Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais. Helena Ferro Gouveia, muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Seja bem-vinda à Rádio Observador. Vamos começar por falar da relação entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, até porque líderes de vários países árabes disseram a Donald Trump que não estão a ter confiança em Benjamin Netanyahu e essas palavras, ao que tudo indica, terão mesmo alguma influência no presidente dos Estados Unidos. A minha pergunta, Helena Ferro Gouveia, é se esta pressão por parte de vários líderes de países árabes pode ou não condicionar a relação entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
Boa tarde, muito obrigada pelo convite. A relação entre líderes ou chefes de Estado é sempre uma relação complexa. Há uma dimensão pessoal, os líderes podem gostar ou simpatizar mais ou menos uns com os outros e depois há a relação que é necessária para prosseguir aqueles que são os interesses nacionais. É complexa a relação entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Benjamin Netanyahu, tanto que os Estados Unidos têm um conjunto de interesses no Médio Oriente que não são necessariamente coincidentes com os interesses, nomeadamente com o interesse de garantir a segurança e a existência de Israel, que é o interesse maior de qualquer chefe de governo israelita. Nós sabemos que os Estados Unidos e já nesta administração de Donald Trump, fez uma série de acordos comerciais com algumas das monarquias do Golfo, e estamos a falar em três trilhões de dólares ou se quisermos, dois bilhões de dólares, para usarmos a terminologia europeia. E entre esses países com os quais foram feitos acordos, está o Qatar. Qatar esse que tem uma relação de inimizade com Israel, que acaba também não apenas por pôr em causa os interesses israelitas, mas também interesses europeus. Veja-se a interferência do Qatar sobre a Volkswagen, de que é acionista, o fundo de investimento catari é acionista da Volkswagen e tem impedido a Volkswagen, que está num processo de reestruturação e que vai despedir 120 mil pessoas, de recondicionar as suas fábricas para fabricar mísseis interceptores para o sistema de defesa antiaérea, o Iron Dome israelita. Estas coisas são complexas. Estes líderes ou alguns destes líderes árabes, certamente que farão pressão junto do presidente norte-americano para que acolha aquelas que são as suas visões, a sua forma de entender o Médio Oriente, que poderá ser ou não diferente daquela de Israel. Verdade é que Benjamin Netanyahu vai se deslocar aos Estados Unidos, irá conversar com o presidente norte-americano e de um lado temos um presidente bastante volátil e temo-lo visto também na Ucrânia, que quando fala com Putin parece seguir uma linha. O New York Times publicava um gráfico muito interessante com os ziguezagues de Donald Trump naquelas que tinham sido as suas afirmações em relação à Ucrânia. Quando falava com Putin tinha um tipo de afirmações, quando falava com Volodymyr Zelenskyy ou os líderes europeus, pareceria ter outros tipos de posições. Donald Trump é volátil e encontra pela frente um líder que, goste-se ou não, e pode-se contestar as políticas de Benjamin Netanyahu, mas é um líder muito experiente, 19 anos como primeiro-ministro, e é um líder que também está a lutar por aquela que é a sua sobrevivência nas eleições agora de 27 de outubro. Pelo que o que vai ser discutido são questões que interessam a ambos os presidentes, porque é verdade, quando nós olhamos para aquilo que é a factualidade, aquilo que é a realpolitik, o único aliado que Donald Trump tem no Médio Oriente, com capacidade efetiva de ação, é Israel. E foi Israel que esteve ao lado dos Estados Unidos nesta guerra contra o Irão e tem sido Israel que tem defendido os interesses nacionais norte-americanos, e este tem sido o entendimento da política norte-americana ao longo de décadas e décadas. Tem sido Israel. À par daquela que é a relação que poderá ser mais ou menos tensa, e nos últimos tempos tem sido bastante tensa entre estes dois homens, há sempre esta questão dos interesses dos países que se sobrepõem aos interesses pessoais de qualquer um destes líderes. Donald Trump, que também está pressionado pelas suas midterms em novembro, tem as eleições a 27 de outubro e depois teremos as midterms em novembro. Há aqui, naquilo que diz respeito aos fatores internos, semelhanças entre os desafios que enfrentam esses dois líderes.
Helena Ferro Gouveia, vamos avançar, falar também aqui um pouco da situação no Irão, no Médio Oriente, em relação à forma como reagem aos ataques, porque os Estados Unidos levaram a cabo uma nova vaga de ataques contra o Irão. Durou perto de duas horas. A minha primeira pergunta é: até quando é que podemos esperar cenários deste gênero, de vagas de ataques contra o Irão, sobretudo depois da informação que surge como notícia hoje, que é, apesar dos ataques, o Irão não deve regressar à mesa das negociações. É uma garantia do porta-voz do Ministério Iraniano dos Negócios Estrangeiros. Se o Irão não rever esta posição, o que é que podemos esperar? Até onde é que pode arrastar este conflito?
