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Este é o som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões e hoje a análise é de Miguel Baumgartner, especialista em assuntos europeus e relações internacionais. Bom dia, bem-vindo, Miguel. Já sabia que me ia enganar no seu apelido. Obrigada por ter aceitado o convite.
Não há problema e disse muito bem.
Bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
Começamos pelo Médio Oriente. Dezenas de familiares dos reféns voltaram a protestar nas ruas de Israel. Dizem que o Hamas foi derrotado, pedem o fim da guerra. Netanyahu discorda quanto ao fim do Hamas, diz que ainda controla 25% de Gaza e mantém presos 20 reféns. Entretanto, um oficial egípcio que está em contacto com a equipa de negociação do grupo palestiniano, diz que o Hamas está disposto a fazer cedências para chegar a um cessar-fogo. Miguel, o que mais sabemos sobre este eventual acordo?
Bom dia novamente. Essa tentativa já era uma tentativa que tinha acontecido até mesmo antes do ataque de Israel ao Irão, na tentativa de destruir aquilo que era, agora sabemos nós, afinal não conseguiram destruir e não conseguiram, de alguma forma, danificar como queriam todo o projeto nuclear iraniano. Aliás, hoje já nos apercebemos que acabou por ser também parte de uma fuga para a frente, da tentativa de retirar os olhos do mundo, da Faixa de Gaza e mesmo dos problemas internos que Netanyahu vive, quer com o processo de corrupção, que agora também sabemos, vai ser suspenso a pedido, inclusive do diretor da Mossad e também do seu ministro da Defesa, considerando os políticos israelitas de que vivemos um período complicado e um período de guerra. Mas veja-se que, entretanto, na Faixa de Gaza, continua efetivamente este ataque indiscriminado à população, uma população que hoje está completamente sem qualquer recurso, seja de água, seja de comida, completamente isolada e não se consegue entender e não entende também a população israelita, nomeadamente os familiares dos reféns. Reféns alguns que nós sabemos que poderão alguns já estarem até mortos, outros não se sabe muito bem. E portanto chegou-se a um momento que os próprios israelitas, e nós vimos durante algumas manifestações dos últimos meses, que querem mesmo o final da guerra e querem mesmo um cessar-fogo que permita efetivamente o retorno. Nós sabemos que o Hamas não aceitou aquele que foi o pedido de cessar-fogo e as condições de cessar-fogo por parte dos Estados Unidos. Na altura, Israel tinha acedido a esse pedido e depois, à última hora, digamos assim, à 25ª hora, o Hamas vem e efetivamente pede um cessar-fogo diferente, ou seja, uma aplicação do cessar-fogo diferente. E obviamente que o Hamas o faz na tentativa de tentar protelar uma possível intervenção terrestre que Israel pudesse ter ou fazer durante esse tempo do cessar-fogo. E era muito este o problema, que ao fazer o cessar-fogo, que efetivamente o exército de Israel ocupasse ainda mais. Agora, existe dentro da sociedade israelita esta noção de que esta guerra não mais faz sentido, ou seja, que esta guerra já não é mais contra o grupo terrorista Hamas, que nós sabemos que é um proxy.
E que será muito difícil eliminar de vez e por absoluto, não é?
Claro que sim, até porque é um grupo terrorista, não é um exército, não anda fardado, não se distingue muito da população.
Exatamente.
Portanto, o seu modus operandi é o modus operandi de um grupo terrorista e, portanto, é muito complicado este tipo de guerra. E nesse ponto, nós também entendemos que é muito complicado um exército oficial de um país oficial fazer uma guerra a um grupo terrorista. Nós sabemos isso, mas também sabemos que neste momento, da forma como Gaza está dizimado, qualquer intuito no sentido de estabelecer um tipo de relação com qualquer autoridade palestiniana está muito difícil. Eu dizia outro dia, e parece-me a mim, inclusive aqui na Rádio Observador, já se falou desse tema, que enquanto a comunidade internacional não reconhecer de uma forma total o Estado da Palestina, ou pelo menos o direito a que o Estado da Palestina exista, nós não conseguimos encontrar uma contraparte que nos permita negociar. Porque depois fica aquela pergunta: "Então, mas vamos negociar com quem nós não reconhecemos?" Portanto, do outro lado, não temos ninguém ou temos efetivamente um grupo terrorista. Quer dentro das Forças Armadas israelitas, nomeadamente ex-oficiais do comando do IDF, quer mesmo dentro da sociedade, até houve uma baixa assinada a pedir o final das hostilidades e que fosse permitida até às Nações Unidas uma intervenção numa tentativa de negociação dos reféns. Netanyahu aproveita todos estes momentos para puxar ainda de uma forma ainda mais veemente a sua intervenção. E agora lateralizando um pouco este assunto, creio que será possível vermos nas próximas semanas novamente uma intervenção de Israel no Irão e até possivelmente uma intervenção dos Estados Unidos novamente no Irão, uma vez que agora se percebe Que não conseguiram destruir aquilo que pretendiam por completo. E vai ser sempre difícil destruir por completo, porque entretanto o urânio também foi transportado para outros lados. Mas uma das coisas que Israel tentou fazer, como já o tinha feito também com o Hezbollah no Líbano, era enfraquecer a estrutura do próprio regime, o que vimos no Irão não aconteceu.
