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Gabinete de Guerra, mais uma edição, desta vez com Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Estamos a duas semanas da guerra na Ucrânia completar quatro anos. Bem-vindo, Jorge Rodrigues. É por aqui que começamos. A pretexto deste quarto aniversário, Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, estará a preparar eleições presidenciais e um referendo a um acordo de paz, é o que está a noticiar o Financial Times. Como sabemos, já devia ter havido eleições na Ucrânia em 2024, mas não aconteceram precisamente por causa da guerra. Podemos assumir que esta mudança de planos de Zelensky é para agradar a Donald Trump?

Boa tarde, Ana. Em boa verdade, naturalmente que há uma pressão dos Estados Unidos bastante forte para ir no sentido de aproximação às exigências russas, e essa era uma das exigências, era um dos motivos invocados por Putin no sentido de identificar as razões pelas quais era necessário continuar com o conflito. Nesse sentido, por um lado, são as exigências, por outro lado, a pressão e tem que dar uma certa resposta a isso. Estão em causa as presidenciais, sim, mas também o referendo para o processo de paz, que Zelensky tem de alguma forma ligado, com perfeita lógica, com as garantias de segurança e com um cessar-fogo com a Rússia. Portanto, depende ainda também dessa disponibilidade do Kremlin de abrandar o tipo de ações que está a desenvolver, nomeadamente aquelas com grande impacto sobre infraestruturas civis, nomeadamente energia, que têm deixado o país numa situação algo complexa a nível de fornecimento de luz e aquecimento à sua população. Só para terminar muito rapidamente, Zelensky não quer anunciar com certeza nesta altura, portanto, será algo que ele tem como ideia dar resposta, sim, mas em boa verdade não vai anunciar ou não quereria anunciar talvez esta situação, de tornar conhecimento. Venha a forçar isso, mas não queria anunciar antes do aniversário do conflito. Alguns passos ainda estão para conseguir alcançar e eu julgo que ele irá manter a informação um pouco do seu lado. Fica por saber o que é que acontecerá se o dito referendo disser não ao acordo de paz nestas condições.

Exato. O que é que a Rússia achará disto tudo, das eleições e do referendo, para validar um eventual acordo de paz e que consequências é que pode ter esse referendo, caso haja esse não que está a referir?

Em boa verdade, eu acho que ainda não foi alcançado o equilíbrio estratégico no terreno. E a partir desse momento, temos vindo a falar muito nisso, mas é determinante. Infelizmente, a geopolítica não procura justiça, procura equilíbrios e quando faz este caminho, passa por vários obstáculos, às vezes alguns imorais, mas passa por cima desses obstáculos. Portanto, ainda não temos uma situação de equilíbrio, ainda há várias áreas que estão em causa e eu julgo que para a Ucrânia, temos duas que são particularmente relevantes. Uma primeira ligada ao território, ao que efetivamente está ocupado e aquele que é reclamado pela Rússia, e outra questão que eu chamaria de soberania, mas que abrange várias dimensões. Uma de segurança, que naturalmente as garantias de segurança, mas também a possibilidade de decidir o seu futuro a nível político. A Ucrânia definitivamente não pretende ser uma Bielorrússia 2.0, como é o objetivo da Rússia, e será sempre por aqui que estarão os maiores problemas.

Sendo que havendo referendo, poderá valer de alguma coisa quando estamos a falar de Donald Trump e de Putin também nesta equação?

O referendo só valerá se for favorável ao acordo de paz. Se não for, voltaremos à mesma situação e continuará a pressão. Repare que para os Estados Unidos, a Europa não é o seu objetivo determinante, tem outras orientações e há aqui uma visão que este território próximo da Rússia poderá servir como uma zona de influência que a Rússia tem direito. E essa visão está perfeitamente lançada em documentos oficiais dos Estados Unidos, não textualmente, mas de certo modo implícito, no que ele vai referindo, deixando ali uma zona cinzenta para o que o Kremlin poderá fazer nestes territórios fronteiros, no sentido de assegurar uma buffer zone para a sua própria segurança nacional.

É também neste contexto que, ao mesmo tempo, temos a Rússia outra vez a falar do cenário de uma eventual guerra com a Europa, sendo que agora a expressão até é mesmo guerra em larga escala. Que impacto é que esta ameaça pode ter agora nos desenvolvimentos do conflito com a Ucrânia?

Essa é realmente uma terminologia que, apesar de nós virmos já sendo habituados a esse tipo de terminologia da parte do Kremlin, a verdade é que Lavrov tem ultimamente utilizado expressões particularmente duras.

