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Pelo Miguel Vilela. Gabinete de Guerra da Rádio Observador, a rubrica em que analisamos os conflitos no leste da Europa e também no Médio Oriente. Hoje contamos com a preciosa colaboração do professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Boa tarde, bem-vindo. Obrigado pela disponibilidade e pelo contributo para este programa. Comecemos pela Ucrânia. Xi Jinping, o presidente chinês, afirmou que a parceria Rússia-China é uma parceria estratégica que tem avançado com determinação. Cortar esse laço não era um dos objetivos de Donald Trump. Podemos inferir que a visita à Ásia foi um flop?
Boa tarde, Miguel. Trump apanhou um banho de realidade, eu diria mesmo, nesta visita à Ásia e especialmente na sua ligação com a China. Não conseguiu falar num conjunto de temas, inclusivamente esse da ligação Sino-Rússia, recuou num conjunto de áreas. Lá conseguiu alguns sucessos com a questão da soja, com a retirada das restrições às terras raras, mas basicamente só conseguiu aqueles trade frameworks, nem sequer grandes acordos a longo termo serão, e apenas congelou e voltou à situação de pós-Trump, ou seja, 2024. Já aqui fomos referindo que a China está muito preparada para esta fase. Tem uma estratégia de longo prazo para enfrentar o tal ambiente internacional hostil que foi designado logo em 2008 por Xi Jinping, ainda antes de ser presidente, e em 2013, quando já era presidente, e que foi reforçando ao longo de vários momentos. Estamos a falar de uma ordem pós-americana, diria mesmo. Em boa verdade, a China é uma potência global capaz de competir com os Estados Unidos nas várias dimensões, é nítido. E portanto, agora está a ficar um pouquinho mais impaciente neste revisionismo sinocêntrico. A ligação, e é aqui que eu vou fazer a passagem para a Ucrânia, com a Rússia poderá ser conjuntural. Poderemos ter dúvidas sobre o que Putin dirá quando se sentir como um parceiro júnior e já tenha condições para ser outra coisa. Portanto, resta saber como é que será a evolução. Mas neste momento é essencial para Moscovo ter este apoio por três grandes motivos. Um primeiro, por questões diretas, em que está a receber um apoio direto, como vimos ainda esta semana, os 6 milhões de motores para os drones Shahed construídos na Rússia, seja indireto através de compras e fugindo um pouquinho às sanções, nomeadamente no petróleo, seja diplomático, demonstrando que a Rússia não está isolada no sistema político internacional. Mas é mais relevante ainda o que está na pergunta, que é a escolha estratégica da China exatamente reforçada no momento em que Trump deixou a reunião na Coreia do Sul com Xi Jinping. Portanto, mais uma vez, essa ordem pós-americana fica clara. É mantido o apoio que equilibra numa análise global o conflito. Isso poderá conduzir-nos a dois cenários diretos. Um é o prolongar do conflito no terreno até a Rússia se sentir satisfeita e atingir os seus objetivos maximalistas. Um outro, que é isso que Putin muito aposta, é cansar o Ocidente na sua opinião pública e publicada e de alguma forma fragilizar a posição da Ucrânia. Seja o que for, não será positivo para a resolução do conflito.
Na perspetiva da China, tem a China mais a ganhar com a manutenção deste conflito do que propriamente com um acordo de cessar-fogo, tendo em conta que é uma potência comercial e que, porventura, de um ambiente menos hostil poderiam beneficiar mais as empresas chinesas?
É uma boa questão até pelo seguinte: realmente há uma visão sempre um pouco comercial. A China transformou-se nisso. Mas, por exemplo, o conflito do Médio Oriente representa mais, porque aí estamos a falar de choque pontos, estamos a falar de zonas onde o comércio por via marítima e mesmo o transporte de hidrocarbonetos para a China acabam por se centrar. Aqui neste caso concreto, o que a China verdadeiramente não quer é que a Rússia perca e que permita que os Estados Unidos, de uma forma estratégica, se concentrem na sua competição com a China. Portanto, nesse sentido, prioritariamente, e apesar de haver ganhos noutros campos e noutras dimensões, prioritariamente a China não quer que a Rússia seja confrontada com uma derrota e que haja uma liberdade estratégica para Washington pensar noutros assuntos, nomeadamente em Taiwan e no mar de Sul da China.
