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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos falar sobre as guerras em curso, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente, com a ajuda do major-general João Vieira Borges. O meu nome é João Gama. Boa tarde, major-general. O jornal britânico The Guardian revela documentos hoje que a Ucrânia diz ter apreendido na região de Kursk, que mostram que o comando militar russo não só suspeitava de uma incursão ucraniana na região de Kursk, como até preparou planos para a impedir. O que pergunto, major-general, é se a Rússia previu esta incursão, por que não a impediu?

Boa tarde. Certamente que estava nas previsões, estava nos planos e certamente também que o Estado-Maior russo trabalhou não só essa incursão, mas como outras. No entanto, a análise é sempre feita em termos daquilo que é a situação mais provável e a situação mais perigosa, e depois aquilo que é prioritário. E o que nós estamos a constatar desde a invasão em 6 de agosto, é que efetivamente pra Rússia, mais prioritário é a conquista do Donbass e, portanto, mesmo passado uma, duas semanas, passado três semanas, nós continuamos a ver que a prioridade não era fazer face a uma incursão em Kursk, que obviamente condiciona determinado tipo de operações, mas por outro lado também, para a Rússia, que troca espaço por tempo e até por vidas, obviamente que é mais prioritário a conquista do Donbass, independentemente de, em termos de consequências, em termos políticos, estratégicos, não tanto em termos operacionais e táticos, também ter que equacionar essas mesmas consequências, como estamos a ver.

Era mais prioritário assegurar a conquista do Donbass do que defender as próprias fronteiras do país?

Sim, claramente. Até porque a questão das fronteiras do país, em termos políticos e em termos estratégicos, também traz mais valias pra própria Rússia. A Rússia depois argumenta, pelo menos naquilo que é a narrativa interna, de que afinal a própria Ucrânia também quer invadir espaços russos. E, portanto, também está a infringir leis de direito internacional, independentemente de nós sabermos que, ao abrigo do direito internacional, também tem direito, desde que os ataques partam desse mesmo território para destruir objetivos, designadamente de caráter civil na Ucrânia. Mas a narrativa será sempre outra. E essa mensagem passa facilmente dentro da Rússia e dos seus aliados, que a Ucrânia também está a desenvolver ações que não estão propriamente enquadradas pelo direito internacional.

Aliás, Volodymyr Zelensky deu até um número ontem à noite, disse que a ofensiva da Ucrânia na fronteira russa, na região de Kursk, desviou cerca de 40 mil tropas russas da linha da frente. Esses números não serão suficientes para, aquilo que o major-general estava a explicar, desviar os objetivos de Moscou?

Já vimos que não, independentemente de serem 40 ou 60 mil, que já tenho indicadores diferentes, mas independentemente disso, essas forças, na sua grande maioria, não foram forças que vieram do eixo principal da Rússia. E, portanto, ela continua em toda aquela linha de Pokrovsk, Kupyansk, Svatove, Kreminna, Toretsk, todas essas forças que se encontram naquilo que é o eixo principal ou os eixos principais, pode haver mais do que um, não foram desviadas pra aquele teatro de operações, com exceção de uma outra força de menor dimensão. Portanto, há vários objetivos nessa operação militar especial, como eu chamo de Kursk, da parte da Ucrânia, que foram atingidos. A questão dos prisioneiros de guerra foi muito importante pras trocas que já se desenrolaram. A questão político-estratégica, a demonstração de força, o ganhar poder negocial. Portanto, há vários objetivos que foram conquistados. Um deles não foi atingido, certamente, que era o desvio das forças do eixo principal russo para atenuar aquilo que nós estamos a assistir já há vários meses, que é as sucessivas evoluções militares, avanços militares da parte da Rússia naquelas regiões. Isso não foi atingido.

Ainda a olhar pra Ucrânia, nós sabemos que Ursula von der Leyen está hoje em Kiev para discutir as necessidades energéticas da Ucrânia. Aliás, esta é já a oitava visita da presidente da Comissão Europeia. Vai anunciar nesta visita um apoio que já é conhecido, são 160 milhões de euros, o plano de preparação de inverno de Bruxelas para a Ucrânia, para cobrir um quarto das necessidades de eletricidade. Sabemos que as centrais são muitas vezes alvos de ataques russos. O apoio europeu à Ucrânia continua tão sólido como nunca?

