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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Olá, Francisco, bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
Começamos pelos Estados Unidos, que terão informado os aliados no Médio Oriente que parece não haver outra alternativa senão desencadear uma operação terrestre para tomar a ilha de Kharg. Francisco, estamos a falar de uma ilha essencial para o Irão por ser o principal ponto através do qual exporta 90% do petróleo para a China.
Pois, estávamos a ouvir agora notícias do preço dos combustíveis. Portanto, os portugueses que se preparem, porque vamos ter mais notícias destas nas próximas semanas, porque havia a esperança que esta intervenção militar terminasse muito em breve. Donald Trump anda a dizer isto há duas semanas, mas agora, aparentemente, vai avançar para operações militares com tropas no terreno, designadamente esta, a ilha de Kharg. Agora, eu acho que o aspecto mais interessante desta ilha resulta de uma outra circunstância, que tem a ver com o fato de Donald Trump andar a falar nisto desde os anos 80. E isto é que é extraordinário. Há entrevistas dele no final dos anos 80, a propósito da guerra no Iraque. Donald Trump é um homem profundamente ignorante, mas ele vivenciou alguns acontecimentos históricos e no seu período formativo foi a questão da crise dos reféns. Ele, na altura, já tinha uma presença pública e disse: "Se eu mandasse, se fizesse alguma coisa, eu tomava esta ilha ali no Golfo Pérsico. Por quê? Porque é chave para o petróleo iraniano". E nós vimos o que ele fez na Venezuela, a questão do petróleo, e aqui é a mesma coisa. Ele acha que asfixiando o Irão, e 90% do petróleo sai por essa ilha, isso será suficiente para o Irão capitular, que também foi uma expressão que ele utilizou a certa altura neste conflito, abrirá o estreito. Ele acha que isto é a chave para conseguir ganhar.
Mas as reações do Irão mostram o contrário, não é?
Mas as reações do Irão mostram o contrário, ou pelo menos que não vai capitular a curto prazo e poderá estender isto durante mais algumas semanas, quem sabe meses, para mal das nossas carteiras. E nós, portugueses, não temos nada a ver com este conflito que ocorre entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. E por que o Irão não fará isto? Em primeiro lugar, porque o Irão tem uma costa, basta olhar para o mapa, de centenas, se não milhares de quilômetros, e tem outros terminais de onde pode exportar petróleo. Portanto, a circunstância de tomarem a ilha de Kharg não significa que eles fiquem completamente sem acesso ao petróleo. E, por outro lado, eles já disseram que vão começar a portajar o estreito hormoz, que é completamente ilícito, viola o direito internacional, é um estreito, não é um canal, portanto, não pode ser portajado, mas já disseram que iam fazer isto. Qualquer navio que quiser passar ali vai ter que começar a pagar uma taxa ao Irão. E para além da questão de saber se esta operação militar não trará também consequências para as próprias tropas americanas, porque obviamente é muito mais arriscado enviar forças navais, como Marines, que já devem estar no Médio Oriente, do que propriamente estar a bombardear por via aérea. Eu vi um dado que achei interessante, os Estados Unidos retiraram mais de 90% dos seus militares daquela zona. Por isso é que também não têm tido muitas baixas. O Irão está a atacar as bases, mas as bases já têm pouca gente, porque os Estados Unidos já retiraram. Agora, se vão fazer operações militares, seja na ilha de Kharg, seja no estreito, seja inclusivamente, podia ser um outro aspecto que eu acho que era importante, e assim mais importante, que seria, no fundo, extrair o material nuclear que o Irão já tem enriquecido a 60%, podem fazer 11 bombas. Também seria uma operação militar muito complexa. Aparentemente, é para aí que Donald Trump quer caminhar, porque ele percebeu uma coisa, que foi simplesmente se declarasse vitória neste momento, ninguém ia levá-lo a sério.
Não tinha como justificar. Quais seriam os ganhos disso?
Os ganhos foi substituir um Khamenei por outro Khamenei com menos 30 anos. E ainda mais radical. É evidente que estes ataques foram bem-sucedidos. O Irão, neste momento, não é uma ameaça tão grande a Israel, não propriamente aos Estados Unidos, porque eles não têm mísseis capazes de atingir os Estados Unidos.
O Francisco vê alguma saída airosa para Trump deste conflito?
Quer saber, ele transforma qualquer tipo de coisa que faz numa grande vitória, numa das maiores vitórias de todos os tempos. E é verdade, com a sua base de apoio MAGA, enfim, nada mudou, eles acham-no um gênio. Mas o problema é que os próprios republicanos estão a ficar muitíssimo preocupados, porque não é só em Portugal que os preços dos combustíveis estão a subir, nos Estados Unidos também, muito menos do que cá, porque eles são, neste momento, um petroestado, mas ainda assim, com eleições em novembro, há muita pressão para que isto termine rapidamente, porque a questão do custo de vida nos Estados Unidos já levou à eleição do próprio Trump, que entretanto é eleito com base numa promessa não apenas de estancar a inflação, mas de criar deflação, portanto, baixar os preços. E obviamente, este tipo de intervenções não ajudam. Agora, claramente, ele acha que isto não chega, porque estávamos a discutir há bocado a questão da tomada da ilha de Kharg, isto já vai naquela ideia de ficar com acesso ao petróleo iraniano. Mas a ilha de Kharg, voltando atrás, o petróleo sai dali, mas o petróleo não vem dali. Portanto, ficar com a ilha, fica-se apenas com uma ilha que praticamente não traz grande impacto na exportação de petróleo iraniano, mas aparentemente é para aí que caminhamos e, portanto, vamos continuar com esta guerra, aparentemente.
