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Vamos agora às últimas da guerra na Ucrânia. E começamos pelo aviso do chefe da diplomacia russa, Sergey Lavrov ameaça com corte de relações diplomáticas com os Estados Unidos, que acusa de russofobia desenfreada. Isto é retórica pura, Bruno, ou para levar a sério este corte de relações?
Eu penso que apesar de tudo, sendo o ministro dos Assuntos Estrangeiros, temos de levar mais a sério do que se fosse, e isso já temos ouvido com muita frequência ser defendido, um daqueles propagandistas ou mesmo alguém como o Dmitry Medvedev, que embora tenha desempenhado funções de presidente e primeiro-ministro e hoje ser o vice do Conselho de Segurança Nacional, quase parece reduzido a esse papel de propagandista extremista. Portanto, acho que Lavrov apesar de tudo parece uma voz um pouquinho mais autorizada, sobretudo se viesse de Putin, diria eu, aí seria para levar ainda mais a sério. Aqui parece ser uma ameaça mais do que algo que se vá concretizar proximamente. Eu diria que isso seria uma péssima ideia. Quer dizer, mesmo durante o pico da Guerra Fria, em que havia realmente muitas vezes uma propaganda extremamente hostil dos Estados Unidos em relação à Rússia soviética, à Rússia comunista, esse corte nunca aconteceu e acho que seria irresponsável acontecer. Estamos a falar de grandes potências nucleares. Há um risco de escalada no conflito que deve ser evitado e, portanto, acho que isso não faz nenhum sentido. Esperemos que seja, no fundo, Lavrov a fazer um bocadinho o papel de propagandista também para consumo interno na Rússia e que isto não venha a acontecer. Realmente não faz nenhum sentido. A Rússia tem uma propaganda extraordinariamente hostil em relação ao Ocidente, passa o tempo a ameaçar com armas nucleares. Nós sabemos que a imprensa russa neste momento é toda controlada pelo Estado, portanto, aquilo que é lá dito claramente tem o apoio do Estado e vir pedir contas porque há críticas do lado ocidental. Em termos de política da ação externa dos Estados Unidos, aquilo que está a ser feito foi aquilo que os Estados Unidos deixaram claro que ia acontecer se houvesse uma invasão da Ucrânia em grande escala. Sanções, apoio militar, não o envolvimento com tropas, mas tudo isto foi dito à Rússia repetidamente durante meses e portanto a Rússia fez essa opção, agora tem de viver com as consequências dessa opção e é ridículo estar a queixar-se de que está com má imagem no Ocidente. Se está com má imagem no Ocidente é por causa das suas ações no essencial e não por haver um discurso mais crítico de Biden ou de Blinken em relação à Rússia.
Bruno, apesar das perdas de vidas e das consequências económicas da guerra, há uma sondagem do Levada Center, uma organização independente de sondagens russa, que revela que 76% dos inquiridos apoiam as operações militares da Rússia. É surpreendente este apoio considerável ao esforço de guerra?
Surpreende no sentido que não é muito racional. Claramente a Rússia está aqui a pagar um preço significativo. Apesar de tudo, o Estado russo tem procurado atenuar o impacto mais negativo, nomeadamente em termos económicos da guerra. Tem procurado limitar também o nível de mobilização e apostar sobretudo numa mobilização de populações de zonas muito periféricas, muito pobres, e não dos principais centros urbanos. Tem procurado evitar aumentar o custo para o conjunto da sociedade russa a um ponto em que isso pudesse aumentar a oposição à guerra. Tem passado também muito a questão da propaganda nacionalista, portanto esta ideia que isto é uma forma da Rússia se defender contra a ameaça do Ocidente, que é algo que tem uma grande tradição na cultura política, na cultura estratégica da Rússia e da Rússia soviética. Portanto, acho que provavelmente reflete um pouco tudo isso, algum conformismo, se calhar algum receio também de dar a resposta errada, mesmo sendo sondagens anonimizadas no contexto de uma sociedade cada vez mais autoritária e repressiva, em que ainda agora vimos uma artista a ser condenada a sete anos de cadeia por ter denunciado a guerra e a invasão da Ucrânia. Portanto, tudo isso provavelmente também dissua algumas pessoas de dizerem exatamente aquilo que pensam, mas acho que é uma combinação destes fatores e realmente não me espanta que haja algum apoio de setores mais nacionalistas na Rússia a este conflito.
Bruno, hoje o presidente Volodymyr Zelensky veio dizer na rede Telegram que pela primeira vez na história mundial há uma frota de drones navais a operar, e isto acontece no Mar Negro, que é a frota ucraniana e que obrigou ao recuo da frota naval russa. Volodymyr Zelensky sublinhou que, em resultado desta ação, agora a Rússia não pode usar o Mar Negro como plataforma para destabilizar outras regiões do mundo. Crias que é Volodymyr Zelensky a chamar a atenção da importância geoestratégica também das ações da Ucrânia, a tentar de alguma forma convencer o mundo da importância do que se está a passar?
