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Começa agora o Gabinete de Guerra nas manhãs 360. Esta segunda-feira está conosco Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Miguel, muito bom dia, bem-vindo aqui ao Gabinete de Guerra.

Olá, João, bom dia. Como é que está?

Tudo bem. Vamos começar pela Ucrânia e pela suspensão da reunião entre os Estados Unidos e a Rússia. O porta-voz do gabinete de Vladimir Putin, Dmitry Peskov, disse este domingo que não há datas acordadas para uma cimeira entre Trump e Putin. Entretanto, destaca que há muito trabalho de casa a fazer. O certo é que Trump se vai reunir primeiro com o presidente chinês, é já esta quinta-feira, Xi Jinping, na Coreia do Sul. Qual é a importância deste encontro acontecer primeiro do que com Vladimir Putin?

João, nós sabíamos uma coisa: nós sabíamos que replicar aquilo que foi feito em Gaza exatamente na Ucrânia seria praticamente impossível. E obviamente que Donald Trump, imbuído por este ímpeto que agora tem de pacificador, tentou fazer, digamos assim, quase um copy paste daquilo que tinha feito e que fez na Faixa de Gaza e trazer para a guerra da Ucrânia. Só que esqueceu-se de um pequeno pormenor: é que os Estados Unidos não têm a importância para a Rússia, digamos assim, a determinação que têm em relação, por exemplo, a Israel e mesmo à região em si. E, portanto, era impossível fazer isso. E obviamente que Putin, o que se apercebeu, é que não queria ir para uma reunião em que não houvesse uma agenda e uma agenda extremamente bem definida e com aquilo que tem sido sempre as suas posições maximalistas. Portanto, trazer esta linha e congelar a linha no momento em que está e no momento em que nós temos informações que a Rússia tem feito alguns avanços importantes no campo de batalha. Portanto, Vladimir Putin tem vontade de discutir esta linha, se calhar, daqui a uma ou duas semanas, quando já está muito mais avançada, e essa é uma das razões. Mas não existia efetivamente uma agenda que fosse uma agenda política e mesmo militar capaz de ser discutida. Portanto, Trump apercebe-se que Vladimir Putin tem uma posição diferente daquilo que teria sido a própria conversa que eles tiveram no Alasca. Nós não sabemos muito bem que conversa foi no Alasca, porque Putin também o disse através do seu porta-voz de que Donald Trump estava a faltar àquilo que tinha sido o acordo do Alasca. Nós podemos acreditar que no Alasca um dos pontos que foi acordado é efetivamente a troca de territórios e, portanto, a entrega total do Donbass à Rússia e algo que nem a Europa nem a Ucrânia estão dispostos a aceitar. Portanto, esta reunião com Xi Jinping também nos traz outro ponto, que é: a partir do momento que a China veio dizer o que nunca tinha feito, que estaria sempre do lado da Rússia, quer militarmente, quer politicamente, e não deixaria a Rússia nunca perder esta guerra, e após fazer a demonstração de força que fez no dia da Parada da Vitória, quer com a presença dos políticos, sejam eles do Sul global, seja o mesmo do líder da Coreia do Norte e do líder da Rússia, os Estados Unidos entenderam que existe aqui um novo pivô nesta discussão. Um pivô que continua a ser um dos maiores compradores dos hidrocarbonetos à Rússia, mas também quer militarmente, quer tecnologicamente, não deixará de ser um aliado importante da Rússia. E como esta guerra toda faz parte de um puzzle maior, que é efetivamente a questão dos Estados Unidos, esta guerra, vamos lhe chamar de Guerra Fria, esta Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China, que hoje dominam a política global. A guerra na Ucrânia é simplesmente uma parte, se calhar, vou dizer pequena, não querendo exagerar, mas é uma parte deste puzzle maior que é efetivamente esta tensão entre as duas superpotências. Donald Trump sempre tentou puxar a Rússia para perto da esfera de influência dos Estados Unidos e quando se apercebeu, e aqui esta é que é a questão importante, quando se apercebe, João, que será praticamente difícil, então vai tendo este volte face. Umas vezes apoia mais a Ucrânia, outras vezes está mais próximo da Europa, outras vezes está mais próximo da Rússia e tenta fazer. Nós sabemos que continua a haver reuniões, quer com Steve Witkoff, quer com Dmitri Ev, que é o líder do fundo soberano da Rússia, estudou nos Estados Unidos, tem uma aproximação à cultura americana muito forte. Sabemos também que Viktor Orbán é, digamos assim, o porta-voz não oficial da Europa, que tenta conseguir que haja aqui um princípio base de entendimento, digamos assim, uma agenda comum que permitisse os dois sentarem à mesa para então poderem chegar a um pré-acordo de cessar-fogo. A ideia é mesmo construir uma agenda definida, com pontos definidos. A Europa veio fazê-lo naqueles 12 pontos em que apresentou, mas também é verdade que, à exceção do ponto inicial, que diz que quer o regresso das crianças que foram raptadas, algumas dessas crianças até já deverão ser jovens agora, e entregues, algo que a primeira-dama dos Estados Unidos também está muito empenhada, há ali outros pontos que efetivamente sabemos, desde o princípio, que a Rússia não vai aceitar. Portanto, é uma posição política também forte por parte da Europa, mas terá que encontrar um denominador comum que lhe permita ser um pivô para a paz e, acima de tudo, ter um canal de comunicação. Nestas questões da diplomacia, mesmo que a Europa e a Ucrânia tenham mesmo muita razão, têm que ter um canal de comunicação aberto.

Miguel Baumgartner, muito obrigado pela sua análise aqui neste Gabinete de Guerra. Estivemos a olhar para a questão de Donald Trump e este encontro com Xi Jinping, mas também a guerra na Ucrânia. Muito obrigado e até breve.

Obrigado, João. Até à próxima.