Francisco, pode haver da parte de Trump uma intenção real de prejudicar a Europa com uma crise econômica ou não tem inteligência para isso? Pelo menos levantou as sanções ao petróleo da Rússia, é que os Estados Unidos são autossuficientes, o maior exportador de gás.
Não, o problema dos Estados Unidos com a Europa tinha a ver com a questão da Gronelândia e com a questão da Rússia. Claro que o Putin estima-se, neste momento, a receber mais de 150 milhões de euros por dia para financiar a sua guerra. Mas Trump estava genuinamente interessado em que a guerra na Europa terminasse, e terminasse de qualquer forma, porque ele queria fazer negócios com a Rússia. Nós não fomos tidos nem achados neste conflito. Aliás, fomos a certa altura, porque pediram a nossa ajuda para libertar os sequestrados, porque os Estados Unidos não têm capacidade nem forças navais suficientes naquela zona para escoltar navios. Mas rapidamente os europeus disseram que isto não é a nossa guerra, a nossa guerra é a guerra na Europa e evidentemente não vamos arriscar a vida dos nossos soldados e militares num conflito.
Mas a Europa tem condições para continuar à margem deste conflito?
Não temos alternativa, porque a ideia de irmos escoltar navios numa zona de guerra é absurda, porque o preço das escoltas é superior à carga dos navios, na maior parte dos casos. Portanto, obviamente não nos vamos meter numa intervenção militar que tem imensos riscos e não é a nossa prioridade neste momento. O Irão não é uma ameaça iminente para a Europa, tal como não era uma ameaça iminente para os Estados Unidos e para Israel. É uma ameaça em geral, como há muitos regimes no mundo que são ameaças, como o Talibãs ou a Coreia do Norte, etc. Também não vamos intervir aí. Portanto, esta era uma guerra de Israel que conseguiu convencer o presidente americano a intervir. Eu percebo a posição de Israel. Aliás, basta ver os estudos da opinião da população judaica de Israel, mais de 90% apoia esta intervenção militar, porque eles percecionam o Irão como uma ameaça ao Estado de Israel. Mas a partir do momento em que Donald Trump se meteu nisto, meteu-se verdadeiramente num atulho, como já se percebeu, do qual é muito difícil sair. Agora nós, europeus, jamais nos vamos colocar nesta situação. Além disso, eu não quero que a sua pergunta esteja a ser feita contra a Europa, mas vimos Netanyahu neste fim de semana a apoiar a campanha eleitoral de Viktor Orbán, vimos Trump também fazê-lo. Quem é Orbán neste momento? É um inimigo dos Estados europeus, um cavalo de Troia russo dentro da União Europeia, e é com esta pessoa que aparentemente eles querem trabalhar, tanto Netanyahu como Trump. Isto é a explicação pela qual nós não queremos ter nada a ver com esta intervenção militar destes dois narcisistas corruptos que foram apoiar outro narcisista corrupto aqui no centro da Europa.
Entretanto, os Emirados Árabes Unidos passaram a considerar o Irão como a principal ameaça à segurança do Golfo Pérsico, defendem também o reforço das defesas nacionais e dizem que vão fortalecer as parcerias de segurança com os Estados Unidos para enfrentar o novo cenário regional. Isto pode significar que já não estarão a fazer pressão sobre Trump para que acabe com este conflito?
Eles estão numa situação muito difícil, porque, por um lado, querem que os americanos substituam o regime iraniano. Isto era o ideal para eles, para terem uma situação de paz, porque verdadeiramente os Emiratos, e também a Arábia Saudita, estão numa situação muitíssimo complicada. Trump ameaçou que iria destruir as centrais elétricas iranianas. Isso seria um crime de guerra. E a resposta do Irão foi: se fizer isto, nós vamos atacar as centrais de Tiran e Sirban, o setor petrolífero de Kai, dos Emiratos. Não os Estados Unidos, não atacar Israel, nós vamos destruir tudo nos Emiratos e na Arábia Saudita e no Qatar e no Bahrain. E, portanto, quem tem mais a perder com este conflito são estes países que estão ali ao lado, completamente à mercê dos mísseis iranianos. E o Irão já está parcialmente destruído, está a receber bombardeamentos há três semanas e portanto, temos esta guerra muito assimétrica, onde de facto os Emiratos têm tudo a perder e só teriam a ganhar com uma substituição do regime iraniano que eles não conseguem controlar e que aparentemente não está prestes a acontecer, porque essa era a expectativa dos americanos e dos israelitas. Aliás, o Trump diz no primeiro dia: "Vamos lançar aqui umas bombas e depois a população iraniana tomará o poder". É difícil isso acontecer. Um, porque não tem armas e dois, porque está a ser bombardeada. E, portanto, há aqui um ponto de interrogação enorme e esta operação militar foi lançada com base neste pressuposto que não se está a concretizar.
Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada por mais um Gabinete de Guerra. Boa semana.
Obrigado.