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Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Miguel Cordeiro e vamos nos próximos minutos, juntamente com Liliana Reis, especialista em Relações Internacionais, falar dos conflitos em curso. Liliana, bom dia, bom fim de semana, bem-vinda à Rádio Observador. Vamos começar talvez por este conflito econômico, e aqui estamos a falar de uma guerra comercial. Já vamos falar propriamente de conflitos armados em curso, mas estamos perante uma guerra comercial entre Canadá e Estados Unidos, com estas tarifas ontem aplicadas pelos Estados Unidos da América e com resposta do Canadá, tarifas de 50% para cada lado.
Naturalmente. Aliás, nós o que observamos esta semana foi basicamente a consolidação da deterioração das relações entre Canadá e os Estados Unidos, que não surgiram apenas nesta semana. Aliás, logo após a eleição de Donald Trump, e a partir do momento em que Donald Trump alertou alguns dos principais aliados, e não foi apenas o Canadá, a Europa também, que poderia vir a rever as tarifas com esses mesmos Estados, com o Canadá, particularmente, começou a sentir-se que havia uma crispação crescente do ponto de vista econômico. Mas eu não excluiria também a questão política. Repare que esta dimensão econômica, que neste momento está a ser sentida por este aumento das tarifas por ambos os lados, pode também ter consequências políticas dos dois lados da fronteira. E naturalmente, que também poderá prejudicar Donald Trump relativamente às eleições que terá em breve, as midterm elections, e que neste momento nós começamos a observar que o próprio Partido Republicano também começa a contestar, de certa forma, algumas das medidas, não o próprio presidente, mas algumas das medidas, sobretudo do ponto de vista econômico, que o presidente está a levar a cabo e que terão reflexo inevitavelmente nos bolsos dos norte-americanos. Por isso é que me parece que esta situação entre o Canadá deverá ser acompanhada nos próximos dias para ver que tipo de efeito é que poderá efetivamente ter, e eu quando digo dias, falo dias e semanas, poderá ter, por exemplo, em setembro e outubro, nos próximos dois meses antes das midterm, que pode efetivamente também contribuir para um desgaste, não apenas do presidente, mas também do Partido Republicano.
No caso do conflito do Médio Oriente, Donald Trump também está a apostar agora numa guerra essencialmente econômica. Depois, é óbvio que há conflito armado, e há tropas, e há mísseis, drones, tudo envolvido neste conflito, mas está a apostar agora para uma guerra comercial, Donald Trump, pressionar ao máximo o Irão?
A situação em relação ao Irão parece-me um pouco mais complicada. Repare que na semana passada falávamos que terminaria efetivamente o prazo para o memorando de entendimento na segunda-feira. E que o resultado depois desse memorando, ou seja, esta semana seria muito importante para conseguirmos entender efetivamente se haveria um prolongamento ou não do memorando de entendimento para um possível acordo de paz. O que neste momento nós observamos é efetivamente por parte de Donald Trump, e ele foi muito claro a dizer que neste momento não estavam a decorrer negociações e que nem tampouco haveria conversações agendadas enquanto o Estreito de Ormuz não fosse totalmente reaberto e o controle assumido totalmente pelos Estados Unidos, isto por um lado. E naturalmente, Donald Trump assegurou que iria manter o bloqueio naval e econômico a Teerão. Mas, por outro lado, no lado iraniano, nós começamos a ver também aqui alguma divisão interna. Por um lado, tivemos o novo chefe de segurança, o Raeisi, a ameaçar países vizinhos, aliás, que colaborassem com medidas econômicas americanas, nomeadamente neste sentido da pressão do lado econômico norte-americano. E ele também falou na retaliação contra novas rotas que pudessem vir a ser estudadas ao nível do transporte de petróleo fora de Ormuz. Mas, por outro lado, e isto é que me parece também particularmente importante ser dito, é que o presidente iraniano, Pezeshkian, veio dizer que este seria um bom momento para terminar a guerra. Aliás, disse na sexta-feira e ontem voltou a reiterar. E até acrescentou que o Irão negociaria em posição de força e dignidade, mas não se submeteria à intimidação. Ou seja, nós temos aqui, por um lado, a guarda revolucionária e nomeadamente o novo chefe de segurança a apontar efetivamente para uma posição de força e de bloqueio àquilo que efetivamente é uma possibilidade negocial, mas, por outro lado, temos o presidente iraniano a dizer que deveria ser estudado o caminho da negociação e nomeadamente do cessar-fogo definitivo. Por isso, aquilo que me parece que poderá vir a acontecer, apesar de no Médio Oriente tudo ser muito imprevisível, e sublinho uma vez mais, já o referi aqui no nosso espaço do Gabinete de Guerra, e esta imprevisibilidade a juntar-se também ao temperamento que conhecemos ao presidente norte-americano, torna muito mais difícil anteciparmos aquilo que poderá ser efetivamente os próximos passos. Parece-me que estamos, neste momento, numa fase muito mais distante das negociações e podemos efetivamente sair novamente da parte da dimensão econômica e voltarmos a escalar para uma guerra se, porventura, Teerão começar também a sentir uma ameaça maior dos Estados Unidos, mas por outro lado, também um apoio maior dos seus aliados, nomeadamente através da Rússia, ao nível do fornecimento de informações, mas também de mísseis balísticos.
