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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que olhamos para os principais conflitos a marcar a atualidade no planeta. Hoje conosco temos Madalena Mayer Resende, é especialista em relações internacionais. Madalena, bem-vinda, obrigado por estar conosco.

Muito obrigada.

É inevitável começarmos pela notícia que está a marcar o dia, a invasão do espaço aéreo da Polônia por parte de drones russos. Já foi confirmado, no mínimo pela NATO, que esses drones eram russos. Madalena Mayer Resende, eu começava por perguntar: o Kremlin já veio referir que não planeava atacar qualquer alvo polaco. Acredita que terá sido um acidente ou vê isto como um aviso?

Não parece que seja todo um acidente, parece-me que é um aviso e é uma escalada muitíssimo grave, uma violação muitíssimo grave do espaço aéreo polaco, de um tipo realmente diferente do que temos visto até hoje. Parece-me que é um episódio que vai marcar muito o conflito e como a própria NATO vai evoluir a partir de agora. Eu acho que isto é, de fato, um teste crucial à NATO, no momento em que temos uma nova configuração da aliança, que desde o momento em que a dimensão ideológica foi degradada pela administração Trump e as dúvidas sobre a solidariedade das democracias, que era a verdadeira cola ideológica da aliança, veio obviamente enfraquecer muitíssimo a segurança mútua que fazia parte do ethos desta organização. Aparentemente, a aliança está em um ponto mais funcional. Há realmente um reforço do financiamento, nomeadamente do ponto de vista do financiamento europeu. Mas a degradação ideológica é um momento muito importante para o desenvolvimento da aliança e o facto de a Polônia ter acionado o artigo 4º, que é o mecanismo de consultas para resposta, que é basicamente um grau abaixo do artigo 5º, põe aqui o ônus, muito gravemente, qual será realmente a resposta dos aliados a esta enorme provocação russa. Portanto, sim, estamos num momento grave.

Para quem nos ouve e para quem não compreende estes termos, o que implica, na prática, esse artigo 4º? Já aqui falou que é um mecanismo de consulta, mas a partir deste momento em que é acionado o artigo 4º, o que acontece?

Os órgãos da aliança reúnem-se e decidem de que forma é que irão classificar e de que forma é que irão responder a esta provocação. O artigo 5º é a cláusula de resposta mútua a uma agressão a um dos aliados. Esta é um grau abaixo, no sentido em que não se declara essa agressão, mas vai-se investigar de que forma é que este ato pode ser considerado um ato de agressão ou não, e se for considerado um ato de agressão, de que forma é que se vai responder a esse ato. Portanto, é um teste muito pernicioso à solidariedade entre os aliados e que coloca aqui muitas questões em cima da mesa, obviamente.

Considera que hoje se entrou numa nova fase da guerra ou ainda é muito cedo para se dizer?

Depende um pouco de como a NATO irá responder. Eu acho que tem havido uma escalada nos últimos dias, no sentido que Moscou também reiniciou os seus ataques diretos a Kiev e atingiu mesmo o edifício do governo. Isso já em si também é um agravar das agressões e demonstra uma vontade renovada de decapitar o regime ucraniano. Portanto, estamos perante uma nova fase no sentido da agressão da Rússia. Eu penso que o momento é realmente um momento da Rússia tentar reescrever novamente a narrativa da guerra numa fase em que, desde a Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai em Pequim, a China, de certa maneira, pegou na narrativa da guerra e ganhou um protagonismo que não tinha anteriormente. Se lembrarmos também da Cimeira do Alasca, os Estados Unidos tentaram tomar as rédeas do que seria o futuro da guerra. Portanto, a Rússia está aqui claramente a escalar e a tentar testar a união dos aliados na NATO e também ganhar algum protagonismo neste momento.

Já que mencionou que agora os Estados-membros da NATO terão de deliberar qual é o próximo passo a dar, os Estados Unidos já reagiram pelo embaixador para a NATO, que referiu que os Estados Unidos vão defender qualquer centímetro que seja dos territórios da NATO. Eu perguntava-lhe qual é que lhe parece, nesta altura, o caminho mais acertado e que não leve a uma guerra aberta entre a NATO e a Rússia.

Eu acho que a NATO vai ter que responder de forma bastante firme, no sentido de demonstrar a solidariedade para com a Polónia e, enfim, com todos os outros Estados-fronteira com a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia, obviamente. Portanto, penso que este é o momento em que, em particular os americanos, terão que reiterar o seu compromisso para com o Artigo Quinto e para com a defesa da integridade da segurança no contexto do Atlântico Norte. Penso que é esse o caminho a seguir. É um caminho que pode também, de certa maneira, voltar a tornar mais claro qual é o propósito final da aliança, mas também demonstra que estamos, de facto, numa fase perigosa da guerra, sem dúvida.

E até é um teste à união da aliança, é isso?

Certamente. É esse o ponto principal, penso eu, do que vai ser a resposta da NATO a esta agressão, sem dúvida muito aberta por parte da Rússia ao espaço aéreo polaco ou ao espaço aéreo da aliança. E sem dúvida que se trata de um momento que vai marcar o futuro da aliança.

E parece-lhe possível, plausível, até provável, que esta provocação por parte da Rússia seja também uma maneira de obrigar a NATO a agir, de obrigar a NATO a ir para o terreno?

