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Com o fim da cimeira da visita oficial de Donald Trump à China, já está de regresso aos Estados Unidos. E foi precisamente nessa viagem até território norte-americano que Donald Trump falou com os jornalistas para dizer que a relação dos Estados Unidos com a China é boa e está a melhorar. Xi Jinping avisa que essa relação não deve ser estragada. Foi tema que abordamos aqui ontem. Bruno Cardoso Reis, historiador convidado deste gabinete de guerra. O que é que resulta deste encontro em Pequim?

Nada de especial, e isso não é mau. Com Trump nunca se sabe, mas realmente ele tem este perfil, que se confirmou, de ser sempre muito deferente para com grandes ditadores, líderes de grandes potências autoritárias. Tendo em conta que a China e os Estados Unidos em conjunto representam mais de 40% da economia global, sozinhos representam quase tanto como todo o resto do mundo combinado em termos de economia, é uma boa notícia, porque realmente a economia global está sujeita a muitos choques, a muitos imprevistos, em parte por causa de Donald Trump, por exemplo a questão do conflito no Irão, todo o problema em torno do Estreito de Ormuz e tudo o que seja algum sinal de estabilidade nessas relações são relativamente boas notícias. Agora, realmente não há aqui nada de especial, se quisermos é um pouquinho esta ideia de "a montanha pariu um rato": muitas fotos, o ego de Donald Trump volta aqui a brilhar por ele poder partilhar o palco com outro grande líder, mas realmente, mesmo em termos do que os americanos referiam como "beans and Boings", no fundo estas promessas de compras chinesas-

De aviões da Boeing.

Elas realmente concretizaram-se, mas a um nível relativamente modesto. As ações da Boeing aparentemente caíram porque são só, entre aspas, 100 aviões. Isto também nos diz muito sobre a capacidade económica chinesa e as expectativas em torno da economia chinesa, mas havia especulações de que poderiam ser 500 ou 400 aviões, isso já faria alguma diferença para a Boeing, que está com alguns problemas, mas acabam por ser só 100. Acho que realmente são resultados limitados, mas que são significativos neste sentido: refletem muito o peso crescente da China, o facto de cada vez mais a China fazer questão de se afirmar como uma potência a par dos Estados Unidos e cada vez mais ter meios, ter condições para isso. Vimos nesta guerra comercial a China usar as terras raras para forçar Donald Trump a recuar na questão das tarifas, que é algo que ele não costuma fazer muito. Acho que realmente esta cimeira reflete isso. Não estamos em 1972, a primeira cimeira entre um presidente americano e um líder comunista chinês, Nixon e Mao. Nessa altura, a economia chinesa era menos de 10% da economia americana. Agora, em paridade de poder de compra, já ultrapassa a economia americana, já é a maior economia do mundo e em valores nominais anda volta de 65%, 70% da economia americana, isso faz muita diferença.

Há um tema sensível nas relações entre Estados Unidos e a China: Taiwan. Trump diz que Xi Jinping lhe perguntou de forma direta se os Estados Unidos vão defender Taiwan em caso de ataque da China. Trump, segundo a agência Reuters, diz que: "Só há uma pessoa que sabe isso, e sou eu, Donald Trump, sou a única pessoa". Acrescenta que: "Esta pergunta foi-me feita pelo presidente Xi. Eu disse que não queria falar sobre isso". É uma questão com potencial para criar problemas ou Donald Trump sabe que há ali um limite que não deve e, porventura, que não pode ultrapassar?

