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Segunda edição do dia de Gabinete de Guerra. Nos próximos minutos vou estar à conversa com o historiador Bruno Cardoso Reis sobre algumas das notícias relacionadas com os conflitos em curso no Leste da Europa e no Médio Oriente, mas não só. Bruno, boa tarde. Sugerias que falássemos sobre este incidente no fim de semana. Foram feitas cinco detenções por infração da lei dos explosivos. Havia uma ameaça à base aérea do Reino Unido, ainda não são conhecidos todos os pormenores sobre este caso. O que nos diz esta situação e que ameaça é esta?

Realmente não é uma ameaça completamente inesperada, no sentido que esta base de Fairford, que fica relativamente próximo de Oxford, portanto no sul da Grã-Bretanha, é uma das várias bases aéreas que desde a Segunda Guerra e do período da Guerra Fria que são usadas pelos Estados Unidos, e são muitas vezes usadas pelos Estados Unidos para projetar, nomeadamente, meios para o Médio Oriente. Tinha havido realmente ameaças da parte do Irão de que bases usadas para, de alguma forma, apoiar a ação militar dos Estados Unidos contra o Irão poderiam ser um alvo. Evidentemente que no caso do Irão, põe-se sempre a questão de não apenas uma ameaça convencional, ou seja, utilizar meios do tipo mísseis ou drones, sobretudo para países da Europa mais do Norte ou países da Europa mais ocidental como Portugal ou Grã-Bretanha. À partida, isso é muito mais difícil por causa das distâncias, mas há sempre a possibilidade de ataques não convencionais, de utilizar, por exemplo, o terrorismo, que é um instrumento que o Irão tem utilizado muitas vezes na sua história desde 1979, apoiando grupos envolvidos nessas atividades, como por exemplo o Hezbollah, inclusive para ataques nos países europeus. Obviamente, tudo isto é especulação, no sentido que não é impossível também que seja, por exemplo, parte desta vaga de ataques híbridos por parte da Rússia, ou envolvendo diretamente agentes russos, ou com a Rússia, por exemplo, a subcontratar grupos criminosos europeus ou que trabalham na Europa para fazer algum tipo de ação de sabotagem. Portanto, há pelo menos dois suspeitos potenciais. Eu diria que o mais provável, eventualmente, seriam grupos ligados ou com simpatias ou com algum tipo de ligação ao Irão, mas não é impossível que se trate também da ameaça russa. Mas tudo isto, obviamente, para já são especulações. O que sabemos é que terá havido um incidente grave que envolvia um grupo, portanto, algum tipo de organização e preparação, inclusive porque aparentemente, do que já foram acusados, e isso é público, é de terem explosivos, portanto, à partida, não seria um incidente improvisado, seria uma coisa mais preparada e potencialmente mais grave, que terá sido travada a tempo.

Uma situação que é classificada como um incidente grave. Falta ainda conhecer mais alguns detalhes para que possamos perceber em toda a dimensão exatamente aquilo que se passou e se de facto este incidente está relacionado com o conflito no Médio Oriente ou eventualmente com o conflito no Leste da Europa. Sobre o conflito no Médio Oriente, há um protagonista que começa a ganhar um especial relevo por estes dias, os Houthis no Iémen.

Sim, exatamente. Ou seja, neste momento é talvez a dimensão mais intensa e também mais dinâmica do conflito. E mais uma vez mostra que realmente o Irão é muito hábil a tirar coelhos da cartola, a usar meios não convencionais, a usar o que eles chamam de "eixo da resistência", ou seja, no fundo, as suas relações de anos a apoiar, subsidiar, financiar, treinar, armar grupos armados em vários países da região, com um efeito terrível em termos de desestabilização, de violência, etc. Obviamente não quer dizer que o Irão seja aqui a única causa para os problemas da região, mas é certamente um patrocinador, um financiador importante que ajuda a alimentar, a intensificar estes conflitos. No caso do Iémen, o que temos, de facto, nas últimas semanas é este grupo xiita aliado ao Irão, os Houthis, realmente a mostrarem que têm alguma capacidade militar importante e que os grupos rivais que existem, aliás, o governo internacionalmente reconhecido do Iémen opõe-se precisamente aos Houthis, portanto, são um grupo armado um pouco à imagem dos Talibã, mas realmente, apesar do apoio saudita, do apoio dos Emirados, do apoio de alguns dos países do Golfo mais ricos e supostamente mais bem armados, a verdade é que a guerra não se ganha só com dinheiro ou com armas muito sofisticadas. É preciso querer combater, saber combater e de facto este grupo um pouco descalço dos Houthis, embora já bastante mais bem armado do que no passado, graças precisamente à ligação com o Irão, tem mostrado aqui alguma capacidade. Neste momento, aquilo que se fala é desta cidade Taiz, que é uma cidade para o interior Para o interior mais a sul é um nodo de comunicações crucial para, nomeadamente, se poder avançar em direção a Áden, que é a grande cidade do sul do Iémen e que historicamente resiste à dominação dos houthis. Inclusive, foi a capital do Iémen do Sul, até 1990 o Iémen estava dividido em dois. A zona que os houthis controlam é mais esta zona do norte, em torno da capital histórica Saná. Mas esta zona do sul de Áden também é bastante importante, nomeadamente por causa do porto de Áden e obviamente do estreito, onde os houthis já reforçaram a sua presença. Vamos ver se os grupos armados que se opõem aos houthis conseguem aqui travar o avanço, se em particular os sauditas realmente conseguem ter aqui uma ação militar mais eficaz, que seria a partida do que se poderia esperar, tendo em conta, de facto, os enormes recursos e meios militares tão avançados que têm, mas isso realmente não é suficiente na guerra. É preciso saber usar esses meios e ter também vontade de combater, e isso é claramente algo em que os houthis têm tido vantagem nos últimos tempos.