Duvido que seja esse o propósito, ou seja, a Rússia sabe perfeitamente que do ponto de vista de qualquer ação que venha mobilizar as forças da NATO é uma mobilização muito custosa. Está em cima da mesa, ou esteve em cima da mesa nas últimas semanas, a questão das forças europeias serem estacionadas na Ucrânia depois de um cessar-fogo. Portanto, eu acho que neste contexto, esta provocação é uma provocação que vai trazer problemas a essas conversas e que tornam ainda mais dramática a conversa sobre o futuro da segurança europeia. E penso que é esse o objetivo de Vladimir Putin com este ataque, é de facto tornar ainda mais complicadas as conversas entre os aliados, entre os europeus e os Estados Unidos, no que respeita à segurança europeia, nomeadamente da Polónia, mais em particular.

Entretanto, hoje teve lugar o discurso do Estado da União por parte da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Como é que olhou para este discurso? Já vamos a tudo o que foi dito por von der Leyen em relação ao Médio Oriente, que também é importante, mas aqui em relação à parte da Ucrânia, há, por exemplo, um anúncio de um pacto com drones entre a União Europeia e a Ucrânia. Como é que olhou para esta intervenção de von der Leyen?

É uma intervenção também na linha do que tem sido a sua política europeia, nomeadamente em relação à agenda de defesa, no fundo, tentar coordenar a nível europeu todos os esforços para rearmar a Europa e, neste caso, ainda mais concretamente, no sentido de reforçar o investimento europeu na Ucrânia, em termos das suas capacidades de produzir armamento, e nomeadamente na cada vez mais crucial indústria dos drones. Não só é uma fórmula de apoio econômico e de defesa à Ucrânia, como uma fórmula de integrar, de facto, o mercado europeu em termos de produção de armamento, incluindo, de forma muito central, a Ucrânia.

Nesse discurso do Estado da União, Ursula von der Leyen abordou também a situação no Médio Oriente para anunciar uma série de sanções contra Israel. Parece que o momento nesta altura exige esta resposta mais firme da União Europeia, lembrando, por exemplo, aquele ataque de ontem de Israel no Catar, um ataque sem precedentes. É a altura de uma resposta mais forte e Ursula von der Leyen percebe isso mesmo?

Sem dúvida que este ataque ao Catar, que tem sido um Estado central na mediação do conflito e um Estado aliado ocidental Levantou uma reação diferente das anteriores. É preciso lembrarmos que também o Irão atacou as bases americanas no Qatar. O Qatar tem um lugar central nesta relação entre a Europa, Israel e os Estados Unidos, é um símbolo. E este ataque demonstra que Israel não se coíba nada para tentar destruir até à última célula o Hamas e, de certa maneira, põe outra vez em cima da mesa as relações entre os estados árabes e Israel, e eventualmente põe em perigo os acordos de Abraão. Vamos ver como é que as coisas se desenvolvem. E certamente que Ursula von der Leyen está a reagir a mais esta enorme provocação por parte de Israel, no sentido de destruir as bases do que poderia ser uma relação mais construtiva com a Europa, e põe também os estados árabes em situação complicada. Este anúncio da imposição de sanções contra Israel, também acompanhado da suspensão parcial dos acordos entre a Europa e Israel, é também um momento marcante das relações da União Europeia com Israel e um momento de corte também importante. E eu penso que este contexto, apesar de tudo o que se já passou ser importante para o perceber, este continua a ser um momento também relevante.

E parece-lhe que vai ser bem recebido este pacote de sanções? Lembrando, e como referia, que estamos aqui a falar de uma suspensão parcial de acordos comerciais entre a Europa e Israel.

Exatamente. Isto é já o resultado também de uma negociação entre os estados da União Europeia e obviamente que terá tido um papel importante a posição da Alemanha, que tem sido sempre o estado mais relutante no corte de relações comerciais e de cooperação entre a Europa e Israel. Isto demonstra a gravidade da situação que a guerra em Gaza tem provocado nas relações entre a Alemanha e Israel. E portanto, parece-me que este anúncio de von der Leyen esteve há muito tempo em cima da mesa e penso que este ataque ao Qatar vai, de certa maneira, pôr mais um prego no caixão das relações entre Europa e Israel, e é um momento marcante, sem dúvida.

E por isso mesmo, e usando esse termo marcante, este é um dia marcante para ambas as guerras, ou seja, temos na Europa a violação do espaço aéreo da NATO, temos von der Leyen a cortar relações comerciais, no mínimo parcialmente, com Israel. É um dia importante para ambos os conflitos?

Infelizmente, parece-me que é o caso. Ou seja, isto tem sido uma escalada longa desde o início da guerra da Ucrânia em fevereiro de 2022 e desde o ataque de 7 de outubro de 2023. E portanto, as duas guerras estão, de certa maneira, em paralelo, a demonstrar a quebra da ordem internacional com grande incidência no contexto europeu e do Médio Oriente. E esta é uma evolução claramente negativa nos dois cenários, e que põe a Europa ainda numa posição mais complicada do que tem estado até hoje.

E é com o escalar desses dois conflitos que vão marcando a atualidade que chegamos ao fim deste Gabinete de Guerra. Madalena Mayer Riezeno, muito obrigado por ter estado conosco.

Obrigada.