Hoje, amanhã poderá ser diferente, mas hoje, no momento em que fazemos esta análise, nós assistimos a um braço de ferro entre os norte-americanos e o Irão. Os Estados Unidos querem a abertura do estreito e querem que não haja um condicionamento por parte dos iranianos do estreito, nem que haja um portagem, apesar das declarações feitas ontem de aplicação de um reimbursement fee De 20% por parte dos Estados Unidos, que depois recuaram e conseguiram trocá-lo, se quisermos, ou negociá-lo em termos de acordos comerciais com os países do Golfo. Mas há aqui, por um lado, a posição americana de querer abrir o estreito e com isso atacar aqueles meios ou aquelas capacidades iranianas que permitem bloquear o estreito, nomeadamente os drones, as instalações militares onde estão drones, as instalações da marinha iraniana, tudo aquilo que são sistemas de radares, tudo aquilo que são capacidades que permitam atacar no estreito ou pelo menos exercer a ameaça de ataque sobre o estreito. E do lado iraniano, temos precisamente também esta resposta com ataques a navios que circulam ou que circulavam, mesmo que não fosse no seu corredor ou nas suas águas territoriais, e uma tentativa de, por via das palavras, por via da retórica, de tentar não ceder aos Estados Unidos. A questão vai ser quem consegue aguentar mais tempo este impasse. Donald Trump pode vir a ser bem-sucedido se tiver aqui constância, que é uma característica que não parece ser muito deste presidente, mas se tiver aqui constância com o seu bloqueio ao bloqueio e com estas ações militares cirúrgicas contra as capacidades militares iranianas, poderá levar o Irão a ceder. A verdade é que nós não sabemos com quem é que se está a negociar e quem é que detém o poder no Irão, porque há uma linha ainda mais dura, ainda mais radical, a linha da Guarda Revolucionária, que não quer nenhum tipo de acordo com os Estados Unidos e que está convicta, mesmo causando isto muito sofrimento ao povo iraniano e muito sofrimento ao Irão, porque eles também não se preocupam rigorosamente nada com o sofrimento que estão a causar à economia mundial. Isso não é uma preocupação de Teerão. Mas esta ala mais radical está convicta que os Estados Unidos irão ceder, o que lhes permitiria infligir aquilo que seria uma vitória estratégica aos Estados Unidos e permitiria, e é isto que está em causa neste conflito, uma reorganização da ordem regional, onde o Irão, fator de disrupção, conseguiria quebrar aquela ideia e aquela percepção que os Estados Unidos era o garante de segurança, por exemplo, das monarquias do Golfo, e era em troca dessa segurança que os Estados Unidos têm bases na Jordânia, no Kuwait, no Bahrain e em todos aqueles países da região. Está muito mais em causa. Nós temos falado muito do Estreito de Ormuz e se quisermos, é a face mais visível deste conflito. Mas o que está aqui em causa é, se quisermos, uma reorganização regional e quem são os atores regionais que irão sair vencedores desta reorganização, se é o Irão, se é a Turquia, com um conjunto de aliados, se se mantém a posição hegemônica ou dominante de Israel, como é que se vai dar ou não prosseguimento aos acordos de Abraham, que foram negociados na anterior administração Trump e que estavam em andamento e foram interrompidos pelo 7 de outubro. É preciso perceber que isto não começou agora, porque um dos objetivos do 7 de outubro foi precisamente travar a normalização de relações entre a Arábia Saudita e Israel, à qual o Irão se opunha. Quem conseguir sair vencedor desta contenda vai ser uma força dominante no Médio Oriente, na reorganização regional, mas também depois há aqui um outro eixo, que nós já falámos a propósito da Ucrânia, que é o eixo do caos contra aquilo que é a ordem liberal liderada pelos Estados Unidos. E este eixo do caos é formado por quem? É formado pela Rússia, que tem ajudado como pode o Irão, é formado pela China, que tem dado intelligence ao Irão e tem também participado neste conflito. É formado pelo Irão, a China, temos aqui a Rússia, depois temos aqui a Coreia do Norte. E são estes dois eixos que neste momento, no panorama global, quando nós olhamos para o que se está a passar na ordem internacional como um todo, nós vemos aqui um confronto de eixos.
Helena Ferro Gouveia, temos ainda tempo para mais uma questão, cerca de um minuto e meio, para abordarmos a questão do Estreito de Ormuz. Já disse Helena Ferro Gouveia que era a face mais visível, digamos assim, deste conflito. A verdade é que há aqui uma diferença em termos narrativos. Os Estados Unidos asseguram que é seguro passar no Estreito de Ormuz, o Irão assegura que o estreito não está aberto, que está encerrado. Há alguns navios que estão a evitar navegar nas rotas definidas pelos Estados Unidos. Isto é sinal de que os navios seguem com mais atenção o que diz o Irão? Temos um minuto e meio.
Na guerra de narrativas, parece-me que o Irão está a ser mais bem-sucedido que os Estados Unidos, porque basta a ameaça de lançar um drone, seja um drone marítimo, seja um drone aéreo, e provocar dano no navio que leva os armadores ou leva os donos dos navios a pensar duas vezes antes de fazerem circular o navio. E depois, esta ameaça tem feito com que as seguradoras e as resseguradoras do comércio mundial tenham aumentado, e muito, os seus preços. Numa guerra há sempre, além das dimensões cinéticas, mar, ar, terra e espaço, a dimensão comunicacional é uma dimensão fundamental. E nisto os Estados Unidos descuraram esta dimensão e os regimes autoritários têm sempre maior facilidade em fazer valer esta dimensão e muitas vezes, e eu calo-me já, muitas vezes auxiliados por um conjunto de pessoas que também no Ocidente e que têm uma postura antiamericana, antiocidental e muito crítica em relação quer aos Estados Unidos, quer a Israel, que veiculam, de forma consciente ou inconsciente, esta narrativa contra aquilo que são os nossos interesses e interesses das sociedades liberais.
Muito obrigado, Helena Ferro Gouveia. O nosso tempo chegou ao fim. Agradeço-lhe a análise a estas questões geopolíticas mundiais com muito foco na questão do Médio Oriente. O "Gabinete de Guerra" fica por aqui. Está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.