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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, o secretário da Defesa dos Estados Unidos chegou hoje a Kiev numa visita surpresa. Como é que interpretas o timing e este efeito surpresa?
Acho que é um sinal público claro de que os Estados Unidos estão determinados a continuar a apoiar a Ucrânia. Qual é que é o grande problema? Não é um problema imediato, ou seja, continua a haver dinheiro, continua a haver armas americanas a ser fornecidas à Ucrânia, mas há realmente um problema que é: ninguém duvida que Lloyd Austin, o ministro da Defesa, que o presidente Biden, que é o seu chefe máximo, estão determinados a continuar esse apoio. O que todos nós também sabemos é que, infelizmente, há muitos republicanos, uma facção importante do Partido Republicano, liderada por Trump, que é hostil a essa ajuda. E sabemos também que as eleições americanas são já no próximo ano, são daqui a um ano, basicamente, em novembro de 2024, e podem resultar numa alteração de política. E para já, sabemos também que mesmo sem isso acontecer no Congresso, o peso crescente do trumpismo no Partido Republicano e em cargos de direção do Partido Republicano no Congresso, por exemplo, o novo speaker, o novo presidente da Câmara Baixa, já se traduz em dificuldades crescentes em aprovar essa ajuda. Esse é que é o grande drama. Eu acho que é uma tentativa, no fundo, de sinalizar que apesar disso, esse apoio continua, que há aqui uma determinação de que ele continua, mas infelizmente, as dificuldades estruturais de base estão lá e têm, sobretudo, a ver com essas dinâmicas da política interna americana.
Bruno, de hoje temos ainda um aviso do Kremlin. As sanções da União Europeia aos diamantes russos tendem a ter um efeito bumerangue. Em que medida é que isto acontece?
Eu acho que em relação aos diamantes, o que é escandaloso é que tenha demorado tanto tempo. Eu sei que a indústria do diamante belga aparentemente tem um grande peso, um grande lobby, mas acho que é extraordinário que se tenha pedido grandes sacrifícios aos europeus, por exemplo, em termos do preço dos combustíveis, à indústria alemã, em termos até da sua viabilidade económica, e que este setor tenha sido excluído até tão tarde. Portanto, sim, é verdade, as sanções às vezes têm um efeito bumerangue, ou seja, por muito que impactem negativamente a Rússia, também têm algum impacto negativo em certos setores na Europa. E é preciso gerir bem esses equilíbrios. Agora, imagino, espero bem que toda esta demora tenha a ver exatamente com isso, com ter-se preparado para não destruir completamente este setor, também não é algo que eu deseje, apesar de ser uma indústria de luxo e parecer-me longe de tão vital como outros setores, que foram realmente afetados pelas sanções. Portanto, acho que é possível que sim, mas não vejo que isso seja muito relevante ou que seja um grande argumento para estas sanções não avançarem, eu diria até já um pouco tarde.
O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, tem amanhã um encontro em Moscovo para discutir a situação em Gaza com os ministros das Relações Exteriores de membros da Liga Árabe, também da Organização de Cooperação Islâmica. Que interesses é que estão aqui em jogo?
Isto é uma forma da Rússia procurar seguir a linha da China e que é afirmar-se mais uma vez, tentar competir, não consegue, mas tentar competir como a grande potência que ajuda o sul global. Eu diria, ajuda, sobretudo, em termos militares, que é o que a Rússia tem para oferecer, mas cada vez mais limitada pelos enormes esforços de guerra na Ucrânia. Sabemos até que tem estado a pedir a alguns dos seus aliados históricos para lhe enviarem equipamento que ela lhe enviou, pelo menos partes, pelo menos material de manutenção para ajudar no esforço de guerra, mesmo que não seja o equipamento militar completo, porque isso seria convidar a um choque com os Estados Unidos. Mas é um pouco essa a linha. Teremos de ver exatamente que países é que vão, porque a referência das agências noticiosas russas dá a entender que é como se fosse uma reunião de toda a Liga Árabe, toda a Organização da Conferência Islâmica com a Rússia. Portanto, mais uma vez, uma forma de mostrar que a Rússia não está isolada, que é uma grande potência, que é todo o mundo islâmico, todo o mundo árabe que vai a Moscovo falar com a Rússia. Creio que teremos razões para duvidar que seja exatamente assim, que seja uma delegação muito numerosa, mas vamos ver se é ou não. Em todo caso, tem sobretudo este significado, que é dar algum apoio político, algum apoio diplomático, utilizar o conflito em Gaza para distrair do conflito na Ucrânia e para tentar captar alguma simpatia, algum apoio nestes países árabes e islâmicos para a Rússia.
Bruno, deixa-me acrescentar só aqui mais um ponto, um pouco lateral à guerra, mas é uma reação da Rússia às eleições na Argentina. Diz a Rússia que respeita a escolha do povo argentino, que deu a vitória a Javier Milei, na segunda volta das presidenciais. Como é que olhas para estes resultados eleitorais na Argentina?
São a confirmação de uma tendência na América Latina, que é: não há, de facto, uma onda rosa, não há uma onda de esquerda ou de direita. O que há é, genericamente, algo que torna estas eleições, em certo sentido, parte do padrão, mas que significa que quem está no poder, seja de esquerda ou direita, é punido e, portanto, tende a vir uma alternativa exatamente em sentido oposto. Neste caso, tínhamos o peronismo, um populismo de esquerda no poder, vem um populismo de direita, libertária, liberal, mas sobretudo libertária, anarcocapitalista, como o próprio Milei diz. É alguém que defendeu publicamente colocar uma bomba no Banco Central argentino. Eu percebo que a inflação está quase nos 200%, está nos 140%, pode chegar aos 200%, portanto que isso possa ser popular, mas realmente não parece muito viável como uma política de governação. Em termos de impacto externo, Milei comprometeu-se a não entrar nos BRICS+, portanto, veremos se ele concretiza essa promessa. Ameaçou basicamente não falar com o Brasil de Lula, com a China, porque são comunistas. Ora, em termos económicos, são os dois grandes mercados da Argentina, portanto, ele depois já veio corrigir um pouco o tiro e dizer: "Eu posso não falar, mas os empresários, os diplomatas podem falar". E aposta muito, aparentemente, num alinhamento com o Ocidente, com os Estados Unidos, com Israel, inclusive. Certamente, nesse contexto, a Rússia não será um parceiro preferencial. O grande problema dele é que neste momento no poder nos Estados Unidos está Biden e não Donald Trump, que lhe deu os parabéns publicamente e que é um pouco uma referência também para Milei.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.