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Abrimos a porta ao último gabinete de guerra do dia na Rádio Observador. Vamos nos próximos minutos contar com a análise sobre os conflitos com o tenente-general Marcos Serronha. Muito boa noite. Seja bem-vindo e obrigado.
Boa noite, Diana.
Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Hoje a notícia é que os Estados Unidos e o Irã terão chegado a um acordo preliminar envolvendo um cessar-fogo de 60 dias e o enquadramento para as negociações nucleares. É um entendimento que prevê uma navegação livre no Estreito de Ormuz, compromissos iranianos relativamente ao enriquecimento de urânio, enquanto os Estados Unidos estarão a considerar aliviar sanções financeiras. Faltará o aval do Donald Trump. Há várias contradições relativamente a este memorando, se é oficial ou não. O presidente norte-americano, que tem estado ansioso por um acordo, deveria aproveitar a ser verdade para assinar por baixo?
Boa noite também a quem nos ouve. Vamos lá ver, isto parece um dia diferente de todos os dias anteriores, não é? Relativamente não só aos discursos dos dois atores, como de algum modo às contradições que havia relativamente àquilo que eram os objetivos políticos e estratégicos de cada uma das partes. Agora, não há dúvida que a questão de obter um cessar-fogo e, de algum modo, algum grau de entendimento relativamente àquilo que se iria discutir num cessar-fogo mais estruturado, que foi o que o anterior não foi, nem foi escrito, como sabemos. Portanto, foi um cessar-fogo, um acordo de cavalheiros, por assim dizer, que por acaso até correu bem melhor do que aquilo que nós podíamos inicialmente esperar. O que é certo é que, de facto, há aqui uma série de questões que temos que perceber a sua capacidade de implementação. Evidentemente, nós sabíamos de forma clara qual era a posição das duas partes relativamente a algumas questões. Parece-nos estranho, relativamente, de facto, aquilo que tinha sido vocalizado pelo Irã no último mês, relativamente à questão da navegabilidade do Estreito de Ormuz e aquilo que o Irão queria e que quer, ao que tudo indica, é um controle do estreito sob o ponto de vista da questão da navegação de entrada no Golfo Pérsico e de saída. E, portanto, é de algum modo relativamente inesperado, acho que é a palavra certa, que o Irão tenha abdicado completamente disso e está disposto a negociar a questão nuclear, que também era uma questão que tinha, de algum modo, levado até ao limite sob o ponto de vista da assunção da sua soberania relativamente àquilo que ia fazer do urânio. Eu julgo que neste momento temos que esperar não só o posicionamento das duas partes relativamente ao acordo. Este memorando de entendimento será um memorando escrito e, portanto, julgo que nas próximas horas, até o dia de amanhã, vamos ter mais clarificação sobre esta questão.
Que interesse terá a Israel este acordo?
Israel, pelos vistos, ficou de fora, o que também é outra coisa estranha. Vamos lá ver, nós sabemos da posição do Irão relativamente à inclusão da guerra no Líbano dentro do memorando. Portanto, isso até o dia de ontem, era uma imposição do Irão relativamente a incorporar o cessar-fogo no Líbano como uma peça dentro deste memorando de entendimento. Ao que tudo indica, não será isso que irá acontecer, pelo menos de acordo com aquilo que tem sido dito por Israel, naturalmente. Portanto, há aqui uma série de coisas ainda pouco claras, que não estão muito em linha com aquilo que tem sido dito pelos atores nos últimos dias. Agora não há dúvida que a estruturação de um processo de cessar-fogo com vista a um processo negocial para atingir uma paz era uma coisa que interessava aos dois actores, isso não tenho dúvida. Tínhamos ouvido isso mesmo do Donald Trump.
Ali ao lado, e temo-nos focado pouco no que se passa na Faixa de Gaza. O primeiro-ministro israelita ordenou ao exército que ignore os termos do cessar-fogo que começou em outubro e assuma o controle de 70% da Faixa de Gaza, segundo um vídeo que foi divulgado por uma televisão local. Pergunto, senhor tenente-general, qual a legitimidade de Israel para tomar esta decisão de forma unilateral e onde é que Israel vai parar?
Vejamos. Gaza tem sido um pouco uma carta fora deste baralho. Pelo menos sob o ponto de vista das discussões e mesmo até sob o ponto de vista mediático. Tirando algumas coisas que surgiram nos últimos dias.
A ataques, por exemplo.
A ataques e Israel ter morto o líder da parte militar do Hamas. E de algum modo, algumas questões também relacionadas com as condições de vida dos palestinianos que vivem em GazaE até há aqui uma questão também que não é estranha, porque de facto não tem sido muito falada, que é a questão do Hamas, que se constituiu nos últimos anos como um dos elementos dos proxies, dessa lista de proxies que o Irão tinha incorporado na sua estratégia defensiva. Aliás, o Irão chamava a estes seus aliados uma defesa avançada, que o Irão fazia, que de algum modo tenha deixado cair, ao que tudo indica, o Hamas, contrariamente ao Hezbollah, como elemento dessa lista dos seus apoiantes numa defesa avançada contra Israel e os Estados Unidos. E portanto, eu presumo que nós ouvimos falar nos últimos dias de alguma carta branca dos Estados Unidos relativamente a Israel, relativamente à questão de conseguir no sul do Líbano uma faixa de segurança, desde que não atacasse Beirute, portanto, não fizesse ataques sobre Beirute, mas sobre a Faixa de Gaza não ouvimos nada e portanto dá a ideia que essa carta branca terá sido estendida também à Faixa de Gaza, naturalmente. Como é que Israel vai ficar nisto? Sinceramente não sei. Dá a ideia que a questão da Faixa de Gaza como elemento, como componente fundamental ou importante da estruturação do Estado palestiniano poderá mudar. Vamos ver também a reação internacional a isso, naturalmente.
