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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Estamos no programa em que analisamos os conflitos em curso nas diferentes partes do globo. O meu nome é Miguel Cordeiro e comigo está Liliana Reis, investigadora e especialista em Relações Internacionais. Liliana, bem-vinda. Vamos começar por esse Conselho Europeu, que acontece esta quinta-feira. Uma reunião importante junta chefes de governo e chefes de Estado e as altas figuras das instituições europeias. António Guterres também foi convidado a participar e a assistir a este Conselho Europeu. Por que razão é importante e o que é que podemos esperar de decisões ou de posições no final deste Conselho Europeu?

Olá, Miguel. Boa noite. Da carta que o presidente do Conselho Europeu enviou a todos os chefes de Estado e de governo, aquilo que nós podemos já antecipar é que o primeiro ponto da agenda será o debate sobre a escalada militar no Médio Oriente e a situação no Irão. Depois há, naturalmente, questões subjacentes a este primeiro tópico que também são introduzidas pela carta enviada pelo presidente. Nomeadamente a questão da segurança energética, por aquilo que se passa neste momento no Irão, mas também a imigração e a proteção dos cidadãos e das empresas europeias. É também provável, e depois do anúncio que estará também presente o secretário-geral das Nações Unidas, pelo menos para um almoço de trabalho, que se tentem encontrar aqui, ou pelo menos articular instrumentos conjuntos entre a União Europeia e as Nações Unidas para responder principalmente à questão da segurança energética e à questão migratória. Ainda que eu acredite que o tema que vai dominar vai ser efetivamente a capacitação militar e a política comum de segurança e defesa. Repare que em 2024, até porque também vem nas notas enviadas pelo Conselho, a despesa militar da União Europeia atingiu os 343 mil milhões de euros, crescendo sempre nos últimos 10 anos, e espera-se que em 2025 ainda seja reforçada. Ou seja, nós estamos aqui a falar de um aumento com a defesa entre 2020 e 2025 por parte dos Estados-membros em 62,8%. A União Europeia, neste momento, e já vinha a falar sobre a autonomia estratégica e a necessidade que esta autonomia estratégica se concretizasse pela sua capacitação militar, mas agora há outras dimensões que também devem estar em discussão, nomeadamente a questão da segurança energética, depois daquilo que nós estamos a assistir no Irão. Por isso há aqui vários tópicos, mas acredito que efetivamente a questão da segurança e da defesa irá dominar a agenda do dia 19 e do dia 20 e irá focar a atenção dos chefes de Estado e de governo, naturalmente, e também do próprio secretário-geral das Nações Unidas.

Sendo que se espera também que se discutam possíveis esses apoios para os preços da energia. António Costa também já tocou um bocadinho sobre isto, mas não se percebeu ao certo o que é que o Conselho Europeu também pode definir em relação a isso.

Há aqui alguns mecanismos por parte da Comissão Europeia que podem vir a atenuar, ou pelo menos a disfarçar um pouco esta subida dos preços, sobretudo ao nível dos combustíveis. A questão é que não conseguem afastar depois a fatura que também os europeus irão pagar de outra forma. A questão é, neste momento, parece-me que, e eu acho que talvez seja o ponto prioritário que está não apenas na União Europeia, mas a nível mundial, é que a necessidade de desbloquear o Estreito de Hormuz torna-se imperativo, porque caso isso não aconteça nos próximos 10 dias, 20 dias, repare que a guerra começou a 28 de fevereiro. Hoje já estamos a 18 de março, ou seja, já passaram sensivelmente 20 dias. Não sei se esta guerra estará terminada nos próximos 20 dias, como foi antecipado que em 40 dias estaria a situação resolvida. Neste momento, alguns analistas até já apontam, militares já apontam para uma possibilidade de que se estenda por alguns meses. Ora, a estender-se por alguns meses, isso vai ter um impacto do ponto de vista dos preços, e não falo apenas dos preços dos combustíveis.

Sim, em cadeia. Começa nos combustíveis e passa para tudo o resto.