Não está em bons lençóis, então a Ucrânia tendo em conta esta conjuntura. E a Rússia está realmente a avançar, como dizem, em Pokrovsk? Como é que está a situação no terreno?
Está a avançar, de facto, mas eu diria que está muito lentamente, ainda não tem o controle. Tem a iniciativa, mas não está ainda numa posição decisiva. Agora, o que estamos a falar? Estamos a falar numa concentração de forças brutal por parte da Rússia nesta região, uma aposta tremenda. Fala-se em 260 mil homens numa proporção de sete para um com as forças ucranianas. De qualquer maneira, realço que quando se ataca em ambiente urbano, é natural ter uma desproporção significativa de forças. Estamos a falar de um terço dos contactos bélicos de toda a frente. Portanto, há aqui uma concentração de forças naquela região, uma tentativa de criar algum tipo de brecha Só que ainda não está controlada, toda a grande bolsa de Pokrovsk não está controlada. Há uma nova tática de infiltração que permite realmente criar algum tipo de elementos infiltrados na retaguarda das forças ucranianas, mas não o suficiente para consolidar, muito longe disso. E a Ucrânia está a tentar reagir, seja com contra-ataques, seja com a utilização de forças especiais para fazer frente a esse tipo de infiltrações. A bolsa, no entanto, é bastante relevante, porque é uma zona de apoio a toda a frente, faz parte de um sistema integrado de defesa que já foi preparado desde 2014, permite logística, permite reforço de recursos humanos, permite a utilização das reservas e é muito relevante no controle de Donetsk. Uma eventual perda de Pokrovsk, mais que tudo, iria permitir algum ganho de terreno, apesar dos avanços em terreno aberto já não serem o que era antigamente, até pela utilização de drones, mas permite o avanço do apoio de combate, ou seja, da artilharia, de chegar um bocadinho mais longe. Mas o mais importante ainda seria, na minha perspetiva, a vitória moral, porque a Rússia já não tem uma grande vitória desde 2024 com a Avdiivka, e a guerra da comunicação que obviamente os russos são muito especialistas em aproveitar. Portanto, a frente está sob algumas pressões, seja aqui, seja em Kupiansk, mas eu acho até mais relevante o impacto dos ataques à infraestrutura energética, que já mereceu uma resposta por parte da União Europeia, seja com apoio direto, seja inclusivamente com a grande designação que a Ucrânia não vai passar o inverno sozinha, o que demonstra a preocupação face à ameaça russa e a preocupação que a União Europeia tem perante este tipo de situação.
E por falar no apoio à Ucrânia, com tantos avanços e recuos, os Tomahawks vão ser entregues pelos Estados Unidos ou não, e têm, de facto, o potencial de mudar este conflito?
Miguel, eu acho que nem o Trump saberá. O Trump de hoje não consegue assegurar que o Trump de amanhã não decida noutra direção. Eu tenho francas dúvidas. E por quê? Por três razões. Uma primeira é porque significa um real afastamento entre Trump e Putin, o que poderá inclusivamente levar Putin a retirar a Rússia de alguns acordos vitais. Segundo, porque de alguma forma significa um envolvimento direto dos Estados Unidos, algo que tem sido evitado até agora. Isto porque é um sistema de armas que implica já a utilização de uma assistência militar por parte da designação militar para esse tipo de missões por parte dos Estados Unidos, e porque o número e custo dos sistemas, realmente, o número não é muito elevado, o custo é sim elevado e, portanto, os Estados Unidos não estarão na melhor disposição. Não será um game changer, e respondendo à segunda parte da pergunta, mas é relevante. Não é game changer como os F-16 não foram, como os Storm Shadow não foram, como os Patriots não foram, mas todos contribuíram de alguma forma retirando liberdade de ação à Rússia, isso é indubitável. E a capacidade efetiva de atingir alvos de valores estratégicos e em profundidade é relevante. Isso vai implicar, mesmo que não seja determinante, uma maior atenção na retaguarda russa, portanto, vai implicar deslocalização de forças, desviar defesas para defender essas zonas, defesa aérea, nomeadamente, evitar concentração de forças, de meios e de indústria. Basicamente, e como já disse há pouco, retira liberdade de ação. Algo que os drones, por exemplo, e os mísseis de longo alcance Flamingo, já vão criando algum tipo de dificuldades, mas não têm, de forma alguma, a capacidade operacional, a eficácia, o alcance, o guiamento e as contramedidas eletrônicas, etc., que teriam os Tomahawk. Mas ponto final aqui será exatamente a mensagem política importante que Trump passaria e que até Putin realçou mesmo em 2022, quando falou nisso na justificação para a invasão, porque os Tomahawks permitiriam à Ucrânia ser uma ameaça existencial em relação à Rússia. Portanto, tem aqui uma mensagem, é relevante mais a nível político do que propriamente depois operacional.