Claro.
Mas o que é certo é que da Faixa de Gaza nós temos ouvido falar muito pouco por parte dos atores principais, seja o Irão, seja do lado dos Estados Unidos e naturalmente do lado de Israel. E portanto, dá a ideia que pode ter sido uma compensação. Vamos ver o que se vai passar, mas pode ter sido uma compensação relativamente à limitação de Israel relativamente ao Líbano.
Temos ainda dois minutos para falar na guerra na Ucrânia. Volodymyr Zelensky enviou uma carta a Donald Trump a alertar para a crescente escassez de sistemas de defesa aérea, sobretudo capacidades antimíssil balístico, numa altura em que a Rússia intensifica os ataques e que a Ucrânia diz que também do seu lado tem agora mais iniciativa no campo de batalha. Esta é a altura certa e fundamental para manter a Ucrânia com todas as condições para até uma eventual reviravolta neste conflito?
Vamos ver. A dimensão da reviravolta não sei se será exatamente isso. O que é certo é que há muito mais iniciativa e muito mais capacidade da Ucrânia no sentido de adquirir uma posição negocial num futuro acordo ou numa futura negociação, melhor dito, numa posição completamente diferente do que teve até agora. Isso sob o ponto de vista daquilo que acontece, seja na linha da frente, seja na retaguarda da Rússia, a posição da Ucrânia parece neste momento muito mais confortável e com uma dinâmica de assunção de uma capacidade negocial muito maior, que não tinha há uns meses naturalmente. Fica com esta fraqueza, de facto, que já tem, não é de agora, relativamente à questão das armas e dos interceptores antimíssil. Nomeadamente os sistemas Patriot e todos os sistemas que têm vindo de algum modo vindo dos Estados Unidos. Muito provavelmente Zelensky o que está a fazer é a posicionar-se já numa perspectiva de paragem das operações no Médio Oriente. E portanto, no sentido de fazer perceber aos Estados Unidos que têm ali uma responsabilidade. Não é uma responsabilidade formal, porque os Estados Unidos, na Cimeira da NATO do ano passado, conforme nós nos lembramos, e onde foi discutida a questão da aquisição, e falou-se num valor de cerca de 100 mil milhões de dólares, de equipamentos militares comprados aos Estados Unidos que os europeus iam pagar para fornecer à Ucrânia, de algum modo não têm estado a ser fornecidos. E não é por falta de pagamento dos europeus, ao que consta, é por falta de capacidade ou de vontade dos Estados Unidos para darem esses equipamentos, à cabeça naturalmente com os mísseis Patriot e outros sistemas que os EUA usam, outros sistemas de defesa antiaérea e antimíssil. Esse é um posicionamento que eu julgo que Zelensky está a ter no sentido de fazer de algum modo lembrar esse compromisso que os Estados Unidos tinham, não era de doar, não era de dar a Israel, mas era de vender aos europeus para os europeus depois fazerem passar esses equipamentos para a Ucrânia. Zelensky já a posicionar-se naquilo que é a sua principal dificuldade e que sabe que poderá vir a ser a única capacidade que a Rússia tem de ter alguma dinâmica de diferença relativamente àquilo que se passa de um modo geral no terreno. É a capacidade de atacar a Ucrânia com mísseis, já que os drones de um modo geral, a Ucrânia está a conseguir destruir todos os dias mais de 90% dos drones Shahed, que são o Geran, que é o nome que os russos dão aos seus drones. Os mísseis de cruzeiro também com uma elevada capacidade de destruição, acima dos 85%. O grande problema está de facto nos mísseis balísticos e nos mísseis hipersônicos que precisam de sistemas antimíssil. E portanto, a Rússia, neste momento, a única demonstração de vantagem que tem sob o ponto de vista militar é nessa pequena fatia dos mísseis balísticos e dos sistemas antimísseis, porque tudo o resto não lhes está a correr nada bem. Inclusive nas questões internas da economia, mas também do ponto de vista político. Mesmo do ponto de vista político interno também. A situação para o Vladimir Putin não está muito facilitada, porque começa-se a falar também da possibilidade, pela primeira vez, de haver uma mobilização não voluntária, porque de um modo geral a Rússia tem trabalhado com o sistema de voluntariado dos soldados russos que participam na guerra na linha da frente, mas ao que tudo indica, esse modelo de voluntariado já não funciona. Portanto, poderemos ter que voltar a um sistema forçado de recrutamento que vai quebrar aquilo que foi o contrato que Putin tinha com a Rússia dos alvos-baixos da Rússia Europeia. Estamos a falar de Moscovo e São Petersburgo, que nunca sentiram muito esta guerra e que agora estão a senti-la e podem vir a senti-la de forma mais forte se a Rússia tiver que fazer uma mobilização forçada, sob o ponto de vista de não voluntária, de incorporar cidadãos russos para irem combater para a linha da frente, porque as baixas são de tal modo grandes que não estão a ser compensadas minimamente com o sistema de recrutamento que estava montado até agora.
Marcos Serronha, obrigada pelas suas explicações neste gabinete de guerra. Uma boa noite.
De nada. Foi um prazer. Boa noite, obrigado.
Igualmente. Boa noite.
Boa noite.