ataques a Kiev, que Merz vai a Kiev, ainda assim, apesar dos avisos da Rússia. Isso mostra também uma posição de força, neste caso, da Alemanha e da Ucrânia.
Naturalmente, nós neste momento temos consciência de que os ataques a infraestruturas críticas, como pontes e infraestruturas energéticas, irão intensificar-se com a chegada do inverno para pressionar mais um inverno a Zelensky, mas também o povo ucraniano. Agora, a visita de Merz, mesmo neste contexto de enorme hostilidade por parte da Ucrânia, acontece porque a guerra também já entrou numa zona bastante cinzenta no quadro europeu. Repare que nós temos tido ataques indiretos ou não convencionais, como incursão de drones, com guerra eletrónica, sabotagem, também pressão sobre as nossas infraestruturas europeias por parte da Rússia. As violações do espaço aéreo e outras ações, como eu estava a dizer, hostis da Rússia contra Estados membros da União Europeia, também está a aumentar. E nós temos vindo a observar que a Rússia não está a testar apenas Kiev. A Rússia também está a testar várias capitais europeias e a explorar as nossas vulnerabilidades. E por isso, neste momento, o recuo ou o medo da ameaça por parte dos europeus é também um sinal de fraqueza e, para mim, pelo menos da leitura que eu faço, era um sinal de que a nossa coesão, não apenas dos europeus entre si, mas também das nossas próprias sociedades, estava bastante fragilizada. E mais, que a nossa incapacidade de projeção de poder militar compromete também a nossa ação. E por isso é que eu dizia que esta visita de Merz deve ter uma leitura não apenas de apoio ao Estado agredido durante todos estes anos, mas também da articulação do desenvolvimento de capacidades e da interoperabilidade entre um Estado que não é membro, mas é candidato à adesão à União Europeia, e todos os Estados membros europeus. Nós temos aqui vários Estados que têm vindo, e estou-me a lembrar, sobretudo os Estados do Báltico, a Polônia e a Alemanha, naturalmente, até por tudo aquilo que tem acontecido nos respectivos aeroportos, em vários aeroportos, pelo menos, que têm vindo a alertar para a guerra híbrida que a Rússia introduziu dentro do espaço europeu, que não permite acionar nem a cláusula de assistência mútua ao abrigo do Tratado da União Europeia, nem tão pouco o artigo quinto da NATO, no quadro da Aliança Atlântica, mas ainda assim tem fragilizado e tem comprometido a nossa segurança europeia. E por isso esta visita parece-me muito relevante, numa altura em que nós também, nós estávamos há pouco a falar das eleições do Brasil e dos alinhamentos. Cada vez mais nós começamos a compreender que as esferas de influência e o domínio destas esferas de influência por alguns atores vai ser crucial para a distribuição do poder no sistema internacional nos próximos anos. A Europa não pode ficar órfã, sem uma palavra nesta distribuição do poder a nível internacional e por isso o desenvolvimento de capacidades militares e a força que tiver no domínio da defesa será crucial para que se possa sentar à mesa com outra posição negocial em vários conflitos e em várias situações, nomeadamente em relação à Ucrânia.
E nas próximas horas teremos certamente os comunicados, tanto do lado alemão como do lado ucraniano, sobre as conclusões deste encontro e desta visita de Merz a Kiev. Helena Reis, muito obrigado por esta participação.
Muito obrigada e muito bom dia e bom domingo.
Bom fim de semana.