Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que damos destaque às principais questões geopolíticas no mundo. Hoje contamos com a análise de Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Seja muito bem-vindo. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Nuno Gouveia, vamos começar por falar pela situação no Médio Oriente, até porque o dia de hoje fica marcado por novas acusações de Donald Trump ao Irão, numa altura em que Trump até fez uma pausa nos ataques que estavam a ser planeados para dar espaço à diplomacia, continua a atacar o governo de Teerão.
Olá, muito obrigado pelo convite. Sim, de facto, nada disto é novo neste conflito. Nós já vimos isto acontecer no passado. Donald Trump, de facto, tem abusado nas ameaças que depois não se concretizam. Isso também tem colocado em causa a credibilidade dessas próprias ameaças, pois nós percebemos, e o Irão também percebe, que se Donald Trump ameaça, mas depois recua, isso coloca em causa a sua própria credibilidade das ameaças, mas mais do que isso, fragiliza imenso a posição norte-americana. O que me parece que está a acontecer é que Donald Trump, que iniciou este conflito sem estar preparado para a sua dureza e a complexidade que um conflito desta génese obviamente acarreta. E Donald Trump tem a necessidade, e tem tido a necessidade de terminar este conflito num formato positivo para os Estados Unidos, mas não tem encontrado meios. É evidente que estas ameaças que ele profere e que depois recua, têm fragilizado o seu caso, mas também demonstram que Donald Trump e os Estados Unidos não têm, neste momento, uma saída fácil para este conflito e mais do que isso, que estamos num impasse. Por outro lado, o lado iraniano, que me parece que também está, apesar de nós não sabermos muito do que se passa no Irão, mas eu acredito que estará bastante fragilizado, sobretudo depois dos fortes ataques que teve por parte dos Estados Unidos e de Israel. A sua economia está dilacerada. Agora, obviamente, um regime ditatorial como é o iraniano, onde as preocupações do povo não são propriamente aquilo que norteia a ação do governo, neste momento sente-se relativamente confortável porque percebe que Donald Trump não tem uma solução fácil para o conflito e, portanto, tenta estender ao máximo esta situação de impasse para, no final deste conflito, ganhar algo. E o que me parece claramente que é o objetivo do Irão é o controle dos estreitos de Ormuz e é esse o principal motivo deste impasse que estamos a assistir.
Entretanto, e já falava um pouco da questão da resposta do Irão, para já o que temos é uma resposta por parte de Teerão a dizer que estão prontos para qualquer tipo de ação dos Estados Unidos. Já não é a primeira vez que vemos o Irão ter este tipo de tomada de posição pública. O que é que muda, o que é que está diferente no Irão?
Nós, na verdade, não sabemos o que se passa realmente no Irão. Sabemos que existem duas fações neste momento que não têm uma visão una, portanto, haverá certamente divisões. Depois também da decapitação da liderança iraniana no início deste conflito, há uma nova geração de líderes que está a governar o país. Não percebemos se eles estão todos em sintonia ou não. Parece-me que não. Parece-me que haverá dentro do regime também quem perceba que num conflito militar propriamente dito com os Estados Unidos, não terão a mínima hipótese. Aliás, viveu-se no período do conflito propriamente dito, mais intensivo, que os Estados Unidos dominavam por completo o Irão. Agora, sabemos que o Irão teve a capacidade de resistir, infligiu grandes danos, sobretudo na economia mundial e por arrasto, obviamente, aos Estados Unidos e aos interesses políticos americanos. Eles, como nós todos percebemos da fragilidade política dos Estados Unidos e de Donald Trump neste conflito e, portanto, eles