Nós vamos ter um efeito spillover que se vai arrastar a todos os bens de consumo, nomeadamente ao setor alimentar. E isso vai ter consequências muito negativas também na União Europeia, seguramente.

Falemos de uma outra visita importante, a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, vai encontrar-se com Donald Trump em Washington esta quinta-feira. Isto já está planeado há algum tempo, uma visita que acabou aqui perturbada também pelo conflito no Irão, mas vai acontecer esta quinta-feira, tudo aponta para isso. Qual é a importância deste encontro?

Este encontro é muito importante, sobretudo se nós atendermos àquilo que Donald Trump disse no fim de semana, não aquilo que disse ontem. Ele no fim de semana passado pediu a Tóquio e a várias capitais, nomeadamente aos aliados, que participassem no esforço de guerra e que enviassem navios para ajudar a desbloquear o Estreito de Ormuz, como nós estamos recordados. Mas ontem disse que tem tido tanto sucesso militar na operação que se está a levar a cabo juntamente com Israel que já não precisava da ajuda, quer dos aliados, mas também do Japão, da Austrália e da Coreia do Sul. O que se passa neste momento, e a própria primeira-ministra do Japão pediu, tem encetado vários esforços para que o Estreito de Hormuz fosse desbloqueado. Eu acredito que esta questão esteja em cima da mesa, até porque o Japão é o quinto maior importador de petróleo do mundo e cerca de 95% provém do Médio Oriente, ou seja, a primeira-ministra está seguramente muito preocupada com a situação que se passa também no Médio Oriente. Mas na semana passada, nós temos conhecimento que a administração norte-americana ordenou a redistribuição de mísseis norte-americanos da Coreia do Sul para o Médio Oriente. Ora, esta deslocalização de mísseis de Seul para o Médio Oriente preocupa não apenas a Coreia do Sul, mas preocupa também o Japão, que começa a ver com alguma apreensão o que isto pode significar em caso de um ataque levado a cabo pela Coreia do Norte ou mesmo pela China, que neste momento de vulnerabilidade pode efetivamente concretizar a união da Grande China, ou seja, Taiwan. Taiwan tem estado sempre em cima da mesa. Ainda que nós não falemos de Taiwan, o que é certo é que, pelo menos para o Japão, para a Coreia do Sul, para todos os Estados asiáticos, esta deslocalização dos Estados Unidos para o Médio Oriente é vista com bastante reservas. Por isso, acredito que esteja em cima da mesa não apenas a questão do Irão e do Estreito de Hormuz, mas também esta questão da segurança regional, que representa um afastamento, que pode ser provisório e temporário, mas que está a acontecer, da Ásia para o Médio Oriente por parte dos Estados Unidos. E não nos podemos esquecer também, e é apenas uma curiosidade, que em 1991, o Japão enviou seis caça-minas para o Golfo Pérsico, depois do fim da Operação Tempestade no Deserto, ou seja, da primeira Guerra do Golfo, o Japão teve um papel ativo na desminagem do Golfo Pérsico e, por isso, também parece que pode haver aqui esta leitura, esta disponibilidade por parte do Japão, mas com algumas cedências também por parte dos Estados Unidos para aquela região, naturalmente.

Falemos do que se está a passar no terreno. Israel e Estados Unidos da América avançaram com um ataque conjunto contra instalações de gás natural no Irão. São instalações ligadas ao campo South Pars, a maior reserva de gás em todo o mundo. É uma reserva partilhada com o Catar. Falou o governo iraniano de um crime de guerra, prometeu retaliar por causa da morte de Larijani. Diz que assassinos criminosos vão ter de pagar em breve. Como é que vê esta situação? Primeiro este ataque, mas também esta promessa de retaliação por parte do Irão.