Como eu digo, acho que há que ser justo. Parece-me que Donald Trump aí esteve bem. É melhor não dizer nada. Donald Trump tem muita dificuldade em ser disciplinado no uso da palavra, como nós sabemos, e aí realmente todas as palavras contam. A condição para a normalização das relações entre os Estados Unidos e a China comunista a partir de 72, desde a primeira cimeira Mao-Nixon até 79, foi precisamente esta ambiguidade estratégica em relação a Taiwan, que é realmente uma questão muito complexa. A China tem um problema, que é o regime comunista chinês afirma que a democracia, modelo ocidental multipartidário, é incompatível com as tradições chinesas. Também afirma que Taiwan é chinês. Ora, o problema é que Taiwan é uma democracia pluralista, têm de facto este problema, que é um enorme irritante para o regime. Uma dessas duas coisas não pode ser verdade. Ou é realmente chinesa, e isso mostra que a democracia pluralista afinal funciona com 25 milhões de chineses em Taiwan, ou então não é realmente chinesa e aí poderia ser, ou deveria ser até, um Estado independente. O regime tem esse problema. Para os Estados Unidos, é muito importante realmente esta ideia de os Estados Unidos só reconhecem um governo da China e o governo que está em Taiwan tem esse problema desde 1949, desde a Guerra Civil Chinesa, que há dois governos que reclamam ser o governo da China. Um que obviamente controla a maior parte da China, que está em Pequim, mas depois este governo em Taipé. A posição americana é nós só reconhecemos um governo, mas não aceitamos uma alteração unilateral do status quo por nenhum dos lados. Isso quer dizer, nem a China pode invadir e impor pela força a reocupação de Taiwan, nem Taiwan também pode declarar a independência. E os Estados Unidos vão garantir que é assim. No fundo, vão dar condições a Taiwan para se defender face ao colosso chinês. Aparentemente, a melhor forma de salvaguardar essa ambiguidade foi realmente Trump não dizer nada para ver se naquele churrilho verbal que o caracteriza não criava ali alguma confusão, expectativas eventualmente perigosas em relação ao que a China poderia ou não fazer.

Temos ainda aqui dois minutos e meio, Bruno, para abordar a declaração do chanceler alemão Friedrich Merz, que anunciou através das redes sociais que teve uma conversa com Donald Trump, uma boa conversa telefónica, e há pouco, durante o Congresso Católico e citado pela Associated Press, afirma que é um grande admirador da América, mas a admiração não está a crescer nesta altura. "Por isso não recomendaria aos meus filhos", diz Merz, "que fossem para os Estados Unidos, que estudassem ou trabalhassem lá". Aparentemente, as relações entre a Alemanha e os Estados Unidos ainda não foram normalizadas.Continua a haver um irritante.

Sim, Merz tem este lado interessante que é um bocadinho parecido a Donald Trump, no sentido que, ao contrário do que é a grande tradição na política alemã, realmente não é muito disciplinado também no uso da palavra e, portanto, muitas vezes diz realmente aquilo que está a pensar, o que às vezes, no caso político, se traduz nas chamadas gaffes. Aparentemente, ele faz aqui um esforço para voltar a melhorar a relação com Donald Trump através dessa chamada que ele diz que correu bem, mas a verdade é que logo a seguir volta a fazer declarações que, se eventualmente Donald Trump as ler, se resolver dar-lhes alguma atenção, podem voltar a criar aqui um irritante. Portanto, eu acho que talvez Merz precise de ser um bocadinho mais disciplinado e decidir o que é prioritário. Passar esta mensagem que realmente os Estados Unidos não são um aliado de confiança e que os europeus têm que ter mais autonomia estratégica, eu acho que isso é uma mensagem que faz sentido e em que ele tem insistido com razão, mas ao mesmo tempo também não se ganha nada em hostilizar desnecessariamente os Estados Unidos. Mesmo um país como a Alemanha claramente não se pode dar ao luxo de fazer isso e acho que no caso de Portugal é ainda mais evidente que isso não é uma boa ideia.

Uma postura pouco diplomática. Amanhã, nos "Cinco Continentes", queres aqui levantar o véu sobre que temas vais abordar?

Vamos aprofundar um bocadinho a questão da cimeira também e do histórico das relações entre este triângulo complicado, potencialmente explosivo, China, Taiwan, Estados Unidos, e vamos falar de algumas outras cimeiras, por exemplo, Macron em África, que está agora a apostar nos países não francófonos, inclusive Moçambique, Angola, e também no encontro entre Lula e Donald Trump, portanto, fazer um pouquinho o balanço aqui de várias cimeiras.

Hoje no "Gabinete de Guerra", durante o fim de semana nos "Cinco Continentes", Bruno Cartaxo Reis, historiador, a ajudar-nos a analisar e interpretar alguns dos temas que vão dominando o mundo lá para fora.