Lavrov, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, só para os nossos ouvintes saberem.

Exatamente. Antes eram utilizados outros representantes para estas expressões mais complexas, nomeadamente Medvedev, o antigo presidente, mas agora acaba por ser reais representantes do governo do poder russo. Nesse sentido, tem que ser considerada, mas é uma pressão sobre a Europa, é uma pressão que pretende atingir dois grandes objetivos Um primeiro é evitar a continuidade do apoio, aproveitar algum desgaste da opinião pública e publicada na Europa, porque sabem que realmente é um dos pontos fracos e com isso diminuir o interesse pela questão ucraniana. Segundo, evitar que os europeus venham a colocar tropas no terreno na Ucrânia, porque sempre foi um dos pontos que demonstraram como linha vermelha e que não pretendem, porque consideram que de alguma forma terão tropas NATO perto das suas fronteiras. E depois há sempre aqui uma vertente de maximizar ganhos. No momento em que os Estados Unidos definitivamente coloquem em causa toda a arquitetura de segurança euro-atlântica, e estamos a falar a nível NATO, deixar os comandos de Nápoles e de Norfolk, passando alguma responsabilidade maior para a Europa na defesa do próprio território europeu, algo que não é apenas exclusivo de Donald Trump, isso já vem desde Clinton, diria mesmo Obama também. Há realmente uma evolução na linguagem, mas essa orientação estratégica está lá. Portanto, a Europa, por um lado procura pontos, é conhecida aquela ação do Macron para tentar encontrar-se com Putin, mas por outro lado também pressiona através de calas, dizendo que as negociações não estão a ser sérias por parte da Rússia e em especial com o 20º pacote de sanções, tenta criar essas condições de pressão à qual a Rússia responde acusando a Europa de ser a maior responsável por não haver acordo de paz na Ucrânia. E lá está as tais ameaças de Lavrov para um conflito maior em território europeu. O certo é que definitivamente não há esse equilíbrio e podemos contar com algum tipo de ações, sejam elas cinéticas ou em especial de cariz híbrido na fronteira europeia e portanto, de alguma forma, em território já europeu.

Noutra frente, Jorge Rodrigues, temos Moscovo e Washington aqui com a tensão a aumentar por causa da Gronelândia. O mesmo ministro de que estávamos aqui a falar, Sergei Lavrov, ministro russo, ameaça contramedidas, incluindo militares, num cenário de reforço militar norte-americano na Gronelândia. Tendo em conta a outra frente que está em jogo, que é a guerra na Ucrânia, e agora esta situação na Gronelândia, pode haver aqui mais um problema?

Sim, isto já é comum, é perfeitamente natural que surja, não é desejável, mas é natural quando há aqui movimentação de placas. Repare que tínhamos uma ordem internacional, de alguma forma o sistema internacional liberal foi colocado em causa pelos próprios Estados Unidos e, portanto, as placas reorganizam-se e há vários movimentos. E naturalmente que territórios como a Gronelândia, mas não só, por exemplo, repare os Estados Unidos tiveram em ligação com a Arménia e com o Azerbaijão, através de J.D. Vance, no sentido de desenvolver aquela rota de Trump para a paz. Isto é realmente a fronteira da Rússia. A questão da Gronelândia é o outro caminho, é um desenvolvimento de uma militarização do território, um pouco para dar resposta ao que Donald Trump pretende com ganhos na região a nível securitário, mas que pareceu acalmar com o acordo-quadro que de certo modo lhe dava o modelo do estilo das bases britânicas em Chipre, ou seja, possuir aquele território das bases e isso vai de certo modo em resposta ao que Trump necessitava, mas também o exercício de soberania e segurança do território. Isso foi desenvolvido com a missão Sentinela Ártico, que é maior presença NATO no território, mas também com exercícios NATO, com a projeção de algumas forças para o território, como foi o caso do Arctic Endurance, que foi liderado pela Dinamarca, o exercício NATO, e que naturalmente motivou um pouco de reação do lado da China e uma grande reação por parte da Rússia, em que considera uma ameaça à segurança, mesmo às suas linhas comerciais, à sua projeção de forças no Ártico, e coloca em causa o domínio que de certo modo tinham nesse teatro de operações do Ártico e que, portanto, leva Lavrov realmente a considerar como ameaças e a responder que irão responder com uma escalada de forças na região, tal ameaça ser efetiva para uma zona que consideram de interesse primário. Portanto, nesse sentido, podemos contar com desenvolvimentos nos próximos tempos. Não julgo que serão de uma escalada de elevado nível, mas vamos ter alguma retórica e vamos ter movimentação de forças, com toda a certeza.