Esta promessa de retaliação deve ter uma leitura muito cuidada, até porque neste momento, e a propósito daquilo que eu há pouco falava dos analistas militares, também alguns começam a apontar que provavelmente a Rússia possa estar a ajudar o Irão, até pela seleção de alvos que o Irão está a fazer, ou seja, os ataques estão a ser mais eficazes e podem efetivamente ter esta ajuda russa. E depois, por outra situação: este ataque, por exemplo, que hoje aconteceu à maior reserva de gás mundial, como o Catar veio manifestar o seu descontentamento, até porque partilha a reserva geológica com o Irão, pode começar a criar algumas dissidências. Repare que nós tínhamos as monarquias todas do Golfo que tinham também mantido o apoio a esta operação norte-americana e israelita. Isso pode criar algumas fraturas, porque, pelo menos de uma observação rápida, denuncia, de certa forma, aquilo que também poderão ser as consequências para estes países, indiretas, ou seja, não são consequências diretas, mas poderão ser consequências indiretas. E o apoio inequívoco à operação, aliás, nós este fim de semana também tínhamos ouvido por parte de alguns destes Estados, nomeadamente dos Emirados Árabes Unidos, da Arábia Saudita e do Catar, que a operação deveria ser finalizada, ou seja, que não poderia agora haver recuos, deveria ser levada até ao fim, ainda que nós não tenhamos bem presentes quais são os objetivos desta operação. Sabemos que é afastar, pelo menos foi aquele objetivo que ficou claro desde o início, a capacidade nuclear do Irão, mas não sabemos se há outros objetivos subjacentes, nomeadamente a alteração do governo para um governo democrático, o que me parece pouco executável. Mas o que é certo é que este tipo de ataques e a morte de Larijani e hoje já de Esmail Khatib, o ministro dos Serviços de Informações, o líder da intelligence iraniana, pode espoletar um conjunto de ataques por parte do Irão, que a serem levados a cabo, com algum sucesso, têm que ter o apoio de alguns aliados, que nós sabemos que o Irão tem, nomeadamente a Rússia. Por isso é que eu dizia, a concretizar-se Este tipo de ameaças e este tipo de retaliação com mais força, até num momento de grande fragilidade por parte do governo iraniano, só será conseguido com algum grau de sucesso se tiver efetivamente alguns aliados por detrás.

Sim. Falemos, para terminar, de Cuba e dos Estados Unidos da América. Cuba acusa os Estados Unidos de estarem a ameaçar diariamente derrubar o governo e de tomar o país. Quem diz isto é o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel. Criticou os Estados Unidos por ameaçarem diariamente Cuba e de estarem a pretender apropriar-se do país. Que leitura é que faz também desta análise de Miguel Díaz-Canel e daquilo que está a acontecer entre Estados Unidos da América e Cuba ontem com, por duas vezes, Donald Trump a avançar com ameaças para o país cubano?

O presidente cubano, neste momento, está a tentar proteger a sua pele, ou seja, depois de ameaças sucessivas, naturalmente que ele, e aliás, eu ouvi as palavras dele hoje, ele prometeu uma resistência inexpugnável. A questão é que capacidade é que ele terá para resistir face a uma intervenção norte-americana em Cuba. Ele hoje também veio reiterar que o país se encontra bastante fragilizado devido às sanções consecutivas de várias administrações. Ou seja, não apontando apenas o dedo a esta administração em concreto, mas a sucessivas administrações norte-americanas pelas sanções que têm aplicado ao governo cubano, que aliás, ele diz que não tiveram consequências diretas apenas no governo, mas em toda a população cubana. Não me parece que neste momento, a ser levada a cabo uma operação norte-americana em Cuba, haja grande possibilidade de resistência, tal como nós observamos na Venezuela. Não sabemos é se irá acontecer enquanto a guerra no Irão não terminar. Ou seja, não me parece que nesta fase tenhamos, ou pelo menos os Estados Unidos tenham condições para levar a cabo duas operações desta envergadura em simultâneo. Ainda assim, o que o presidente Díaz-Canel veio quase sugerir é que não seria boa ideia, ou que ofereciam efetivamente resistência, mas também não esperaríamos outro tipo de palavras por parte do presidente cubano. Eu não estou certa, como lhe disse, é que tenham essa capacidade de resistência, naturalmente.

Sim. Liliana Reis, investigadora e especialista em Relações Internacionais, muito obrigado por esta participação.

Muito obrigada e muito boa noite.

O Gabinete de Guerra volta esta quinta-feira.