tentam obviamente estender ao máximo os ganhos que poderão ter depois do país ter sido atacado pelos Estados Unidos e por Israel. Agora, o que me parece é que este clima de impasse terá um momento onde um dos lados ou de fato cede ao outro, e no caso iraniano, estamos de fato a falar neste momento até mais do que aquilo que originou este ataque, que era a desnuclearização do Irão, mas neste momento o que se fala é sobretudo o controle dos estreitos de Ormuz e parece-me que o Irão está a estender ao máximo essa resistência, mas no final de contas, ou um dos lados cede, ou se os Estados Unidos cedem o controle dos estreitos de Ormuz ao Irão, ou o Irão reabre os estreitos de Ormuz sem condições, como acontecia antes deste conflito, ou de fato poderá haver um ataque maior da parte dos Estados Unidos para tentar envergar o Irão. O que me parece é que até pelo período eleitoral que vivemos nos Estados Unidos e pelo impacto que teria esse ataque mais agressivo ao Irão por parte dos Estados Unidos, parece-me que isso também tem condicionado bastante os Estados Unidos e por isso é que temos esta ameaça de Donald Trump e depois recua. Nós percebemos este fim de semana que o papel dos aliados dos Estados Unidos no Golfo, nomeadamente a Arábia Saudita, mas também o Catar, o Bahrein e os Emirados, que obviamente estão preocupados com um aumento da escalada militar na zona, terá influenciado Donald Trump a recuar mais uma vez. Agora nós não sabemos se o Irão continuar a resistir a um acordo, até quando é que Donald Trump conseguirá ele próprio impedir-se de fazer um ataque mais violento contra o Irão.
Irão que para já tem utilizado proxies para tentar atingir a região do Médio Oriente e influenciar a forma como está a decorrer este conflito. Um deles é o grupo rebelde Houthis, que tem estado, de certa forma, quase que a provocar o caos no mercado dos petrolíferos, do petróleo e tudo mais. Que balanço é que podemos fazer desta ação dos Houthis, um grupo rebelde, proxy do Irão, que tem estado a afetar sobretudo os portos da Arábia Saudita?
Nós sabemos que este fim de semana houve uma intervenção do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, numa conversa que teve com Donald Trump, no sentido de o convencer a não atacar o Irão como tinha ameaçado. Parece-me que este ataque dos houthis, onde obviamente os houthis e todos os proxies do Irão na região estão mais enfraquecidos do que antes do atentado terrorista de 7 de outubro de Israel, visto que a resposta de Israel foi bastante danosa para os proxies iranianos. Curiosamente, os houthis foram aqueles que se calhar mais resistiram e que também menos ataques tiveram por parte de Israel e que mantêm um controle de uma parte importante do Iémen, portanto, mantêm a sua capacidade operacional bastante ativa e que obviamente o Irão tentou utilizar para atacar os interesses sauditas e também mostrar que aquela que tem sido a alternativa da Arábia Saudita e de outros estados do Golfo para escoar os produtos energéticos, nomeadamente o mar Vermelho, tentou também abrir uma nova frente de pressão em relação à Arábia Saudita e parece-me, obviamente nós não podemos fazer uma ligação direta, mas parece-me que a intervenção da Arábia Saudita junto de Donald Trump também poderá ter sido potenciada por esta nova ameaça no mar Vermelho, que de facto é danosa para os interesses da monarquia saudita.
Vamos avançar até ao conflito na Ucrânia, até porque o dia de hoje dá-nos conta de uma notícia que chega por parte de fonte ligada à Rússia, que diz que terá abatido um drone de fabrico português. Nuno Gouveia, que tipo de drone é este que estamos a falar e o que é que isto significa no campo de batalha na Ucrânia, até porque a Ucrânia nos últimos meses tem se tornado quase que uma potência no que toca ao mundo do combate de drones.
