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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, "não se esqueçam da Ucrânia", é o apelo do chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, na reunião de hoje dos 27 Estados-membros. Também o português João Gomes Cravinho pede maior atenção sobre a Ucrânia para evitar que Putin seja vencedor da crise em Gaza. É o que está a ser neste momento, Bruno, Vladimir Putin, e o risco é que venha a ser mesmo também no fim disto tudo?

Eu acho que isto objetivamente convém à Rússia. Tudo o que seja desviar atenções, criar algum caos, tem sido, aliás, a estratégia de Putin. Basta recordar o papel que ele teve na Síria, de apoiar ativamente o regime de Assad até nas piores atrocidades contra a população civil, ataques deliberados e bem documentados a hospitais, uso de armas químicas, etc. Mas eu talvez seja um pouco menos pessimista, ou seja, não sei se neste momento, se todas as atenções estivessem focadas na Ucrânia, se não haveria muito mais pressão, por exemplo, para negociações de paz, quase a qualquer preço com a Rússia. Teremos de ver também qual é o impacto disto, por exemplo, num apoio que é absolutamente vital, que é o dos Estados Unidos. O presidente Biden, com o apoio do líder republicano do Senado, Mitch McConnell, estão a utilizar uma estratégia orçamental legislativa que é muito usada nos Estados Unidos para forçar compromissos e a aprovação de legislação ou de despesa, que é no fundo juntar vários itens que são relativamente controversos, mas que são muito importantes para certos setores e obrigá-los a votar todos. Se quiserem uma coisa, têm que querer as outras e, portanto, no fundo, juntar aqui a ajuda militar à Ucrânia e a Israel. Se essa estratégia tiver sucesso, eu acho que isso pode facilitar as coisas na gestão destes republicanos mais trumpistas num contexto eleitoral em que havia um risco sério de boicotarem o apoio à Ucrânia ou pelo menos criarem aqui muitas dificuldades, adiamentos, etc. Portanto, teremos de ver se é assim. E eu acho que infelizmente isso também é um pouco natural. Havia muito esta ideia e agora voltou a surgir, mas por que não se falava da Palestina e se falava da Ucrânia? Porque era um conflito novo, era um conflito muito ativo, muito intenso, com um grande grau de incerteza. Atualmente, estamos aqui numa certa situação de relativo impasse, em que não há aparentemente grandes novidades no conflito entre a Rússia e a Ucrânia e, portanto, é normal que a atenção se foque mais noutros conflitos. Agora, parece-me importante também que os líderes, nomeadamente os líderes europeus, deixem claro que a Ucrânia continua a ser uma prioridade estratégica, continua a ser fundamental para o futuro da segurança e da paz, até da liberdade na Europa, e, portanto, esse apoio não deve ser posto em causa porque de repente a atenção está mais focada noutros acontecimentos, mas eu acho que isso não é inevitável.

A Letónia sugere bloquear as rotas de Moscovo, isto a propósito de um gasoduto que liga a Estónia e a Finlândia, um gasoduto que sofreu danos há cerca de duas semanas no Mar Báltico. Há uma nova crise dentro daquela que já existe, claro, nesta guerra, uma nova crise a formar-se entre a Rússia e a NATO através destes Estados-membros.

Temos aquela velha história do North Stream. Eu aí deixei claro que não me parecia todo provável que houvesse qualquer envolvimento norte-americano por várias razões, inclusive o próprio presidente Biden tinha arriscado capital político para retirar sanções contra esse gasoduto quando parecia que ele ia estar ativo. Além de que é muito difícil manter um segredo, uma operação secreta nos Estados Unidos. Mas nunca afastei completamente que fosse ou a Rússia, ou a Ucrânia, ou até algum grupo ligado à Ucrânia. Neste caso deste gasoduto, parece-me evidente que o único suspeito, digamos, lógico, será realmente a Rússia. Agora, eu acho que aqui isto também chama a atenção para uma fragilidade geopolítica russa histórica muito importante, que é realmente a Rússia não tem acessos fáceis ao mar. Isso é uma grande limitação. Eles, aliás, estão a tentar criar esse problema também à Ucrânia, bloquear o mais possível os portos ucranianos, mas um país que não tenha realmente acesso desimpedido fácil aos mares, que são as grandes autoestradas de comunicação, de comércio, transporte de bens e também de projeção de poder, tem aqui realmente uma grande limitação. E a Rússia tem esse problema histórico, que tem uma costa enorme, é o maior país do mundo e tem uma costa enorme, mas está toda voltada para o lado errado. Está toda voltada para o Ártico, que é onde não há população nem portos, onde a circulação também é muito difícil, muito perigosa durante grande parte do ano. E a Rússia europeia, que é onde se concentra a maior parte da população e da produção também, basicamente tem duas saídas para o mar durante todo o ano garantidas, que é o Báltico e o Mar Negro, só que são mares praticamente fechados e controlados basicamente por países da NATO. E, portanto, acho que a Estónia fez bem em recordar à Rússia essa realidade e no fundo vir aqui tentar ameaçar com uma retaliação mais séria. Creio que isso não será exatamente assim, ou seja, seria uma escalada realmente importante, no fundo, bloquear, por exemplo, um dos grandes portos da Rússia, o Porto de São Petersburgo, que só tem saída pelo Báltico, claro. Isso seria realmente uma escalada importante, mas acho que é uma forma de sinalizar e tentar dissuadir a Rússia de multiplicar este tipo de ações de sabotagem. Mais uma vez, será o mais provável, não é certo, não temos ainda dados que permitam dizer isso. Mas percebo a posição estónia e também percebo a irritação russa com essa realidade geopolítica e geoestratégica, que é realmente eles estão muito dependentes de mares bastante fechados e que estão controlados, na prática, por países da NATO.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.