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Bruno Cartaxo Reis, historiador que nos acompanha aqui na análise de temas de natureza internacional. Vamos começar por falar sobre as negociações de paz, as negociações do acordo proposto por Donald Trump para um cessar-fogo no Médio Oriente e uma paz que possa ser duradoura e venha pôr termo a anos de conflito. Bruno Cartaxo Reis, boa tarde, bem-vindo. Sou pena de repasarmos aqui alguns dos argumentos e ideias que nos tem expresso sobre este plano de paz. Que expectativas para estas negociações que hoje arrancam no Egito?
Eu mantenho o ponto, vou aqui repetir, mas acho que temos de ter realmente grande cuidado, ou seja, é manter esta disciplina, que é esperar que as partes realmente se declarem plenamente de acordo, que seja validado pelos mediadores, plenamente de acordo com o mesmo texto, porque depois há aqui muitas vezes esta coisa de "eu estou de acordo, mas é com a versão A", o outro diz "eu estou de acordo, mas é com a versão B" e, portanto, temos de esperar por isso. Este plano de paz é especialmente complexo e seria em parte inevitável, porque é muito mais ambicioso do que outros anteriores. Tem muitas etapas, tem muitos objetivos. Eu diria, para já, temos de nos concentrar, e parece ser o caso aqui destas negociações no Egito, e isso parece-me bem, concentrar nos objetivos iniciais, nomeadamente a questão da libertação de reféns e prisioneiros palestinianos, e também de um processo de retirada parcial e do fim das operações militares, e do retomar de uma ajuda humanitária em quantidades maiores e de uma forma mais organizada. Tudo isso são objetivos que seriam cruciais para melhorar uma situação que é cada vez mais desesperada, quer para os civis em Gaza, quer para os reféns. Portanto, eu acho que temos de ser prudentes, esperar por isso. Apesar de tudo, é um bom sinal que haja esta negociação no Egito. É o mais próximo possível que estamos de negociações diretas entre as diferentes partes. O presidente Trump conseguiu já também, aparentemente, travar operações militares que continuavam na parte de Israel, mais robustas. Portanto, parece haver aqui alguns sinais de que há aqui uma oportunidade para pelo menos estes objetivos iniciais, que são mais modestos, mas que são absolutamente essenciais para a vida de muita gente, desde logo dos reféns, mas como eu digo, também de muitos civis em Gaza, podem estar mais próximos de ser alcançados, mas temos de ver. Portanto, eu acho que é um bom sinal. Há aqui realmente uma oportunidade. O presidente Trump tem também uma capacidade de influência sobre Israel que é não só anormal de um presidente americano, mas até superior do que, por exemplo, o seu antecessor, porque é alguém que é visto como muito pró-israelita. Israel também não tem mais ninguém a quem recorrer, portanto não pode dizer: "Vou fazer queixa aos republicanos", porque esses obviamente estão alinhados com Donald Trump. Portanto, tem aqui uma margem de manobra e uma capacidade de pressão sobre Israel, que neste momento é um ato decisivo.
Desculpa interromper-te. Pese embora, Bruno, aquele apelo feito na sexta-feira por Donald Trump para que Israel cessasse os ataques contra a Faixa de Gaza, que não surtiu qualquer efeito.
Eu acho que surtiu algum efeito, não quer dizer que tenham acabado todas as operações, mas parece-me que está a condicionar um pouco a ação militar de Israel. Acho que isso em si é um sinal positivo. Agora, lá está, mesmo sobre isso temos que ser prudentes. À partida, realmente, Donald Trump parece conseguir ter aqui uma influência sobre o governo israelita que presidentes anteriores não tinham, não na mesma medida. Mas não é garantido que isso continue, não é garantido que seja mesmo assim. Realmente são muitos atores, são questões muito complexas e que são questões vitais também para estes atores locais, ou seja, para o governo de Israel, por exemplo, para os israelitas, mas para o governo de Israel, inclusive para o próprio Netanyahu está também em questão a sua própria sobrevivência política. Tudo isso torna as questões muito complicadas e é por isso que eu insisto sempre nesta necessidade de prudência. Mas os sinais são positivos e acho que podemos ter aqui uma expectativa um pouquinho mais positiva do que tem sido o caso noutras ocasiões. Acho que é o máximo que consigo dizer nesta fase.
Será preciso esperar e prever qual o desfecho destas negociações e se de facto conseguimos chegar ou não a um acordo de cessar-fogo e uma paz permanente no Médio Oriente. Há uma notícia hoje paralela a este conflito no Médio Oriente. Foram libertados mais 171 ativistas que integravam a flotilha humanitária e entre estes 171 ativistas, Greta Thunberg. Tem-se escutado nas últimas horas muitas críticas à atuação das autoridades israelitas, como uniram os ativistas, particularmente no caso de Greta Thunberg, que foi envolvida numa bandeira de Israel e arrastada. Houve aqui alguma violação de direitos fundamentais destas pessoas que foram tidas, Bruno?
