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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. Hoje a análise é do Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.

Olá, Maria João, bom dia.

Olá, Miguel. Começamos pelos Estados Unidos e pelo Wall Street Journal, que diz que Trump pondera declarar vitória sobre o Irão e esquecer o nuclear. Washington está prestes a aceitar um acordo mínimo só para estancar a crise petrolífera antes que ela arruíne a economia americana, Miguel. As intercalares de novembro já começam a assombrar a Casa Branca.

Essa é uma questão que tem, efetivamente, peso naquilo que é o entendimento por parte da administração americana do que está a passar-se no terreno. Repare-se que as narrativas foram sendo alteradas durante muito tempo. Houve tentativas de Donald Trump de utilizar o bullying militar, vamos lhe chamar assim, para forçar a mão do Irão a aceitar o acordo. Chegamos a ter um acordo, que era o memorando de entendimento. O memorando de entendimento não era efetivamente bom para os Estados Unidos, porque permitia uma leitura ao Irão até muito favorável. E depois acabou por cair, porque efetivamente o presidente dos Estados Unidos e a sua administração também se aperceberam que o próprio memorando de entendimento, da forma como estava, não garantia realmente uma real vitória aos Estados Unidos e permitia quase o protelar por parte do Irão de variadíssimos pontos, nomeadamente a questão da abertura do Estreito de Ormuz. Estreito de Ormuz, cabe lembrar que a 27 de fevereiro deste ano estava aberto, havia tranquilidade no Estreito, não havia por parte do Irão uma ideia de fechar o Estreito, nem de controlar o Estreito, nem de criar novas rotas. E, portanto, quando olhamos para esse pensamento dos Estados Unidos de que o melhor é chegar a um acordo mínimo e sair, fica aqui alguma questão, que é primeiro: qual é que é o acordo mínimo? Porque o que nos foi dito era que efetivamente a questão nuclear era premente e que sem um acordo nuclear, que fosse muito melhor que o acordo de Obama. Vamos nos lembrar que é o próprio Donald Trump que esquece e acaba por sair do acordo do Obama em 2015 e, portanto, deixamos de ter um acordo sobre a questão do nuclear, ou efetivamente vai ser só um acordo sobre o Estreito de Ormuz para que não haja a utilização do Estreito de Ormuz como garrote financeiro à economia mundial. O problema é que, seja o que for, há aqui um entendimento que me parece que é óbvio. Há quem não queira aceitar e tente fazer uma leitura mais benéfica e positiva, mas não é possível, que é: há aqui uma derrota a todos os níveis dos Estados Unidos. Obviamente que o poderio militar foi superior até uma certa altura, e se houvesse necessidade de fazer, se calhar, uma intervenção muito mais musculada, os Estados Unidos têm essa capacidade.

Essa capacidade, sim.

Exato, Maria João, mas seria sempre muito complicado chamar de boots on the ground e, portanto, teria sempre grandes baixas para os Estados Unidos e não há garantias de que isso também garantisse uma vitória de imediato. Agora, a superioridade militar não se reverteu numa vitória política e neste momento o próprio Médio Oriente mudou e geopoliticamente está mudado. Veja-se o acordo para a questão Arábia Saudita-Turquia, veja-se aquilo que é a negociação Irão com Oman sobre a questão do Estreito e veja-se o que é também Israel a dizer que não sobre a questão do Hamas e o acordo para Gaza. Portanto, os Estados Unidos perdem a influência política, perdem de alguma forma a influência militar, porque vemos esses três países a juntarem-se, possivelmente naquilo que poderá ser uma, vamos dizer para as pessoas lá em casa entenderem, uma espécie de NATO. E acima de tudo, o presidente norte-americano não consegue ter vitória absolutamente nenhuma, porque a questão é a seguinte: que tipo de acordo e sobre o que querem os Estados Unidos utilizar que lhes permita sair com a cabeça levantada e irem dizer que conseguiram uma vitória e vamos seguir em frente? Não há. JD Vance disse o outro dia, já se entendeu que esse é o entendimento da Casa Branca, que é, permita-me a expressão, Maria João, chutar a bola pra frente. Quando JD Vance veio dizer: "Não, a questão do nuclear está resolvida, porque aquilo está tudo destruído, foi tudo destruído, está tudo soterrado sob as areias do deserto e, portanto, não há mais que falar desse assunto". Ou seja, utilizando isso, que até há umas semanas atrás não era, porque até há umas semanas atrás dizia-se: "Não podem ter arma nuclear, não podem ter programa nuclear", mas agora já está soterrado sob as areias do deserto. Ou seja, existe uma necessidade premente de sair deste conflito. A administração americana não sabe como e, portanto, tenta encontrar um subterfúgio que lhe permita sair de forma airosa, mas não vai sair de forma airosa e sairá sempre.

Com consequências.

Para quem analisa isso de forma honesta e muito claramente, sairá sempre com esta derrota pesada. E acima de tudo, os Estados Unidos provocaram uma coisa que me parece que o Ocidente vai demorar muito tempo a esquecer e se calhar até a perdoar aos Estados Unidos, que é o facto de que os Estados Unidos criaram esta alteração geopolítica do Médio Oriente e também a questão do Estreito de Ormuz.