Vamos falar do conflito na Ucrânia, porque há, de facto, várias movimentações nos últimos dias. Há movimentações importantes também para o futuro deste conflito.
E amanhã terá mais.
Exatamente. Vamos falar aqui das diferentes partes. Vamos começar talvez pelo lado russo, porque Vladimir Putin disse que os ataques ucranianos aumentaram nos últimos dias porque Kiev está a perder a guerra. Declarou-se convencido que o aumento dos ataques ucranianos contra a Rússia se deve a um desespero do governo de Kiev e de Zelensky face à situação na frente de batalha. "Quanto mais difícil se tornar a situação, mais brutais e bárbaros são os ataques da Ucrânia", foi o que disse Putin no Congresso do partido Rússia Unida, a preparar eleições gerais em outubro. Que leitura faz a estas palavras de Putin? Estamos aqui a falar já de declarações de campanha política?
Naturalmente que se ainda na semana passada, na análise do discurso de Donald Trump, dizíamos que relativamente à guerra do Irão, muitas daquelas palavras deviam ter uma leitura ao nível doméstico, naturalmente que estas palavras de Vladimir Putin, nomeadamente no Congresso da Rússia Unida, aproximando-se também as eleições, não é que estejamos a falar de uma democracia, mas ainda assim, também devem ter essa leitura ao nível de consumo interno. Agora, repare, nós vivemos um momento em que a Ucrânia tem conseguido efetivamente causar danos muito significativos à infraestrutura energética e militar russa, não através apenas de drones, mas também de ataques em profundidade, nomeadamente com alguns mísseis também já produzidos na própria Ucrânia, como os Flamingo e outros. Ora, o que neste momento a Ucrânia está mais fragilizada é que, não obstante esta capacidade de levar a cabo ataques na Rússia, faltam efetivamente interceptores, nomeadamente Patriot. Ontem Macron também, agora a propósito, recordei-me, veio anunciar que a França vai acelerar o fornecimento de mísseis e facilitar a produção ucraniana de determinados sistemas de proteção antiaérea.
Os dois líderes tiveram ontem a conversa e depois dessa-
Seguiu essa decisão do Macron.
Seguiu essa decisão, exatamente.