Entretanto, Zelensky diz que a Ucrânia está a coordenar com a Europa possíveis sanções contra o Irão, precisamente, que descreveu como um dos regimes mais brutais do mundo. Miguel Baumgartner, esta é uma forma da Ucrânia tentar fazer alguma justiça pelo apoio do Irão à Rússia?
Claro. Aliás, o que nós vimos no apoio de Putin ao Irão foi exatamente a importância que o Irão tem hoje, quer na produção dos mísseis balísticos, quer na produção dos drones que são utilizados contra a Ucrânia. E, portanto, o fato de Putin ter recebido o ministro dos Negócios Estrangeiros, Zarif, com aquela pompa e circunstância em Moscovo, foi para dizer ao mundo duas coisas. Primeiro: apesar de eu não lhe estender a proteção que eu poderia estender a outros países, e, portanto, não tenho essa obrigação, nem moral, nem militar de proteger o Irão, mas está aqui, efetivamente, um parceiro, vamos lhe chamar assim, um parceiro meu, porque Putin precisa e, portanto, estendeu-lhe um pouco essa cortesia política. Zelensky tinha um grande medo, e veja aqui que o maior problema de Zelensky era que esta guerra no Irão ou contra o Irão, se prolongasse. Isso por quê? Porque tirava o foco mediático à Ucrânia. E ao tirar o foco mediático à Ucrânia, enfraquece a figura de Zelensky. Veja-se, e este é um dado completamente novo que saiu, uma pesquisa do Gallup mostrava que 52% dos ucranianos preferiam negociar um fim rápido, até a possibilidade de começarem a aceitar que parte da Ucrânia ocupada, houvesse uma negociação para que essa parte, não é entregar à Rússia, mas permitir que fossem territórios ucranianos sob administração russa, o que é algo completamente novo. E é efetivamente, um ponto de viragem maioritário a Zelensky. E, portanto, Zelensky sabia que enquanto o foco mediático internacional estivesse no Irão e não estivesse na Ucrânia, que isto poderia trazer aquilo que em inglês chama war fatigue, a fadiga da guerra. Seja por parte da comunidade internacional, o apoio geral dos Estados, dos governos, que já chegaram à conclusão de duas coisas, e é isso que Zelensky agora faz com esta tentativa de aplicar sanções ao Irão, as chamadas sanções secundárias, que é focalizar de novo o problema na Ucrânia, mesmo utilizando o problema do Irão. Ou seja, continua-se a combater o Irão, mas agora o foco passa também pela Ucrânia, porque o Irão, como é produtor militar, quer seja dos mísseis balísticos, quer seja dos drones, permite que a Ucrânia continue, deixe-me utilizar esta expressão, na boca do mundo.
Exatamente, sim.
Agora, sente-se por parte dos Estados Unidos, não, porque os Estados Unidos já deixaram o problema. Assinaram o acordo dos minerais. A questão comercial era o que interessava a Donald Trump. O mesmo também é o que lhe interessa no Médio Oriente, até a pedido da própria Arábia Saudita. E portanto, agora cabe aos europeus manterem viva esta chama da Ucrânia, quer seja com o apoio financeiro, quer seja com o apoio militar. Cabe à Europa. Mas também os Estados europeus já chegaram a esta conclusão. Primeiro, aperceberam-se de que a chamada ofensiva russa de verão não foi tão forte quanto se esperava, o que demonstra também uma Rússia que neste momento tem dificuldade em recrutar efetivos militares para a frente e os poucos que consegue recrutar são jovens recrutas que não estão capacitados para uma invasão, portanto, têm pouco treino militar, têm pouca capacidade militar. Isso nós hoje sabemos que a frente russa, apesar de terem reforçado em termos de homens, reforçaram-nos com jovens que têm pouca capacidade militar e, portanto, por mais que se tente fazer essa ofensiva, essa ofensiva não correu tão bem a Putin quanto se esperava. E aí a utilização de drones e de mísseis também de uma forma indiscriminada, que depois acaba por atacar mais alvos civis do que alvos militares. E, portanto, nota-se na comunidade internacional, nomeadamente na Europa, este fator, que já está em cima da mesa esta ideia de que não há um consenso para um cessar-fogo. As linhas vermelhas russas estão profundamente inalteradas e portanto, sabe-se exatamente o que é que Putin quer. Por parte da Ucrânia, à exceção desta pesquisa em que, como eu disse, 52% dos ucranianos aparecem agora dispostos a negociar porque querem voltar à vida normal. Tem-se esta consciência de que não existe aqui um denominador comum, por mais que Putin diga agora, e até de uma forma retórica, que está disposto a negociar.
Ergocérsia.
E até disse que não compreendia a necessidade dos membros da NATO em investirem 5%, que não havia qualquer razão.
Enquanto ele planeia reduzir as despesas com a defesa.
Exatamente. E, portanto, poderá se criar esta ideia de fadiga de guerra, até porque nós vimos o que é que aconteceu quando foi o veto por parte de Viktor Orbán e de Fico, da Eslováquia, no último Conselho Europeu. E portanto, Zelensky tenta puxar para centralizar o discurso na Ucrânia, mesmo que o foco depois, de forma indireta, seja no Irão.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Foi um gosto tê-lo connosco. Bom dia e boa semana para si também.
Muito obrigado, bom trabalho. Obrigado.