Esta é uma frente de conflito que eventualmente poderá merecer uma intervenção por parte dos Estados Unidos, uma possibilidade sequer, certo?

Essa era claramente a vontade da Arábia Saudita, e portanto, o governante de facto da Arábia Saudita, o primeiro-ministro e príncipe herdeiro Mohammed bin Salman terá ligado, aliás, a Donald Trump mais do que uma vez a fazer esse apelo, mas Donald Trump terá dito que não, terá oferecido em contrapartida a compra de aviões mais sofisticados, os F-35, que aliás também se fala em Portugal. Essa compra sempre esteve em dúvida em relação à Arábia Saudita, não por causa dos sauditas não terem capacidade de os comprar, mas porque isso poria em causa um pouco o equilíbrio de poder com Israel. Mas Donald Trump resolveu isso também vendendo ainda mais F-35 a Israel. Agora, intervir realmente no conflito, Donald Trump terá dito que não. Isto mostra realmente que os sauditas não estão confiantes nas suas próprias capacidades de resolver o problema por si, mas que também os norte-americanos, nomeadamente com Donald Trump, não se querem envolver mais. O grande problema aqui, o grande drama, é o custo de tudo isto para nós. À partida, os houthis parecem neste momento estar a dar sinais, quer aos Estados Unidos, quer aos países europeus, de que não irão atacar os seus navios, mas o problema é que atacam os navios sauditas, ameaçam os navios sauditas. Ora, isso tem um impacto terrível no mercado da energia, em grande parte explica a subida ou disparada dos preços dos combustíveis nas últimas semanas. É precisamente este conflito no Iémen e obviamente o risco é que se os houthis realmente vierem a dominar o país, ou pelo menos grande parte do país e esta zona mais próxima do estreito de Áden, podem a seguir, tendo consolidado a sua posição, então mudar de ideias e passar também a atacar a navegação civil de outras proveniências, como já fizeram, aliás, no passado.

Com consequências seguramente devastadoras para o mercado mundial de petróleo. Há pouco falavas de Donald Trump, é com o presidente dos Estados Unidos que vamos terminar e com uma informação das últimas horas, porventura surpreendente. Diz o embaixador norte-americano em Pequim que o presidente dos Estados Unidos, Trump, propôs a venda de armamento à China, o grande opositor, porventura nesta altura, dos Estados Unidos.

Sim, realmente é extraordinário. Muita gente que em Portugal, e não só, se vai esforçando para encontrar aqui uma grande visão estratégica em Donald Trump. Enfim, o que é que une todas estas coisas, as ameaças à Dinamarca na Gronelândia, a intervenção na Venezuela pra prisão de Maduro, etc. E a ideia é, muitas vezes, aquilo que se ouve é que tudo isto tem como objetivo último a questão da China e, portanto, contestar aqui a supremacia, o peso crescente da China a nível global, não deixar que tenha acesso a recursos na Gronelândia ou na Venezuela. Ora, o problema é que realmente Donald Trump não quer saber da estratégia pra nada. Ele é muito claro em relação a isso. Diz sistematicamente: "Eu deixo-me levar pelos meus instintos." E os seus instintos são sobretudo comerciais, mercantis, são do empresário que não tinha tido, aliás, carreira política anterior e, portanto, pra ele a questão é sempre de fazer negócios, de retirar benefícios o mais possível comerciais das relações com outros países. Realmente, do ponto de vista estratégico, não faz nenhum sentido. Aliás, os Estados Unidos procuram a todo o custo evitar que a China tenha acesso ao armamento norte-americano, para evitar que a China possa perceber como é que o armamento é feito e eventualmente replicar ou encontrar formas de o anular. Houve, aliás, recentemente preocupação, por exemplo, que peças para a manutenção dos F-35 australianos, por engano, foram parar a Hong Kong. E depois temos, a seguir, Donald Trump, basicamente nesta cimeira com Xi, a dizer: "Se vocês quiserem comprar armas, nós também vos vendemos armas". Não há nenhum problema. Isto mostra bem que realmente, pra quem ainda alimenta essas dúvidas, realmente não faz nenhum sentido achar que Donald Trump tem aqui uma grande visão estratégica em que conter a China é a grande ideia orientadora. Não, a ideia orientadora de Donald Trump é sempre Donald Trump, os interesses de Donald Trump, os interesses de curto prazo de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e conseguir apresentar aqui uns bons negócios, uns negócios de milhares de milhões, por exemplo, na venda de armamento.

A ponto de admitir esta possibilidade de vender armas a Pequim. Bruno Cardoso Reis, ficamos por aqui nesta edição de segunda-feira, edição da tarde de Gabinete de Guerra, que contou com a preciosa colaboração do historiador Bruno Cardoso Reis. Estamos de regresso amanhã.