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Gabinete de Guerra, na Rádio Observador. Nos próximos minutos, vamos falar sobre os conflitos em curso, quer na Ucrânia, quer no Médio Oriente. Eu sou o João Gama. O ponto de situação na guerra vai ser feito com a ajuda do Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa, a quem desejo desde já uma boa tarde. Bem-vindo à Rádio Observador, Vítor Gabriel Oliveira. Deixe-me começar a olhar pra guerra na Ucrânia. A Rússia diz que abateu esta noite 144 drones sobre várias regiões, incluindo a capital, Moscovo. Terá sido um dos maiores ataques de drones lançados pela Ucrânia contra a Rússia desde o início da guerra. Uma mulher chegou a morrer na região de Moscovo. O que eu lhe pergunto, Vítor Gabriel Oliveira, é numa altura em que Kiev ainda não quebrou o silêncio, ainda não reivindicou este ataque, se esta é uma nova fase da guerra. Temos incursões em território russo e temos ataques diretamente a Moscovo?

Antes de mais, obrigado à Rádio Observador, mais uma vez pelo convite. É sempre um gosto estar convosco. Sim, entramos numa nova fase da guerra, até porque a guerra, se repararmos, começa cada vez mais e com esta capacidade da Ucrânia demonstrar projeção em Moscovo, que fica a centenas de quilómetros da fronteira ucraniana, conseguimos perceber que o Zelensky está com o objetivo de projetar a guerra sobre o território russo, para assim pressionar cada vez mais a Rússia. Aliás, Vladimir Putin, numa das suas intervenções, abriu a porta a negociações de paz, mas depois numa cimeira económica em que já esteve também na semana anterior, desvalorizou completamente aquilo que aconteceu em Kursk, mas em Moscovo poderá começar a não conseguir desvalorizar da mesma forma que desvalorizou em Kursk. Portanto, isso faz parte da estratégia de Zelensky neste início. Ainda não começou o inverno, mas neste início de inverno que irá começar brevemente, em que as tropas se poderão mexer menos ou com mais dificuldade, faz parte da estratégia de Volodymyr Zelensky entrar em 2025 a pressionar a Rússia no seu próprio território. E isso muda muito o que é a estratégia de guerra. Só deixar uma declaração de Volodymyr Zelensky que há cerca de duas semanas passou praticamente despercebida, em que ele elogia os serviços internos de produção de armamento e as empresas internas que estão a fazer um grande trabalho e que a indústria do armamento está a conseguir se reerguer, etc. Isto por quê? Na minha opinião, e a leitura que faço sobre essa matéria, essa expressão que Volodymyr Zelensky utilizou de elogio à própria indústria de armamento da Ucrânia, permite-lhe dizer e afirmar que está a atacar a Rússia em solo russo com material produzido na Ucrânia. Na realidade, poderá ser assemblado unicamente na Ucrânia e os componentes virem do Ocidente, mas o selo de produção já vem da Ucrânia. Ou seja, ele passa a não precisar da autorização dos países ocidentais de quem tem apoio, dos Estados Unidos e do grupo da União Europeia que o apoia, para conseguir utilizar esse armamento em território russo, uma vez que o assembla em território ucraniano. Mais um pormenor sobre essa questão. Na realidade, os drones que são utilizados neste momento para atacar Moscovo, de certeza, e pelo que percebemos internacionalmente e pelas informações que temos em formato aberto, percebemos que não são produzidos na Ucrânia, já são produzidos fora da Ucrânia. Portanto, neste momento já está a ser utilizado armamento, que são drones, aviões não tripulados, kamikazes, muitos deles, outros deles os que foram utilizados na Rússia nesta última incursão foram desses, não tripulados e kamikazes. Portanto, são produzidos fora da Ucrânia, alguns deles com tecnologia e com savoir-faire de Portugal. Portugal, através do Reino Unido, tem também tecnologia nesta matéria. Portanto, já está a haver uma utilização da tecnologia e do savoir-faire e de armamento, com um drone não tripulado kamikaze em armamento em território russo.