Sob o ponto de vista militar. Ora, temos ainda aqui dois minutos, voltemos o nosso olhar para o Médio Oriente. O Hamas entregou três corpos de reféns, Israel libertou 45 presos, os Estados Unidos apresentaram na ONU uma proposta para a criação de forças de segurança internacionais que assegurem a estabilidade da Faixa de Gaza. Podemos dizer que o processo de paz finalmente encarreirou, professor?
Miguel, em dois minutos, portanto, indo só às questões mais importantes. Eu acho que uma evolução é sempre boa e nós neste momento temos algumas características interessantes neste processo, mas dúvidas sérias quanto ao futuro. Esta era a fase fácil, embora obviamente tenha aqui questões que são sempre muito difíceis de ultrapassar e, por exemplo, apresentar todos os corpos era quase impossível. Mas há demasiados "ses", qualquer erro pode degenerar, há muitos interesses locais, globais, muita coisa em jogo. Ainda não há propriamente uma estabilidade estratégica, porque há espaços que ainda não estão ocupados e há uma tentativa de reocupação de espaço por parte dos derrotados. Logo à partida, seja Israel, seja o Hamas, seja o Irão e seus próximos, não estão disponíveis para assumir sem tentar reorganizar novamente o sistema. Depois também depende da evolução do tal conflito das sete frentes, ou seja, o que irá acontecer no Líbano, na Síria, etc. Mas estamos melhor, isso não há dúvida nenhuma. Quanto ao projeto de resolução O querer o sancionamento do Conselho de Segurança logo à partida não é fácil. É uma boa medida para envolver também as grandes potências a nível global, mas a posição da China e da Rússia será determinante. A China, e como disse há bocado bem na pergunta, quer estabilidade, é certo, mas a Rússia já foi derrotada neste ambiente. Não sei até que ponto estará disponível para apoiar. Israel confiará e irá retirar as suas forças, não atendia que esta Linha Amarela acaba por ser a buffer zone que irá assumir de futuro, não sabemos. Depois outras questões já se foram falando, a constituição da força, o comando e controle será com o conselho internacional e com que países envolvidos, a própria missão, e mais uma vez falamos muito importante da segurança de Israel, se a missão, se as regras de empenhamento levam a isso, à desmilitarização e desarmamento, não só do Hamas, como outras forças e infraestruturas de ataque. E depois nation building, a reconstrução, a governança, se a autoridade palestiniana terá ou não condições para se reorganizar e liderar. Voltando à grande questão, estamos a melhorar, é certo, e se os Estados Unidos estiverem efetivamente envolvidos na resolução, penso que será um grande ator para conseguir assegurar isso. Mas o envolvimento dos países árabes será também decisivo. Em suma, apenas com uma coordenação internacional, retirando liberdade de ação aos atores no terreno, e apoio aos atores no terreno, só aí poderemos conseguir prosseguir num bom caminho relativo que estamos a seguir até agora.
Assim seja. Professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, que hoje nos ajudou a olhar para estes dois conflitos na Ucrânia e também no Médio Oriente. Professor, muito obrigado e até para a semana.
Até breve, Miguel.