Miguel, temos também de falar da Ucrânia. Nas últimas horas, Zaporizhzhia sofreu novos ataques russos, há pelo menos seis mortos. Também Kiev voltou a ser atingida por mísseis balísticos. Estes ataques sucessivos mostram que a Rússia descobriu o ponto fraco das defesas ucranianas e está a aproveitar ao máximo. O que pode Kiev fazer a não ser retaliar, como tem tentado fazer?

Olha, vamos fazer aqui um gancho entre o Médio Oriente e a Ucrânia e vamos mostrar como a irresponsabilidade norte-americana Ao entrar num conflito, muito também por razão de Israel, e porque Israel, de alguma forma, concebeu a ideia de que seria uma vitória muito facilmente. E depois os Estados Unidos utilizaram uma quantidade de munições e utilizaram uma quantidade de interceptores, que são os chamados Patriots.

Que agora não existem para enviar para a Ucrânia, não é?

Exatamente. E que foram utilizados de forma maciça, de forma até inconsciente, eu diria, muitas das vezes, porque não se aperceberam daquilo que era a guerra que efetivamente o Irão estava a fazer, que curiosamente é muito parecida àquela guerra que a Rússia está a fazer, que é a utilização dos drones juntamente com os mísseis e com os mísseis balísticos. E, portanto, os interceptores vão sendo utilizados muitas vezes para drones, ou poderiam os drones efetivamente serem atingidos de uma outra forma. Ao mesmo tempo que há outros mísseis que são utilizados e que também são interceptados, e depois os mísseis balísticos vão passando por entre os pingos da chuva, porque ou não são atingidos porque os interceptores estão a atingir outros dispositivos militares, ou então porque, entretanto, como acontece hoje na Ucrânia, não existem mais. E como não existem mais, se 50 forem disparados, 50 vão atingir a Ucrânia. Agora, nós estamos numa fase diferente da guerra. Nós estamos numa fase muito diferente daquilo que nós estávamos há uns tempos atrás. Nós temos a Ucrânia que deixou de se preocupar com a guerra de atrição, aquela guerra na linha da frente.

É como se estivesse congelada aquela linha da frente.

Mas ela não está congelada.

Pois não!

Neste momento, o que acontece é o seguinte: a Rússia está a ganhar terreno todos os dias e várias conquistas, e está muito próxima de poder quebrar a barreira daquelas cidades fortaleza. Quebrando a barreira das cidades fortaleza e conquistando, por exemplo, a totalidade do Donbass e uma dessas cidades fortaleza caindo, temos aqui um grande problema, é que depois tudo à frente é campo, ou seja, é de muito fácil conquista, porque não há ali nada que segure. E, portanto, a Rússia, neste momento, apercebeu-se que existe esta fragilidade brutal, está a utilizar e vai continuar a utilizar os mísseis balísticos. Depois houve quem defendesse que efetivamente a Rússia não teria capacidade militar para continuar esta ofensiva com os mísseis balísticos durante muito tempo, porque não teria mísseis suficientes. Mas cabe lembrar que quer o Irão, quer a Coreia do Norte são produtores e desenvolveram mísseis balísticos e continuam a vendê-los à Rússia, diferentemente, neste momento, da Ucrânia, que não pode contar com a Europa, porque a indústria militar da Europa está deveras atrasada e os Estados Unidos, neste momento, não garantem mais capacidade militar à Ucrânia, porque também têm que garantir a sua própria segurança. Portanto, entramos numa nova fase da guerra, uma fase em que a Rússia vai acelerar a questão do conflito. A Rússia não quer negociar e, neste momento, numa leitura muito clara, a Rússia não tem o porquê negociar, porque está numa nova fase da guerra. E esta ideia peregrina de que há algumas pessoas que comentam, defendem que: "Andamos há cinco anos a dizer que a Rússia ia chegar a Kiev, mas ainda não chegou". Isso aí é, digamos assim, para efeito de discurso e de um certo fait divers nas palavras, é interessante, mas a realidade do terreno é completamente diferente. E a realidade do terreno é a seguinte, que é: em termos de tecnologia militar, nomeadamente a questão dos drones e tudo isso, a Rússia evoluiu bastante, mas é verdade que hoje no terreno, o que acontece é que a Rússia todos os dias ganha terreno, está a forçar muito e tem uma concentração militar nessas cidades fortaleza que está a ter dificuldade de segurar e está a fazer esta guerra com os mísseis balísticos. Também é certo que está a acontecer uma guerra de profundidade por parte da Ucrânia na Rússia, mas a Ucrânia neste momento tem menos capacidade de se defender.

Está muito mais fragilizada, claro.

Exatamente. E essa fragilidade também política interna, depois do que aconteceu com o ministro da Defesa, dá a ideia e passa a ideia para o próprio povo ucraniano, não só da fadiga da guerra, do cansaço, mas de um certo desequilíbrio do próprio governo, neste momento, em como solucionar esta questão, em que temos mais cerca de um mês e pouco de verão e depois vamos entrar no inverno e o inverno vai ser rigoroso e vamos ter a questão também da energia que vai ser utilizada pelos russos.

Como alvo.

Exatamente, como alvo da Rússia e uma moeda de troca.

Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise. Boa semana, Miguel.

Não, obrigado pela oportunidade.

Obrigada, bom dia.

Obrigado, beijão. Um beijinho.