Eu acho que temos de ver exatamente. Se todas essas queixas realmente forem verificadas, acho que há razão para haver protestos firmes E para se dizer isso, que houve aqui alguns abusos. Não é aceitável obrigar alguém a andar com uma bandeira com a qual não se identifica. Houve estas alegações, inclusive em relação também aos portugueses que teriam estado privados de alimentação e até de água durante um período muito longo. Tudo isso são coisas que não são aceitáveis, mesmo em relação a prisioneiros já condenados em tribunal. Há condições mínimas de detenção digna que têm que ser respeitadas. Se isso se confirmar, eu diria que se confirmaria que Israel, em muitos casos, é o seu pior inimigo, ou seja, mesmo quem admite que Israel tem o direito de se defender, que esta é uma zona de guerra, que esta flotilha tinha muito de criticável, no sentido que era mais uma questão performativa, ninguém pode levar muito a sério esta ideia de que vão levar ajuda humanitária de urgência em barquinhos à vela, em vez de contratarem ou de arranjarem um navio porta-contentores, um navio com capacidade de carga a sério, uma flotilha que vai levar supostamente ajuda urgente, mas demora um mês com múltiplas paragens pelo Mediterrâneo. Era evidente que isto era, sobretudo, uma questão performativa política, desse ponto de vista também legítima, neste sentido que se está aqui a procurar dar visibilidade a uma causa. Tenho dúvidas que mesmo desse ponto de vista fosse assim tão necessário ou tão eficaz, porque a causa de Gaza não tem falta de visibilidade.
Os apoiantes desta iniciativa dizem que sim, não é? E que a prova são as milhares de pessoas que se manifestaram nos últimos dias em várias cidades europeias, por exemplo.
Mas isso só prova que estão errados. Desde logo, estão errados nesta crítica obsessiva e um bocadinho doentia ao Ocidente, onde podem livremente defender todo o tipo de causas. Na verdade, o que é espantoso é vermos manifestações massivas nas capitais europeias, uma greve geral na Itália e basicamente nada no Médio Oriente, que é supostamente a região onde está a acontecer este conflito, onde as pessoas à partida teriam uma proximidade muito maior com as vítimas do conflito, com os palestinianos árabes, tirando a Turquia, mas mesmo na Turquia, se compararmos com os países europeus, aquilo que se mostra é que realmente o conflito de Gaza tem uma visibilidade absolutamente excecional, extraordinária e que tem pouco a ver com a realidade geopolítica nos países ocidentais. Isto mostra que os países europeus realmente assumem o custo de entrar em choque, de fazer críticas, de fazer ações de retaliação, por exemplo, deixar de exportar armamento, etc., em relação a um país como Israel, com o qual nunca tiveram problemas. Israel nunca atacou os países ocidentais, sempre foi um bom cliente dos mercados europeus, da economia europeia. E isto é criticado inclusive por países como o Brasil ou a África do Sul. A África do Sul, por exemplo, fez questão de fazer um exercício militar com a Rússia no aniversário da invasão do Ucrânia, um ano depois, e depois são esses países que vêm pedir contas sobre a coerência ou a falta de uma reação mais robusta da parte dos países ocidentais. Se há países que ainda põem em causa os seus interesses e as suas alianças em nome de algum tipo de preocupação com princípios, com valores fundamentais, com direitos, com o tratamento da população civil, etc., ainda são os países europeus. Realmente não parece que nada desse argumento fizesse muito sentido, mas tudo isso é distinto de estas pessoas obviamente terem que ser tratadas de forma digna, não podem ser maltratadas durante a sua detenção e se isso se confirmar, acho que tem de haver realmente uma reação política mais robusta. E como eu digo, só se confirma que Israel é o seu pior inimigo, ou seja, mesmo aqueles que acham que Israel pode defender-se e pode ter aqui um controle da navegação numa zona de conflito, porque nomeadamente o Hamas obviamente traficava todo tipo de equipamento militar para dentro da Faixa de Gaza, mas isso é distinto de depois poder maltratar pessoas que estão detidas, que não representam nenhum risco, obviamente, para a segurança de Israel.
Passemos para o conflito entre a Ucrânia e a Rússia com esta informação hoje conhecida. Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, denuncia a utilização por parte das autoridades russas de armas com componentes fabricados por empresas de países como os Estados Unidos, Alemanha e Japão. Há um apelo para que o G7 implemente medidas mais eficazes por forma a impedir a continuação do fornecimento de componentes à Rússia. Nem tudo está a correr bem, Bruno.