Sim, continua, independentemente de haver algumas divisões dentro da própria União Europeia, mas o apoio desta dimensão, designadamente o apoio aos próprios ucranianos, em face daquilo que é uma das prioridades da ofensiva russa nos últimos meses, que é a destruição dos sistemas energéticos, ou seja, causando, sobretudo, consequências para a população e não propriamente para a questão militar. E que, obviamente, isso será alvo de análise depois em termos dos tribunais internacionais, se têm enquadramentos em termos de crimes de guerra. Obviamente que tem esse argumento a União Europeia para fazer este tipo de apoio. É um apoio muito importante, porque neste momento os dados variam, mas mais de 80% até das instalações elétricas ou de produção de energia de outro tipo, com exceção das nucleares Da parte da Ucrânia foram danificadas. O inverno vai ser muito complicado. Já há indicadores da própria Ucrânia que as populações só terão direito a ser, em determinadas regiões, de 4 a 10 horas de fornecimento de energia. Isto é importante pra população, é importante pra indústria, é importante pro comércio, é importante independentemente das questões militares. E portanto, a União Europeia está a ser coerente no seu comportamento, sobretudo neste ponto. Este tipo de empréstimo ou de fornecimento de apoio direto é fundamentalmente pra proteger a população ucraniana.

Ainda assim, a Itália fez saber, aliás, foi uma entrevista de ontem de Antonio Tajani, é o líder da diplomacia de Roma, ministro dos Negócios Estrangeiros, fez saber que a Itália vai enviar mais um sistema antimísseis pra Ucrânia. Pediu, numa entrevista que deu aos meios de comunicação italianos, uma paz justa e ressalvou que defender a Ucrânia não significa começar uma guerra mundial. Isto não é um dos principais aliados da União Europeia, um dos principais aliados da causa ucraniana na União Europeia, a estar com um pé de fora do apoio a Kiev?

Não, é muito importante. Se me permita aqui um aspecto muito importante.

Claro.

Em primeiro lugar, é falar daquilo que são os sistemas defensivos, ou seja, a proteção. Quando nós falamos em defesa antiaérea, em especial, a defesa aérea é mais global, mas no seu conjunto, quando falamos em defesa aérea ou proteção antiaérea, estamos a falar da proteção de infraestruturas civis, estamos a falar da proteção das populações. E essa é uma componente importante de apoio que está relacionado com o que referimos antes, as próprias infraestruturas civis, designadamente a produção de energia, estão a ser protegidas. No fundo, há um teatro de operações numa linha de 1200 km, obviamente com mais intensidade ali na zona de Donetsk, e depois há uma série de ações que são desenvolvidas pela Rússia no sentido de desanimar, em termos de moral, toda a população ucraniana, de penalizar diretamente a população ucraniana. Portanto, e quando estamos a falar, seja a Itália, seja a Alemanha, seja o país que for, naquilo que é o fornecimento de armas de defesa aérea, no fundo, é muito diferente do fornecimento das tais armas de longo alcance ou do fornecimento de um outro tipo de armas, designadamente carros de combate. É completamente diferente. Continua na mesma linha de proteção da população, sem qualquer consequência, também na minha perspetiva, em termos do escalar da guerra.

Major-general, vamos virar também atenções para a guerra em curso no Médio Oriente. Isto é uma reportagem desta noite do Wall Street Journal. As autoridades norte-americanas duvidam que um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, na Faixa de Gaza, possa ocorrer no mandato de Joe Biden, ou seja, um cessar-fogo só depois de janeiro. Por que Biden falhou em conseguir este objetivo de um cessar-fogo e por que o seu sucessor pode acertar?