Mas, ainda assim, repare, nós na União Europeia estamos com alguma dificuldade também de assegurar os estoques que a própria Ucrânia precisa e por isso qualquer ajuda será sempre muito bem-vinda ao povo ucraniano, mas ainda assim é bastante limitada. E por isso é que, neste momento, aquilo que as duas partes procuram é se efetivamente forem empurradas para uma mesa negocial, cada uma se apresentar nessa mesa numa posição de maior vantagem possível, porque efetivamente quem dita os termos da paz é aquele que consegue vencer a guerra. E nós começamos a perceber que é muito difícil algum conseguir efetivamente todos os desideratos aos quais se propôs. Neste momento, seria muito mais fácil que a Ucrânia conseguisse efetivamente derrotar ou pelo menos dissuadir a Rússia para que a Rússia recuasse, mas isso é wishful thinking. Agora, amanhã há um acontecimento importante. Primeiro, porque se assinala o 35º aniversário da independência da Ucrânia. E por outro lado, para também assinalar este dia, alguns líderes da coligação de vontades vão estar reunidos, nomeadamente Macron, Burnham e Merkel. E aliás, prevê-se que o presidente do Conselho Europeu, António Costa, também esteja presente. E é possível que desta reunião saiam mais apoios, não apenas aqueles que nós ontem observamos por parte da França, mas como eu disse, há aqui alguma limitação também do ponto de vista das capacidades militares que a União Europeia tem, apesar de nos últimos meses ter vindo a contrariar vários países, e sublinho aqui talvez o papel da Polónia e da Alemanha, têm sido os mais relevantes no desenvolvimento, nomeadamente tecnologia de uso dual ao nível da defesa, quer para o desenvolvimento de capacidades militares, mas também para a própria indústria. Mas depois, eu acho que o mais importante que vai sair desta reunião será o papel que a Europa terá e pelo menos a imagem que irá passar, quer para o Kremlin, quer para Washington. É que qualquer decisão sobre o futuro da Ucrânia terá inevitavelmente que passar pela Europa. Agora, vamos ver se será só ao nível das garantias de segurança, se será ao nível da aceleração da adesão à União Europeia. Vamos ver efetivamente quais é que serão as decisões que sairão. Ou então, podemos estar aqui também com algumas expectativas demasiado elevadas e depois ser mais do mesmo e a Europa fazer só daqueles discursos que nos têm habituado nos últimos tempos com pouco grau de ambição. Há uma questão na Ucrânia que também nos pode começar a preocupar, que é a fragilidade de Zelensky a nível interno.
Era do que eu ia falar, porque ainda hoje Volodymyr Zelensky falou sobre as eleições. Disse que as eleições por si só representam um enorme risco e falando de eleições em território ucraniano. Mykhailo Fedorov, o ex-ministro da Defesa, já pediu para que se abrisse caminho para a realização de eleições. Zelensky afasta esse cenário e repete este perigo para o país que representariam estas eleições. Diz mesmo que seria um tsunami que fragmentaria a Ucrânia. Disse isto à imprensa, divulgado hoje estas declarações. Consegue de facto Zelensky afastar por completo a possibilidade de eleições ou a pressão pode obrigar o líder ucraniano a avançar para um ato eleitoral?
No meu ponto de vista, parece-me que as eleições estão afastadas. Repare que o apoio a Zelensky continua bastante significativo. Ainda esta semana saiu um estudo e aproxima-se dos 60% o apoio da população ao presidente. Depois repare que enquanto vigorar a lei marcial, nós sabemos que estão proibidas as eleições, mas até do ponto de vista operacional colocam-se várias questões que me parecem muito importantes serem também destapadas. Repare, uma eleição em condições de guerra levantaria problemas enormes do ponto de vista logístico, do ponto de vista da segurança. A nível, por exemplo, logístico, como é que seria assegurada a capacidade de votação dos deslocados? Como é que seria assegurada a capacidade de votação dos militares mobilizados? Como é que decorreriam as eleições livres, como devem ser num Estado democrático, nos territórios ocupados? E depois, quem é que garantiria a segurança, até porque ainda há pouco estávamos a dizer que o grande problema da Ucrânia, neste momento, é a proteção relativamente aos mísseis russos. Como é que Zelensky poderia assegurar que essas eleições eram não apenas livres, como justas, ou seja, todos os ucranianos poderem exercer o seu direito de voto, mas depois não terem sobre si o risco de qualquer tipo de ameaça, nomeadamente de um míssil, como nós vimos ainda esta semana, na sequência de um grande ataque russo a um centro comercial, na cidade natal do Zelensky, em Kryvyi Rih, morreram mais de 16 pessoas e ficaram feridas mais de 130 pessoas. Ora, como é possível que haja eleições livres e justas num país que desde 2022, vive num cenário de guerra? Por isso eu acho que o próprio Fedorov vai exigir as eleições. Parece-me que também há aqui algum tipo de apoio que nós não sabemos ainda. Mas há alguns líderes ocidentais, há alguma especulação que ele possa ter apoio de Donald Trump, mas o que é certo é que é muito difícil que possam ser celebradas eleições nesta conjuntura.
Liliana Reis, muito obrigado por esta participação no "Gabinete de Guerra". Bom fim de semana.
Muito obrigada e muito bom domingo. Obrigada.