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Este cessar-fogo estava previsto durar até às 16h, hora ucraniana, 14h em Portugal, mas acabou por ser suspenso horas antes desta hora prevista. Esta é uma operação que foi também fiscalizada pela Cruz Vermelha e junta-se agora a nós Gonçalo Órião, o Coordenador Nacional de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa. Boa tarde, Gonçalo, obrigado pela disponibilidade. Eu começava por lhe perguntar como é que é operacionalizado este tipo de fiscalizações, qual é que é o papel da Cruz Vermelha neste tipo de cenários de conflito.
Boa tarde. É importante relembrar que a Cruz Vermelha, no seu movimento internacional, um dos principais princípios é a neutralidade. Ou seja, a Cruz Vermelha, através de suas instituições internacionais e também das sociedades nacionais, marca-se sempre presente nestes cenários. Neste caso em concreto, tudo está a ser articulado diretamente com a Cruz Vermelha Ucraniana, que é a sociedade nacional do país, em coordenação com a Federação Internacional da Cruz Vermelha, que tenta reforçar a atividade desta sociedade nacional. Presente também no país, que também sempre esteve defendendo muito os direitos internacionais humanitários, está o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que promove sempre que sejam garantidas as leis da guerra e a defesa da população. É com essas instituições, nomeadamente a Cruz Vermelha Ucraniana e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que se tentam criar estes corredores de segurança. Estes corredores, obviamente, têm que obedecer a protocolos, têm que obedecer a regras, mas que naturalmente estão sempre sujeitos e na dependência dos governos e das decisões superiores. A Cruz Vermelha é só um elo de neutralidade entre todas estas instituições para permitir que seja defendida a população em primeira linha.
Uma tentativa de mediação. Gonçalo, há também relatos de cada vez mais escassez de medicamentos. Nós temos visto também ao longo dos últimos dias muitas imagens, até de muitos portugueses que vão até às zonas da fronteira levar comida e medicamentos. Esta é também uma preocupação de quem está no terreno a prestar assistência, esta falta de capacidade de resposta?
Naturalmente que existe escassez de alguns produtos, e essa escassez está a ser avaliada. É muito importante perceber também que para que haja uma resposta completa, para que nós consigamos que estes medicamentos e os outros produtos que escasseiam cheguem ao seu destino final, isso tem que ser organizado. Estamos a falar de um conflito e não é de forma autônoma que eles vão chegar ao seu destino. Por isso, a Cruz Vermelha também, juntamente com a Cruz Vermelha Ucraniana, está a desenvolver essas necessidades, ou seja, perceber o que é mais urgente.
E para que a ajuda não se torne uma dificuldade.
Exatamente, porque também estão a ser criados corredores de emergência logísticos, para que haja a possibilidade de levar estes produtos para dentro da Ucrânia, mas também para os países à volta que estão a apoiar esta crise. Mas é preciso perceber que isto tem que ser algo coordenado, planeado, de acordo com as necessidades que são levantadas no terreno e não pode ser algo espontâneo, porque senão toda a triagem logística dos produtos e mesmo a priorização dos produtos que são mais importantes, porque nós não conseguimos naturalmente neste momento de fase aguda fornecer tudo e triar tudo, vai colocar em causa mesmo o socorro operacional e humanitário que se verifica nestas regiões.
Para terminar, temos visto também já exemplos de como a Cruz Vermelha aqui vai preparando essa resposta aos refugiados. Como é que é feita essa coordenação naquilo que já terão sido ou não contactados também para a ajuda no terreno. Deduzo que agora estejam ainda a ser contactadas as Cruz Vermelhas dos territórios mais próximos, mas Portugal pode vir a ser também contactado para dar uma ajuda no terreno?
A Cruz Vermelha Portuguesa vai ter sempre duas ações: uma de apoio aos refugiados e à população vulnerável, como já o fazemos, que venham para Portugal, e estamos cá com as nossas equipas para apoiar. Outra ação em que diariamente mantemos um contacto, quer com a Federação Internacional da Cruz Vermelha, quer com o Comitê Internacional, e tentamos perceber como é que pode ser a nossa intervenção e a nossa melhor ajuda. No presente, a melhor intervenção é através da transferência de fundos financeiros, transferência de dinheiro, para que a sua ação localmente, mesmo com a estimulação do mercado local, possa ser executada. Obviamente, com o evoluir do conflito, com o evoluir das necessidades de resposta, podem vir a ser consideradas outras ações, mas no presente, terá que ser uma resposta muito local, reforçar a resposta local em primeiro lugar, e só depois considerarmos haver um reforço com equipas de fora.
Obrigado, Gonçalo Órião, coordenador nacional de emergência da Cruz Vermelha Portuguesa, também aqui a ajudar-nos a explicar um bocadinho o papel da Cruz Vermelha neste corredor humanitário de fiscalização, de tentativa de mediação. Este corredor humanitário que foi cancelado devido a ataques russos que impediram a saída dos cidadãos da cidade de Mariupol, uma cidade que está ocupada pelas forças russas.