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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de conflito e de tensão geopolítica no mundo. Hoje contamos com a análise da analista de assuntos internacionais, Helena Ferro Gouveia. Muito boa tarde, Helena. Seja muito bem-vinda à Rádio Observador. Vamos começar por falar da situação do Médio Oriente, os desenvolvimentos positivos entre o Irão e Omã, que podem mesmo significar um acordo entre as duas partes até o final do dia hoje. É o que diz o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, o porta-voz do ministério, e também outras fontes diplomáticas contactadas pela Al Jazeera. Há, entretanto, ameaças, já lá iremos. Para já, estas conversações positivas dá-nos motivos para termos esperança?

Boa tarde e muito obrigada pelo convite. Estas conversações visam resolver a situação de impasse no Estreito de Ormuz, permitindo voltar a navegação livre, sendo que os navios entrariam por rotas previamente definidas e nas quais, ou sobre as quais, sob esta circulação, o Irão poderia cobrar algum tipo de portagem ou tirar daqui algum tipo de benefício econômico. Se os Estados Unidos e o Ocidente aceitarem este tipo de portagem no Estreito de Ormuz, está aqui a dar uma vitória clara ao Irão e, portanto, duvido. Se por um lado há estas conversações, eu tenho muitas dúvidas que isto seja aceito pelo lado norte-americano, mas mesmo pelo lado iraniano. Se nós olharmos para aquela que é a fação que é conduzida pelo Ahmad Vahidi, o comandante das IRGC, tudo aquilo que tem sido publicado ou tudo aquilo que se sabe do Irão indica que eles irão, com grande probabilidade, rejeitar qualquer tipo de acordo, porque se acredita que a continuidade do conflito acaba por afetar muito mais os Estados Unidos, criar-lhes muito mais dificuldades, não apenas econômicas, mas no campo político interno, no campo internacional, do que um acordo. É aguardar para ver e depois, como referi há pouco, além deste acordo, que só conhecemos pelas palavras do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, há aqui um conjunto de ameaças que foram feitas aos estados do Golfo, que de fato também não prenunciam aqui nada de bom. O Irão fez aqui uma espécie de viagem pelos estados do Golfo.

E é precisamente por aí que eu gostaria de pegar, Helena Ferro Gouveia, porque o Irão ameaça com um apagão se os Estados Unidos atacarem centrais energéticas iranianas, dizem que responderiam na mesma moeda. Enquanto se reclama e se clama por negociações, isto não é, e permita-me a expressão, dar uma no cravo e outra na ferradura?

É muito claro que do lado iraniano não há aqui vontade de chegar a nenhum acordo, a um acordo rápido com os Estados Unidos. O que o Irão está a tirar proveito é que mesmo entre as monarquias do Golfo há posições diferentes. É sabido que a Arábia Saudita conversou por via do príncipe coroado, Mohamed bin Salman, com Trump, e que pediu a Trump que fizesse aqui um adiamento, uma ação militar que voltasse às negociações, porque está muito preocupado com o ataque precisamente às suas fontes de energia e até às dessalinizadoras. Sabemos que os Emirados têm uma posição bastante diferente e o que o Irão está a fazer aqui é coerção psicológica, é fazendo ameaça aos países do Golfo a dizer: "Ou vocês põem pressão nos Estados Unidos ou então vão ser muito afetados por tudo isto". Isto não beneficia em nada um processo de paz ou um processo de resolução deste conflito. E depois, há aqui um outro fator que se tem falado menos, mas que tem surgido cada vez mais naquilo que vai sendo publicado no Irão, que é o regresso do Mahdismo. O que é isto do Mahdismo? O Mahdismo é uma doutrina islâmica que está centrada numa figura escatológica, o Mahdi, que é aquele que é corretamente guiado, ou seja, o imã que vencerá o mal e que inaugurará uma nova época. Tudo isto parece muito metafísico, mas a verdade é que algumas figuras, como por exemplo o antigo presidente Hassan Rouhani, admitem que elementos dentro da República Islâmica querem uma guerra mais abrangente, mais destrutiva, para levar a que este Mahdi surja. E o que é que isto pode significar ou por que isto é importante para a guerra? Isto, sendo uma crença, por um lado, legitima o regime, este regime teocrático brutal. Por exemplo, o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, há 20 anos, disse que tinha vivido uma experiência ligada a esta crença. Por outro lado, permite mobilizar popularmente, procurando aqui uma vitória inevitável mesmo perante revezes militares. E depois isto também é uma leitura um bocadinho apocalíptica que tem a ver com as motivações que possam estar por trás do programa nuclear. Tudo isto pode parecer muito místico, mas a verdade é que quando nós olhamos para o Irão, nós não estamos perante atores racionais, estamos perante um regime teocrático, liderado por um imã ou, neste caso, por um aiatolá, por um clérigo com o qual é difícil o contacto. E há aqui um conjunto de alas que não se entendem e algumas delas são alas bastante ideológicas do ponto de vista religioso e não estão interessadas em nada em que este conflito chegue a um desfecho, o que vem complicar ainda mais a situação que já se vive.

Helena Ferro Gouveia, vamos avançar. Temos ainda dois minutos para abordar um tema que envolve o ministro do Interior da Alemanha, que denunciou o ataque a um avião ucraniano estacionado no aeroporto de Leipzig. É um caso de ontem, mas há aqui a possibilidade de a Rússia estar entre os suspeitos. Que leitura é que podemos fazer de todo este caso? Temos dois minutos até o final do programa.

Isto é mais um episódio dos atos de sabotagem russa em território alemão e em território europeu. Não foi apenas o drone. O aeroporto de Leipzig é o hub da DHL, que é uma das maiores companhias internacionais, tem 500 mil empregados e faz toda a logística alemã. O ataque foi contra um avião ucraniano de carga que estava lá, mas houve um drone que colidiu também contra um avião da DHL que estava em voo. Felizmente, o avião conseguiu aterrar em Hannover, mas não é a primeira vez, houve um incêndio já também em Leipzig, nos armazéns da DHL, e aquilo que os alemães estão a interpretar, e também é a minha leitura, é mais um ato de sabotagem da Federação Russa, que não é novo e na Alemanha têm-se multiplicado esses atos de sabotagem, que fazem parte de uma estratégia de guerra híbrida e que visam, sobretudo, afetar a Alemanha. Já estão a interferir naquelas que serão as eleições regionais que vão ter lugar agora no outono entre esses estados federados. Estão a financiar partidos extremistas de extrema-direita e de extrema-esquerda e procuram, através desses atos de sabotagem, perturbar a Alemanha.

Estamos a chegar ao final do nosso tempo. Muito obrigado, Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, está de regresso amanhã e fica também disponível em podcast, como sempre.