Sim, acho que é uma forma da Ucrânia dizer: "Não conseguimos resultados tão bons como gostávamos, como queríamos, na frente terrestre, mas temos conseguido resultados importantes na frente naval". É também uma forma de procurar apoio a esse esforço. É evidente que a Ucrânia está a procurar reforçar as suas capacidades navais. Eu recordo sempre este aspecto, que é ainda mais do que em termos de meios terrestres, ainda mais do que em termos de meios aéreos. Em termos de meios navais, basicamente era uma assimetria brutal entre a Rússia e a Ucrânia. A pouca marinha que a Ucrânia tinha estava na Crimeia e foi perdida com a ocupação da Crimeia em 2014. Era uma coisa completamente residual. Realmente com criatividade, com a aposta, por exemplo, nestes meios não tripulados, nestes drones, ou tripulados remotamente, melhor dito, que são muito mais baratos, muito mais fáceis de sacrificar também, realmente conseguiu resultados muito importantes e basicamente realmente forçou a retirada da frota do Mar Negro da sua base histórica em Sevastopol, na Crimeia, que era aliás a grande justificação também dada à preocupação da Crimeia, em termos estratégicos em 2014, havia depois aquela narrativa histórica sobre a natureza da Crimeia, mas essa era a principal e a real razão e realmente essa frota acabou por se retirar em boa parte para o Porto Novorossiysk, que é também no Mar Negro, mas na parte oriental do Mar Negro, portanto já na Península do Cáucaso russo E muito mais periférica em relação, quer ao conflito na Ucrânia, quer até em termos de projeção de forças para o conjunto do Mar Negro. Há aí alguns resultados importantes da Ucrânia com a utilização de meios que são inovadores, que são interessantes e que estão a ser estudados ativamente por outros países, as suas implicações em termos de sistemas de defesa naval, projeção poder naval.
Bruno, é uma notícia também desta tarde, a Finlândia anuncia que vai fechar metade dos postos de passagem fronteiriços com a Rússia, já durante a noite de sexta para sábado. Isto depois de ter acusado Moscovo de permitir que migrantes indocumentados, sem documentos, atravessem a fronteira. O anúncio foi feito hoje pelo governo. Antecipas que se possa criar aqui um foco de tensão na zona de fronteira da Finlândia com a Rússia por força desta decisão?
Eu penso que, no fundo, isto corresponde a algo que eu também fui alertando, prevendo, que era como resultado à adesão da Finlândia à NATO, não aconteceu uma invasão russa da Finlândia. E portanto, isso mostra que toda aquela narrativa de que o grande problema, a grande ameaça da Ucrânia era a Ucrânia aderir à NATO, era realmente uma narrativa completamente falaciosa, porque senão os russos teriam retirado a Ucrânia para ir invadir a Finlândia antes de ela fazer parte da NATO. Isso não aconteceria, mas o que era provável que acontecesse era um intensificar de algo que já existia. Não é por acaso que a Finlândia tem lá o centro de excelência de conflitos híbridos, ataques híbridos da União Europeia, que é realmente este tipo de ataques híbridos, ou seja, utilizar meios não convencionais, ciberataques, desinformação, mas também, por exemplo, cada vez mais se percebe esta manipulação, esta weaponization, esta quase que militarização da imigração ilegal. Utilizar vagas de imigração ilegal, que em vez de serem controladas, são promovidas por Estados que visam com isso, no fundo, criar dificuldades a Estados vizinhos com os quais têm más relações. A Turquia fez isso com os vizinhos da União Europeia durante um período e a Bielorrússia fez isso também já no passado e agora, aparentemente, o alvo seria a Finlândia. Isso provavelmente levará, não me espantaria que levasse mesmo ao fechamento da fronteira finlandesa com a Rússia, que é realmente uma fronteira de mais de 1000 km, historicamente muito importante. Eu, por exemplo, há uns anos estive em São Petersburgo e era impressionante a quantidade de finlandeses que iam passar o fim de semana a São Petersburgo e também havia muitos russos a irem passar o fim de semana à Finlândia. Há uma grande proximidade física. Distâncias relativamente curtas e havia esse histórico de passagem, que provavelmente agora vai ser posto em causa.
Bruno Cartaxo Reis, historiador, que nos ajudou aqui a ler alguns dos principais acontecimentos da guerra na Ucrânia. Voltamos amanhã para mais uma edição de Gabinete de Guerra.