Já era conhecido que uma empresa portuguesa tinha cedido drones de vigilância à Ucrânia, que têm sido utilizados pela Ucrânia neste conflito. De facto, a notícia foi que um deles terá sido abatido e que os militares russos terão demonstrado alguma surpresa pela qualidade do drone. Obviamente, a indústria portuguesa e Portugal têm se orgulhado de estar ao lado da Ucrânia e de apoiar o esforço de guerra ucraniano, e isso tem sido evidente com os governos portugueses e com a esmagadora maioria da opinião pública portuguesa. Sabemos que há empresas portuguesas a fornecer o esforço de guerra ucraniano, e estamos nós a falar de uma tecnologia de ponta, que aliás tem destacado a Ucrânia neste conflito e que a Ucrânia muito bem já utilizou para também ajudar Estados do Golfo a lutarem contra o Irão. Portanto, parece-me que isso, obviamente nós todos queremos que a Ucrânia suceda nesta guerra e sabendo que equipamento militar português está a ser utilizado pela Ucrânia, penso que é uma mais-valia para o nosso país e obviamente utilizando tecnologia portuguesa numa área onde a Ucrânia se tem destacado pelo positivo e até, eu diria, tem surpreendido o mundo pela forma como tem se defendido e também atacado a Rússia, que isso obviamente é positivo para os interesses portugueses. Obviamente, estamos a falar de um conflito que tem dilacerado muitas vidas de um país amigo como a Ucrânia, obviamente é negativo a guerra, mas Portugal está a fazer a sua parte na perspectiva em que está a ajudar o esforço de guerra ucraniano.
Nuno Gouveia, temos ainda três minutos para abordar um outro tema que volta a envolver Donald Trump, que fez um apelo para que se tente baixar o preço dos combustíveis. Nuno Gouveia, isto é um apelo para cair em saco roto?
Donald Trump, que é um capitalista, conhece muito bem como é que funciona o mercado e ele que opera no capitalismo americano saberá que estes apelos não têm força. Portanto, o que acontece é que de facto as políticas energéticas e as políticas de Donald Trump ao longo deste ano e meio têm prejudicado os interesses dos cidadãos americanos. Aliás, na semana passada saiu uma sondagem onde dois terços dos americanos consideravam que as políticas de Donald Trump prejudicaram a economia americana e logo prejudicaram o custo de vida dos americanos. A questão energética é neste momento central nos Estados Unidos. O valor da energia subiu muito depois da guerra do Irão, uma guerra que os americanos não compreendem e não apoiam. E aliás, as sondagens têm sido muito claras que essa oposição da opinião pública americana tem crescido com o decorrer da guerra. E Donald Trump tem visto os preços da energia e do petróleo oscilarem mediante as suas declarações, as suas ameaças e os seus recuos. Depois deste último recuo, no passado fim de semana, os preços do petróleo baixaram, mas nós sabemos que isso não é automático nos preços dos combustíveis e portanto Donald Trump, utilizando a sua retórica, atacou as empresas energéticas, que aliás têm tido muito boas relações com a sua administração, e no fundo tenta transmitir ao povo americano que a responsabilidade dos preços energéticos estarem muito altos não é dele, é das empresas petrolíferas. Agora, obviamente que os americanos percebem que as políticas de Donald Trump, nomeadamente, mais uma vez eu digo, esta guerra contra o Irão, que não foi percebida nem apoiada pelos cidadãos americanos, têm sido prejudicadas e Donald Trump obviamente tenta responsabilizar terceiros pelos preços elevados. E estando nós a três meses das eleições intercalares e nos últimos dias tendo sondagens, sobretudo para as eleições para senadores, onde de facto foram muito negativas para os interesses republicanos. No fundo, Donald Trump vê o tempo aproximar-se em relação às intercalares de novembro e tenta recuperar o comando da opinião pública, mas parece-me que se de facto, a menos que os preços energéticos baixem consideravelmente até novembro, Donald Trump terá muitas dificuldades em convencer os americanos que estes aumentos não são da sua responsabilidade.
E é com esta ideia que fechamos a edição de hoje do Gabinete de Guerra, com a análise de Nuno Gouveia, especialista em política americana, a quem deixo de novo um agradecimento por se ter juntado à edição de hoje. O Gabinete de Guerra fica, como sempre, disponível em podcast.