Eu vou dizer por que falhou. Falhou porque as partes não querem paz. Seja o Hamas e os seus apoiantes, seja Israel, já perceberam, ao longo deste período, que quando estamos próximos da paz, e tem havido um esforço enorme da comunidade internacional, mas em particular do Egito e do Qatar, e dos Estados Unidos, obviamente, e mesmo com pressão da própria China, porque os discursos da Rússia são diferentes, relativamente ao apoio ao Irão, porventura podem escalar e não contribuir pra paz, mas no caso destes atores que eu acabei de referir, tem havido um esforço enorme. E já todos chegamos à conclusão, a começar nos americanos, em particular com o Blinken, o secretário de Estado, que não há interesse da parte de Israel, obviamente tem a ver com o governo Netanyahu, um governo sobretudo de extrema-direita, que não quer a paz, opta pela destruição completa do Hamas em prioridade. Já vimos relativamente aos próprios reféns, o que é estranho, e por isso o debate interno e por isso a oposição interna. Do lado do Hamas, consideram também uma vitória aquilo que é o facto de os objetivos de Israel, definidos no primeiro dia, no dia 8 ou no dia 7 ainda, de destruição completa do Hamas e de recuperação de todos os reféns, também não estarem cumpridos. Portanto, vão pressionando até ao limite, no sentido de obter aquilo que, no fundo, estão a conseguir da parte de alguns países europeus, designadamente da Espanha, como vimos ontem, do reconhecimento explícito, independentemente de chegarmos ao final do conflito ou não, daquilo que é o novo Estado da Palestina. E do próprio Abbas ontem, o reconhecimento do próprio primeiro-ministro, numa intervenção muito discutível em termos da própria União Europeia.

Deixa eu perguntar-lhe também, major-general, a olhar para o terreno, aumenta a tensão entre o Hezbollah e Israel. Chamam-lhe até a operação James Bond, que fez explodir os pagers dos membros deste grupo islâmico, o Hezbollah. Primeiro, que tipo de guerra é esta, esta guerra híbrida, e esta humilhação de Israel perante o Hezbollah, se é que podemos considerar assim, pode levar a um aumentar ainda mais das tensões ou uma guerra de larga escala?

Eu começo pela segunda parte. Pode aumentar, pode escalar a guerra, certamente. Aliás, reconhecido pelo discurso de Nasrallah, o líder do Hezbollah admitiu exatamente que foi um grande golpe militar Mas porque, por outro lado, teve dimensão humanitária, o que é muito interessante para um movimento como aquele falar nisso. Para ele, cruzou todas as linhas vermelhas, reconheceu que havia supremacia tecnológica da parte de Israel. Aqui não é só tecnológica, é das informações, é militar. Mas reconheceu porque é apoiado pelos ocidentais, põe sempre esse ônus naquilo que é o conflito com Israel. Mas, por outro lado, disse que aquilo constituiu uma autêntica declaração de guerra, ou seja, aquilo que foi a expressão dele foi que foi um escalar da guerra com esta ação, que obviamente não estavam à espera. E mais uma vez, independentemente daquilo que é a vantagem tecnológica de Israel e a vantagem militar de Israel, aquilo que assistimos, e fazendo a ponte com o que Cristina falou há pouco, é que não há interesse na paz. Não há interesse do Hamas, não há interesse de Israel, mas pelos vistos, com esta situação que nós verificamos, independentemente do sucesso militar da operação, temos um insucesso do contributo pra paz na região decorrente desta ação de Israel. Eu citava Boaz Ganor, que é o grande especialista da luta antiterrorista e agora é reitor de uma universidade em Israel, que foi meu professor, que dizia que esta estratégia de Israel não é uma estratégia vantajosa. Por quê? Porque coloca Israel mais isolado do mundo e cria sementes de ódio. E eu estou a citar um israelita, que obviamente não está ao lado de Netanyahu, mas está ao lado de um Estado palestiniano, ao lado de um Estado de Israel em paz.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Estivemos a olhar nestes últimos minutos sobre os conflitos, quer na Ucrânia, quer no Médio Oriente. Meu nome é João Gama, nós estamos de volta com o Gabinete de Guerra da Rádio Observador já amanhã.