Deixa-me também perguntar-lhe, Vítor Gabriel Oliveira, temos informação desta manhã, relativamente recente, que a propósito, como estávamos a discutir estes contra-ataques ucranianos, quer com drones, quer também em Kursk, Dmitry Peskov foi questionado sobre um cenário de negociações pra um cessar-fogo esta manhã, porta-voz da presidência russa, e diz que os ataques ucranianos durante a madrugada, alguns dos quais atingiram Moscovo e a incursão em Kursk, dificulta uma negociação de cessar-fogo, faz com que o cenário esteja mais afastado depois da entrada das tropas ucranianas em solo russo. Nesta altura, é culpa da Ucrânia que não haja um cessar-fogo entre os dois países?

Não, parece-me evidente que não, porque Dmitry Peskov sempre disse isso, por uma qualquer das razões, naturalmente. Ou seja, hoje estão em território russo, não é o momento, quando não estavam em território russo também não era o momento, porque estavam à espera de chegar a Kiev e só estavam no Donbass. Portanto, haverá sempre uma narrativa sobre essa questão. Agora, o que me parece a mim é que ter tropas de um país estrangeiro em território de uma potência nuclear é uma perda e que se pode analisar a olho nu. Portanto, é uma perda direta que não há outra maneira de vermos essa situação. A Rússia, neste momento, se quiser fazer sair as tropas de Kursk Tem que bombardear o seu próprio território. Isso é uma derrota direta pra Rússia. Bombardear o seu próprio território para expelir tropas de outro país é uma derrota, porque já as deixou entrar. Isso parece-me claro. E essa pressão vai aumentar, Dmitry Peskov fará o seu trabalho, que se compreende nessa matéria, mas penso que é uma derrota e que a Rússia está a ter dificuldades em conseguir suster esta força ucraniana que tem sido uma força, porque tem tido um apoio brutal dos aliados ocidentais.

Vítor Gabriel Oliveira, o primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, terá hoje uma reunião com o presidente chinês, Xi Jinping, em que os temas em cima da mesa vão ser a guerra na Ucrânia e também a guerra na Faixa de Gaza e a necessidade de relações profundas e equilibradas entre a Europa e a China, neste caso, entre Espanha e a China. O que eu pergunto é: qual pode ser o papel da China ou qual é o papel que a China quer ter enquanto player internacional nestas duas guerras, uma na Ucrânia e outra no Médio Oriente?

Só dar aqui duas notas. Em primeiro lugar, dizer que a China ganha com as guerras, porque há um desgaste do bloco contrário ao da China, o bloco econômico contrário ao da China, e isso é bom pra China. Isso faz parte de uma nova ordem econômica que a China quer e tem como estratégia implementar a médio e longo prazo. Isso é o ponto número um. O ponto número dois, e referindo-me agora à Espanha, pude ter alguns contactos com algumas fontes minhas em Espanha e ter também uma leitura do que Pedro Sánchez pensa e está a realizar nesta matéria. Não nos podemos esquecer que Pedro Sánchez levou ao Parlamento a votação pra formalizar a declaração para o Estado da Palestina, foi um dos primeiros a fazer. A ideia dele sempre foi ter uma influência na União Europeia por arrastamento, também porque em termos de consumo interno para Pedro Sánchez é importante e porque Pedro Sánchez é de esquerda, é do Partido Socialista, mas é apoiado por vários partidos e tem que responder também ao seu eleitorado e aos partidos que o sustentam no Parlamento. Há também um forcing de Pedro Sánchez para consumo interno e para responder a esses acordos que tem em Espanha. Essa é a leitura que tenho algum dos contactos que pude fazer durante o dia e durante esta manhã em Espanha. E é isso que Pedro Sánchez irá continuar a fazer, tentar por arrastamento que fique ele próprio também conectado ao terminar da guerra e ao conseguir um reconhecimento em maior escala dentro da União Europeia em relação ao território palestiniano.

Vítor Gabriel Oliveira, deixe-me virar também para a análise que estava a fazer à posição da China para a guerra em curso no Médio Oriente. Foi hoje reaberta a fronteira entre a Cisjordânia e a Jordânia depois de um tiroteio que aconteceu no domingo, quando um atirador vindo da Jordânia matou três guardas israelitas. O que isto pode fazer à relação entre Israel e os países do Médio Oriente, nomeadamente a Jordânia, e se este tipo de ataques se pode dever a um aumento da tensão que se vive nesta região?