Não, nem tudo está a correr bem. Este é um fenômeno que existe muito quando há guerras econômicas, que é o fenômeno do contrabando, ou seja, procurar contornar essas restrições, nomeadamente utilizando países terceiros. Em vez de se exportar diretamente para a Rússia, isso deixa de se fazer, mas de repente, e temos muitos dados que apontam para aí, temos países como a Armênia, como os países da Ásia Central, que de repente multiplicam o seu comércio e a sua importação, por exemplo, de chips ou de componentes tecnológicas por quatro, cinco, 10 vezes aquilo que era as importações antes das sanções contra a Rússia. Obviamente, isso não é crível, não há nenhuma razão econômica que justifique esse tipo de fenômeno e isso deveria ter consequências, quer sanções indiretas sobre esses países, quer perceber que empresas é que estão a fazer isso e procurar sensibilizar as empresas para que isso não pode ser, e no caso disso não ter consequências, ter aqui medidas mais robustas. Inclusive eu já há muito tempo que falo neste ponto, que é durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os aliados britânicos norte-americanos criaram um Ministério da Guerra Econômica, que se encarregava precisamente de controlar e de evitar este tipo de coisas, criando muitos problemas a países neutros, como por exemplo Portugal, mas isso foi crucial para o embargo de todo o tipo de produtos sensíveis, matérias-primas, etc., tecnologias sensíveis em relação à Alemanha, as e ser o mais eficaz possível. Acho que faz todo sentido aquilo que diz Zelensky, devia haver aqui um mecanismo, de preferência não a nível nacional, mas um mecanismo de coordenação desta guerra econômica, do combate ao contrabando Do combate à evasão das sanções, seja ao nível da União Europeia, seja desejavelmente até coordenado ao nível do G7, que junta não só a União Europeia, mas as principais economias ocidentais, o Canadá, os Estados Unidos, o Japão. Portanto, acho que seria realmente o formato ideal e a forma ideal de responder a isto, porque realmente não faz muito sentido estarmos a criticar a China, por exemplo, por claramente esta ser uma forma de ajudar a Rússia a fornecer esse tipo de equipamentos, mas depois ao mesmo tempo não sermos mais eficazes em impedir que isso também aconteça com componentes de origem ocidental.
Depois de tantos pacotes de sanções, soa estranho. Bruno Cardoso Reis, hoje é também notícia a declaração do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que rejeita as alegações ocidentais de que Moscovo está a enviar drones para países da União Europeia, o caso da Alemanha, Dinamarca e Polónia, sendo que, diz Dmitry Peskov, essas alegações ocidentais são infundadas. São?
Esta é a mesma questão de que a Rússia também passou o tempo a dizer que não ia invadir a Ucrânia. E eu cheguei, aliás, a escrever nessa altura: "Bem, a mim parece-me que esta concentração de tropas aponta para um risco real de isso acontecer" e não era expectável que se a Rússia fosse invadir, fosse dizer que ia invadir, porque obviamente isso criaria problemas. Portanto, aqui toda a ideia é que isto é uma guerra na zona cinzenta, é uma guerra híbrida, ou seja, o que se procura é evitar que este tipo de ações sejam facilmente atribuídas à Rússia, facilmente detetáveis, e evitar que isto leve a uma escalada para um conflito mais sério, para um conflito direto, que seria altamente desvantajoso para a Rússia, que está com grandes dificuldades já só a combater a Ucrânia. E, portanto, obviamente, isto é a resposta expectável. A Rússia vai dizer que não somos nós, mas lá está, nós há poucos dias tivemos Putin a brincar com isto, a dizer: "Agora até vou mandar pra Lisboa". Depois dizer: "Ah, mas os nossos drones não têm alcance". Depois quando o orador lhe pergunta: "Mas está a brincar?", "Não, eu estou a avisar". Portanto, é sempre esta ambiguidade. Em certas alturas a Rússia diz que não, que nem tem alcance, noutras alturas dá a entender que pode ser, mas a culpa é sempre do Ocidente, porque não devia estar a ajudar a Ucrânia. Não é por acaso que se chama a isto guerra na zona cinzenta. Isto é o que seria expectável. Agora, eu acho que aqui o que é evidente é que os países europeus já se deviam ter preparado muito mais para isto. Isto corresponde a uma escalada já há muito tempo. Eu próprio muitas vezes fui referindo que aquilo que seria expectável como escalada da Rússia em resposta a mais apoio ocidental nunca foi uma Terceira Guerra Mundial, uma guerra nuclear, sempre foi mais ações deste tipo, ações de sabotagem, intrusão, drones, portanto, coisas que provocam problemas no funcionamento normal das sociedades ocidentais, têm custos, criam insegurança, mas sem correr o risco de um conflito aberto. Se eu conseguia chegar a essa ideia, é evidente que os responsáveis da defesa europeia, da segurança europeia, já há mais tempo deviam estar mais preparados para contrariar isto e deviam ter sido mais assertivos também a mandar mensagens mais robustas à Rússia sobre o custo que isto podia ter, sobre o tipo de retaliação que se podia fazer. Aí é que me parece que vale a pena apostar e não tentar estar aqui a responder muito a estas declarações mais do que previsíveis do Kremlin.
Bruno Cardoso Reis, historiador, especialista na análise de temas de natureza internacional. Obrigado, Bruno, pela tua presença nesta edição de segunda-feira de Gabinete de Guerra.
Obrigado.