Aqui estaremos no Gabinete de Guerra para analisar essa movimentação de forças. Vamos ainda, professor Jorge Rodrigues, à situação no Médio Oriente. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, vai encontrar-se esta tarde na Casa Branca com Donald Trump. O que espera deste encontro?

Isto tem sido um corropio de contactos, de encontros, de telefonemas, e realmente lá está dentro daquela linha que eu falava há pouco, a reorganização das placas a nível global, pois tem uma vertente da reorganização das placas menores a nível regional. No caso concreto, nós tivemos um conflito e que para o melhor e para o pior, a verdade é que Israel teve sucesso militar e de alguma forma conseguiu mudar a conjugação de forças da região, com apoio dos Estados Unidos, é verdade, mas em boa decisão, podemos afirmar que há uma orientação nova na região no plano securitário. No entanto, há aqui questões que Netanyahu se preocupa. Começaria a visita por Rubio e depois com Donald Trump, e julgo que os objectivos passam maioritariamente por três áreas. Uma primeira securitária pura, sentindo que Israel está sob uma ameaça existencial e que, portanto, um acordo de paz que possa ser visto como favorável ao Irão não serve os interesses de Israel. Será neste momento, com certeza, como prioridade.

Até porque, já agora, deixa-me só aqui contextualizar, Israel quer que o Irão concorde não só em limitar o enriquecimento do urânio, mas também em reduzir o programa de mísseis balísticos e acabar com qualquer apoio a milícias na região. São aqui linhas vermelhas muito importantes.

Exatamente, Vanessa. Esses são os três pontos que estão em causa e que os Estados Unidos pretendem pressionar o Irão. É exactamente a ação nuclear, o desenvolvimento do projecto nuclear, os mísseis balísticos e a ligação com os proxies. E exactamente nesses três pontos, o Irão só aceita negociar a questão do programa nuclear, autorizando inclusivamente algum tipo de visitas de controle e inspeção. Mas não aceita os mísseis porque considera que é uma garantia de segurança que tem sobre ataques eventuais por parte de Israel, e os proxies porque é uma influência que tem a nível regional e os proxies persa têm capacidade de reorganização própria e têm o financiamento que ainda está nos bancos do Qatar e da Turquia e que portanto lhes poderá dar uma certa autonomia e capacidade de desenvolver. Portanto, o que está em causa são objectivos maximalistas para Netanyahu, de certo modo a exploração do sucesso, seja a nível securitário, seja a nível territorial, e pretende aproveitar essa ligação pessoal que tem com Trump, inclusivamente com mais o prémio Israel a ser atribuído a Trump no 78º aniversário da independência de Israel, que decorrerá em abril, e pretende influenciar decisivamente Trump para, apesar da pressão que ele tem recebido da Arábia Saudita, dos Emirados, do Qatar, que desaconselham uma ação militar, por causa da instabilidade que poderia decorrer na região, de certo modo procura manter a sua primazia na ligação com Donald Trump. Será esse o grande objectivo.

Trinta segundinhos só ainda para uma referência à Conferência de Munique, que é na sexta-feira. O secretário de Estado norte-americano Marco Rubio vai liderar a delegação americana. Tem expectativa quanto a este encontro?

Mais do que tudo, vejo aqui uma preocupação dos europeus em marcar posição face ao que aconteceu em 2025, em que J.D. Vance foi passar um conjunto de mensagens bastante fortes, eu diria, para evitar outros adjetivos, bastante fortes em relação à situação na Europa. Vejo aqui já através do relatório e de algum tipo de comentários prévios, umas referências à administração Trump e à sua política de demolição, e a tentativa de conseguir autonomia estratégica que a Europa bem precisa, de se tornar um actor geopolítico efectivo, eu julgo que será essa oportunidade. Vai haver aqui um conjunto de foco cruzado, de ideias cruzadas que poderão ser relevantes. No entanto, com Rubio, normalmente apesar de pertencer à administração, tem uma posição sempre mais conciliatória, mas julgo que poderá sair uma mensagem mais simpática para o futuro das relações euro-atlânticas.

E nós cruzamos aqui vários temas neste Gabinete de Guerra. Muito obrigada, professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Até à próxima.

Até breve, Vanessa.