Israel interpreta o ataque como isolado, embora a nacionalidade da pessoa que fez o ataque seja jordaniana. Só referir aqui um ou dois pontos nessa matéria que me parecem importantes. A ponte foi reaberta, mas apenas para pessoas, não ainda para trocas comerciais. E esta é uma ponte utilizada por muitos palestinianos naquela região, porque Israel não dá o direito aos palestinianos de usarem o aeroporto de Tel Aviv. Naquela região é de crucial importância a utilização daquela ponte. Mas claro que estes ataques isolados, e por muito que isso seja apontado pelas duas áreas do conflito, que são ataques isolados, claro que isso aumenta a tensão e o fato de as pessoas não poderem circular ainda aumenta mais a tensão naquela região, mas eu acho que chega-se a um momento onde a tensão já está num ponto tão elevado que aconteça o que acontecer, já não é possível baixar e já não é possível aumentar, já está no ponto máximo.

Vítor Gabriel Oliveira, também esta madrugada, um ataque israelita ao campo de refugiados de Al-Mawasi, no sul da Faixa de Gaza, fez 40 vítimas mortais. A Turquia veio condenar este ataque como um crime de guerra, um ataque a uma zona humanitária no sul do enclave. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Palestina diz que o massacre só aconteceu por falhas da comunidade internacional. E era mesmo isto que eu lhe queria perguntar: a comunidade internacional está a falhar na vigilância que deve fazer este conflito, permitindo, desta forma, que haja espaço para violações de direitos humanos?

Esse é um problema que, mais uma vez, tem que ser analisado em duas ou três frentes. A primeira frente é que soubemos que Joe Biden e que nomeadamente agora Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, também bloqueou 35 licenças de exportação de material de guerra e armas para o Médio Oriente. Biden tem estado a fazer uma pressão grande junto com Kamala Harris para que se chegue a um acordo. Portanto, os países aliados de Israel começam a sentir que estão a ser coniventes, ou seja, é preciso haver um retrocesso deste apoio pra também pressionar Israel a que isso aconteça. Por outro lado, Israel sabe que grande parte das bases e do apoio do Hamas Se situa em túneis por baixo de zonas sensíveis e que são zonas de proteção, nomeadamente hospitais, campos de refugiados, etc. É isso que Israel alega. Não é fácil de interpretar a situação. Aquilo que a Turquia diz e essa responsabilidade que tem também não é fácil de interpretar por parte de Israel e de compreender por parte de Israel. Mas, neste momento, penso que naquela região, o maior problema é conseguir mudar o mindset de Benjamin Netanyahu e colocar um mindset mais suave para se começar a chegar a um processo de negociação, porque aquilo que temos visto é que cada vez que há negociações, nomeadamente aquelas que ainda estão a decorrer de forma menos visível, mas as últimas grandes negociações que se iniciaram no Qatar, mediadas pelos Estados Unidos, nos dias em que começaram as negociações, houve bombardeamentos, houve incursões por parte de Israel. Isso não é fácil quando se está à mesa de negociações a tentar chegar a um processo de paz. Neste momento, eu penso que os países ocidentais, além deste bloqueio, terão que realmente sentar-se à mesa com Benjamin Netanyahu e pressionar Benjamin Netanyahu a chegar a um acordo que nunca será bom para Israel, na minha opinião, mas será o menos mau para aquela região, que é o mais importante, e o mais importante são as pessoas que estão naquela região.

Vítor Gabriel Oliveira, muito obrigado por ter estado conosco no Gabinete de Guerra desta tarde na Rádio Observador. Estivemos a passar a pente fino o que se passa na Ucrânia e no Médio Oriente com a ajuda do secretário-geral da Sedes Europa, a quem eu desejo uma boa tarde e agradeço por ter estado conosco na Rádio Observador. Boa tarde, Vítor Gabriel Oliveira. O Gabinete de Guerra está de volta já amanhã.